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O Apóstata e a Gótica - Volume 1 : Cicatrizes e Dogmas
Capítulo 3 - Novos Mundos
2565 palavras • 14018 caracteres • ⏱ 10 min 16 s

Capítulo 3 - Novos Mundos

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- Bem-vindo a organização de Jeová, meu irmão! - Disse o imersor.


Um tanto atordoado depois da imersão completa do corpo, Daniel procura a saída da piscina.


- Muito obrigado! Onde está a toalha?


- Por aqui irmão - disse uma irmã que auxiliava os batizados a saírem da piscina e se dirigirem ao banheiro reservado a eles.


Ao chegar no tal recinto, Daniel encontra alguns outros recém batizados.


- Nova vida agora né? - Era um homem já adulto que estava falando com Daniel.


- Eu sou o único da minha congregação que se batizou neste congresso - Daniel entra no chuveiro e se banha.


- O pessoal da sua congregação deve tá muito orgulhoso de você! Mas Jeová lhe dará a força que você precisa para continuar servindo a ele - Garantiu o tal homem.


Daniel foi para o banho e conforme se banhava, se secava e se trocava, refletia sobre tudo o que viveu desde os seus oito anos de idade até aquele momento.


Um novo mundo se mostrava para ele. Mas ele não se achava totalmente pronto para lidar com ele.


***


Recuperar a consciência não é apenas sobre ter a certeza que a cirurgia deu certo, mas também saber que se está vivo mesmo que não seja por muito tempo. Para Clarice, isto era muito importante.


Ela pouco a pouco abriu os olhos. Sentiu que a luz do teto estava se movimentando devido a visão turva. Tudo estava embaçado — formas, vozes, tempo. Ela tentou mexer a cabeça, mas sentiu um peso estranho. O pescoço estava rígido, e havia algo em sua boca.


Um tubo.


Ela não podia falar.


Ao lado, Valeria ajustava algo num painel. Clarice sentia o incomodo do tubo e a dor no peito pela cirurgia.


- Clarice? - perguntou Valéria - pisque duas vezes se está ouvindo.


Ela piscou duas vezes.


- Vou avisar a Sara para retirar os aparelhos de intubação.


"Estou viva! Consegui passar pela cirurgia!" - pensava Clarice.


Ela estava pronta para se recuperar aos poucos da cirurgia e ter toda uma vida pela frente.


***


Daniel saiu já com as roupas sociais com as quais entrou no vestiário antes do batismo e a sua frente estávam seus parentes.


- Meu filho, agora sim você é um servo dedicado de Jeová - Cláudia o abraçou em meio as lágrimas.


- Tudo bem mãe, um dia de cada vez - A voz de Daniel se abafava com o abraço apertado.


- Vem cá garoto! Mais um na Grande Multidão! - Seu primo Renato o dava um aperto de mão forte.


- Dá um abraço aqui também - era Tatiana, irmã de Renato.


- Aqui também! - Agora era a tia Cristina e seu marido Gláucio.


- E a gente também! - Para finalizar, eram sua tia Adriana, acompanhada do marido Cesar e o filho Robson.


- Obrigado família! Obrigado - Novamente a voz de Daniel estava abafada pelos abraços contínuos - Vamos comer agora e depois a gente vê os irmãos da congregação que eu estou com fome.


Daniel sentia-se amado como nunca. A família, os membros da congregação e até o amor de Deus sobre si. Todo o peso da dúvida naquele instante se foi e deu lugar a certeza de ser amado.


***


Clarice ainda descansava em seu leito e passava a maior parte do tempo refletindo sobre a sua vida até aquele momento, pois para ela tudo poderia ter acabado de repente e então jurou a si mesma fazer valer cada momento quando estivesse plenamente pronta para voltar a sua rotina.


- Clarice, seus pais finalmente poderão vê-la - disse Sara ao entrar no quarto.


