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O Apóstata e a Gótica - Volume 1 : Cicatrizes e Dogmas
Capítulo 1 - Vidas em Constrate
3833 palavras • 21271 caracteres • ⏱ 15 min 20 s

Capítulo 1 - Vidas em Constrate

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2015. 


Cidade Tiradentes, Zona Leste de São Paulo.


O céu da periferia da maior cidade do hemisfério sul estava cinza. Como se estivesse em dúvida sobre se iria chover ou não. Mas alguém abaixo deste céu tinha uma certeza: queria paz na vida!


- Por favor, Jeová, dá uma luz aqui pra gente!


Daniel do alto dos seus 8 anos, olhava da janela do seu quarto, no apartamento dos pais em processo de separação, para o céu em busca de uma ajuda divina.


Seus pais, já há algum tempo, não estavam sintonizados emocionalmente depois do seu nascimento. A situação se aprofundou em 2014, quando sua mãe, Cláudia, aceitou estudar com as Testemunhas de Jeová. Para ela, foi fácil assimilar a nova fé, pois sua irmã Adriana também já era testemunha de Jeová e lhe dava publicações da Torre de Vigia com uma certa frequência.

Sua outra irmã, Cristina, também já havia feito "progresso espiritual" e tinha se batizado recentemente.


Mas seu marido, Roberto, católico fervoroso, não via a nova fé da esposa com bons olhos. Sua presença no serviço de campo e nas reuniões semanais levavam a discussões frequentes que só terminaram quando eles se separaram e Roberto foi morar em um apartamento alugado de um de seus irmãos.


O pequeno Daniel assimilava rapidamente a nova fé da mãe porque, desde pequeno, gostava de ler. Devorar tanto livros voltados para o público infantil quanto os para o público mais maduro era tarefa fácil para ele.


- Daniel, você foi batizado na única igreja que Jesus Cristo fundou. Lembre-se disso! - dizia seu pai com firmeza, na tentativa de ganhar o filho.


- Daniel, lembre-se que a gente aprende as coisas por meio da Bíblia e não por meio de homens. Não dê ouvidos a seu pai - dizia sua mãe em resposta.


Daniel estava no meio de um fogo teológico cruzado. Vivendo em uma família dividida pela fé e apenas desejando um pouco de paz em sua vida.


Mas isso iria demorar.


2015. 


Shopping Santa Cruz, Zona Sul de São Paulo.


Ao sair de uma sessão de Divertidamente, Clarice e seus pais falavam com entusiasmo sobre o filme.


- Poxa, então é assim que é nossa cabeça por dentro? - a animada menina de 11 anos refletia sobre como a mente humana poderia ser complexa.


- Filha, isso não é nem 10% do que ocorre aqui dentro - disse William, seu pai, apontando para a cabeça.


- A Alegria parece um pouco comigo: é tão cheia de ideias, mas às vezes sai fora do tom e demora a perceber isso - disse Barbara, sua mãe.


- Eu sou a Raiva: coloco tudo para fora rapidamente. E você, filha, qual você seria? - perguntou William olhando para Clarice.


- Não sei, pai, estou pensando sobre isso.


Criada na Vila Clementino, em um lar de classe média alta, Clarice tinha uma bagagem cultural bem construída pelos seus pais. Eles sempre a levam ao cinema, além de lhe apresentarem os desenhos clássicos e os mais recentes.


Seus pais foram para a praça de alimentação do shopping e pediram um lanche.


Ela agora estava parada olhando para o vai e vem das pessoas na praça de alimentação, mas ainda pensativa sobre o filme que acabou de ver.


- Sabe, pai... mãe... Eu sinto como se a Alegria e a Raiva estivessem sempre brigando na minha cabeça, mas aí chega a Tristeza e grita mais alto.


- Filha, na verdade, todo mundo tem isso na cabeça quase que todos os dias - disse Barbara.


