Na cozinha do apartamento, Clarice e Karina terminavam seu café da manhã, enquanto seus pais conversavam na sala.
- Então o seu café é bem diferente da gente, não é? - perguntou Karina ao ver que Clarice tomava o seu café em uma xícara pequena.
- Muito pouco café, três fatias de pão de forma integral com pasta de abacate amassado com limão - a voz de Clarice era amena demonstrando um misto de contentamento com uma leve tristeza por não poder usufruir de um café da manhã maior.
- Você sente fome ao longo do dia?
- O que me faz não ficar com fome é comer frutas. Mas eu sinto medo de ficar muito magra.
Karina pousou sua mão sobre o braço de Clarice.
- Você teve muito apoio até agora. Não vai ser a partir de agora que vamos te deixar.
Clarice então tomou o último gole de café e se levantou.
- Obrigado. Eu só vou tomar minha dose diária de Varfarina e aí nós vamos ver as roupas.
- Esse remédio é pra quê?
Clarice pegou a caixa de remédio e declamou:
- É graças a isso aqui que eu estou viva e posso ter uma vida mais ou menos normal porque é anticoagulante e não deixa que aconteça uma embolia no meu coração!
Karina olhou para Clarice como que admirando uma peça de teatro que adaptava uma tragédia grega.
- Você se daria bem no teatro. Bom , tome seu remédio que eu vou pro quarto ajeitar as roupas
Karina passou pela sala antes de ir para o quarto.
- Karina, vocês já vão ver as roupas para hoje a tarde? - perguntou Barbara.
- Sim , tia. Aliás... Seria bom a gente sair mais cedo pra dar uma olhada nas lojas e aí a gente compra depois que sair do filme? - perguntou Karina.
- É uma boa ideia. Tudo bem pessoal?
William, Isabel e Luciano se olharam.
- É, pode ser. Faz anos que não vou no shopping que a gente vai então vou querer sair mais cedo - disse Luciano.
- Obrigado pai... Ah você tá pronta ! - exclamou Karina ao ver Clarice já com o seu remédio tomando - Vamos lá pro quarto!
No quarto, Karina tira da bagagem a roupa com a qual irá no shopping.
- Prima, eu não trouxe nada pra você mesmo porque não sei qual o seu tamanho, mas eu posso te dar detalhes de como eu me visto, tudo bem?
- Ok. Ver você se vestir vai me dar uma ideia de como isso tudo funciona.
- Tá bom. Vamos começar. Essa é uma saia vinho. Boa pra sair num sábado a tarde.
Clarice visualizou a saia e viu que ela cabia certinho em Karina não pelo tamanho, mas pela forma que ela parecia uma espécie de uniforme.
- É muito a sua cara. Combina com seu cabelo loiro - disse Clarice mexendo nas madeixas de Karina.
- Hmmm obrigado. Eu me sinto como se tivesse saído de um livro usando ela.
Karina mostrou sua jaqueta de couro.
- Eu me sinto como uma guerreira indo pra guerra com ela - Karina abraçou sua jaqueta como um soldado de uma legião romana apegado a sua couraça.
- Guerra contra quem?
Karina então percebeu que era hora de fazer Clarice entender que não era só sobre moda, música e audiovisual, mas identidade.
- Então... A conversa irá para um lado mais sério agora.
Clarice corou de apreensão.
- Seguinte: quando eu estava com o meu grupo gótico do colégio, nós éramos os esquisitos não só da classe, mas do colégio. A gente fugia da normalidade! O nosso modo de vestir e de ser foi, ainda é e será uma afronta ao senso comum. Eu demorei pra entender isso, mas antes de eu entrar pro teatro, eu já tinha entendido o que todo aquele jeito soturno, mórbido e até bizarro era sobre viver dançando em cima da morte.
Para Clarice, esta fala faz sentido. Alguém que ficou à beira da morte estava ouvindo alguém falar sobre "dançar em cima da morte". Mas o que realmente significava?
- Como assim? Dançar sobre a morte? Como é tudo isso?
- Prima, agora eu vou ser mais pessoal, tudo bem?
Clarice estava em uma situação que nunca tinha passado: ver sua prima falar sério sobre algo descontraído como se vestir e assistir filmes e séries.
- Pode falar!
