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Samuel escutava vozes abafadas, distantes, como ecos perdidos no vazio. Ele abriu os olhos, mas tudo o que encontrou foi escuridão. Um véu denso e sufocante o envolvia, como se o próprio mundo tivesse desaparecido.
Tentou invocar seus poderes, mas nada aconteceu. A energia que sempre ardia dentro dele... não estava lá.
Aquele lugar não apenas o enfraquecia — ele o sufocava.
Então, uma luz fraca surgiu ao longe. Pequena, solitária... quase morrendo. Seu brilho dourado tremulava, lutando para continuar existindo.
Mas ela não estava sozinha.
Uma silhueta se erguia ao redor da luz. Alta, disforme, coberta por sombras que pareciam se fundir ao próprio vazio. Seus olhos — se é que tinha olhos — reluziam com um brilho pálido, quase doente.
O Esquecido.
Ele segurava a luz com delicadeza, como se aquele pequeno fragmento fosse a coisa mais preciosa do mundo. Dedos longos e retorcidos envolviam o brilho fraco, sem esmagá-lo — não ainda. Ele a encarava... devorava... absorvendo sua essência lentamente.
Uma memória distante se acendeu na mente de Samuel. O toque frio e implacável, o rosto sombrio que ele vira naquele primeiro encontro. O Esquecido, com sua natureza sombria, sempre fora uma presença constante em seus pesadelos. Era mais do que um ser: ele era o próprio sofrimento encarnado. E agora, Samuel sentia a velha angústia tomar seu peito novamente.
Ele tentou afastar o pensamento, mas a sensação de déjà vu era inescapável.
Samuel tentou se mover, mas algo o prendeu.
Mãos sombrias emergiam do chão, garras esqueléticas que se agarravam às suas pernas, puxando-o para baixo. Ele se debatia, mas quanto mais lutava, mais forte se tornavam, sugando o pouco de força que ainda restava.
— Me larga...
O sussurro escapou por seus lábios, mas nem ele sabia se realmente havia falado.
O Esquecido ergueu a cabeça lentamente, como se só agora notasse sua presença.
— Você... nunca pertenceu... a isso...
A voz não era apenas um som. Ela ecoava dentro da mente de Samuel, como se cada palavra fosse escrita diretamente em sua alma, queimando suas lembranças. O Esquecido falava com o peso de todas as coisas esquecidas, com o poder da dor e do sofrimento acumulado ao longo das eras.
O ser voltou seus olhos vazios para a luz em sua mão.
— Tudo isso... me pertence...
Samuel reuniu toda sua força e quebrou as mãos que o seguravam por um instante. Ele tentou correr até a luz, mas antes que pudesse dar mais um passo...
O Esquecido simplesmente apareceu diante dele.
Como se o próprio vazio tivesse dobrado o espaço.
Uma mão sombria se fechou em seu pescoço.
Não era apenas força — era lembrança.
Samuel reconheceu aquele toque antes mesmo da dor chegar. O Esquecido o ergueu no ar.
— Você não pode levar o que já foi esquecido...
A pressão em sua garganta era insuportável, mas uma parte de Samuel reconheceu aquilo. Já tinha sentido isso antes. O Esquecido, de alguma forma, estava mais perto do que ele imaginava. Ele não sabia como, mas tudo aquilo parecia... inevitável.
Uma sensação que Samuel conhecia demais, como se o próprio sofrimento se reciclasse em sua alma.
Samuel se debatia, sentindo a pressão esmagando sua garganta. Ele tentou alcançar a esperança que sempre carregava… mas ela estava enterrada sob o vazio. Somente o vazio, o esquecimento e a sensação de estar sendo consumido.
A luz fraca ainda brilhava na mão do Esquecido... até que seus dedos começaram a se fechar.
Lentamente... cruelmente...
A luz tremeu.
— Deixe-a ir...
Samuel estendeu a mão, mas o Esquecido permaneceu imóvel, apenas observando.
— Devolva.
A palavra não foi dita em voz alta — foi imposta ao vazio.
Os dedos sombrios se fecharam por completo.
A luz se apagou.
Samuel sentiu o vazio avançar — não sobre seu corpo, mas sobre quem ele era.
As lembranças começaram a se desfazer, como nomes sendo arrancados da própria existência.
Ele tentou dizer algo, mas o som morreu em sua garganta.
O vazio o engoliu por completo...
E então...
Ele acordou.
Seu corpo se levantou ofegante, como se tivesse acabado de emergir debaixo d'água. Suor frio escorria por sua testa, e seu coração martelava em seu peito.
Samuel estava em uma sala escura, mas sabia que agora era real. Mesmo assim, algo ainda permanecia com ele.
O toque daquelas mãos.
A voz sussurrando em sua mente.
O Esquecido sabia que ele estava ali.
E queria de volta aquilo que fazia Samuel ainda se lembrar.
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