- Obrigado Sara - a voz de Clarice ainda falhava, mas era suficiente para dar um simples agradecimento.


Alguns dias passaram como se fossem anos naquele quarto e agora ela poderia se reconectar com seus pais.


- Aí está você meu amor! - Disse Barbara ao rever Clarice.


- Mãe... pai... tô viva! 


- Bem vinda de volta - disse William ao de aproximar da cama - agora tudo que tem fazer é descansar e pouco a pouco voltar ao normal.


- Sim pai... Farei isso. 


O amor dos pais era o que ela precisava naquele momento. Um amor incondicional. O amor pela vida que os unia era tudo o que eles sentiram naquele momento.


***


- Daniel, chega mais aqui - disse Danilo - Everton e Zé Fernando, esse aqui é o novo servo de Jeová que vai no futuro comandar nossa congregação!


Daniel se aproximou da mesa dos três irmãos no refeitório do salão de assembléias. Viu a alegria no rosto deles só ver mais um recém batizado.


- Daniel, pega aí um pedaço dessa torta de liquidificador- disse José Fernando - é alimento típico de Testemunha de Jeová em congresso e assembleia, mas é o que te dá força pra ficar acordado no programa da tarde.


- Sem problema - disse Daniel já degustando a torta.


- O Danilo vê longe - disse Everton - já te vê como superintendente presidente da congregação.


- Ah, ele poderia ser membro do Corpo Governante, não é Daniel? - brincou Danilo.


- Hmm... Eu não sou um ungido. 


- Tá certo Daniel! Ungido não tem dúvida que é ungido. Come aí garoto, você merece! - disse Danilo sublinhando a humildade de Daniel.


Naquela roda de amigos, eram meras pessoas traçando metas para o futuro baseadas em certezas nem um pouco certas. Daniel estava apenas curtindo o momento e não pensava em cargos.


Apenas queria seus amigos alí e nada mais.


***


- Outra vez eu digo: A gente não sairia daqui sem uma notícia sua - disse Vicenzo ao chegar no quarto de Clarice ainda no hospital.


- Ah Vicenzo... eu devo ganhar alta depois de amanhã.


- Que bom. Eu trouxe a Pietra e dessa vez, a Michele veio.


- Oi Clarice. Que bom te ver melhor - Disse Michele.


- Poxa gente, é tanta ligação, videochamada e visita que eu tenho recebido ultimamente... Me sinto amada como nunca! - Clarice nunca tinha ficado tão emotiva como tinha ficado depois da cirurgia.


- Meninas, vamos abraça-la? - disse Vicenzo. 


- Sim! - disseram as duas.


Ali estavam os amigos de Clarice. Eles só esperavam uma coisa dela: que ela ficasse bem logo. Nada de planos sobre como iriam lidar com o fato dela não poder segui-los no primeiro colegial no ano que vem já que ela teria que refazer o nono ano. Apenas esperança de ver a amiga em bom estado.


***


- Parabéns irmão Daniel pelo seu primeiro discurso depois de seu batismo - disse Augusto.


Daniel estava orgulhoso de ter cumprido a sua designação. Apenas irmãos batizados poderiam fazer discursos sejam eles pequenos de 5 minutos ou grandes de 30 ou 45 minutos.


Mas era sua mãe, Cláudia que estava mais extasiada com o sucesso do filho.


- Parabéns filho - disse Cláudia abraçando ternamente o filho - que Jeová te abençoe sempre!


Não era uma simples tarefa, mas era o começo da jornada pós batismo de Daniel. O menino já estava inserido naquele ambiente e portanto já estava no devido progresso que era esperado da parte dele.


***


O banquinho de apoio, o box arrumado para o banho e a determinação de tomar banho sozinha.


Depois de 1 mês e meio de recuperação no hospital e mais 3 se recuperando em casa, Clarice teria o seu primeiro banho sozinha.


