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A noite parecia mais densa do que de costume. O tempo havia passado, e com ele, a luz cedeu espaço a uma escuridão opressiva que engolia cada canto daquele mundo. Uma chuva fina começou a cair, mas logo se transformou em um dilúvio furioso. Trovões rasgavam o céu com violência, como se o próprio mundo estivesse tentando alertar — algo ruim estava se aproximando, algo que nem as sombras ousavam nomear.
Abaixo da superfície, longe dos olhos do céu tempestuoso, a cidade subterrânea, Underground, dormia inquieta. Suas ruas estreitas e túneis mal iluminados eram banhados por filetes d'água que escorriam pelas rachaduras do teto, como lágrimas do mundo lá de cima. Mas aquela noite, o silêncio da cidade era perturbado por dois vultos que se moviam como predadores na escuridão — Koran e Drax.
Desviando de poças escuras e becos sufocantes, os dois avançavam com passos rápidos e silenciosos. Apenas um deles, no entanto, parecia realmente confortável naquele ambiente sombrio. Koran, inquieto, olhava para os lados com os ombros tensos, enquanto Drax mantinha um olhar firme à frente, como se nada ali pudesse surpreendê-lo.
— Ter vindo aqui foi uma péssima ideia, Drax… — murmurou Koran, tentando manter a voz baixa, mas o medo era nítido. Ele podia sentir a cidade inteira o observando, como se estivesse sendo seguido por olhos invisíveis nas paredes.
Drax parou abruptamente e se virou, seu olhar cortante como uma lâmina.
— Agora você resolve dizer isso? Depois de tudo que já fizemos pra chegar até aqui? — rebateu com desprezo. — Fique quieto. Estamos quase chegando.
Koran hesitou, mas a inquietação não o deixou calar.
— Como você sabe?
Drax ficou em silêncio por um instante. Seus olhos percorreram o caminho à frente antes de dar mais alguns passos, como se estivesse checando algo que apenas ele era capaz de sentir.
— Você não percebe? Ainda é burro demais pra entender… — disse em um tom carregado de irritação. — Em cada lugar que passamos, há uma diferença. É como se... a escuridão estivesse sumindo. Como se algo invisível tivesse passado por aqui e limpado o ar.
Koran o encarou, franzindo a testa com descrença.
— Você deve tá enlouquecendo. Deve ser isso.
— Tô louco mesmo... louco de ter vindo até aqui por sua causa, seu idiota. Eu devia ter ficado lá na torre — retrucou Drax, bufando em frustração.
— Desculpa… — disse Koran, num fio de voz, abaixando o olhar como um cão repreendido.
Drax bufou mais uma vez e virou de costas, retomando o passo.
— Tanto faz — resmungou, cansado da conversa.
Drax diminuiu o passo por um instante. Pensou em dizer algo mais. Qualquer coisa.
Mas deixou passar.
O som de seus passos molhados ecoava entre as paredes úmidas da cidade subterrânea, marcando um ritmo quase ameaçador. Koran o seguiu em silêncio, com o peso da culpa nos ombros, mas ainda sem coragem de recuar.
— Ele nunca aprende... — murmurou Drax, mais cansado do que irritado.
Koran escutou, mas não disse nada. Apenas continuou a segui-lo, com a cabeça baixa, como se carregasse o peso de mil palavras não ditas. O som abafado da chuva ecoava ao redor, misturando-se ao silêncio desconfortável entre os dois. E então, sem aviso, Koran parou.
Drax caminhou mais alguns passos antes de perceber. Ele se virou, impaciente.
— Por que diabos você... — começou a dizer, mas a frase morreu em sua garganta ao ver o rosto dele.
Koran estava chorando. Não escondia. Suas lágrimas caíam, mas o tremor em sua voz o entregava.
— Eu sou tão inútil assim pra você? Um imprestável?
Drax congelou. Por um segundo, seu olhar endurecido perdeu a força.
— Não, Koran...
— Eu só te atrapalho. Sempre é assim. Eu faço de tudo pra você sentir orgulho de mim, mas nunca é o suficiente, nunca... — a voz de Koran falhava entre soluços. — Você só me xinga, me chama de idiota... você não sabe o quanto isso dói.
Ele respirou fundo, tentando se manter firme, mas era como segurar um vendaval dentro do peito.
— Agora eu entendo... por que você tem vergonha de admitir pros outros que é meu irmão. Você tem vergonha de mim, né?
Drax baixou o olhar por um instante, e seus punhos se fecharam ao lado do corpo.
— Eu tô cansado... cansado do jeito que você e os outros me tratam. Eu... eu deveria sumir mesmo...
— Não fala isso, Koran... Eu...
— Para — cortou, erguendo a mão com a palma aberta. — Já chega. Eu cansei...
Koran se virou, com os olhos ainda marejados, e começou a caminhar na direção oposta, afastando-se de Drax sem olhar para trás. Seus passos eram hesitantes, mas cheios de dor, como se cada um deles fosse um desabafo silencioso.
Foi quando uma mão surgiu das sombras e o agarrou pela cabeça, tapando sua boca.
Um cheiro metálico e estranho tomou o ar.
Drax arregalou os olhos ao ver a cena. Seu corpo reagiu no mesmo instante, avançando, mas antes que pudesse dar um passo, sentiu algo pesado acertar sua cabeça por trás.
O mundo girou.
A dor foi seca e rápida, como um trovão silencioso dentro do crânio. Sua visão se embaralhou, e os sons ao redor se tornaram distantes, como se estivesse submerso.
— Koran... — murmurou, com a voz falha, tentando erguer a mão em direção ao irmão.
Mas era tarde demais. Tudo ficou escuro. Drax caiu no chão com um baque surdo, e o silêncio tomou conta do beco.
A chuva continuava a cair, mais forte.
O nome de Koran nunca chegou a sair de seus lábios.
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