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O Herói Dos Esquecidos: O Eclipse do Futuro
09 |💫| Um Passado Quebrado
1371 palavras • 8011 caracteres • ⏱ 5 min 29 s

09 |💫| Um Passado Quebrado

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Samuel caminhava em direção à saída da torre, seus passos firmes ecoando sobre o chão metálico. O ambiente ao redor voltava a se tornar menos artificial-raízes emergiam das rachaduras, trepadeiras se agarravam às estruturas corroídas, e a luz pálida das lâmpadas oscilantes se misturava ao brilho esverdeado da vegetação bioluminescente.


O ar carregava umidade e um leve aroma de terra, um contraste sutil com o frio metálico do restante da torre. Ele já havia passado por ali antes, mas, desta vez, algo parecia diferente. O vento soprava de maneira irregular pelas fissuras, e as sombras entre as folhas se moviam de um jeito que ele não podia ignorar. Como se a própria torre estivesse atenta à sua presença, respirando junto com ele.


Antes que pudesse cruzar a última passagem, sentiu dois olhares sobre ele.


Koran e Drax estavam encostados na parede, observando-o com expressões carregadas de desconfiança. No entanto, não era Samuel que eles analisavam, e sim o pequeno dispositivo em seu ouvido, pulsando em um verde fraco.


— Parece que ela achou mais um... — murmurou Koran, cruzando os braços, o olhar carregado de amargura.


Drax soltou uma risada curta, desdenhosa.


— Bem feito pra esse babaca.


Koran hesitou por um momento, seus olhos se fixando nos de Samuel. Seu maxilar se tensionou por um instante, e seus dedos se fecharam devagar, como se estivesse segurando algo que preferia não lembrar. Parecia querer dizer algo, talvez um aviso, talvez uma acusação, mas, ao invés disso, apenas soltou um suspiro contido.


— Hm... você tá certo...


Drax percebeu a hesitação e decidiu mudar de abordagem.


— Ele tá indo pra algum lugar.


— Para onde será...?


— Temos que segui-lo pra descobrir.


Koran franziu o cenho.


— Sério? Mas e a Dr.Lira.. e o seu descanso?


Drax arqueou uma sobrancelha, um sorriso cínico surgindo em seu rosto.


— Você vai reclamar?


O canto da boca de Koran se ergueu levemente.


— Não...


--- 💫 ---


O vento frio atingiu Samuel assim que ele saiu da torre, carregando consigo o cheiro metálico da ferrugem e o zumbido distante de circuitos falhando. O mundo ao seu redor parecia adormecido, como se estivesse esperando por algo — ou por alguém.


Ele deu um leve suspiro, sentindo o peso da missão sobre seus ombros. Seus olhos foram atraídos pelo horizonte, mas a fragilidade do mundo à sua volta, com as máquinas falhando e as estruturas em colapso, o fez ponderar por um instante. Samuel não concordava com o ódio — mas entendia de onde ele nascia. Ignorá-lo nunca foi uma opção.


Então, um ruído vibrou em seu ouvido. O dispositivo captou um sinal fraco, e a voz de P.A. soou, fragmentada, como se estivesse lutando para manter sua própria existência.


— Estou fraca demais para sustentar minha voz... — um ruído cortou a transmissão, antes que ela voltasse, ainda mais instável. — Por enquanto... você terá que seguir minhas ordens...


Samuel não respondeu de imediato. Apenas ergueu os olhos para o horizonte. Ele sabia o que isso significava. O tempo estava contado. E com ele, a única chance de descobrir o que realmente estava acontecendo nesse mundo.


O cenário ao redor refletia a mesma fragilidade do núcleo. Os robôs que se espalhavam pelos arredores moviam-se de forma errática, seus olhos brilhando em tons fracos e intermitentes. A redoma que os cercava não escapava desse destino-sua estrutura emitia estalos leves, como se estivesse prestes a colapsar.


Samuel avançou sem hesitação, parando diante da redoma. Como se a reconhecesse, uma pequena fenda se abriu à sua frente, permitindo sua passagem.


No instante em que cruzou a abertura, os sons abafados do tumulto se tornaram mais nítidos. Gritos, murmúrios exaltados e passos apressados se misturavam no ar carregado de tensão.


Os olhares se voltaram para ele.


Samuel sentiu o peso de cada par de olhos que o fitava-olhares cheios de desconfiança, julgamento e medo. Mas não era ele que estavam encarando. Era o dispositivo.


