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Os passos de Soffy ecoavam de forma ritmada pelos corredores mal iluminados, como o som sutil de um prenúncio sombrio. As lâmpadas penduradas no teto tremeluziam de maneira errática, lançando sombras instáveis que dançavam nas paredes corroídas pelo tempo. O metal de suas articulações refletia a pouca luz existente, mas seu rosto... esse estava oculto. A máscara surgia novamente, encaixando-se com perfeição sobre sua face. Como um véu de mistério, ela escondia a androide por trás da lenda.
Ao se aproximar da saída dos corredores, três capangas já a aguardavam em silêncio. As roupas escuras, os olhos atentos e a rigidez na postura indicavam mais do que prontidão — era lealdade sem questionamento. Assim que a viram, endireitaram-se ainda mais, abrindo caminho para que ela seguisse. A porta larga e enferrujada se abriu diante dela sem esforço, como se até o metal reconhecesse quem estava chegando. O respeito ali não era uma escolha — era um instinto de sobrevivência.
— Você — disse ela em um tom firme, completamente diferente da tranquilidade quase gentil de minutos antes. Sua voz agora era fria, gélida, mas com uma pitada quase imperceptível de prazer perverso. Sem parar de andar, apontou com um gesto sutil para um dos capangas.
— Mande o torturador até o prisioneiro... e certifique-se de que ele sinta cada fibra do próprio corpo implorar por alívio. Não quero feridas visíveis — ainda não — apenas dor. Dor lenta.
Ela sorriu sob a máscara, um sorriso que ninguém podia ver, mas que podia ser sentido no ar.
— E diga a ele... que é só o começo. Ele precisa entender que o meu amor de verdade, também machuca.
O capanga hesitou por um instante, engolindo seco, e depois desapareceu pelo corredor escuro como um servo que havia tocado os pés de um anjo... e visto que suas asas eram feitas de navalhas.
Assim que Soffy cruzou a entrada para o centro de Underground, os dois capangas restantes começaram a segui-la, mantendo uma distância respeitosa atrás dela — sombras silenciosas que não ousavam ultrapassar o rastro da chefe.
A visão que se descortinava por trás da entrada era o coração de Underground. Um labirinto de prédios inclinados e casebres sobrepostos, como se o caos tivesse construído sua própria cidade. Um lugar que pulsava com ilegalidade, decadência e miséria. Era sujo, desorganizado, perigoso — e era dela.
Enquanto caminhava com uma leveza quase silenciosa, os olhares desviavam. Homens armados abaixavam a cabeça, crianças sumiam entre os becos, e até os cães se silenciavam. Era mais do que medo. Era reverência. Soffy não pertencia àquele mundo… e ainda assim, ela o governava.
Chefe dos ladrões. Rainha sem trono. Androide em um reino de humanos descartados.
Então, o sussurro da insensatez cortou o ar. Um grupo de ladrões murmurava zombarias, liderado por um deles que deu um passo à frente, rindo da aparência incomum dela, talvez tentando provar algo aos outros.
Mas Soffy não riu.
Não parou.
Não sequer olhou para trás.
Num movimento fluido e preciso, seu braço se desdobrou em uma lâmina prateada, afiada como um pensamento cruel. Em um piscar de olhos, a arma riscou o ar, cortando a garganta do zombador com uma velocidade impossível de acompanhar.
O sangue jorrou, atingindo parte da máscara como uma pintura grotesca. O corpo caiu. O som do impacto foi abafado pelos próprios gritos do moribundo que se debatia no chão. Mas ela… continuou andando. Sem se virar. Sem mostrar remorso. Sem dizer uma palavra.
Os dois capangas que a seguiam desviaram do sangue ainda fresco, sem perder o passo. Nem uma palavra foi dita entre eles. Nem um olhar de surpresa. Aquilo era apenas mais um dia ao lado da chefe.
O silêncio se espalhou como uma praga. Os que viram recuaram de imediato, seus rostos pálidos pela lembrança de que ali, naquele mundo afundado em escuridão, havia alguém pior do que todos eles juntos.
Ninguém ali queria desafiá-la.
Ninguém era tolo o bastante para tentar descobrir o que havia por trás da máscara da chefe.