- Bom... agora nós temos uma outra emoção: fome. Vou lá pegar nosso lanche porque já é o nosso número - disse William se levantando da mesa.


2016. 


Cidade Tiradentes


Daniel estava tendo estudo bíblico com Silvano, um ancião da congregação. Homem dedicado aos afazeres no Salão do Reino onde Daniel e sua mãe frequentam e sempre firme nas suas posições.


- Daniel, quando a bíblia menciona alguém comemorando aniversário,o que acontecia? - perguntava Silvano, sentado à mesa junto com Daniel e Cláudia.


- Preste atenção, filho! - o tom de voz de Cláudia exalava vontade de dar bronca no filho por ele não saber responder prontamente às perguntas - pense bem no que leu e responda.


- As pessoas morriam, não é? - respondeu Daniel.


- Sim, e apenas pessoas que não serviam a Jeová comemoravam aniversário na Bíblia. A Bíblia não tem nenhum versículo escrito: "É proibido comemorar aniversário". Mas se estes relatos estão nela, é porque Jeová quis, por meio de sua palavra, passar uma mensagem para nós. Entendeu, então, Daniel? - perguntou Silvano, mais enfático.


- Sim, irmão Silvano. Agora faz todo o sentido.


Daniel queria passar a melhor imagem possível para Silvano e sua mãe. A imagem de um garoto fazendo progresso espiritual e que daria orgulho à sua mãe, à congregação e, acima de tudo, a Jeová.


- Pois bem, filho. Agora você sabe o que vai dizer aos seus coleguinhas de escola quando perguntarem sobre você não cantar parabéns, não é? - perguntou Cláudia.


- Sim, mãe. Eu vou saber.


Programado para obedecer e sentir o que lhe era permitido de acordo com a fé em que foi criado. Esse era o roteiro de vida que Daniel tinha que seguir estritamente.


2016.


Vila Clementino, Zona Sul de São Paulo.


- Mas que silêncio é esse e por que as luzes estão apagadas?


Clarice tinha chegado ao apartamento de sua família depois de sair para comprar alguns materiais para o novo ano letivo na 6ª série.


- Surpresa! - bradavam seus pais - Feliz aniversário, filha!


- Vocês lembraram? - Clarice estava em êxtase ao ver o lindo bolo de chocolate com avelã coberto por 12 velas.


- 20 de Janeiro - disse William - Como esquecer essa data? O mundo ficou mais interessante nesse dia porque você nasceu há 12 anos atrás.


Clarice deixou a sacola com os materiais escolares no chão e se aproximou de seus pais.


- Obrigada, pai e mãe. Amo vocês.


Ela os abraçou. Depois, fechou os olhos e fez um pedido para então assoprar as velas.


Clarice naquele dia viu seus pais felizes por celebrar 12 anos em sua companhia.


E nenhuma cabeça foi cortada.


2016. 


Mairiporã, Salão de Assembleias das Testemunhas de Jeová. 


Congresso "Continue Leal a Jeová".


No meio das férias de Julho, lá estava Daniel no "Congresso" das Testemunhas de Jeová - um evento de três dias marcado por uma sequência de discursos, orações e vídeos.


Era o terceiro e último dia de congresso. Daniel estava junto não só com sua mãe, mas também com suas tias e primos.


- Agora é o último vídeo - disse Adriana, sua tia, apreensiva com o conteúdo a seguir.


Daniel olhava estático para o telão, aguardando o desfecho daquela trama. Os vídeos daquele congresso se passavam num futuro onde a chamada "Grande Tribulação" estava bem avançada e os governos do mundo inteiro se mobilizaram para perseguir as Testemunhas de Jeová, pois estas seriam a última denominação religiosa existente depois que os governos proibiram qualquer tipo de atividade religiosa.


