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O Apóstata e a Gótica - Volume 1 : Cicatrizes e Dogmas
Capítulo 2 - Batismos de Sangue
3523 palavras • 19752 caracteres • ⏱ 14 min 06 s

Capítulo 2 - Batismos de Sangue

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Era fim de tarde, num sábado morno de março. Enquanto Cláudia passava as camisas sociais de Daniel, ele saiu do quarto com os olhos brilhando e um sorriso contido.


- Mãe, eu fiz a minha oração de dedicação. Quero dar meu nome para o batismo no congresso de junho.


Cláudia parou e colocou o ferro em posição de descanso. Seus olhos começaram a marejar antes mesmo da resposta.


- Filho... dá aqui um abraço!


Daniel se aproximou. O abraço foi longo, silencioso, cheio de orgulho e expectativa.


- Eu poderia ter me batizado na assembleia do mês passado, mas... eu me sinto muito mais preparado agora.


- Está tudo bem, filho - disse Cláudia, enxugando as lágrimas com o dorso da mão - Eu vou falar com os anciãos e você faz a consideração com eles.


- Obrigado, mãe. Vai dar certo.


- Com as bênçãos de Jeová, meu filho.


Daniel sorriu. Mas, por dentro, algo se movia devagar. Ele sentia que o tempo estava correndo e que precisava tomar uma decisão. Não sabia se era fé, ou apenas o reflexo da casa onde vivia. Um misto de "eu faço isso porque escolhi" com "faço isso porque fui ensinado a fazer".


****


As aulas de educação física se alternavam entre teoria e prática. Depois de estudar a dinâmica do vôlei, era dia de jogar.


Clarice não era atlética, mas também não era sedentária. Seria sua primeira vez jogando vôlei e, embora nunca tivesse praticado, havia entendido bem a parte teórica.


- Pietra, Michele... vamos formar o time?


- Com nós três e mais alguns, a gente já forma - respondeu Pietra.


- Vou só prender meu cabelo e já estou pronta - disse Michele.


- Ok, pessoal, bora para a quadra! - anunciou Anderson, o professor de educação física.


A quadra recém-pintada durante as férias de verão reluzia sob o sol da manhã. Era a primeira vez que a 9ª série a usava naquele ano letivo.


- Times formados. Rede pronta. Bola aqui nas minhas mãos. Par ou ímpar para decidir quem começa! - disse Anderson.


Par ou ímpar feito, o jogo começou. O time de Clarice abriu o placar, mas o time adversário se recuperou, e ponto a ponto, chegaram ao empate.


- Atenção! Falta pouco para acabar a aula. Quem fizer o próximo ponto, vence!


O saque veio forte. Clarice, posicionada na frente, saltou como nunca havia saltado antes e rebateu a bola com precisão para o lado oposto.


- Aeeeeeeeeeeeeeeeee! Clarice! Clarice! - o time comemorava em coro.


- Valeu, gente... obrigada! - disse Clarice ofegante - Ai... ai... ai... vou cair...


Ela tombou no chão. A sua consciência se apagou.


- Clarice??? Está tudo bem???? Gente... chama o SAMU!!! - gritou Anderson.


O ponto final foi conquistado com um esforço que ela nunca tinha feito antes. Mas esteve por um triz de ter sido o seu último feito.


****


Daniel e Cláudia estavam na Sala B do Salão do Reino depois da reunião de meio de semana. O corpo de anciãos estava todo ali: Ernesto, o superintendente-presidente da congregação, Silvano, o coordenador, além dos outros anciãos: João Luís, Augusto e Emerson.


- Daniel, eu dirigi seu estudo e te vi crescer tanto física quanto espiritualmente. Não tenho palavras para dizer para você o quanto estou feliz em saber que você irá se batizar! - Silvano falava sobre Daniel como um pai. Um pai espiritual, como se costuma dizer entre as Testemunhas de Jeová.


- O Silvano sabe melhor que todos aqui que você será muito usado na congregação, como também possivelmente em outros lugares - dizia Ernesto, orgulhoso do futuro membro batizado da congregação - Pense em Betel, Superintendente de Circuito ou até mesmo servir como missionário.


Daniel estava apenas se batizando, mas queria seguir um passo de cada vez. Muitos roteiros prontos, mas ele queria atuar em um papel por vez naquele teatro.


- É muita coisa. Eu vou primeiro me batizar - disse Daniel.