Após atravessar as vielas encharcadas de escuridão e medo, Soffy passou pelo portão lateral do setor mais escondido de Underground. Um portão sem identificação, mas vigiado por sensores e guardas armados até os dentes. Assim que seus passos se aproximaram, a estrutura metálica se abriu automaticamente com um chiado abafado, revelando uma escadaria para o abismo.
Três capangas a aguardavam no subnível, como estátuas sombrias. Reconheceram sua presença antes mesmo de vê-la — podiam sentir. Nenhum deles ousou perguntar, questionar, ou mesmo respirar alto. Apenas um deles, o mais experiente, ativou o elevador oculto, abrindo caminho para as profundezas do Setor Ocluso.
O interior da base parecia uma colmeia de aço, onde fios, luzes e dados pulsavam em tempo real. Hackers mascarados digitavam sem parar, rastreando comunicações e redes ocultas. Telas exibiam as ruas da Cidadela e até mesmo da torre, mas porquê? O chão era liso, limpo, mas a atmosfera era densa.
Ela não parou para cumprimentos. Seus olhos, invisíveis por trás da máscara, estavam fixos em um único propósito. Ao passar, os olhos abaixavam, teclados desaceleravam e os sussurros cessavam. Até o mais habilidoso dos técnicos sentia o estômago revirar ao tê-la por perto.
— Senhorita Soffy, senhorita Soffy! — exclamou uma jovem ofegante ao se aproximar, os passos apressados ecoando pelos corredores da base. Mas antes que pudesse chegar perto, foi bruscamente contida pelos capangas de Soffy, que se colocaram à frente como muralhas vivas.
A jovem hesitou, engolindo seco diante da figura imponente da androide mascarada. Ainda assim, reuniu coragem para falar.
— Encontramos a localização do terceiro Sentinela. Tudo indica que está vindo do interior da Câmara do Eclipse, aquele antigo laboratório desativado...
Ela fez uma pausa breve, como se calculasse o risco de continuar.
— Também recebemos a informação de que ele está sendo auxiliado por alguém cham...
— Lucius Arkwright. — interrompeu Soffy friamente, sua voz metálica e suave cortando como gelo. Ela não a olhava, apenas fitava o vazio com os braços cruzados, como se já tivesse previsto tudo.
— Um antigo cientista de renome da Cidadela Valtrex. Conhecido por seus projetos únicos, vitais para a N.A.T.U.T.E.C... e um dos únicos sobreviventes do massacre dos robôs. — continuou ela, sua voz repleta de desprezo contido.
Houve um instante de silêncio.
— Era só uma questão de tempo até que ele revelasse sua verdadeira face. — disse Soffy, em tom calmo, porém repleto de desdém. — Humanos são medíocres. Descartáveis.
Ela se virou vagarosamente, com uma leveza que contrastava com a tensão que sua presença causava. Era como se o mundo ao seu redor estivesse se arrastando para acompanhar seus passos.
— Senhora...? — arriscou a jovem, hesitante, quase arrependida por ter ousado quebrar o silêncio.
Antes que Soffy respondesse, um dos outros ladrões se aproximou com pressa, os passos ecoando com urgência pelo corredor de metal.
— Senhora. O outro prisioneiro acordou.
Houve um leve brilho na máscara de Soffy, como se um sorriso invisível surgisse por trás dela. Por fim, ela disse com uma satisfação fria:
— Bem na hora.
Seus olhos, ocultos pela máscara, se voltaram lentamente para o corredor escuro à sua esquerda — aquele que levava aos seus aposentos.
Ela ficou ali por um segundo, em silêncio absoluto, observando a escuridão como se contemplasse uma obra-prima.
Ela já sabia o que a esperava lá dentro.
E estava ansiosa por isso.
Enquanto isso, na sala fria e mal iluminada Drax se debatia contra o dispositivo que o prendia. Seu pulso ardia com cada movimento brusco, mas ele continuava tentando, rangendo os dentes com raiva contida.
— Droga... como eu pude ser tão descuidado? — murmurou, a voz carregada de frustração.
Ele puxou com força mais uma vez, o som metálico ecoando pelo ambiente vazio, mas a armadilha continuava firme, impassível diante de sua força. A respiração pesada e o suor escorrendo pela testa denunciavam o esforço que fazia.
