⚡──────👾──────⚡
Enquanto Samuel avançava pelo labirinto metálico do laboratório, o ambiente ao seu redor parecia vivo, observando cada um de seus movimentos. O silêncio ali era sufocante, e o cheiro metálico da ferrugem impregnava o ar. Pequenos estalos ecoavam nos corredores abandonados, como se os restos daquele lugar estivessem sussurrando segredos esquecidos.
No alto, uma câmera girou lentamente, sua luz vermelha pulsando como um olhar atento e implacável.
Atrás daquela lente, uma figura permanecia nas sombras, sua silhueta recortada pelo brilho pálido dos monitores. Ele inclinou a cabeça levemente, intrigado, e então ampliou a imagem, focando no rosto sério de Samuel.
— Como ele entrou...
— Esse rosto... essa roupa...
O homem expirou lentamente, seu fôlego quase se fundindo com o zumbido das máquinas ao redor.
— Parece que temos visita, Sylas...
Dois olhos vermelhos brilhantes surgiram na escuridão ao lado dele e um rosnado é emitido.
--- 💫 ---
Samuel sentiu uma mudança sutil no ar. Era diferente do cheiro velho estagnado que impregnava aquele laboratório esquecido. Algo ali rompia a frieza mecânica, uma presença natural e pura dissolvendo o peso da ferrugem e da morte.
Ele caminhou sem hesitar, seguindo aquele chamado silencioso. Adiante, uma porta entreaberta se destacava entre os corredores frios e iluminados por luzes pálidas. O metal gasto rangia levemente quando ele a empurrou.
O que encontrou do outro lado era algo inesperado.
O laboratório artificial e sufocante se abria para um espaço vivo, como se um pedaço de outro mundo tivesse sido arrancado e selado ali dentro. No centro daquele ambiente, uma árvore imensa crescia a partir da terra. Suas raízes rasgavam o piso metálico, espalhando-se em um abraço firme e inabalável, como se reivindicassem o espaço para si. Seus galhos estendiam-se com imponência, tocando o teto de vidro que se projetava sobre o laboratório como uma cúpula esquecida pelo tempo. E suas folhas...
Eram rosadas.
Elas brilhavam suavemente, como se guardassem fragmentos de luz dentro de si, dançando ao menor sopro de ar.
Ao redor da cerejeira, o solo não era de metal, mas de um gramado verde e vivo, pontilhado por pétalas caídas. Pequenos córregos cristalinos serpenteavam entre as raízes, refletindo as luzes suaves que escapavam das folhas. E no alto, acima daquela cúpula esquecida, um céu artificial mostrava-se como um quadro pintado de azul pálido, com rastros tênues de nuvens.
Aquele lugar era um milagre. Um santuário de vida no coração da ruína.
Samuel permaneceu imóvel, seus olhos absorvendo cada detalhe. Não era apenas a beleza daquele espaço que o fascinava... mas sim o fato de que, mesmo em meio ao esquecimento e ao abandono, algo ali ainda florescia.
E aquilo significava algo.
P.A então diz:
— Esse foi um dos nossos primeiros experimentos que deram certo. A criação pura da natureza junto com a frieza da tecnologia.
— Não é diferente do que você viu lá na torre. Essa mesma criação nos fez salvar inúmeras espécies de plantas, vegetação e, incluindo, grande parte de animais de pequeno porte.
Samuel se aproxima levemente da árvore, tocando-a.
— Se vocês conseguiram salvar a natureza por meio da tecnologia, por que ainda estão em conflito? Isso não acabaria com todo esse sofrimento?
— Uma ótima pergunta. Embora nossa criação tenha sido um sucesso total, a razão pela qual ainda estamos em conflito é que a verdadeira paz não pode ser alcançada apenas com soluções tecnológicas. As outras I.As acreditam que, para preservar a natureza, devemos forçar uma separação radical entre os humanos e o ambiente natural. Elas veem o contato humano, por mais controlado que seja, como um risco irreparável.
P.A faz uma pausa, suas palavras mais ponderadas agora.
— O que elas não entendem é que a tecnologia, quando usada de maneira consciente e equilibrada, pode ser a chave para restaurar o mundo sem destruir as pessoas. Mas, para elas, é difícil ver os humanos como aliados quando o erro deles foi justamente o excesso, o abuso do que a natureza oferece. Elas veem a guerra como uma consequência natural da falha humana em entender esse limite.
Ela respira fundo antes de continuar.
— Portanto, o que nos impede de acabar com a guerra não é a falta de uma solução, mas a falta de compreensão. As outras I.A.s não compartilham a nossa visão, Samuel. Elas ainda acreditam que a única maneira de salvar o planeta é afastar a humanidade dele. Mas, ao fazer isso, elas condenam também os próprios seres humanos à extinção, esquecendo que há mais de uma maneira de equilibrar o mundo.