Várias testemunhas de Jeová se reuniram em uma espécie de bunker ou sótão de uma casa para se esconder das autoridades policiais. No final do vídeo, as autoridades as encontraram e entraram no bunker, não sem antes os "anciãos" tomarem a frente dos outros irmãos que ali estavam para protegê-los de qualquer tipo de violência que viesse a acontecer.


Aplausos estonteantes se irromperam após a conclusão do vídeo.


- Que grandiosa história, não é, meus irmãos? - perguntou o orador à assistência.


- Sim, irmão, muito mesmo! - disse Cláudia enxugando as lágrimas.


Daniel estava pensando no que tinha acabado de ver. Era esse o futuro? Medo, angústia e temores? Ter que tomar a frente para proteger as pessoas? Ele seria cobrado o tempo todo para ser ancião e ser forte fisicamente para defender pessoas indefesas? Onde ele acharia um bunker, sendo que ele mora no Brasil e os vídeos da Torre de Vigia - pessoa jurídica das Testemunhas de Jeová - eram feitos nos EUA, onde várias casas possuem sótão e porão?


Um misto de dúvida e medo tomou conta de Daniel, e ele se levantou para lavar o rosto no banheiro para poder estar melhor atento ao último discurso do congresso.


2016. 


Shopping Santa Cruz


- Tem certeza que você não quer uma raposa de estimação? - perguntou Barbara, saindo da sessão de Zootopia.


- Não, mãe - disse Clarice - por que está perguntando isso?


- Li que na China, esse filme está despertando nas crianças o desejo de terem uma.


- Ah, não. Eu fico pensando nas coisas que a Judy viveu naquela cidade. Ela vai para aquela cidade enorme e não imagina o que vai encontrar. Ela encontra perigos, gente que não gosta dela, mas se encontra depois.


- Você está pensando em o quê ao falar isso? - perguntou Barbara.


- Estou com 13 anos e logo vou ser adolescente. Não sei como vai ser, mas estou pronta!


- Pena que seu pai não quis vir ver o filme com a gente.


- O papai não achou o trailer empolgante, né?


- Ele gosta mais das animações da Pixar. Filmes assim, diretamente da Disney, é um ou outro que ele gosta. Ele está animado para ver Procurando Dory no meio do ano.


- Ah, esse eu quero ver também. Assisti Procurando Nemo no DVD quando fiz dez anos, lembra, mãe?


- Filha, você faltou deixar o disco do filme riscado de tanto que viu esse filme quando você era mais nova!


- Ah, mãe... obrigada por lembrar! - Clarice então abraçou sua mãe, retribuindo o carinho ao lembrar de algo que moldou a sua mentalidade.


Duas meninas. Uma menina já crescida e outra que ainda iria crescer. O futuro de Clarice em pessoa estava ao seu lado. Ela viu no filme alguém que vai para uma cidade maior mesmo tendo todas as razões para temer o que viria, mas foi mesmo assim.


Não havia futuro a ser temido ou ser apreciado. Apenas a ser encarado de frente.


2017.


Cidade Tiradentes


O Salão do Reino estava um tanto cheio para uma reunião de meio de semana. Uma noite de quarta-feira agradável. Pelo menos em termos de clima.


- E agora, um anúncio que será feito pelo irmão Ernesto - disse Silvano com uma voz de apreensão.


Um clima de tensão tomou conta do salão. Daniel sentiu seus batimentos cardíacos aumentarem porque ele sabia do que estava por vir: Alguém estava prestes a ser desassociado - ou seja, expulso da organização das Testemunhas de Jeová. Um anúncio para toda a congregação que significava que, a partir daquele instante, ninguém, nem mesmo a família que não morava na mesma casa, poderia dirigir uma única palavra àquela pessoa.


O irmão Ernesto subiu à tribuna e com uma profunda expressão de pesar proferiu o anúncio:


- Irmãos... o anúncio... é esse... Humberto Marques Rodrigues não é mais testemunha de Jeová!


