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O Herói Dos Esquecidos: O Eclipse do Futuro
25 |💫| O Último Adeus
1351 palavras • 7950 caracteres • ⏱ 5 min 24 s

25 |💫| O Último Adeus

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"Há lugares que nos abrigam... não por serem belos, mas porque resistiram conosco.

E quando chega o momento de partir, não levamos paredes nem memórias completas —

levamos apenas o silêncio que ficou entre um suspiro e outro,

como se o adeus fosse menos uma palavra… e mais um peso no peito."


Lucius se movia com precisão e uma pressa contida, como se cada segundo fosse precioso, mas ainda assim merecesse respeito. Suas mãos, calejadas, vasculhavam gavetas, prateleiras e bolsas, separando o que era útil do que já não tinha valor. Apenas o essencial o acompanharia dali em diante — não havia mais espaço para a comodidade, nem tempo para o supérfluo. Cada item guardado em sua mochila era escolhido com atenção quase cerimonial. O olhar de Lucius era frio e calculista… e ainda assim, uma sombra de hesitação dançava em seu silêncio. Talvez ele soubesse — mesmo sem admitir — que estava prestes a deixar para trás não apenas um lugar, mas uma parte de si.


Enquanto finalizava os últimos ajustes, seus olhos encontraram Sylas, que o observava com quietude e firmeza. O tigre, imenso e imponente, permanecia imóvel como uma estátua viva. Mas seus olhos, profundos e dourados, revelavam um entendimento raro — como se pressentisse a gravidade do que estava por vir. Lucius se aproximou e, com cuidado, começou a equipá-lo. Prendeu proteções reforçadas em suas patas, ajustou correias sobre o dorso musculoso e encaixou, em pontos estratégicos, facas escondidas e pequenos compartimentos. Um cantil foi amarrado firmemente com tiras de couro, e uma engenhoca rudimentar, criada por ele mesmo, foi fixada junto à coleira — um comunicador simples, mas eficaz, capaz de funcionar mesmo onde a luz parecia ter sido esquecida pelo mundo.


— Está pronto para sairmos daqui? — murmurou, deslizando a mão entre os pelos grossos e quentes de Sylas.


O tigre respondeu com um rosnado suave, quase como um suspiro. Era mais um gesto de cumplicidade do que de ferocidade.


À distância, Samuel aguardava em silêncio. De pé, com a postura calma e inabalável de sempre, apenas observava — sem pressa, sem cobranças. Seus olhos, porém, acompanhavam cada movimento de Lucius como se soubesse o que aquele momento significava. Como se compreendesse.


Lucius encerrou os preparativos, jogou a mochila sobre os ombros e caminhou até Samuel.


— Valeu por esperar. Já peguei tudo o que precisava.


— Então vamos. — respondeu Samuel, com sua voz firme e contida.


Antes de partir, Lucius lançou um último olhar para o abrigo. Aquele espaço escondido entre concreto e raízes havia sido sua morada por anos — não por escolha, mas por necessidade. Era mal iluminado, marcado por cicatrizes do passado. E mesmo assim, havia sido um lar. Seu lar. Agora, estava pronto para deixá-lo.


— Eu acho que não vou sentir saudades desse lugar… — disse em voz baixa, mais para si mesmo do que para os outros.


— Tem certeza? — perguntou Samuel, sem desviar o olhar.


Lucius hesitou por um segundo.


— Não. — respondeu, simplesmente. E partiu.


Os corredores do antigo laboratório pareciam mais longos do que nunca. As luzes piscavam, algumas quase mortas, lançando sombras oscilantes pelas paredes. Cada passo ecoava como um sussurro de despedida. Cada sala atravessada guardava uma memória — de estudo, de silêncio, de medo. Mas havia algo mais forte ali: um último vínculo que precisava ser honrado.


Quando estavam quase saindo, Lucius parou subitamente.


— Esperem aqui. Esqueci de uma coisa.


Samuel apenas assentiu. Sylas permaneceu em silêncio, como se entendesse.


Lucius se afastou. Seus passos, agora lentos e pesados, o conduziram por um caminho diferente. Não voltou ao esconderijo... seguiu até o coração do laboratório, onde uma solitária cerejeira crescia com uma força quase poética. A árvore era o único fragmento de vida verdadeira naquele mundo sombrio — como uma lembrança viva de algo que não podia ser apagado.


