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Samuel desceu pela passagem estreita, seus passos firmes ecoando contra as paredes úmidas de pedra e metal. A escuridão era quase total, engolindo qualquer vestígio de luz que pudesse escapar da superfície. O ar era denso, carregado de umidade e um leve cheiro de ferrugem, como se aquele túnel não tivesse sido pisado por muito tempo.
A cada metro percorrido, a sensação de confinamento se intensificava. As paredes pareciam se fechar ao seu redor, e o silêncio absoluto criava a ilusão de que aquele túnel não tinha fim. Mas então, conforme avançava, pequenas luzes começaram a surgir. No início, eram apenas pontos fracos, tremeluzindo como vaga-lumes distantes. Depois, tornaram-se faixas brilhantes embutidas nas paredes, revelando o caminho sinuoso à sua frente.
O túnel se alargou, e a penumbra cedeu espaço para uma claridade artificial. À medida que a descida chegava ao fim, o ambiente se transformava. O chão áspero de pedra deu lugar a um material metálico bem trabalhado, e a umidade foi substituída por um ar mais seco e carregado de eletricidade estática. Então, a passagem se abriu para uma visão monumental.
Diante de Samuel, uma vasta cidade subterrânea se revelava. Construções de metal e concreto se erguiam em diferentes níveis, conectadas por pontes suspensas e passarelas improvisadas ligando os diferentes andares. Luzes artificiais pendiam das estruturas, iluminando as ruas estreitas abaixo.
Logo à frente, uma grande estrutura metálica sustentava um letreiro envelhecido, iluminado por luzes fracas piscando de tempos em tempos. Nele, uma única palavra estava gravada em letras firmes e gastas pelo tempo:
UNDERGROUND
Samuel permaneceu imóvel por um instante, sentindo o peso daquele mundo escondido sob a terra. Não era apenas um refúgio. Era um mundo esquecido, pulsando em meio às sombras.
— Impressionante. Parece que você sabe se virar bem, Samuel.
A voz de P.A. ecoou em seu ouvido com uma mistura de curiosidade e reconhecimento.
— Aquele gesto foi bem interessante... Como soube que ele iria entender o que estava dizendo?
Samuel manteve os olhos fixos na cidade à sua frente antes de responder, sua voz calma, mas carregada de certeza.
— As pessoas falam mais do que imaginam, mesmo sem abrir a boca. Respeito não se exige com palavras, mas com postura. Os olhos hesitam, os músculos enrijecem, a respiração muda... Quem conhece o suficiente sabe quando há espaço para um gesto e quando há para um golpe.
Ele então desceu os primeiros degraus da entrada da cidade subterrânea, sentindo os olhares atentos sobre si.
— E aquele homem soube ler a mesma coisa em mim.
P.A. permaneceu em silêncio por um instante, como se processasse a resposta. Afinal, ela percebeu — Samuel não apenas observava as pessoas, ele as entendia. Ele as reconhecia.
Quando Samuel finalmente chegou ao final da escadaria, seus olhos percorreram a grandiosidade oculta sob a terra. A cidade subterrânea se estendia diante dele como um organismo vivo, com construções erguendo-se de forma precária entre os túneis rochosos e passarelas improvisadas conectando os diferentes níveis. As luzes fracas tremeluziam nos postes remendados, lançando sombras nas vielas estreitas e revelando o movimento constante dos habitantes.
Havia pessoas ali. Rostos ocultos sob mantos sujos, figuras silenciosas que se moviam apressadas, algumas carregando sacolas de suprimentos, outras empurrando pequenos carrinhos improvisados. Crianças observavam das sacadas de metal, seus olhos curiosos brilhando na penumbra. Mercadores montavam bancas em esquinas escuras, oferecendo peças de tecnologia desgastadas, alimentos enlatados e ferramentas rudimentares. O ar carregava um cheiro denso de óleo, poeira e eletricidade, misturado ao murmúrio constante das conversas abafadas.
Samuel observou tudo com atenção, cada movimento, cada gesto. A cidade pulsava com uma tensão latente, como se todos ali estivessem em um estado permanente de alerta. Os olhares que cruzavam seu caminho não eram acolhedores; eram desconfiados, rápidos, quase como se cada um estivesse esperando uma razão para agir. Não havia amizade nos rostos — apenas vigilância, pronta para reagir. As expressões eram fechadas, os corpos rígidos, prontos para reagir a qualquer sinal de ameaça.
— Para onde eu devo ir agora? Esse lugar é bem diferente da Cidadela. — Ele murmurou, os olhos ainda analisando cada detalhe ao redor.
P.A. levou um segundo para processar a pergunta de Samuel, e uma leve pausa no áudio indicou que ela estava acessando seus bancos de dados internos. Ele podia imaginar os algoritmos e informações sendo analisados, vasculhando os registros, buscando a resposta.
— O difícil era chegar até aqui... A cidade mudou muito desde a última vez que eu a registrei. O caminho era claro, mas o tempo e os eventos alteraram a estrutura. Agora, é um labirinto de concreto e metal, sem uma ordem definida. — Ela fez uma pausa curta, como se estivesse consultando arquivos antigos. — A Câmara do Eclipse... Não é mais o que era, mas o símbolo... aquele símbolo... ainda está lá. Eu posso ver isso nos dados.
Houve um pequeno ruído eletrônico, uma falha imperceptível, mas que fez Samuel perceber que P.A. estava, de fato, "lembrando" de algo. Quando ela continuou, sua voz parecia um pouco mais distante, como se estivesse processando mais informações em segundo plano.
— Um emblema de metal antigo, um entrelaçado de três arcos. Ele ainda está lá, marcado pela ferrugem, mas sua forma permanece intacta. Você o encontrará nos níveis mais baixos, gravado em uma superfície corroída pelo tempo, atrás de um portão enferrujado. Esse caminho ainda é seguro. Siga-o.
Samuel franziu levemente o cenho, curioso sobre a maneira como P.A. parecia ter acessado suas memórias de forma quase instantânea, como se estivesse revendo dados arquivados.
— Câmara do Eclipse? — perguntou ele, tentando entender o tom da resposta.
— Sim. É um laboratório ou, no caso, era... foi onde eu pude desenvolver a Cidadela e o núcleo. Não estamos indo até lá somente por isso e sim por quem está lá. Há um cientista, o Professor Lucius Arkwright. Ele quem me ajudou com tudo.
— E por que ele está vivendo aqui e não na Cidadela?
— Houve eventos no passado. Informação classificada como irrelevante no momento. Siga os símbolos.
A hesitação na voz de P.A. não passou despercebida por Samuel. Ele sentiu que havia algo mais, algo que ela não estava dizendo, algo importante. Mas ele sabia que ela não falaria mais sobre isso por enquanto.
Samuel desviou de uma criança que corria entre as pernas dos adultos, rindo antes de desaparecer em um beco estreito.
A cidade respirava. E ele precisava encontrar seu caminho dentro dela.
— Ok.
Ele então se moveu, atento, misturando-se à multidão enquanto iniciava seu caminho até tal laboratório.
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