O clima de tensão se tornou um clima de tristeza. Adriana e seu filho Robson, que frequentam o mesmo Salão do Reino que Daniel e Cláudia, foram para a Sala B chorar. Vários presentes estavam incrédulos e outros choramingavam.


O cântico final nunca foi cantado com tanta melancolia como naquele dia.


Ao som do amém da oração final, Daniel disse:


- Agora eu entendi por que a Thelma não estava hoje.


- E você acha que ela iria ver o filho sendo desassociado?


- Qual seria o motivo dele ter sido desassociado?


- Deixa isso pra lá, Daniel! - Cláudia, já exaltada, queria calar o filho o mais rápido possível - Jeová mantém seu povo limpo. Agora vem aqui na Sala B para ver como está sua tia e seu primo.


Daniel conhecia Humberto desde que sua mãe começou a estudar a Bíblia com as Testemunhas de Jeová. Ele o ensinou a jogar xadrez em uma festa entre irmãos. Era muito simpático e engraçado.


O que tinha acontecido a ele?


Não haveria mais risadas, nem mais partidas de xadrez, nem mesmo um oi poderia ser dado a um desassociado das Testemunhas de Jeová. 


Daniel perdeu um amigo, e esta perda terá que ser vivida em silêncio.


2017


Colégio Altieiro, Vila Clementino


Clarice ganhou três novas companhias na sétima série: Vicenzo, um garoto franzino e tímido com cabelo descolorido; Pietra, garota ruiva de óculos redondos; Michele, uma menina de cabelo loiro liso e com uma mochila reluzente da Barbie.


Clarice os observava com atenção, buscando saciar sua vontade de conhecer pessoas novas.


Durante o intervalo, Pietra se aproximou.


- Você é a Clarice, né?


- Sim, sou eu.


- Falaram que você é boa em redação.


- Eu gosto de escrever porque eu leio bastante, e eu gosto de repetir no papel aquilo que eu li.


- E eu gosto muito de desenhar. A gente podia fazer alguma coisa legal nas aulas de artes.


- Meninas, vocês não se perderam nesse colégio? É enorme! - Era Vicenzo. Estava visivelmente inseguro pela forma como segurava um pacote de bolacha.


- Não que a gente saiba. Você sempre fala assim? - perguntou Clarice, rindo.


- Quase o tempo todo. É quando eu estou ansioso ou com medo. Tipo agora que estou com medo de me perder.


- Fique aqui com a gente que você não vai se perder - disse Pietra apontando para o lugar para Vicenzo se sentar - Essa é a Clarice.


- Oi, Clarice. Obrigada, Pietra - disse Vicenzo, ainda inseguro.


- Quero ficar com vocês também - Por fim, Michele - Ela é a Clarice, né?


- Sim! - disseram todas as três de uma só vez.


- Ah, já que estão todos aqui, então ficarei com vocês.


Clarice não sabia o que seria a amizade com aquelas três pessoas. Mas algo estava começando, não em silêncio, mas em constante barulho. Barulho de pessoas que estavam se conhecendo.


2017. 


Mairiporã, Salão de Assembleias das Testemunhas de Jeová. 


Congresso "Não Desista".


O filme da vez era uma versão moderna do relato bíblico da "mulher de Ló": Uma família atolada em dívidas, e a mãe da esposa diz que seria bom ela trabalhar para não passar aperto. O marido argumenta que é melhor "colocar o reino em primeiro lugar", mas a esposa não o ouve, e ela se torna uma corretora de imóveis, melhorando muito a vida financeira da família, mas esfriando com a religião.


E aí começam as narrativas religiosas: a mulher tendo alucinações onde se imagina sendo a mulher de Ló ao olhar para trás, vendo Sodoma e Gomorra sendo destruídas como se estivesse apegada materialmente àquelas cidades; três referências negativas contra homossexualidade: Na primeira, está a mãe da esposa vendo um programa onde um casal gay é protagonista, e eles são postos de costas. A mãe diz que "o mundo mudou", mas a filha não concorda com isso. A segunda ocorre quando a colega da filha mais velha da esposa diz que tem duas mães, e o pai diz que "seguimos o que está na Bíblia". E a terceira, onde o colega da esposa está de costas e fala de maneira mais "solta".