A grama verde... e o vento soprou com suavidade, como se o próprio mundo soubesse o que aquele momento significava.


Lucius se aproximou da árvore em silêncio. Estendeu a mão e encostou a testa no tronco áspero da cerejeira. Fechou os olhos e respirou fundo, sentindo o cheiro da madeira, da terra, da lembrança.


— Obrigado, minha amiga... — sussurrou, com a voz embargada, mas firme.


Era sua despedida. De um lugar. De um passado. De uma parte de si.


E, enfim, ele estava pronto para seguir adiante.


Ele caminhava de volta, em passos lentos, quase como se o tempo quisesse lhe dar mais alguns instantes com aquele pequeno pedaço de céu. Antes de atravessar os corredores novamente, Lucius parou por um breve momento e olhou uma última vez para o jardim. O vento ainda soprava suave, balançando levemente os galhos da cerejeira. Era um adeus silencioso, sem palavras, mas carregado de significado.


Então, respirou fundo e seguiu adiante, retornando ao ponto onde Samuel e Sylas o aguardavam.


— Se despediu? — perguntou Samuel, com sua voz calma, mas perceptivelmente mais suave do que o normal.


Lucius abriu a boca, como se fosse se quiestionar... mas parou. Seus olhos baixaram por um instante, e ele apenas assentiu com a cabeça.


Samuel não disse nada. Não precisava.


Ambos se viraram e, lado a lado, caminharam até a entrada do laboratório.


De repente, as luzes tremeluziram, e um som mecânico ecoou pelo lugar. P.A. reativava os sistemas pela última vez. Um painel se iluminou e a pesada porta metálica começou a se abrir lentamente, com um rangido grave e ecoante. A passagem para o mundo exterior finalmente se revelava.


Sylas foi o primeiro a atravessar, ágil e atento. Samuel o seguiu com passos firmes, enquanto Lucius foi o último a sair. Ele cruzou o limiar com o olhar sério, mas algo dentro dele parecia mais leve. O abrigo havia sido deixado para trás — e agora, só havia o caminho à frente.


— 💫 —


Ao emergirem do laboratório, a luz das lâmpadas do lado de fora parecia filtrada por um teto empoeirado e pesado. A cidade ao redor não era mais viva — apenas sombras do que já foi.


Lucius olhou em volta e comentou, a voz baixa e amarga:


— Esse lugar já foi diferente... Antes era mais vivo. Agora é só um cemitério de concreto — escuro, morto.


Ele ficou alguns segundos em silêncio, observando os prédios abandonados e becos vazias, depois virou-se para Samuel.


— Para onde vamos agora?


Samuel ia responder, mas a voz artificial de P.A. surgiu antes dele, direta e levemente sarcástica:


— Como você está sob minhas ordens, Lucius, eu decido onde iremos.


Lucius riu com deboche.


— É bom não abusar muito disso... você sabe o que acontece.


P.A. deixou escapar um leve sorriso digital na interface — quase imperceptível, mas estava lá.


— O núcleo da torre ainda está estável. Isso nos dá algumas horas antes do colapso total do sistema. Nossa prioridade é chegar à Cidadela e encontrar meu corpo. É lá que armazenam o que restou de mim. Mas não será uma missão fácil. O que restou lá não foi preservado por humanidade.


Lucius cruzou os braços e lançou um olhar curioso.


— Engraçado pensar que seu próprio povo te roubou.


— Cala a boca, Lucius. — respondeu P.A., sem paciência.


Lucius soltou outra risada, aproveitando cada segundo para provocá-la. Mas então, Samuel retomou o foco.


— Se o tempo é curto, temos que nos mover agora. Lucius, conhece alguma rota segura para sairmos da cidade rapidamente?


Lucius assentiu, mais sério agora.


— Sim, existe uma saída subterrânea, a nordeste daqui. Não é longe, e se não tiver desabado, ainda pode estar acessível.


— Pode nos guiar até lá?


Lucius deu um leve sorriso malicioso e respondeu, com exagerado respeito:


— Sim, senhor. — E lançou um olhar provocativo ao dispositivo, como se dissesse: "Viu só? Eu respeito mais ele que você."


P.A. apenas bufou em silêncio — ou ao menos foi isso que o pequeno som do dispositivo fez parecer.


Com a direção decidida e o tempo contra eles, o grupo partiu. As ruínas da cidade subterrânea não ofereciam descanso... mas algo adiante os aguardava.


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