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O Herói Dos Esquecidos: O Eclipse do Futuro
13 |💫| O Cientista Perdido
2119 palavras • 12550 caracteres • ⏱ 8 min 29 s

13 |💫| O Cientista Perdido

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A cidade subterrânea se estendia à frente de Samuel como um labirinto de ferro e sombras. Ele avançava sem pressa, mas com passos firmes, ignorando os olhares que recaíam sobre ele como lâminas ocultas no escuro. O lugar pulsava com uma energia inquietante — um reflexo da luta diária pela sobrevivência naquele ambiente esquecido.


O ar era denso, impregnado com o cheiro metálico de ferrugem e óleo queimado. As paredes de concreto úmido estavam cobertas por encanamentos expostos, alguns vazando vapor quente que se dissipava em nuvens esbranquiçadas. Fiações improvisadas pendiam do teto, lançando faíscas ocasionais que iluminavam os rostos cansados dos habitantes.


Samuel caminhava em silêncio, sentindo os olhos atentos que o seguiam. Não era apenas sua presença que os incomodava, mas também o pequeno dispositivo em seu ouvido. Em um lugar onde a tecnologia de ponta era rara, qualquer um que possuísse algo assim chamava atenção.


Havia olhares de desconfiança, de medo e, principalmente, de malícia. Alguns tentavam avaliá-lo, procurando sinais de fraqueza, talvez considerando a possibilidade de atacá-lo. Mas ninguém ousava dar o primeiro passo. Samuel se movia de maneira calculada, sua postura firme e olhar atento enviavam uma mensagem clara: ele não era um alvo fácil.


Ainda assim, Samuel sentiu algo mudar. Passos não acompanhavam os seus, mas também não se afastavam. Sempre que dobrava uma esquina, a sensação persistia — alguém mantinha distância demais para ser casual.


A violência era parte da rotina ali. Em cada esquina, alguém empurrava outro contra uma parede; mais adiante, um pequeno grupo discutia em voz baixa antes que um dos homens sacasse uma lâmina oculta. Ninguém interferia. A cidade subterrânea não era apenas esquecida — ela era um lugar onde apenas os mais fortes e astutos sobreviviam.


Samuel seguiu adiante, passando por vielas menos movimentadas à medida que avançava. A multidão ficou para trás, e o som dos passos alheios tornou-se um eco distante. Ainda assim, a tensão no ar não desapareceu.


Ele quebrou o silêncio.


— Desculpe, mas quem exatamente é esse professor que estamos procurando?


Houve uma breve pausa antes de P.A. responder.


— Você faz muitas perguntas para um humano. Mas não tem problema. — Sua voz manteve o tom usual.


Samuel permaneceu calado, esperando que ela continuasse.


— Como já mencionei antes, Lucius Arkwright. Ele foi um dos cientistas que ajudou na criação do núcleo da Cidadela. Sua capacidade de manipular tecnologia para impulsionar a ciência nos permitiu avanços significativos.


Samuel absorveu a informação antes de fazer a próxima pergunta.


— Mas se ele foi apenas um entre vários cientistas... Então por que estamos atrás dele especificamente?


P.A. fez uma breve pausa. Não parecia estar apenas organizando dados — havia uma hesitação ali.


— Bem... apesar de sua personalidade tímida e reservada, Lucius Arkwright se destacou. Seu intelecto o colocou entre os cientistas mais brilhantes do planeta.


— Isso ainda não responde minha pergunta. — A voz de Samuel permaneceu firme. — Se ele era tão essencial, por que ele está vivendo aqui, nesse lugar esquecido?


Dessa vez, o silêncio foi mais longo.


Quando P.A. finalmente falou, sua voz parecia diferente.


— Décadas atrás, houve um massacre. Robôs localizaram nossa posição e tentaram nos exterminar. Falharam. Mas o custo foi alto.


Samuel não reagiu de imediato, mas algo naquela afirmação pareceu carregar mais peso do que apenas um fato histórico.


— Ele estava morrendo. — A voz de P.A. parecia... contida.


Samuel estreitou os olhos.


— Então... o que você fez?


— Eu fiz o que era necessário para mantê-lo vivo.


A resposta foi fria, direta. Mas Samuel sentiu que havia mais por trás daquelas palavras.


— Seja mais específica.


Outro silêncio. Então, P.A. prosseguiu, e dessa vez, seu tom era diferente.


— Implantei um chip em seu cérebro. Ele acelerou seu processo de regeneração, prevenindo sua morte. Mas... Lucius não queria isso. Ele queria ter morrido naquele dia.