- Sim, Daniel, tudo começa com o primeiro passo. Mas lembre-se que agora se abre um leque de oportunidades para você - disse Emerson, todo expansivo no seu modo de gesticular.


- Filho, todos aqui te conhecem muito bem e você sempre poderá contar com eles, tá bom? - Cláudia olhava para Daniel como uma mãe que dava uma bronca leve no filho por ele não querer se agarrar às oportunidades logo de cara.


- Tudo bem. Então, quando a gente começa as considerações?


- Amanhã, na casa do irmão Ernesto, onde temos a saída de campo no domingo - anunciou Aloísio.


- Então é isso! Até amanhã, Daniel - concluiu Ernesto.


- Até amanhã.


Daniel estava em direção a um amadurecimento espiritual. Mas, fisicamente, ainda havia nele algo incerto, como se estivesse apenas seguindo um roteiro, mas nunca escrevendo a sua história.


****


- Ah, ela acordou! - disse uma voz feminina, suave, vinda da lateral.


Clarice abriu os olhos devagar, sentindo o peso do próprio corpo. Tentava assimilar o ambiente ao redor para se localizar, mas não reconhecia o recinto.


- Você está no Hospital São Luiz. Te trouxeram desacordada da escola. Já fizemos os exames.


Era uma enfermeira que estava ao seu lado. Clarice tentou se sentar, mas a tontura que sentia a impediu.


- Calma. Deite-se. O médico já vai vir falar com você.


Ela olhou para a janela do quarto e percebeu que já era tarde. Ao fechar os olhos por um instante, sentiu o coração bater forte, mas não sabia se era por uma doença ou por medo.


"O que aconteceu que eu desmaiei? Eu tenho alguma doença? Será que... eu vou morrer?" - pensava consigo mesma.


A porta se abriu e um homem de jaleco entrou com uma prancheta.


- Boa tarde, Clarice. Sou o Dr. Marcílio e já tenho os resultados dos seus exames - Ela prendeu a respiração, como se estivesse prestes a receber uma péssima notícia - mas antes de falar sobre isso... como você está se sentindo agora?


- Um tanto preocupada com o que aconteceu comigo.


- Então... eu vou dar o contexto - Marcílio puxou uma cadeira e se sentou para explicar os detalhes do diagnóstico. - Pela sua idade e pelos resultados do exame, será algo que será mais fácil de resolver. Você tem estenose aórtica.


Clarice ficou pasma. Mas não pelo diagnóstico, mas por não entendê-lo.


- Como é isso, doutor?


- O seu desmaio foi porque o seu coração se enfraqueceu devido a uma válvula cardíaca estar estreita demais, dificultando a passagem do sangue. Você está com 15 anos e, portanto, chegou à adolescência. Foi a primeira vez que você realizou um esforço físico de máxima intensidade?


- Sim. Eu nunca tinha jogado vôlei na minha vida e de repente isso acontece! - a voz de Clarice era de desespero por descobrir que um esforço físico mais intenso quase a levou a óbito.


- Eu vou ser mais direto: Esta doença... você nasce com ela, mas você só a descobre com o tempo. Você a descobriu hoje e, portanto, vamos resolvê-la o quanto antes. Por meio de uma cirurgia, será implantada em seu coração uma válvula aórtica através de um cateter. Será uma válvula durável, feita de carbono pirolítico. Por ser muito durável, você ficará com esta válvula a vida toda. Mas com o devido acompanhamento médico e cuidados com alimentação, você terá uma vida normal.


Clarice digeria o diagnóstico como quem tomava um remédio amargo: Cirurgia cardíaca, objeto mecânico em seu corpo, cuidados para a vida toda.


- Doutor, cadê meus pais?


- Eu vou pedir para eles entrarem. E não se preocupe, você está em boas mãos!


A voz do doutor Marcílio era calma, mas o que ele lhe dissera a deixava preocupada. Uma doença cardíaca que a impossibilitava de praticar atividades físicas mais intensas, uma cirurgia que lhe abriria o peito, um equipamento mecânico em seu corpo pelo resto da vida. Eram coisas demais para uma adolescente de 15 anos. Mas, embora tudo estivesse tão confuso naquele momento, ela teria ajuda.


****


A consideração para o batismo de Daniel avançou bem rápido. Ele conseguia responder as perguntas do livro "Organizados para Fazer a Vontade de Jeová" sem ao menos olhar para o livro.


