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O Herói Dos Esquecidos: O Eclipse do Futuro
19 |💫| Fragmentos de Confiança
1145 palavras • 6794 caracteres • ⏱ 4 min 35 s

19 |💫| Fragmentos de Confiança

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Enquanto isso, no laboratório silencioso, apenas os sons metálicos suaves do cientista preenchiam o ambiente. A luz fria refletia nas superfícies prateadas, criando sombras dançantes pelas paredes. Lucius permanecia concentrado, ajustando os últimos detalhes no dispositivo de Samuel. Sua expressão alternava entre irritação contida e atenção quase obsessiva.


Do outro lado, a voz da P.A. surgia através do mesmo aparelho que ele manipulava — uma presença digital incômoda, mas inevitável.


Sem tirar os olhos do que fazia, Lucius resmungou:


— É impressionante o quanto cara de pau você é, né?


— Vai começar? — respondeu a P.A. com seu tom sarcástico habitual.


Lucius soltou uma risada breve, quase divertida.


— Tô brincando, tá?


— Haha, achei muita graça — rebateu a IA. — Não era você mesmo que tava todo sério e duro comigo há poucas horas?


Ele parou por um instante, olhando para o visor com um sorriso torto.


— Eu ainda estou. Se quiser reclamar, não faço questão de quebrar esse aparelho aqui e agora.


O tom era meio sério, meio sarcástico — como quem estava por um fio, mas ainda se esforçava para manter a compostura.


— Você é muito engraçado, sabia? — provocou a P.A., ignorando a ameaça. — Tá confiando em mim agora, é?


— Não confio em você — respondeu Lucius prontamente, voltando ao trabalho.


— E tá me ajudando por quê, então?


Lucius suspirou. Seus olhos desviaram brevemente para o canto do laboratório, onde Samuel estava sentado no chão, observando Sylas.


O tigre começou a se aproximar devagar de Samuel, sem qualquer sinal de ódio ou desconfiança. Seus olhos, antes ferozes, agora fitavam Samuel de outro jeito — como se enxergassem nele algo que poucos podiam ver. Paz.


Sylas sentia aquela presença diferente, como se a própria natureza sussurrasse que ali havia segurança. Era como se instintos antigos, conectados à essência da vida, respondessem à presença de Samuel.


Com um leve suspiro, Sylas deitou-se ao lado de Samuel, rendido à serenidade que só ele parecia carregar.


Lucius observava tudo, surpreso... sem entender como algo tão improvável parecia tão certo.


— Tô te ajudando por causa dele — disse, em um tom mais baixo.


A P.A. ficou em silêncio por alguns segundos, como se processasse aquela resposta.


— Você fazendo questão de alguém? Isso é novidade pra mim. Vocês humanos são estranhos.


— Ele é diferente dos outros... — murmurou Lucius.


— É... pois é... — respondeu a P.A., desta vez sem sarcasmo.


Lucius franziu a testa, como se uma pergunta tardia lhe atravessasse a mente.


— Aliás... qual é o nome dele mesmo?


— Samuel.


Ele assentiu lentamente, repetindo o nome em pensamento.


— Hm... interessante. E você não parece controlar ele... por que ele tá te ajudando?


— Na verdade, nem eu sei. Tenho apenas informações vagas sobre quem ele é... ou de onde veio.


— Então ele simplesmente apareceu do nada?


— Mais ou menos isso.


A IA observava Samuel através das câmeras conectadas ao sistema. A tranquilidade com que ele acariciava Sylas não combinava com o caos do mundo ao redor. Aquilo a questionava.


— Você teve sorte de encontrar alguém como ele — comentou Lucius. 


— Ele não parece uma pessoa ruim. Tem poderes... é estranho, mas não parece algo ruim. — ponderou a P.A.


— Ele usa esses poderes para proteger. Talvez seja um herói... ou algo assim — disse Lucius, tentando esconder o traço de admiração que escorregava em sua voz.


— Ou ele pode ser apenas mais uma anomalia — afirmou a P.A., em um tom mais frio, tentando plantar a semente da dúvida. Mesmo que soubesse que aquilo era mentira, manipular Lucius exigia minar sua segurança.


Lucius apertou os lábios, parando os movimentos por um breve instante.


— É... infelizmente, você pode estar certa — murmurou, voltando ao trabalho, como se quisesse encerrar o assunto ali.


— Vamos acabar logo com isso. Assim você pode sumir daqui de uma vez.


A P.A. não respondeu de imediato. Pela primeira vez, o silêncio dela parecia pesado.


Do outro lado da sala, Samuel continuava tranquilo. Sentado com as pernas cruzadas, acariciava Sylas no colo com carinho. Seu olhar distante parecia carregar um tempo antigo, como se ele fosse mais velho do que aparentava. A serenidade que emanava de sua presença contrastava com tudo o que havia naquele laboratório — como se, mesmo naquele lugar frio e sufocado por máquinas, ele fosse uma fagulha de algo que o mundo havia esquecido. 


Lucius olhou novamente para o aparelho, com o semblante mais fechado.


— Você não veio até mim só por esse motivo. Por que mandou ele sozinho?


A P.A. hesitou antes de responder.


— Meu núcleo está morrendo, Lucius. Sem meu corpo, não tenho energia para suportar a torre.


A voz dela estava mais baixa, quase frágil. Pela primeira vez, não parecia apenas um algoritmo. Parecia alguém... cansado.


— Você só usa os outros quando precisa. Isso é inacreditável... É por isso que tá aqui — retrucou Lucius com desprezo, finalizando os ajustes.


Ele então pegou o dispositivo com firmeza.


— Terminei.


— Já era hora — respondeu a P.A., como se estivesse entediada.


Lucius apertou o dispositivo com força, o suficiente para sentir a tensão, mas não o bastante para quebrá-lo.


— Se reclamar, você já sabe.


A IA permaneceu em silêncio.


Lucius caminhou até Samuel e lhe entregou o aparelho.


Samuel aceitou o dispositivo com a mesma calma que sempre carregava no olhar. Suas mãos firmes o seguraram com delicadeza. Sem hesitar, o encaixou no seu ouvido. No instante em que o dispositivo tocou sua pele, uma luz suave percorreu seus contornos e ele se ativou automaticamente, emitindo um breve som eletrônico, discreto, mas nítido no silêncio do laboratório.


Uma sensação percorreu o corpo de Samuel, como se o aparelho o reconhecesse, conectando-se a ele de forma quase orgânica. Ele não disse nada, mas seus olhos se voltaram brevemente para Lucius em um gesto silencioso de gratidão — não por precisar daquilo, mas por saber que, apesar de tudo, Lucius havia escolhido confiar nele.


— Fiz as modificações que a P.A. pediu. Agora você pode se comunicar com os outros normalmente. Adicionei umas coisas extras também... como agradecimento por ter salvado o Sylas. E... pelas palavras que me disse mais cedo.


Samuel respondeu com um leve aceno.


— Eu que agradeço pela sua ajuda.


Lucius ficou em silêncio por alguns instantes, pensando. Então falou:


— Você não deve sair essas horas pela cidade. Fique aqui e descanse até amanhecer. É mais seguro.


Samuel assentiu.


Lucius permaneceu parado por um tempo, olhando para ele como quem tentava compreender algo que não cabia em palavras. Ele encara o dispositivo no ouvido de Samuel, pensando nas palavras da P.A..


Confiar na P.A. ainda lhe parecia loucura.  

Mas confiar em Samuel talvez fosse sua última escolha sensata num mundo que já não fazia sentido.


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