- Quando eu falo sobre dançar sobre a morte, eu penso em você. Eu via você nas videochamadas e você estava debilitada. Você é tão jovem e de repente estava numa cama de hospital, mas agora está melhor do que no começo do ano e estou feliz em te ver assim. Quando você me pediu pra te apresentar o meu mundo, eu não te empurrei nada e vi você assimilar tudo facilmente como se estivesse querendo preencher algum vazio que ficou por causa da cirurgia. É como se você estivesse... se preparando pra seguir o mesmo estilo que o meu.
Clarice abraçou Karina ao ver que sua prima entendeu o que ela queria.
- Prima... Você falando sobre dançar sobre a morte me fez ver que você me entendeu - Clarice chorava ao contar sobre o que sentia - muito obrigado por vir aqui e me mostrar seu mundo porque eu quero fazer parte dele.
- Eu que agradeço por me ouvir. Nem todo mundo nos aceita e você tem que entender isso já que você também quer entrar pro meu mundo. É sobre isso que eu queria conversar com você.
- É tão ruim assim? - Clarice enxugava as lágrimas - O que você já sofreu?
- Nada além de olhares e comentários sobre "volta pro inferno demônio" ou "essa geração tá perdida". Mas lá fora já foi pior. Por exemplo: já ouviu falar sobre o Massacre de Columbine?
- Sim. Eu sei que foi um daqueles ataques armados que rolam todo ano nas escolas dos Estados Unidos. O que aconteceu?
- A mídia na época insistia em dizer que os atiradores eram góticos, mas não eram. Era chamada de "Mafia do Sobretudo". Os caras usavam preto, jogavam RPG e ouviam Marilyn Manson, que eu aliás detesto tanto como músico como pessoa porque metal industrial não me agrada e ele tem fama de ser escroto com as mulheres! Mas enfim... Eles tinham símbolos nazistas e eram obcecados por violência o que não tem nada a ver com o gótico de verdade.
- E o que ocorreu depois?
- Depois disso, teve escola que proibiu roupa preta, maquiagem escura, até mochila com banda. Tudo virou sinal de perigo. Vários filmes e séries começaram a colocar os goticos de maneira esteriotipada.
- Mas e aquela onda do Emo?
- Ali foi uma coisa muito ligada ao som das bandas de hardcore melódico que tavam bombando na época e era um estilo gótico mais popular, mas eu lembro de que não eram vistos como violentos, mas depressivos, principalmente os homens que acabavam sofrendo mais preconceito dos outros grupos. Mas eu gosto de várias bandas dessa época e eu as vejo como variáveis do estilo gótico.
- Você contando essas histórias, eu consigo me ver no meio desses grupos. Eu tenho poucos amigos no meu colégio, nunca fui bem em esportes e quando eu fui, eu quase morri e nenhum garoto me achou feia mas sempre ouvi que eu era sem graça.
- Olha pra mim - Karina segurou o rosto de Clarice com as duas mãos - você tem graça pra mim. Você vai ser amada pelo o que você é por alguém que entende o que você é. Eu me apaixonei pelo Ivo porque gostei do que ele é e porque entendi que o estilo dele fazia parte dele e agora estamos juntos.
- Obrigado prima... mas olhando assim as suas roupas... Não parece um pouco com o punk?
- Hmmm... Bem observado! E é aí onde entra uma parte importante do estilo gótico: a luta anti sistema! Enquanto os punks fazem isso com raiva, nós fazemos isso com melancolia. No final dos anos 70 pra década de 80, surgiram as bandas que nós ouvimos ontem e quando você ler a tradução das letras das músicas, você vai ver muita coisa sobre alienação, isolamento, dilemas existenciais, opressão, crítica a religião como forma de controle social, a decadência política, a repressão ao sexo e tudo mais. Clarice... Não é apenas sobre se vestir e se maquiar. É sobre viver e confrontar o que afronta a vida.
- Eu nunca tinha visto esse estilo por esse lado - Clarice falou baixo, como se estivesse com medo de quebrar o peso da conversa - eu achava que fosse só um estilo, mas saber que tem toda uma mensagem no meio disso tudo me faz querer fazer parte desse mundo. E é como eu disse: eu me sinto deslocada e com poucos amigos e ouvindo você falar sobre confronto , me dá vontade de viver desse jeito. Quando a gente for no shopping, você me ajuda a escolher as roupas?