- Estamos aqui fora torcendo por você filha! - gritava William do lado de fora do banheiro - Não esqueça de deixar a porta encostada para qualquer coisa!


- Tudo bem pai - disse Clarice encarando o chuveiro como um alpinista encarando uma montanha - vou saber me virar.


A água morna escorria devagar, como se respeitasse o tempo dela. Clarice se sentou no banco adaptado, com cuidado. Cada movimento era calculado: levantar o braço, girar o tronco, alcançar o sabonete.  


Ela abriu o chuveiro e entrou debaixo da água. Quando passou a mão pela cicatriz, sentiu um arrepio.  


Ela fechou os olhos por um instante e respirou fundo.  


“Eu consigo. Eu posso fazer isso sozinha.”, pensou.


E ela pouco a pouco se ensaboou e se lavou. Ao desligar o chuveiro, se sentiu não só limpa, mas plena como pessoa.


Ao sair do banho, Clarice se trocou dentro do banheiro. Se olhou no espelho antes de abrir a porta e sorriu porque viu uma garota em recomposição que estava aos poucos retomando sua vida.


- Gente... Consegui!


- Parabéns!!! Ela conseguiu!!! - Eram gritos de pessoas que estavam os colegas de trabalho de William e Barbara que se solidarizaram com a situação da filha ajudando-a desde seu retorno para casa.  Vários se alternavam em cuidar da limpeza do apartamento e ajudar Clarice em retomar sua autonomia. 


- Pouco a pouco você voltará a ser a garota ativa que a gente conhece - Disse Nadia, colega de trabalho de Cláudia - eu lembro de você pequena e sua mãe sempre mostrava fotos de você.


- Você vai se recuperar logo logo. Eu sei que pelo visto não vai dar pra voltar para o colégio, mas é preciso dar um passo para trás para dar dois para frente - disse Luis Roberto, um dos colegas de trabalho de William.


- Obrigado pessoal - Clarice estava às lágrimas devido a todo o carinho que recebia de pessoas que nem parentes seus eram - a gente é muito grato por tudo que vocês fizeram pela gente.


- Nós vamos estar por aqui até que tudo se restabeleça - disse Júlio, coordenador do curso de Economia na faculdade que William dava aulas.


Uma atividade simples, mas comemorada como algo muito complicado. Pessoas que não eram parentes, estavam ali como se fossem parentes próximos. Clarice comemorava uma vitória por conseguir voltar a fazer algo básico da vida sem a ajuda de alguém.


O que era esperado era que ela pudesse fazer o básico sozinha. E ela se sentiu como se tivesse escalado uma montanha.


***


Passar um fim de semana na casa da tia Cristina era para Daniel voltar no tempo. Ela apresentou a "Verdade" para sua irmã Adriana e depois para Cláudia. Era uma veterana que chegou a ver os últimos anos dos arranjos de lanches nos congressos, os últimos anos em que as publicações eram dadas aos moradores no serviço de campo mediante preço fixo e os últimos anos em que falavam da geração de 1914 que não passaria... mas passou.


- Parece que foi ontem que você aprendeu as primeiras coisas sobre Jeová e agora já está batizado - disse Cristina sentada no sofá da sala junto com o marido, Gláucio e os dois filhos Renato e Tatiana.


- Tia, agora é só esperar alguns anos para que eu possa ter meus primeiros privilégios como servo ministerial - disse Daniel.


- Ah mas dá pra enquanto isso você trabalhar no som, no balcão ou mesmo como indicador - disse Renato.


- Eu tenho que ver com os anciãos sobre isso, mas tem que ver se tem espaço - rebateu Daniel - Eu vejo que já temos uns 6 anciãos e 5 servos ministeriais.


- Poxa, a sua congregação tá bem servida - respondeu Tatiana de forma surpresa - o Renato faz 16 anos no ano que vem e eu acredito que ele vai ser designado servo.


- E logo depois ancião! - disse Renato cheio de si.