Samuel desviou o olhar por um instante, observando as pétalas rosadas espalhadas pelo chão. Mesmo ali, onde a vida resistia contra tudo, a guerra ainda encontrava um jeito de existir. Ele sentiu o peso silencioso daquela contradição — salvar o mundo nunca foi apenas sobre vencer, mas sobre escolher quem ainda teria o direito de existir nele.
O dispositivo de Samuel ofusca um pouco, parecendo que ela observava aquela árvore.
— Se não fosse por você, tenho certeza que os humanos não iriam ter sobrevivido por tanto tempo assim. — Samuel diz.
P.A fica em silêncio por um momento. Ela não esperava uma resposta dessas.
De repente, Samuel escutou um som baixo, passos furtivos e rápidos. Ele, ainda tocando a árvore, percebeu uma mudança no ar antes que seus instintos o alertassem.
Uma sombra se moveu rapidamente entre as raízes da árvore, mas quando ele olhou para baixo, não viu nada de imediato. O som aumentou, tornando-se mais intenso, e então, uma figura gigantesca apareceu, saindo das sombras: um tigre de olhos brilhantes, com uma pelagem negra como a noite, marcada por listras douradas que pareciam brilhar à luz suave das folhas de cerejeira. Ele se posicionou entre Samuel e a árvore, seu corpo poderoso, seus músculos tensos como se estivesse pronto para atacar a qualquer momento.
O tigre rosnou, a vibração de seu rugido ecoando por todo o espaço. Sua postura era ameaçadora, mas seu comportamento calculado indicava que ele estava ali com um propósito. Cada movimento seu era preciso, como se tivesse sido treinado para agir em defesa.
O tigre avançou com precisão, seus olhos dourados fixos em Samuel, que percebeu a calma estratégica nos seus movimentos. Não era um ataque impulsivo, mas algo calculado. Cada passo do tigre parecia medir Samuel; qualquer hesitação seria o sinal para atacar.
O ar ao redor ficou mais denso, como se a tensão que emanava do tigre fosse palpável, carregando consigo a ameaça de algo iminente. O rugido do tigre parecia ainda ressoar nas paredes do ambiente, como um aviso de que a batalha estava prestes a começar. Mas Samuel não se moveu. Ele manteve-se firme, sabendo que qualquer gesto errado poderia ser fatal.
De repente, uma voz grave cortou o silêncio, fazendo o tigre interromper sua aproximação.
— Tire a mão da árvore se não quiser morrer, agora.
A voz era clara e impositiva, e Samuel, com um movimento lento, retirou a mão da árvore, seu olhar fixo no tigre. Ele deu um passo para trás, sentindo uma onda de energia ao seu redor, e uma barreira de luz se formou, envolvendo-o. A sensação de estar preso não passou despercebida, mas ele sabia que não havia como escapar dali de imediato.
O som de passos pesados ecoou pelo ambiente e, em um movimento rápido, alguém surgiu ao lado do tigre.
Era um homem de estatura média, com olhos azuis penetrantes e cabelo branco, um contraste com a rudeza do ambiente ao seu redor. Seu jaleco estava amarrado na cintura, como se a vestimenta, outrora ligada à ciência, agora fosse um simples adereço usado sem cerimônia. Ele vestia uma camisa velha, de tecido surrado, e calças formais, mas o que realmente chamava a atenção era a cicatriz em sua testa, uma marca de algum sofrimento antigo.
— Não há muito o que você possa fazer agora. Se tocar, seu corpo inteiro irá queimar por completo. — Disse o cientista, sua voz fria e calculista.
P.A. percebeu imediatamente quem ele era.
— É ele... Lucius... — Ela murmurou, sua voz carregada de um tom de desconfiança.
— O que você faz aqui? Aqui não é lugar para mendigos como você. — Lucius esbravejou, com desdém, os olhos brilhando com um leve toque de arrogância.
Samuel, mais uma vez, não ousou responder, sabendo que o homem diante dele não falaria sua língua, e que qualquer tentativa de comunicação seria inútil.
— Vai ficar aí parado e em silêncio? Patético... — Lucius zombou. Ele então notou o dispositivo no ouvido de Samuel, e um calafrio percorreu seu corpo. As lembranças traumáticas que ele havia tentado esconder vieram à tona, como uma onda avassaladora, e ele sentiu um arrepio gelado em sua espinha.
Samuel percebeu a mudança súbita na postura do cientista. O medo que Lucius tentava ocultar ficou evidente, mesmo que seus olhos se esforçassem para esconder. A tensão na atmosfera aumentou, e Samuel percebeu que algo maior estava prestes a acontecer.