- Sim. Mas lembre-se que a subcultura gótica tem a crítica ao consumismo porque não é só sobre ter a melhor jaqueta ou a melhor maquiagem, mas é sobre ter a sua própria identidade frente a massificação da sociedade de consumo. A maioria das minhas roupas são customizadas, e essas que estou usando são mais arrumadas porque vim para uma ocasião muito especial: te ver depois da cirurgia.
- Tudo bem prima. Eu só quero ter a minha identidade.
- Sim, porque não é sobre ostentação, mas identidade.
Passado o almoço, a família se arrumou e foi para o shopping duas horas antes do filme começar para verem as roupas e aonde iriam comer depois da sessão.
- Olha meninas, esse coturno parece bom - apontou Isabel para uma vitrine.
- Parece com o meu - disse Karina examinando o calçado - o que acha Clarice?
- Espero que tenha do meu tamanho... porque eu gostei - Clarice estava feliz em poder olhar calçados e vestimentas com a visão que Karina lhe apresentou: olhar e pensar em como ajustar para seu próprio gosto.
- A gente volta aqui depois então - disse William.
A família passeava pelo shopping olhando as vitrines e marcando as lojas que vendiam as peças desejadas em blocos de notas no smartphone, mas era Karina que chamava a atenção. Ela com uma camiseta do Joy Division, uma saia vinho por cima de uma calça de couro. Vestia uma bota cano longo. Lápis e batom preto cintilantes.
- Tem um pessoal chocado com você! - disse Clarice.
- Ficaria surpresa se não estivessem - Karina falava olhando para frente com postura seria - Não sei como nenhum homem me cantou ainda.
- Muitos homens cantam você com esse visual?
- O arquétipo da "gótica rabuda" é fetiche comum em homens que vivem no banheiro explorando suas fantasias. Eles vêem uma garota vestida igual a mim e correm atrás como se fossem cachorros no cio. Aí eu mostro meu anel de compromisso, e eles sossegam.
- Deu um certo medo agora...
- Com ou sem esse visual você acaba sendo alvo de olhares. Ivo já era gótico quando o conheci, então não foi um problema. Mas tem vários que se aproximam só por pura vontade de não ter compromisso. Os que realmente são interessados vão entender que somos mais que meras góticas por trás de toda essa produção.
Clarice entendeu ali que nem tudo era glamour, mas tinha os seus poréns. Assédios, olhares famintos, fetichização de estilos. Não era só por ser gótica. Mas por ser mulher. E gótica.
- Gente, 15 minutinhos pro filme. Vamos lá? - disse William olhando para o relógio.
- Bora ver um filme sobre Fórmula 1 a moda antiga? - perguntou Karina.
- Por quê não? - respondeu Clarice.
No fim da sessão...
- Ah Christian Bale, você não tem uma cara fixa! Sempre mudando! - disse Karina ao sair no final do filme.
- A adrenalina foi boa, mesmo não sendo com os carros de hoje - observou William.
- Eu ainda continuo sem ser fã de Fórmula 1, mas eu senti a emoção do esporte - disse Clarice.
- A gente vai comer primeiro ou ver as roupas meninas? - perguntou Barbara.
- Vamos comer primeiro porque não vai ficar legal a gente carregando um monte de sacola na praça de alimentação - disse Karina pegando o smartphone para ver a lista de lojas onde iriam ver as roupas e o coturno.
Na praça de alimentação, a família terminava seu jantar.
- Matei minha vontade de comer salmão com batata e macarrão, já que isso tá liberado pra mim - disse Clarice satisfeita.
- Pronta para ver as roupas? - perguntou Karina.
- Bora!
A primeira loja tinha uma saia vinho com fenda e era semelhante a que Karina usava.
- Olha, essa aqui dá pra usar não só como eu tô usando, mas também com uma meia calça - explicou Karina.
- Hmmm... a gente poderia ver uma calça igual a sua? - perguntou Clarice notando que a saia era igual a de sua prima.
- Com licença - Karina se dirigiu a um funcionário ao lado dela - Vendedor... Na verdade qual seu nome?
- Cauã.
- Cauã, aqui tem essas calças de couro iguais a minha?