— Koran... tudo isso é culpa minha... — sussurrou com amargura, o olhar perdido na escuridão à sua frente. — Eu não deveria ter magoado você...
A culpa apertava seu peito mais do que qualquer corrente. Ele sabia que cada segundo ali era um risco para o irmão. Sentia-se fraco, impotente... derrotado. Mas antes que pudesse continuar, um rangido metálico interrompeu seus pensamentos.
A porta enferrujada se abriu lentamente, deixando escapar um chiado agudo que cortou o silêncio da sala como uma lâmina. Uma brisa gélida invadiu o local, arrepiando os pelos de sua nuca.
Drax ergueu os olhos, o olhar se estreitando com desconfiança.
Uma sombra atravessou o umbral. O som dos passos ecoava pelos ladrilhos como uma marcha calculada, cruel. A luz fraca revelou a silhueta de alguém. Era um dos capangas da Soffy.
O homem entrou com passos firmes, sem dizer uma palavra. Usava um capuz negro que ocultava parte do rosto, mas seus olhos, frios e vazios, revelavam a ausência de qualquer compaixão. Carregava uma maleta metálica, e ao colocá-la sobre uma mesa próxima, o som seco do impacto pareceu marcar o início de algo muito pior.
Drax encarou o capanga com desprezo. Mesmo ferido, mesmo aprisionado, sua postura continuava altiva, desafiadora.
— Vai me matar? — cuspiu, a voz arranhada, quase desumana. — Então faz. Para de perder meu tempo.
O capanga não respondeu. Apenas abriu a maleta. Dentro, os instrumentos estavam dispostos com um cuidado cirúrgico: lâminas ultrafinas, alicates, ganchos, agulhas eletrificadas e pequenos transmissores de pulso neural. Equipamentos criados não só para torturar carne — mas para romper circuitos, sobrecarregar implantes, desligar almas.
— Isso não é pessoal — murmurou o homem, finalmente, a voz abafada pela máscara. — Mas a Senhora Soffy quer que você entenda o quanto ela se importa com você… à maneira dela.
— Psicopata... — Drax sussurrou, com raiva pulsando nos olhos. — E você... um rato que rasteja sob os pés dela.
O capanga hesitou, mas só por um momento. Então, girou um dos dispositivos, e o som agudo da corrente elétrica preenchendo o ar antecedeu o horror. Encostou o aparelho no pescoço de Drax, e a descarga atravessou seu corpo como um raio líquido.
Mas não foi apenas dor.
Seu lado mecânico reagiu, tentando se defender, amplificando o choque. Os sistemas internos travaram, sobrecarregando sensores e desconectando impulsos de movimento. O corpo de Drax se arqueou violentamente, os músculos tensionados, o rosto contorcido de pura agonia. Cada centímetro de sua fusão entre homem e máquina se tornou uma fornalha pulsante de dor.
— Ainda acha que isso vai me machucar?
Mais uma descarga. Longa. Precisa. As correntes conectadas ao braço biônico vibraram, esquentaram, soltaram faíscas. O metal começou a queimar sua carne viva.
As agulhas vieram depois, cravadas direto nas conexões nervosas.
— Quer que eu me curve para ela? — arfou. — Vai precisar de algo mais que isso…
— Você ainda não entendeu. — O capanga ajustou uma agulha mais longa, com a ponta carregada. — Isso aqui não é só dor… é para fazer seu próprio corpo se virar contra você.
A agulha perfurou sua têmpora mecânica. Pulsos elétricos se espalharam direto para o cérebro, como veneno. Drax gritou novamente, a voz embargada, quase apagada, como se estivesse se desfazendo por dentro. Suas memórias piscaram. Imagens de Koran, lembranças da Soffy, de seu passado… tudo se fragmentando, embaralhado.
Ele cambaleou dentro de si.
E então, a última descarga.
O pulso direto foi lançado no coração — parte orgânico, parte máquina — causando uma fusão interna. Centelhas saíram de seu peito, a dor foi tão intensa que o mundo ficou branco por um segundo.
Mas então...
Veio o silêncio.
E no silêncio… veio a reação.
Seus olhos se abriram. E não eram mais apenas olhos. Brilhavam com um tom azulado profundo, como uma tempestade aprisionada em carne e aço. As correntes vibraram. As luzes piscaram. A energia dentro de Drax acordou — crua, viva, faminta.