- Pergunta 18 - disse Ernesto - Por que seus amigos devem ser pessoas que amam a Jeová?


- De acordo com Provérbios 13:20 e 1 Coríntios 15:33, más associações não irão me fazer bem.


- Respondeu corretamente, Daniel - disse Aloísio, que também participava da consideração - Agora que você está quase chegando na adolescência, você terá vários convites para festas, passeios com os colegas fora da escola e coisa e tal. Lembre-se que quem não lhe ajuda a continuar servindo a Jeová não é boa companhia. Ser agradável como colega é uma coisa, mas ser achegado como amigo é outra coisa. E são as amizades que vão nos levar ou para o caminho bom ou para o caminho mau. Entendeu?


- Sim, irmão - a voz de Daniel soava hesitante diante do aviso sobre não socializar muito com "mundanos". Ele não era próximo dos colegas de classe de seu colégio, mas de agora não poderia tentar nada com ninguém que viesse a ser uma pessoa nova.


- Perfeito. Próxima pergunta - disse Ernesto.


****


O Dr. Marcílio saiu do quarto enquanto Clarice permaneceu olhando para o teto, ainda tentando organizar os pensamentos em torno de tudo o que tinha acabado de ouvir.


Alguns minutos depois, a porta se abriu novamente. Eram seus pais.


- Filha... - disse Barbara, aproximando-se com passos contidos.

Clarice tentou sorrir, mas o rosto não acompanhou.


- O médico falou com vocês?

William assentiu com a cabeça e puxou uma cadeira para se sentar ao lado da cama.


- Sim. Ele explicou tudo. A sua doença, a cirurgia, a válvula, o cuidado com a comida. Será outra vida depois da cirurgia.


Barbara segurou a mão da filha com delicadeza.


- Filha, vai dar tudo certo. O médico também falou sobre o preparo psicológico que você terá.


Clarice olhou para os dois. Sentiu-se um pouco mais leve.


- Eu queria entender direito como tudo isso vai acontecer. A cirurgia me deixou preocupada!


William se inclinou um pouco mais.


- Tudo terá seu tempo. E outra coisa: vieram mais pessoas conosco.


- Quem, pai?


William se levantou da cadeira, abriu a porta do quarto e fez sinal para alguém entrar.


- A gente não iria sair daqui sem notícias de você!


A voz de Vicenzo, seguida da entrada de Pietra, paralisou Clarice.


- Eu não acredito... vocês vieram! - Clarice começou a chorar de alegria pela presença deles.


- Michele não pôde vir, pois está fazendo aula de balé, mas mandou um abraço para você - disse Pietra.


- Obrigada por lembrarem de mim! Meus pais foram aonde? - Clarice olhava em volta, procurando por eles.


- Saíram porque seria muita gente no quarto - respondeu Pietra - agora é a vez dos seus amigos estarem com você.


- A gente ouviu sobre o que você tem - disse Vicenzo - você foi forte lá na quadra e também será na cirurgia.


- De novo, obrigado por estarem aqui. Me deem um abraço!


O carinho dos amigos para Clarice tinha o mesmo peso do carinho da família. E num momento como aquele, fazia muita diferença.


****


Em uma tarde, Daniel estava sozinho em casa assistindo TV depois de chegar da escola. O seu celular tocou.


- Alô?


- Alô, irmão Daniel!


- Diga, irmão Aloísio!


- Você foi aprovado na consideração. Você será batizado no congresso deste ano.


- Que bom! Quando minha mãe chegar, eu vou avisá-la!


- Sim, irmão, estamos aguardando seu batismo para que você possa, então, finalmente fazer parte da organização de Jeová!


- Também estou aguardando!

Daniel ansiava por fazer parte do mesmo grupo religioso de sua mãe, suas tias maternas e primos.


Pertencer para um garoto de 12 anos significava muito para ele, pois não tinha pertencimento em outros lugares.


****


A sala da psicóloga era acolhedora:


Um sofá de três lugares, uma mesinha baixa com um arranjo de flores e uma janela aberta.


- Pode entrar, Clarice. Eu sou a doutora Maria Regina.


O sorriso gentil da psicóloga a fez entrar, mesmo que a passos lentos.

Clarice se sentou e suspirou antes de falar:


- Por onde que eu começo?


- Bom... você acredita que está aqui apenas pela cirurgia?


- E qual outra coisa mais séria?