- Sim, aqui mais pra trás tem algumas. Venham comigo.
Havia uma boa variedade de calças de couro. Vários tamanhos também.
- Ah, esse é meu tamanho. Eu vou no provador ver como essa combinação fica.
Já no provador vestindo a calça e a blusa preta e se vendo no espelho, Clarice sentiu que não estava vestindo não só uma roupa, mas uma nova versão de si mesma. Via uma garota com uma identidade, uma força que estava presa dentro dela que agora estava saindo aos poucos.
- Gente, como estou? - perguntou Clarice para sua família ao sair do provador.
- Filha, você ficou até mais adulta com essa roupa - disse Bárbara deslumbrada com o visual de sua filha.
- Você ficou ótima nesse visual - disse Karina - foi feito pra você.
- É essa! Karina, depois me fala que acessórios eu coloco pra customizar?
- Eu costumo fazer isso nas blusas. Vamos levar pro caixa, pagar e aí a gente vai na outra loja para pegar as blusas.
Saia e calça pagos. Próxima loja.
Era uma loja mais simples em comparação à primeira, mas com uma boa variedade de roupas. Por terem entrado na loja antes da sessão de cinema, já tinham um bom conhecimento sobre onde estavam as blusas que queriam comprar.
- Ok, temos as blusas. Mas o que eu poderia colocar pra fazer a tal da customização? - perguntou Clarice.
- Dá pra colocar umas taxinhas em volta da gola. Nada muito espalhafatoso. Às vezes um visual básico já basta.
- Ah obrigado. Já estava preocupada de ter que fazer um monte de colagem mas blusas.
- Daqui já vamos ver a calça de couro e depois vamos ver o coturno certo? E não se preocupe sobre o que colocar na calça, porque eu não sou a única pessoa que sabe de moda gótica. Na internet não faltam vídeos e imagens de combinação de acessórios. Você conhece o Pinterest?
- Sim. É que eu não tenho uma conta por lá.
- Lá é excelente para achar visual de moda. Eu sempre uso.
As compras da calça de couro e do coturno que ocorreram muito bem não era nada para Clarice comparado ao companheirismo que estava tendo com sua família e principalmente Karina.
A prima afastada agora era uma amiga próxima que lhe apresentou um novo mundo em que ela poderia exercer a sua individualidade frente a recuperação pós cirúrgica.
A família chegou no apartamento no final da noite, mas antes de dormirem, arrumaram algumas coisas para o dia seguinte quando Karina e seus pais voltariam para Porto Alegre.
- Passou tão rápido - disse Clarice - mas foi muito bom.
- Prima, também foi pra mim - disse Karina dobrando as suas roupas e colocando em sua mala - foi ótimo rever alguém que eu nunca fui próxima, mas que agora é uma amiga. E que também entendeu o meu jeito de ser.
- Mas antes de dormir... poderia fazer aquela listinha das coisas que você me mostrou? Se você lembrar é claro.
- Eu lembro sim. Me passa um papel e caneta por favor?
- Ah sim. Tem aqui perto.
- Aliás... Que livro era aquele que você estava lendo quando eu cheguei?
Clarice olha para a sua estante de livros e localiza o tal livro.
- Ah este aqui - Clarice retira o livro da estante e o apresenta a Karina - Sobrevivente de Chuck Palahniuk. Ele chegou essa semana pelo correio.
- Ah, eu lembro de ter lido ele no final da minha adolescência. É sobre um cara que sequestra um avião e ele resolve contar pra caixa preta sobre o tempo em que ele foi membro de uma seita apocalitica.
- Eu tô no começo, então sem spoilers!
- Tá bom prima. Mas o livro é ótimo. Deixa eu escrever a listinha e aí a gente vai dormir.
- Tudo bem.
No dia seguinte, lá estavam Karina e seus pais no saguão de Aeroporto de Congonhas se despedindo de Clarice e seus pais.
- Prima, obrigado por tudo e que um dia eu possa ir a Porto Alegre.
- Sim. Meus pais vão te receber da mesma forma que os seus me receberam.
- Até outra vez.
- E que não demore.
Naquele domingo de novembro de 2019, elas se despediram. Não imaginavam o que viriam pela frente no ano seguinte, mas aquele feriado e o final de semana marcariam suas vidas.