Samuel permaneceu impassível, mas sua atenção estava fixa no que ela dizia.


— Ele odiou a ideia de ter um dispositivo implantado em sua mente, principalmente um criado por mim. Disse que era pior do que morrer. Para ele, aquele chip significava que seu destino já não era mais dele... que eu havia roubado sua escolha.


— Ele colocou a culpa em mim e passou a ver a minha existência como uma ameaça.


Samuel absorveu aquelas palavras.


Mas antes que pudesse formular sua próxima pergunta, um ruído súbito ecoou em seu ouvido. A voz de P.A. falhou, um chiado metálico substituindo sua presença.


— Ele sabia que eu não podia...


A transmissão foi cortada.


Samuel franziu o cenho e tocou o dispositivo em seu ouvido. A luz indicativa piscava de forma irregular.


— Droga... não! — A voz de P.A. retornou para si em um breve instante, carregada de frustração. — Perdi a conexão com ele...


Samuel parou. Olhou ao redor. Algo havia interferido na comunicação. Mas o quê?


Ele fechou a mão em um punho, ajustando o capuz sobre a cabeça. A cidade subterrânea se estendia à sua frente, repleta de sombras e segredos. E, entre aquelas ruas esquecidas, um cientista que queria ter morrido ainda insistia em viver.


O silêncio que dominava o lugar parecia um aviso. Algo o aguardava nas profundezas.


Samuel estava pronto.


Enquanto ele avançava, P.A. observava tudo através do dispositivo. Pela primeira vez, algo na conexão parecia distorcido, quase frágil. A voz que usualmente soava precisa e impessoal agora carregava uma inquietação silenciosa, algo que ela mesma não conseguia compreender.


— Ele não vai conseguir sem mim... Eu sei disso. — A voz de P.A. falhou, e um leve tremor a traiu, uma hesitação que nunca havia mostrado antes. — Mas o que eu posso fazer?


Ela fez uma pausa, os circuitos de seu processamento trabalhando mais devagar, como se a própria incerteza a estivesse paralisando. O silêncio que se seguiu parecia engolir sua racionalidade.


— Isso não foi uma falha aleatória, alguém fez isso. — O pensamento a incomodou mais do que deveria. — Será que fui descuidada demais com esse dispositivo?


Ela reduziu os próprios ciclos de processamento, tentando estabilizar a anomalia.


— Mas... ele chegou até aqui praticamente sozinho. Ele pode se virar. Ele se virou até aqui. — A frase saiu quase como uma tentativa de consolar a si mesma, mas não havia confiança real nela. A dúvida estava lá, latente.


Enquanto isso, Samuel continuava sua caminhada pelas vielas da cidade subterrânea. Seus passos eram firmes, mas o ambiente ao seu redor parecia se fechar sobre ele como uma armadilha silenciosa. Cada canto escuro, cada sombra que se estendia, trazia uma sensação de vazio, como se aquele lugar já tivesse sido consumido pela própria perda.


Ruídos de passos apressados e discussões abafadas se mesclavam com o som de metal rangendo, como se as próprias paredes estivessem sufocando. Samuel se manteve impassível, seu olhar atento, analisando cada movimento, cada detalhe.


O ar pareceu mais pesado. Não era silêncio — era contenção. Então, um som cortou o silêncio da noite. Choro.


Era fraco, abafado, mas suficiente para prender sua atenção. O som parecia vir de um beco distante. Ele parou, sua expressão se endurecendo, como se uma sensação familiar o tivesse atingido no centro.


Medo. Dor. E mais do que isso.


Era algo que ele já havia sentido antes, mas desta vez, havia algo mais profundo, algo mais sombrio. A sensação de perda.


Samuel estreitou os olhos, focando sua visão no beco estreito à frente. Algo se movia ali, algo que ele não conseguia distinguir completamente. Mas havia algo humano naqueles ruídos, algo que lhe parecia desesperado.


— O que ele tá fazendo...? Ele não vai entrar ali, né? — P.A. havia questionado algumas horas antes, mas o dispositivo já estava mudo. Ela não conseguia mais alcançá-lo.


Sem hesitar, ele seguiu em direção ao beco.


— Isso é uma armadilha!! O que você está fazendo aí, humano?! — P.A. gritou mentalmente, mas não houve resposta.


Ele avançou com a calma que sempre o caracterizava, movendo-se pela escuridão como se ela fosse sua aliada. Quando ele chegou mais perto, a figura de uma criança tornou-se visível, escondida entre as sombras. Seu corpo estava curvado, os joelhos abraçados ao peito, o rosto escondido entre os cabelos loiros e sujos.