Com movimentos lentos e cuidadosos, Samuel levantou a mão até o dispositivo em seu ouvido, o pressionando suavemente.
— O que você está fazendo? — P.A. questionou, sua voz com uma pontada de ansiedade.
— Confie em mim. — Samuel falou com suavidade, mas com firmeza, enquanto retirava o dispositivo do ouvido e o colocava cuidadosamente no chão.
— Sem tecnologia. — Sua voz foi clara e tranquila.
Lucius olhou fixamente para Samuel, percebendo o que acabara de acontecer. Ele franziu a testa, uma expressão de confusão surgindo, enquanto um pensamento passava pela sua mente. Como um humano como ele, com aquelas roupas e aparência, poderia saber um idioma tão... esquecido?
— Como você sabe esse idioma? — Lucius perguntou, seus olhos estreitando, uma mistura de desconfiança e apreensão se formando.
Samuel não respondeu imediatamente. Ele não compreendia as palavras de Lucius, mas seus olhos mantinham uma calma quase inabalável, desafiando qualquer reação impulsiva.
Lucius pensou rapidamente. Parece que ele não entende meu idioma. Aquele dispositivo... deve ser o que o ajuda a compreender... interessante...
Lucius fez um gesto brusco com as mãos, ordenando que Samuel colocasse o dispositivo de volta no ouvido. Ele não estava disposto a arriscar mais uma conversa sem a compreensão completa da situação.
Com a mesma expressão serena, Samuel atendeu ao pedido e colocou o dispositivo de volta.
— Agora você me entende, não é? — Lucius perguntou, sua voz agora mais incisiva.
Samuel balançou a cabeça, confirmando que finalmente compreendia o que o homem dizia.
— Eu conheço seu idioma. Você pode falar com palavras. — Samuel disse, suas palavras carregadas de tranquilidade.
Lucius fixou os olhos em Samuel, claramente desconfiado. A situação se arrastava por mais tempo do que ele gostaria, e havia algo em Samuel que o perturbava profundamente. Mas, ele precisava de respostas.
— O que você faz aqui? — Lucius insistiu, sua autoridade na voz agora mais evidente.
Antes que Samuel pudesse responder, uma voz suave, mas carregada de urgência, emanou do dispositivo.
— Eu preciso da sua ajuda... — Disse P.A., sua voz tão suave quanto uma brisa, mas carregada de tensão.
Lucius parou, a expressão de desdém desaparecendo de seu rosto e dando lugar a uma preocupação crescente. O pânico se espalhou por seu corpo de maneira quase instantânea, uma onda de terror invadindo-o com força. As lembranças que ele havia tentado enterrar agora voltavam à tona, levando-o ao limite de sua sanidade. Ele cambaleou para trás e caiu no chão, suando frio, os olhos demonstrando um medo profundo.
Sylas, o tigre, percebeu a mudança no comportamento de seu dono e avançou com fúria. Seu instinto de proteção o dominava, sua raiva se tornando palpável. Ele saltou em direção a Samuel, seus músculos prontos para atacar.
— Sylas! Não! — Lucius gritou, mas sua voz foi ofuscada pela determinação do tigre.
Lucius sabia que a barreira de energia ao redor de Samuel não era real. Era uma ilusão, uma estratégia para enganar os inimigos e mantê-los presos. Mas, quando o tigre se lançou contra Samuel, atravessando a barreira sem hesitar, o que aconteceu a seguir foi brutal.
O animal não hesitou. Ele atravessou a barreira de energia, sem se importar com a ilusão de segurança que ela oferecia, e lançou-se contra Samuel.
Com uma rapidez impressionante e uma precisão controlada, Samuel se moveu no exato instante em que Sylas avançou. Em um giro ágil, ele desviou do ataque, usando apenas o antebraço para redirecionar o corpo do tigre. O impulso da investida fez Sylas perder o equilíbrio, colidindo contra a parede e caindo pesadamente sobre uma pilha de ferros enferrujados. Um grito de dor cortou o ar, ecoando pelas paredes do ambiente, à medida que um dos ferros se cravava de forma trágica no pescoço do tigre. Samuel permaneceu imóvel, observando em silêncio — não por frieza, mas por saber que aquele fim jamais fora sua escolha.
Lucius, atônito, correu até o animal, caindo de joelhos ao lado dele, enquanto a dor de ver seu companheiro em agonia tomava conta de seu ser.
— Não! — Lucius gritou, sua voz quebrada pela dor, suas mãos trêmulas tentando amparar o tigre, mas sem conseguir aliviar a dor.