- É que não é só pela cirurgia, mas também por tudo o que ocorrerá com seu corpo depois dela.


A doutora Maria Regina olhava nos olhos de Clarice e via incerteza. Via que faltava para ela compreender o impacto da cirurgia.


- Vejo que você não sente medo da cirurgia, ou sente?


- Eu já vi muitos casos pela televisão de gente que faz cirurgia no coração e está viva, mas eu sinto que me falta entender o que ocorrerá depois.


- Você terá não só uma válvula mecânica no seu coração, mas também uma cicatriz.


- Todo mundo fica com uma cicatriz depois de uma cirurgia, mas eu sinto que faltam mais informações sobre o que ocorre exatamente com meu corpo depois da cirurgia.


- Você é um caso fora do comum porque muitos chegam aqui se perguntando sobre a cirurgia, se vão aguentar o impacto da cirurgia, se vão sobreviver a ela, mas você quer entender o que ocorre depois - A aparente resiliência de Clarice intrigava Maria Regina, mas ela sabia que havia um temor a ser trazido à tona.


- É que de uns dias para cá o doutor Marcílio me deu muita informação sobre o que ocorre. Ele disse que, por eu ser jovem e sem problema de saúde fora o que eu tenho agora, a cirurgia vai ser mais fácil de fazer e que muita gente sobrevive à cirurgia. Então, com respeito à cirurgia, eu estou mais confiante, mas ele não me falou exatamente como é depois dela.


- Ah... este é o problema! - Maria Regina juntou as mãos ao falar.


- Como assim?


- Você acordará com um tubo na sua garganta. Sentirá um desconforto e não conseguirá falar, mas um tempo depois irão retirar o tubo. Se sentirá cansada e com uma dor no local da inserção cirúrgica, mas você estará cercada de profissionais prontos para te ajudar. Assim que for possível, seus pais a visitarão.


Clarice refletiu sobre o que ouviu: a impossibilidade de falar por um certo tempo, dores corporais, mas ao mesmo tempo em que teria o devido suporte.


- Esta parte é nova para mim... mas o doutor Marcílio disse que eu teria uma vida normal mesmo com a válvula mecânica.


- Então... não tão normal. A questão da alimentação, por exemplo, vai te obrigar a ser uma leitora ávida de rótulos de produtos, não vai poder comer qualquer coisa na rua, não mais poder comer certos alimentos. Acredito que é isso que irá pesar mais para você.


- Agora que a senhora falou eu sinto medo de emagrecer muito e ficar sempre com fome - a expressão de Clarice tinha mudado de uma serenidade para uma preocupação crônica. Ela não ficaria satisfeita com a comida e não poderia comer mais para não prejudicar a sua saúde?


- Os nutricionistas vão te ajudar e muito nisso. É comum os pacientes depois da cirurgia ficarem um bom tempo sempre consultando profissionais médicos sobre esse ou aquele alimento ou bebida.


- Doutora, agora eu sinto que eu não sei nada sobre o que vai acontecer comigo depois da cirurgia.


- Tudo bem. Essa parte do processo pré-cirúrgico é para entender as coisas. Falar sobre sua família, mesmo porque seus pais também passarão comigo. Sobre seus amigos, as interações sociais durante e depois da recuperação, a forma que você vai se enxergar depois da cirurgia. Tudo isso será abordado com calma porque leva um tempo para prepararem a equipe médica e elaborarem o plano de cirurgia. Então... Podemos começar falando da sua família e sobre como eles veem você agora?


- Tudo bem, doutora... Eu falo, sim.

Passar por um processo cirúrgico como o que Clarice passaria era um evento divisor de águas em sua vida e teria que ser abordado delicadamente.


****


- É amanhã, filho! - Cláudia chegava do primeiro dia do congresso junto com o filho e estava animada para o dia seguinte.


Daniel, depois de tirar os sapatos e colocar o seu terno na cadeira da mesa da sala, sentou no sofá e pensou sobre seu batismo.


Não era apenas sobre mergulhar numa piscina, mas também sobre ser visto de outra forma pelas pessoas da sua congregação. Sobre as pessoas que o olhariam não mais como um mero garoto, mas como um jovem que deveria ser exemplar.


****


No centro cirúrgico, Clarice estava diante de seis médicos: a equipe que iria fazer a sua cirurgia.


Primariamente, um médico já aparentando ter quase 50 anos.


