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Soffy observava o rastro de sangue desaparecer lentamente na escuridão. Seus olhos estavam arregalados, mas não de medo — era como se sua mente estivesse vagando entre a realidade e um devaneio torcido.
Aquilo definitivamente não era o que ela tinha planejado.
— Isso não pode ter acontecido... Drax... eu não queria... — sussurrou, com a voz trêmula, mas ainda assim carregada de algo estranho… como se parte dela estivesse se deliciando com o caos.
Ao fundo, os lamentos de Koran ecoavam como gritos abafados dentro de um pesadelo.
— Isso é tudo culpa minha... foi tudo culpa minha... — dizia ele entre soluços, afogado em arrependimento.
Soffy se aproximou devagar. Seus passos não tinham pressa, como se cada um deles fosse parte de um ritual estranho. Quando parou diante de Koran, sua voz saiu baixa, melosa e quase doentia, como o sussurro de um segredo macabro.
— Ele vai voltar... Enquanto eu estiver com você, ele vai voltar. Eu sei que vai... — murmurou, com um leve sorriso que tremia nos lábios, os olhos perdidos em algo que só ela parecia enxergar, escondido sob a máscara.
Foi então que um de seus capangas surgiu na porta. O homem parou abruptamente, sem reagir aos corpos estirados pelo chão. Seus olhos evitavam os dela, mas o medo era palpável.
— Senhora Soffy?
Ela nem olhou para ele. Com um movimento brusco, pegou um caco de vidro e o arremessou com violência. O pedaço afiado cravou na parede a poucos centímetros da cabeça do capanga. Ele engoliu seco, quase cambaleando.
— É... Dra-Draken e seus homens retornaram, Senhora... — gaguejou.
Soffy se ergueu lentamente, como se aquela notícia tivesse injetado um novo tipo de energia em seu corpo. Seu sorriso voltou, largo e inquietante, na máscara.
— Ótimo...
Antes de sair, inclinou-se diante de Koran e segurou seu queixo com firmeza, forçando-o a encará-la.
— E você... nem pense em sair daqui. Está me ouvindo? Ele vai voltar para te salvar. — disse, num tom doce e ameaçador ao mesmo tempo.
Em seguida, virou-se e saiu com a mesma calma mórbida de sempre, como se o sangue no chão fosse apenas parte da decoração. Koran permaneceu onde estava, os olhos marejados. Seu coração apertado, mas firme.
Ele sabia... de alguma forma, sabia que seu irmão ainda estava vivo.
Com esforço, tentou se levantar. Sentiu as correntes puxarem seus braços, mas um som diferente chamou sua atenção — o som metálico de uma rachadura. As estruturas que o prendiam estavam enfraquecidas.
— Ainda tem um jeito... — murmurou, determinado.
Enquanto isso, Soffy caminhava pelos corredores como se deslizasse, mas seus olhos denunciavam certo desconforto. Não era medo. Era algo mais... visceral. Um incômodo que ela não sabia nomear.
Ela chegou ao salão central e os viu: Draken e seus soldados, alinhados como sombras de um exército silencioso. Suas máscaras negras refletiam a luz morta do teto. Moviam-se com precisão cirúrgica, frios, impessoais, como máquinas.
Draken, à frente, parecia esculpido em pedra. Um líder que não precisava falar para dominar.
Soffy caminhou em direção ao grupo, e cada passo dela parecia anunciar algo imprevisível. Os soldados se curvaram levemente. Respeito? Talvez. Mas era mais provável que fosse puro medo.
Ela parou diante de Draken, seu rosto próximo ao dele. Sua presença era um contraste gritante ao controle rígido do comandante. Soffy era caos. Draken, disciplina.
— Você deixou um Sentinela entrar, Draken — disse ela com uma frieza cortante, os olhos fixos nos dele. Não era uma pergunta. Era uma acusação.
Ela sabia que não era Drax. Nem Koran. Havia alguém mais. Algo que escapara até mesmo aos olhos meticulosos de Draken.
Sem aviso, uma lâmina delgada surgiu do braço de Soffy, reluzindo sob a luz. Ela a levou até a máscara dele, tão próxima que o fio tocou o metal.
O ambiente congelou. Os soldados pararam. Até o ar pareceu se retrair.
— O que eu devo fazer com você agora, hein? — sussurrou ela, inclinando a cabeça como uma criança prestes a destruir um brinquedo só para ver como ele quebrava.
Mas Draken não recuou. Nem uma piscada. Nem um tremor.
— Meu trabalho é guardar a entrada e saída da cidade. Ninguém entra. Ninguém sai sem passar por mim... ou pelos meus homens — disse, com voz firme, indiferente à lâmina ameaçadora.
— Então está me chamando de mentirosa? — retrucou ela, estreitando o olhar e pressionando levemente a lâmina. — Eu poderia te matar agora mesmo...
— Nenhum Sentinela passou por mim. Nem pelos meus homens — repetiu ele, inabalável.
Soffy permaneceu em silêncio por alguns instantes, apenas encarando Draken como se esperasse uma reação que nunca veio. Então, soltou um longo suspiro — carregado de tédio e desdém, como uma atriz entediada com o final de uma peça medíocre.
Com um leve movimento do pulso, a lâmina retraiu-se lentamente, deslizando de volta para o braço como uma serpente obediente desaparecendo na toca.