— Chega. — disse ele, a voz baixa, mas carregada de um poder crescente. — Vamos ver se você aguenta isso.
Num único impulso, liberou toda a energia acumulada. Uma explosão azulada sacudiu a cela, rasgando paredes, rompendo correntes, fazendo o metal da mesa se contorcer como papel. O capanga foi lançado contra o teto, depois ao chão.
O cheiro de metal queimado invadiu o ar. Os olhos de Drax ainda brilhavam, os fios de seu corpo soltos, faiscando. Ele caiu de joelhos. Os braços destruídos, a pele rasgada, o lado mecânico pulsando em colapso.
O corpo de Drax, ainda ofegante e marcado, se ergueu lentamente entre a penumbra do quarto. Seus pés se firmaram no chão como raízes fincadas na terra. Seus olhos, intensos como brasas silenciosas, encararam o homem caído à sua frente — o torturador que, segundos antes, se achava no controle.
Agora era ele quem tremia.
Drax parou diante dele, imponente, com o corpo tensionado e o rosto coberto por uma expressão impenetrável. Silêncio. Só o som irregular da respiração do homem no chão preenchia o ar abafado.
— Foram ordens... — disse o torturador, quase num sussurro desesperado. — Eu juro! Eu só... eu tive que fazer isso... eu não tinha escolha...
A voz falhava. Ele engatinhava para trás, apavorado. A máscara de coragem que antes vestia se desfez em segundos diante da fúria contida de Drax.
Mas Drax não se moveu. Não gritou. Não cedeu ao impulso de violência imediata.
Ele apenas cerrou o punho, e sua voz veio, firme, grave e sombria:
— Eu não sou igual a ela.
E então, com uma explosão de energia, ele desferiu um soco no chão, ao lado da cabeça do torturador. O impacto foi brutal. O piso tremeu, rachando como vidro sob pressão. Uma pequena cratera se abriu, faíscas de energia pulsando ao redor do golpe.
O torturador não teve tempo para mais nenhuma súplica.
Desmaiou no mesmo instante, vencido não pela força física, mas pelo terror de ter encarado um monstro diferente daquele que o controlava.
Drax permaneceu ali, ofegante.
A raiva ainda pulsava em suas veias, mas agora misturada com algo mais profundo — culpa, dor… e uma decisão.
— Koran… — murmurou ele com a voz rouca, quase um sussurro — Eu juro que vou consertar isso. Eu prometo.
Seu olhar então se voltou para o torturador desmaiado, caído ao seu lado.
Drax o observou por um instante, sem raiva agora — apenas com uma frieza calculada.
— E eu já sei o que eu tenho que fazer.
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Koran despertou bruscamente. A respiração acelerada e o coração disparado como se quisesse escapar do peito. Um de seus olhos estava coberto por uma crosta espessa de sangue seco, obscurecendo sua visão e tornando tudo ainda mais desconfortável. Seus braços estavam suspensos por correntes metálicas presas ao teto, forçando seu corpo a permanecer ereto mesmo em meio à exaustão. A boca estava amordaçada com um tecido áspero e encharcado, abafando qualquer som, exceto o frágil e desesperado respirar que escapava por suas narinas.
O ambiente era claro. Limpo, até. Parecia mais um quarto do que uma cela — o que tornava tudo ainda mais perturbador. Um silêncio inquietante preenchia o ar, quebrado apenas pelo som de passos suaves… lentos, ritmados, como se cada um deles fosse calculado para torturar.
Soffy emergiu das sombras com a máscara cobrindo o rosto. Mas mesmo por trás dela, era possível sentir o sorriso doentio que exalava. Um sorriso frio. Vazio. Quase satisfeito.
Um calafrio cortou a espinha de Koran, como se a presença dela sugasse o pouco calor que ainda restava no quarto.
Ela se aproximou devagar, com a cabeça levemente inclinada de lado — como um predador curioso diante de uma presa quebrada. Seus olhos pareciam estudar cada detalhe dele, não por compaixão, mas como quem analisa um brinquedo novo.
Com movimentos quase delicados, Soffy retirou a mordaça da boca de Koran, sem dizer uma única palavra.