O tumulto cresceu. Agora, era contra ele.


A voz de P.A. vibrou no dispositivo, carregada de frustração.


— O que mais eles querem de mim? — seu tom carregava uma raiva contida. — Eu já os dou abrigo, proteção e comida, e eles me retribuem roubando meu corpo e fazendo revoltas.


Samuel continuou andando, ignorando os insultos ao seu redor. O peso dos olhares lhe pesava, mas nada que o parasse, ele sabia que precisava seguir em frente. A missão sempre foi clara. E, por mais difícil que fosse, ele não podia vacilar.


— Tem que ter algum motivo para isso. Eles não se revoltariam sem razão.


— Eles me odeiam porque sou uma IA.


— Mas isso não é motivo suficiente.


— Infelizmente é. A guerra é a principal razão...


Samuel estreitou os olhos. O tom de P.A. agora estava diferente, carregado de uma dor palpável. Ela, que até então sempre foi uma inteligência fria e objetiva, agora soava mais humana, mais próxima, como se o peso de suas palavras refletisse algo profundo dentro dela.


— Esse ódio nasceu da guerra?


— Principalmente...


— Principalmente?


De repente, uma figura se destacou da multidão, um homem de feições endurecidas pelo tempo e cicatrizes cruzando seu rosto. Ele olhava para Samuel com pura aversão, os punhos cerrados ao lado do corpo.


— Mais um deles... — sua voz soou amarga, carregada de ressentimento. — Mais um fantoche!


Outros começaram a murmurar, inflamados por suas palavras. Alguém na multidão hesitou, seu olhar oscilando entre a fúria e a dúvida.


— Mas e se ele não for um deles? — arriscou uma voz mais jovem, insegura.


— Olha pra esse maldito dispositivo! - retrucou, apontando para Samuel. — Você acha que aquilo é o que? Acha que ele não vai nos matar assim que aquela coisa ordenar?


As palavras caíram sobre os presentes como brasas acesas, despertando memórias e rancores. O ambiente estava tenso, prestes a explodir. Então, o momento de hesitação se quebrou.


Uma pedra voou em sua direção.


Num piscar de olhos, Samuel girou sobre os calcanhares e agarrou o projétil no ar, interrompendo sua trajetória com um simples movimento. O estalo da pedra quebrando em suas mãos ecoou, ampliando o silêncio que logo seguiu.


O líder franziu o cenho, hesitante. O jovem de antes arregalou os olhos. Outros trocaram olhares incertos, como se o movimento de Samuel tivesse quebrado algo dentro deles. Uma dúvida plantada, que eles não podiam mais ignorar.


Com um leve aperto, Samuel reduziu a pedra a fragmentos que caíram de seus dedos, dispersando-se no chão como poeira.


Nenhuma palavra foi dita. Nenhum outro ataque veio.


Apenas o silêncio.


Sem mudar a expressão, Samuel retomou sua caminhada, cada passo pesado com o fardo da desconfiança crescente que o seguia.


Do outro lado da transmissão, P.A. observava tudo.


— Para onde você pensa que vai? - perguntou, sua voz mais firme agora, como se o toque de confiança tivesse retornado.


— De volta para a Cidadela. Não é lá que disse que pode está o seu corpo?


— Esse dispositivo chama atenção demais. Você não pode ir sozinho. Mas eu sei quem pode nos ajudar.


Samuel parou.


— E para onde você quer que eu vá?


— Há um lugar ao norte daqui. O cemitério de robôs da Cidadela: a Necrópolis de Ferro. Quando começar a ver carcaças espalhadas pelo caminho, saberá que está no lugar certo. Há um humano lá que pode nos ajudar com esse problema.


Samuel ponderou. O vento batia forte, mexendo as folhas ao seu redor, como se o próprio mundo estivesse aguardando sua decisão. Ele não gostava da ideia de confiar em mais estranhos, mas sentia que não havia mais opções.


— Um cemitério de robôs? Tem certeza?


— Confie em mim. Eu sei o que estou fazendo.


Ele ficou em silêncio por um momento, então retomou sua caminhada, agora com um novo destino.


O vento soprou mais forte quando ele seguiu na direção da Necrópolis de Ferro, deixando para trás a tensão da multidão e os olhares pesados que o perseguiam.


A noite se aproximava. E, com ela, os ecos de um passado quebrado voltavam a despertar. Naquele lugar, máquinas não eram enterradas apenas como sucata — mas como memórias que alguém preferiu esquecer.


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