— Hmph... sempre tão frio, não é, Draken? — murmurou, com um sorriso torto, virando-se nos calcanhares com um giro teatral. Seus cabelos dançaram no ar, e seu manto negro fluiu atrás dela como fumaça viva.
Ela caminhou alguns passos, mas parou antes de cruzar completamente o salão. Sem virar-se, apenas inclinou levemente o rosto para o lado, como se falasse com a parede — ou com as sombras.
— Há dois Sentinelas infiltrados aqui na cidade — disse, com a voz baixa, mas penetrante como veneno em gotas. — Quero que os encontre... e os traga até mim. Vivos, Draken. Ou... vivos o suficiente. Eu ainda preciso brincar com eles.
Seu tom oscilava entre o sarcasmo e a crueldade, como se estivesse escolhendo suas palavras com o prazer de quem saboreia cada sílaba.
— Um deles está ferido... — continuou, voltando a andar lentamente — não vai ser difícil de rastreá-lo. Já o outro...
Ela parou novamente.
— ...o outro tem alguma ligação com Lucius Arkwright. Uma marionete velha demais pra ainda ter valor, mas que adora se meter onde não deve.
Por fim, virou-se levemente para Draken, os olhos semicerrados e um brilho insano escondido neles.
— Se, por acaso, ele atrapalhar minhas ordens... mate-o.
Um breve silêncio pairou, e então ela acrescentou, com a voz mais baixa e intensa:
— Faça o que for necessário. Até ele parar de atrapalhar.
Draken não respondeu de imediato. Apenas fez um leve movimento com a cabeça, o suficiente para demonstrar que sim — havia entendido. Mas mesmo aquele simples gesto parecia carregado de tensão, como se até ele soubesse que lidar com Soffy era caminhar sobre cacos de vidro... vendados.
Soffy sorriu com satisfação. Não por ter dado uma ordem, mas porque sabia que, a partir daquele momento, o jogo estava prestes a mudar. E ela adorava quando as peças começavam a sangrar.
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Ladrões perambulavam pelas ruas como falsos guardas noturnos — vultos armados patrulhando o caos, fingindo ordem onde só havia ruína. E em meio às sombras densas e fétidas daquele beco esquecido, Drax se escondia.
Sua respiração vinha em arfadas curtas, irregulares, quase inaudíveis de tão fracas. O olho esquerdo estava tomado por um derrame, manchado de vermelho como um eclipse violento. Seu corpo mal se mantinha de pé. O ombro direito jorrava um líquido espesso e escuro, onde antes estivera a articulação do braço mecânico — agora perdido.
Sem tempo para sentir dor, ele rasgou parte da calça e amarrou com dificuldade ao redor do ferimento, tentando estancar o sangue. Era como tentar conter um rio com as mãos. O tecido rapidamente ficou encharcado. A queda brutal do alto das estruturas industriais já deveria tê-lo matado. Os disparos que se seguiram antes apenas confirmavam isso. Mas Drax era teimoso. Duro na queda. Teimosia de irmão mais velho... ou de alguém com algo a proteger.
Cambaleando, apoiou-se contra a parede manchada de ferrugem e fuligem. Espiou com cuidado ao redor, os olhos semicerrados buscando por movimento. Nada. Por enquanto.
Com o corpo exausto, escorregou até o chão. A dor era constante, um zumbido agudo nos nervos.
— Merda... — sussurrou, com a cabeça tombada — Eu não sei por quanto tempo ainda consigo...
— Eu não vou parar... eu tenho que salvar o Koran... — murmurou entre os dentes — Aquela psicopata... ela vai fazer de tudo pra me pegar...
Seu corpo pedia rendição. Mas sua mente já estava longe, focada apenas em um nome. Um irmão.
De repente, um zumbido cortou o ar como uma lâmina.
Um drone. Pequeno, rápido, traiçoeiro. Surgiu flutuando ao seu lado com uma luz vermelha piscando no centro da lente.
— Alvo localizado! — anunciou uma voz metálica, ecoando na frequência dos fones de seus operadores.
Drax cerrou os dentes. Sem perder tempo, ergueu o que restava do braço mecânico — agora um coto com fios expostos. Sua mira era instável, mas mesmo assim atirou contra o drone.
Um feixe de energia disparou, cortando o ar com um estalo seco. O drone explodiu em um clarão azul, girando descontroladamente até cair no chão com um baque metálico.
Drax soltou um gemido abafado de dor. O disparo lhe custara mais do que deveria. Quase desmaiou, mas se obrigou a se mover.
Trôpego, caminhou até o drone caído e, sem hesitar, esmagou-o com o calcanhar, pisando uma, duas, três vezes até que os estalos cessassem e restasse apenas sucata.
Mas era tarde demais.
A localização havia sido transmitida no momento do reconhecimento.
Da outra parte da cidade, um dispositivo piscava com a imagem de uma zona escura e abandonada. A voz metálica do operador preencheu ao lado de Draken:
— Ele está na zona escura. Direção sudoeste, senhor Draken.
Draken observava em silêncio, a máscara reluzindo sob a luz dos holofotes. A cidade parecia respirar ao seu redor — uma fera prestes a devorar sua presa.
— Excelente — respondeu ele, com a frieza de um carrasco que já sabe a sentença antes mesmo do julgamento.
E então, os soldados começaram a se mover.
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