- Eu sou Cláudio Dorsani. Serei o cirurgião que irá fazer a parte mais difícil: tirar a artéria que está com problema e colocar a válvula mecânica.


Uma mulher loira, já com mais de 30 anos, se apresentou em seguida.


- Sou Mariana Hanthoffer. E assim como seus pais, eu também sou gaúcha, mas de Caxias do Sul. Serei a cirurgiã assistente e ficarei responsável por fazer tanto a abertura como o fechamento e sutura do tórax.


Clarice sorriu.


- Obrigado por me dar essa proximidade.


- De nada - respondeu Mariana.


Uma mulher asiática se apresentou.


- Sou Valeria Kozomoto. Sou enfermeira anestesista. Farei a parte de dar anestesia geral.


Uma mulher de cabelo crespo se aproximou.


- Sou Sara Tsadoulos. Serei a anestesista e também responsável por fazer sua entubação.


- Eu sou Evandro Brito. Sou perfusionista na parte de circulação extracorpórea.


E, finalizando, um homem de aparência sírio-libanesa se apresentou.


- Sou Thiago Hamid. Serei o auxiliar de anestesia.


Seis médicos de diferentes origens: Italiana, alemã, japonesa, grega, brasileira e sírio-libanesa, mas todos unidos em uma só causa: Cuidar da saúde de Clarice.


Eles não esperavam nada dela, mas ela esperava uma coisa deles: Que saísse viva e com saúde da cirurgia.


****


Em plena final de manhã de um sábado ameno de inverno, lá estava Daniel sentado na fileira dos candidatos ao batismo.


Alguns jovens mais velhos que ele e outros já mais adultos. Todos atentos ao discurso feito para eles.


"Vocês estarão entrando na melhor vida que poderiam ter e que o mundo de Satanás jamais será capaz de dar."


"Por mais que haja ódio da parte das pessoas que desprezam os valores elevados de Jeová, lembrem-se que o amor de Jeová é maior que tudo isso!"


"E para concluir: O Amor nunca acaba e a jornada espiritual de vocês está apenas começando!"


Respondidas as perguntas de confirmação do batismo e depois da oração pelos futuros batizados, lá se foi Daniel junto aos outros candidatos ao batismo.


Eles escolheram pertencer.


****


Clarice se deitou na maca rumo ao centro cirúrgico e se despediu de seus pais.


- Volte logo, meu amor - dizia Barbara, chorosa e segurando a mão da filha.


- Você irá voltar uma nova pessoa porque nós confiamos que você voltará viva e melhor dessa cirurgia - dizia William.


- Pai... mãe... amo vocês! Eu vou voltar, sim! Obrigado por tudo! - Clarice estava às lágrimas ao ver seus pais pela última vez antes da cirurgia.


- Vamos lá, Clarice? - perguntou Sara antes de partir com a maca.


- Vamos - Seu suspiro era de alguém pronta para o que viria à frente.


Ela estava rumo a uma mudança de vida para ser a pessoa que ela precisava ser se quisesse ficar viva.


Ela escolheu viver!


****


À beira da piscina, várias pessoas estavam se batizando e outras estavam saindo da piscina.


Era a vez de Daniel.


Ele se aproximou do responsável pela imersão dos batizandos.


- Prenda a respiração e deixe que eu te seguro para você não se afogar, tudo bem? - o imersor transpareceu confiança e Daniel confiou nele.


Ele viu sua mãe, suas tias, seus primos e vários membros da sua congregação olhando, sorrindo para ele.


Uma última olhada antes da imersão.


E lá se foi ele. Morrer à antiga vida para viver a nova.


***


- Olá, Clarice! - era o doutor Cláudio.


- Olá, doutor Cláudio.


- Achei que falaria algo sobre Hannibal Lecter- ele estava de muito bom humor.


- Não entendi - a expressão facial de Clarice antes da cirurgia era de contentamento, mas com um pingo de dúvida sobre a piada.


- Nunca assistiu Silêncio dos Inocentes, né?


- Ainda não.


- Você disse bem! Ainda não! Você é uma garota oti


mista! Quando você se recuperar, recomendo que assista que aí você irá entender a piada. Valeria, já aplique a anestesia para Sara poder fazer a entubação sem o menor problema. Clarice, até daqui a algumas horas!


Clarice não disse mais nada e sentiu a intubação e anestesia em seu corpo que a adormeceu aos poucos.


Ela estava entrando em um sono para poder renascer.


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