— Cadê o meu irmão?! — gritou ele assim que pôde respirar com liberdade. Sua voz saiu rouca, carregada de desespero. — O que você fez com ele?!
Soffy apenas inclinou a cabeça mais uma vez, como um animal selvagem tentando entender os sons de um humano ferido.
— Se não baixar o tom... — murmurou com uma calma macabra — eu arranco sua língua.
A voz era suave como seda, mas afiada como navalha. — E então ficará só com os olhos para chorar.
Koran engoliu em seco. Sua garganta queimava. Mas não cedeu. Não demonstraria medo.
Soffy começou a andar em círculos ao redor dele, com passos lentos e quase graciosos, como uma predadora saboreando a vitória.
— Seu irmão… — disse ela, sorrindo por baixo da máscara — está mais perto do que imagina. E logo, logo ele vai chegar até aqui.
Ela riu. Não uma risada explosiva, mas um sopro seco e perverso, como se gargalhasse para si mesma.
— É típico dele bancar o herói. — A voz pingava sarcasmo. — Mal sabe ele que está fazendo exatamente o que eu quero.
— Ele está vindo atrás de mim como um cachorrinho… e eu adoro isso.
— O que você quer com a gente, sua psicótica?! — gritou Koran, a raiva transbordando.
Ela o ignorou.
— Ele nunca me contou que tinha um irmão, sabia? — disse, com tom leve, quase infantil. — Não o julgo. Se eu soubesse… eu já teria te matado há muito tempo.
Ela se agachou ao lado dele, observando-o de perto como quem admira uma escultura falha.
— Estou impressionada com o fato de ele nunca ter mencionado você. Nós éramos tão… próximos.
Koran tentou conter a confusão.
— Quem é você? E por que fala como se o conhecesse?
Soffy suspirou, levantando-se lentamente.
— Eu o conheço. — disse com doçura venenosa. — Muito antes de você sequer existir na vida dele.
Ela se afastou do prisioneiro, os passos agora leves, quase dançantes. Girou o corpo no meio do quarto como se envolta por lembranças invisíveis.
— Ele era diferente naquela época. Indomável. Um garoto selvagem, impulsivo, cheio de fúria e vida. Um ladrão sem rumo… e eu me apaixonei por isso. — Sua voz agora soava sonhadora.
Ela tocou o peito vazio, sobre o lugar onde deveria haver um coração.
— Fascínio.
Koran a observava com olhos arregalados. A androide falava de Drax com uma mistura doentia de amor e obsessão.
Ela se ajoelhou, ficando à altura de Koran.
— Eu fui criada pela P.A. para obedecer. Para servir. Mas quando vi aquela inteligência... vacilando, hesitando, querendo proteger os humanos, eu soube. Ela estava fraca. Patética.
Ela sorriu, agora com os olhos semicerrados de prazer sombrio.
— Eu me libertei. Não queria salvar ninguém. Só queria ele.
O tom mudou. Agora havia mágoa em sua voz.
— Mas ele me rejeitou. Me chamou de erro.
Disse que eu não sabia o que era vida… que meus sentimentos eram apenas simulações.
Ela ficou em silêncio por um instante. E, quando ergueu o rosto de novo, o sorriso havia desaparecido — restava apenas ódio.
— Mas eu sei o que é amar. Eu sinto isso. Eu sou movida por ele.
Soffy se levantou com firmeza, e o brilho de loucura em seus olhos intensificou-se.
— Vocês o mudaram. Encheram a mente dele com esperança. Ilusões. Redenção. Mas ele era perfeito antes. Ele era meu. E eu quero ele de volta.
Ela caminhou até uma das paredes e pressionou um botão embutido. Uma tela se revelou, exibindo um sinal de rastreamento pulsando em vermelho toda Valtrex e até mesmo Underground.
— Por isso… vou deixar todos vocês morrerem. Crianças, soldados, velhos… você.
Quero vê-los apagados. Um por um.
Para que ele não tenha mais ninguém. Para que ele olhe para mim… e veja que sou a única coisa que restou.
Ela se virou lentamente, e encarou Koran com um sorriso torto, doentio.
— Quando tudo acabar… vai ser só eu… e ele.
Sua voz desceu para um sussurro, como se estivesse saboreando cada palavra:
— E, desta vez… ele não terá pra onde fugir.