- Sim meu filho. Igual ao seu pai - disse Gláucio orgulhoso do filho.


O novo mundo de Daniel era repleto de carinhos e abraços condicionados a permanência dele na "organização de Jeová". Todo o projeto de vida dele estava vinculado a ser uma pessoa exemplar. Sua família esperava dele apenas a repetição de tudo aquilo que estava ao redor deles.


Em 2020, tudo poderia se encaminhar para que Daniel tivesse seus primeiros privilégios.


Será?


***


- Enfim chegamos! - Anunciou Luciano, irmão de William e tio de Clarice que entrava no apartamento.


- Meu irmão, finalmente você veio - William abraçou seu irmão - Cadê a Isabel e a Karina?


- Estão já trazendo as malas... Ah aí estão!


- Olá cunhado - era Isabel, uma mulher de cabelo loiro castanho.


- Olá! Bem vinda.


- Oi tio!


Era Karina. 


Uma moça de cabelo loiro castanho escuro na raiz, mas loiro mel nas madeixas. Usava uma maquiagem gótica com batom e lápis preto e vestia uma camiseta da banda Lebanon Hanover. A parte inferior do visual era composta por uma minissaia de vinil brilhante, que refletia a luz do ambiente com um ar provocativo e elegante, combinada com uma meia-calça preta opaca que reforçava a estética sombria.


Na cintura, usava um cinto com correntes e argolas metálicas e carregava uma bolsa preta com detalhes metálicos, cheia de personalidade, como se fosse uma extensão do próprio estilo.





- Poxa... - William ficou deslumbrado com o visual de Karina - Fazia tempo que eu não te via e você está bem diferente da última vez.


- Tio, eu já estava assim, mas internamente. Agora que sou adulta, tenho mais liberdade pra ser eu mesma.


Ela entrou com sua bagagem e foi para o quarto de Clarice que estava distraída lendo um livro.


- Há quanto tempo heim prima? - A voz de Karina preencheu o quarto assustando Clarice.


- Aí nossa... você é a Karina? - Clarice se assustou primeiro pela voz e depois pelo visual de sua prima.


- Estou diferente né? Desculpe não ter vindo antes.


- Nas videochamadas você não estava assim - Clarice olhava Karina de cima a baixo notando cada detalhe da armadura gótica em forma de visual juvenil.


- É que eu não uso essa maquiagem 24 horas por día. E outra coisa: nós só nos falamos em videochamada por duas vezes, então você não tem tanta referência recente de mim e é por isso que está surpresa em me ver mais pelo meu visual do que pela minha presença - Karina tirava as coisas de sua bagagem ao mesmo em que conversava com Clarice com muita facilidade.


- Bom... é que é a primeira vez que eu vejo assim... uma garota gótica assim tão perto de mim, porque eu sou as via andando pelas ruas aqui em São Paulo.


Karina olhou piedosamente para Clarice pois entendia que era tudo novo para ela.


- Minha prima querida - Karina segurou seu rosto com as duas mãos - você está diante de uma mulher que agora tem identidade própria. Hoje é quinta-feira e comecinho da noite, e só vamos embora no domingo no começo da tarde, então vamos ter dois dias para colocar as coisas no seu devido eixo e te apresentar meu mundo e eu ficar por dentro do seu mundo, tudo bem?


Clarice a abraçou.


- Obrigado por ter vindo prima. Com certeza vamos ter ótimos dias por aqui.


- Sim... Me comece contando como tá sendo esses dias desde que voltou pro apartamento porque dos detalhes da sua queda e seus dias no hospital eu já sei muito bem.


E ao longo da noite, Clarice contou sobre o pro


cesso de recuperação, a nova alimentação, as atividades físicas e os temores, tanto do presente quanto do futuro.


O novo mundo de Clarice estava em construção, mas no dia seguinte ela conheceria um outro mundo que faria parte de quem ela seria.


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