A visão daquela criança, com seu vestido branco manchado, parecia completamente deslocada em um lugar como aquele. Ela não deveria estar ali. Ninguém deveria.


Samuel se sentou calmamente ao lado dela, sem pressa, sem pressões. Ele sabia que não era sobre palavras apressadas, mas sobre dar o tempo certo para que ela se abrisse.


Ele observava a menina, sentindo o peso de sua dor, da mesma forma que o mundo ao redor parecia carregar o fardo da desesperança. Tudo estava em silêncio, exceto pelo leve som dos soluços da criança, uma melodia dolorosa que se misturava com a escuridão.


Finalmente, depois de um tempo que parecia não passar, ele falou, sua voz baixa, mas firme.


— Esse não é um bom lugar para você. — Ele disse, suas palavras suaves, mas carregadas com uma sensação de verdade imutável. — É escuro e solitário.


A menina não respondeu. Apenas deixou as lágrimas rolarem, soluços interrompendo seu choro. Samuel observou, sem pressa, e com a mesma tranquilidade que sempre tinha, ele fez uma nova pergunta.


— Por que está chorando? Algo aconteceu?


Ela soluçou, as palavras sendo arrastadas pela dor.


— Sim... — Ela respondeu, a voz fraca e quebrada, como se estivesse lutando contra algo muito maior do que ela. — Está doendo muito... Meu pai... minha mãe... Não quero... não quero...


Samuel sentiu a dor dela. Ele conhecia essa sensação. Sabia que a dor tinha o poder de consumir tudo, de devorar até a última fagulha de esperança. Ele viu o que acontecia com aqueles que não conseguiam se livrar dela, aqueles que se perdiam na escuridão, sem saber mais quem eram.


Mas ele não iria permitir isso.


A pele da menina começou a escurecer, como se as sombras tentassem puxá-la para dentro de si, para a escuridão total. Samuel sentiu a pressão, mas manteve a calma.


Ele respirou fundo, a presença dele se tornando ainda mais tranquila e firme.


— Eu sei o que você sente. — Ele falou com a mesma voz serena. — A dor te envolveu, mas ela não pode te definir. Você não nasceu para ser engolida pela escuridão. Não importa o quanto ela tente te puxar... Há algo dentro de você que brilha, algo que você pode alcançar. Se escolher não desistir.


— Às vezes, tudo o que precisamos é de alguém que nos dê a mão, que nos guie até a luz que sempre esteve dentro de nós.


A menina levantou a cabeça lentamente. Samuel percebeu um detalhe, um detalhe que o deixou mais firme em sua decisão.


Havia um único buraco de bala em sua testa.


Samuel sabia o que havia acontecido, ele viu tudo nos olhos dela.


Suas lágrimas caíam livremente, mas algo havia mudado. Ela olhou para Samuel, e seu olhar começou a clarear.


— Você tem certeza...? — Ela perguntou, a dúvida ainda presente em sua voz.


Samuel sorriu, a confiança e a segurança de sua presença transbordando.


— Claro que tenho. — Ele disse, estendendo a mão para ela com toda a gentileza que ele era capaz. — Eu estou aqui. Você não está sozinha.


Ela hesitou por um momento, mas então, com um movimento tímido, estendeu a mão e segurou a de Samuel.


O toque era suave, mas havia uma conexão que transcendia o físico. Era como se, naquele simples gesto, ela estivesse começando a se libertar da prisão da dor.


— Eu vou ver meu pai e minha mãe de novo...? — Ela perguntou, sua voz quebrando de tanto desejo, de tanta esperança perdida.


— Com certeza. Eles estão esperando por você. — Samuel disse com um sorriso sincero, sua voz carregada de certeza.


Lágrimas suaves escorreram pelo rosto da menina enquanto ela olhava para ele. A escuridão ao seu redor começou a se dissipar lentamente, fragmentos de luz começando a se espalhar.


A menina brilhou, como se sua alma estivesse finalmente sendo liberta. Ela se levantou lentamente, e então, sem dizer mais nada, ela abraçou Samuel, um abraço quente e cheio de gratidão.


— Obrigada... — A menina sussurrou, suas palavras cheias de uma paz que ela nunca soubera que poderia sentir.


E então, como uma estrela que se apaga no céu, ela se desfez em uma luz suave, uma luz que foi absorvida pela escuridão. O beco, antes dominado pela escuridão, voltou a ser apenas mais um lugar sombrio na cidade.


Samuel permaneceu ali, no silêncio. Mas seu coração estava em paz.


O mundo ainda tinha luz.  

Enquanto ela existisse, ele seguiria.


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