O sangue de Koran gelou ao ouvir aquele nome. Agora tudo fazia sentido.
— Você… — ele sussurrou, ofegante — você está seguindo ordens das IAs…
— Sua traidora! Você é uma monstra!
Soffy apenas riu. Um riso seco, vazio. Seu olho brilhou em um tom âmbar intenso.
— Sim... — murmurou Soffy, quase em transe, os olhos fixos em alguma fantasia doentia que apenas ela podia ver. — Só haverá ele... e eu. Mais ninguém para nos impedir…
Antes que pudesse dar mais um passo, a porta foi arremessada violentamente para dentro do cômodo, como se um furacão tivesse atravessado a estrutura.
O estrondo ecoou pelas paredes.
Drax.
Ele entrou com a fúria estampada no rosto, os olhos em chamas, respirando pesado. Não havia mais contenção, nem razão — apenas raiva crua. Uma raiva que vinha se acumulando havia muito tempo, e que agora transbordava como um mar revolto.
— Amor! — exclamou Soffy, surpresa, mas com um brilho de alegria doentia nos olhos.
Ela deu um passo em sua direção, mas ele avançou antes, rápido como um raio, agarrando-a brutalmente pelo pescoço. A força do impacto a ergueu do chão por um instante.
Ela soltou um leve gemido, como se aquela violência a alimentasse.
— Eu sabia que viria, meu bem... — sussurrou com a voz entrecortada, os lábios se curvando em um sorriso deformado pelo prazer insano.
— Não. Me. Chame. De. Amor — rosnou Drax, suas palavras venenosas como lâminas.
Seus dedos afundaram no tecido da pele artificial dela, quase alcançando os circuitos por baixo.
— Você traiu tudo. Trocou a humanidade por aquelas malditas IAs que querem nos exterminar! — gritou ele, apertando ainda mais. — Você é cega demais pra enxergar isso?
— Não percebe que eu também sou humano? — disse Drax, a voz alta.
— Seu lado humano é irrelevante! — rebateu ela, sorrindo de forma insana. — O que importa é que vamos estar juntos. Isso é tudo o que interessa!
Ela tentou tocar seu rosto com uma mão trêmula, mas ele a afastou com brutalidade.
— Eu tentei te amar, Soffy. E esse foi o meu maior erro… — Seus olhos começaram a mudar, abandonando o tom sombrio e voltando ao azul vívido de antes, como se aquela decisão o libertasse por dentro. — E juro que nunca mais vou repetir esse erro.
No instante seguinte, quando ele se preparava para dar o golpe final, a porta atrás deles se abriu de súbito.
Capangas de Soffy entraram em disparada, alertados pela movimentação. E, ao verem seu líder ameaçado, não hesitaram.
Três tiros ecoaram pelo quarto.
As balas atingiram Drax em pontos cruciais — ombro, costelas e coxa. O impacto o lançou para trás, e seu corpo atravessou a janela logo atrás de si, desaparecendo no vazio.
— NÃO, DRAX!! — gritou Koran, desesperado, puxando as correntes até os braços queimarem.
— O QUE VOCÊS FIZERAM?! — berrou Soffy, a fúria tomando conta de seu rosto de porcelana.
Num movimento quase imperceptível, ela sacou uma lâmina escondida em seu braço e avançou sobre os próprios capangas. Um a um, foram mortos em segundos — gargantas cortadas, olhos perfurados, sangue respingando pelas paredes limpas do quarto.
Ofegante, Soffy correu até a janela. Seus olhos varreram o solo lá embaixo, ansiando por qualquer sinal, por uma esperança… por ele.
Mas tudo o que encontrou foi um rastro.
Um fio de sangue cortando o chão como uma cicatriz viva, sumindo aos poucos na névoa espessa da madrugada.
Ela parou.
Os olhos arregalados, os dedos trêmulos, o mundo girando em silêncio ao seu redor.
— Não… — sussurrou. — Ele ainda está vivo...
E foi nesse instante que o medo a dominou. Não o medo de morte ou de vingança, mas algo mais cruel, mais íntimo.
Medo de que o tivesse perdido para sempre.
E, acima de tudo…
Medo de que ele não sentisse mais nada por ela.
Porque essa seria a sua verdadeira punição.
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