Ele se inclinou sobre Sylas, murmurrando em desespero.
— Não... não... não... — repetiu, seu rosto contorcido em angústia.
O cientista então olhou para Samuel, seu rosto uma mistura de dor e fúria.
— O que você fez?! — Ele gritou, sua voz carregada de raiva e desespero.
As mãos de Lucius estavam sujas de sangue. O medo, a raiva, e a dor se entrelaçavam em seu peito, como se um monstro interno estivesse tentando rasgar sua pele. Mas, mais do que qualquer outra coisa, era a dor de perder alguém que ele mais amava no mundo. Sylas era sua única companhia verdadeira, sua única conexão com algo que poderia chamar de "família". E agora ele estava à beira da morte bem ali, diante de seus olhos, sem que ele pudesse fazer nada.
Lucius apertou o corpo do tigre contra o peito, sentindo o calor desaparecer aos poucos. Tudo o que ele havia feito — cada escolha, cada experimento, cada erro — tinha sido para não ficar sozinho outra vez. E agora, no silêncio daquele lugar, ele percebeu que estava prestes a perder a única coisa que ainda o mantinha humano.
Uma raiva pura e intensa começou a crescer dentro de Lucius, como se quisesse descontar toda aquela dor em Samuel. Mas antes que ele pudesse agir, Samuel se aproximou dele com calma absoluta, sua presença tranquila, quase inabalável.
Lucius, seus punhos cerrados e dentes trincados, avançou furiosamente.
— Você vai pagar por isso! — Lucius gritou, sua voz preenchida com toda a fúria que ele sentia. Ele encarou Samuel, esperando alguma reação, mas Samuel não se moveu. Ele apenas permaneceu em silêncio, como se a raiva de Lucius fosse irrelevante.
Samuel se ajoelhou lentamente, colocando uma mão sobre o pescoço de Sylas, que ainda se debatia com os últimos suspiros da vida. Ele, então, colocou a outra mão no peito de Lucius, com a calma de quem não se apressava, mas que sabia exatamente o que estava fazendo.
A raiva de Lucius borbulhava em sua mente. Tudo isso… foi culpa minha…
Mas, antes que seus pensamentos tomassem forma, ele foi interrompido por algo indescritível.
A mão de Samuel começou a brilhar.
A luz era suave, quase serena, mas havia nela uma intensidade silenciosa, como se algo profundo estivesse sendo arrancado de dentro dele. O brilho pulsou uma única vez, mais forte, e Samuel cerrou os dedos por um breve instante, o maxilar tensionando-se de forma quase imperceptível.
Lucius observou, desconcertado, enquanto a luz se espalhava da mão de Samuel, envolvendo o corpo do tigre. O sangue começou a desaparecer, os ferimentos se fechando lentamente, como se o tempo estivesse sendo forçado a voltar atrás. O brilho oscilou, vacilante… e então se dissipou.
Sylas respirou novamente.
Não havia mais dor. Não havia mais ferimentos.
Samuel retirou a mão do tigre, mas seu corpo demorou um segundo a responder. Ele deu um passo curto, como se o chão tivesse se tornado instável por um instante. A luz em seus olhos pareceu se apagar levemente antes de se recompor.
Lucius, sem palavras, observou o milagre diante de seus olhos, incapaz de compreender o que acabara de acontecer.
Samuel retirou sua mão do peito de Lucius, e o cientista, completamente paralisado, mal podia acreditar no que acontecia.
— Você... você salvou ele...? — Lucius murmurou, com a voz cheia de incredulidade.
— Ajude-a. Ainda há tempo. — Samuel respondeu com simplicidade, sua voz clara, mas carregada de uma urgência silenciosa.
Lucius, ainda sem acreditar no que acontecera, olhou para Sylas. Ele estava perfeitamente bem, os olhos brilhando com vitalidade renovada. Mas, apesar do susto, o medo que Lucius sentia não era maior do que o medo de perder o único ser que ele realmente importava. Ele sabia, naquele momento, que não tinha mais escolha. Seu coração ainda estava cheio de medo, de sombras de um passado que ele queria esquecer, mas a visão de seu tigre vivo e saudável o fez entender que, de alguma forma, Samuel talvez não fosse seu inimigo.
Com um suspiro pesado, Lucius se levantou. Ele ainda sentia a tensão em seu corpo, mas a desesperança havia sido substituída por uma aceitação relutante. Ele sabia que, de alguma forma, teria que ajudar.
Samuel, com um olhar de determinação, aguardava, sabendo que havia mais do que os olhos de Lucius podiam ver. O futuro ainda estava em jogo — e Samuel sabia que toda esperança sempre cobra um preço.
⚡──────🌟──────⚡