O filme, de um modo geral, é uma mensagem sobre antima­terialismo e mulheres sempre terem que ser "pioneiras" e "zelosas" e nunca independentes financeiramente.


Após os aplausos, Cláudia se vira para Daniel:


- Isso é para quando você for escolher uma "irmã" para casar: você presta atenção se ela é submissa, se ela quer só trabalhar para o "homem" e não fazer nada para Jeová. Não vai ficar só olhando beleza que é fria.


Daniel refletiu sobre o que sua mãe disse: nada de se apaixonar por mulheres que lhe afrontam e que não querem "fazer nada para Jeová". Justo ele, que ali estava com apenas 10 anos de idade.


2017


Shopping Santa Cruz


- Gostei mais da Rey nesse filme que no Episódio 7. Ela confrontou o Luke, o Kylo Ren e até mesmo o Snoke - Clarice estava em êxtase depois de ter visto Star Wars: Os Últimos Jedi.


- Eu gostei da ousadia do roteiro - dizia William - Colocarem Luke errando foi muito bom.


- Gostei também das cenas da Leia - disse Barbara - depois da morte da Carrie Fisher, elas ganharam um peso maior.


- Pai, você disse que comprou ingressos pra gente para a CCXP, não foi? - perguntou Clarice entusiasmada.


- Sim - respondeu William.


- Eu quero ir de cosplay de Rey - afirmou Clarice, fazendo a pose em guarda como se estivesse segurando um sabre de luz.


- E lá vamos nós para a Ladeira Porto Geral - afirmou William, já pensando aonde iria comprar a fantasia.


Clarice viu mulheres que contestam, que afrontam e que fazem a diferença. Mulheres que olharam para trás e, ao mesmo tempo, para frente.


2018


Mairiporã, Salão de Assembleias das Testemunhas de Jeová.


Congresso "Tenha Coragem"


Daniel, já com 11 anos, assiste a um vídeo do simpósio do domingo de manhã: "Acontecimentos que vão exigir coragem no futuro."


"Uma publicadora entra num café. Há bandeiras coloridas, um cartaz onde há um desenho de um casal de mãos dadas e várias pessoas com pulseiras de apoio à causa LGBT+.








Ela fica atordoada como se estivesse num mundo paralelo, até que uma funcionária lhe pergunta:


- Que foi, querida? Alguma coisa contra?


- Não, é que eu não tenho nada contra ninguém, pessoalmente.


- Então, qual o problema? - pergunta a funcionária com um tom de voz mais alto.


- Eu respeito o direito de escolha de cada pessoa, mas eu leio a Bíblia...


- Pera aí! - berrou a funcionária - eu acredito na Bíblia e vou à igreja, e a nossa igreja é a que mais apoia essa campanha! Então, o que você está querendo dizer?


A publicadora pensa consigo mesma:

"Ter coragem agora, vai me ajudar a ter coragem no futuro."


Então ela diz:


- Bom, eu sou testemunha de Jeová e sigo o que a Bíblia diz: sexo é somente para homem e mulher casados.


Em resposta, a funcionária diz:


- Gente ignorante...."


Em meio ao som dos aplausos, Cláudia se vira para Daniel e diz:


- É isso que você tem que falar para seus coleguinhas na escola. Seja corajoso como Daniel quando foi para a cova dos leões, então honre seu nome!


A "coragem" era para se defender de qualquer coisa que ele fosse ensinado a ver como ameaça a sua fé. Aquilo que não fosse um espelho deveria ser afrontado sem hesitação.


2018


Vila Clementino


A aula havia terminado. Enquanto os alunos saíam juntos, rindo e discutindo frivolidades, Clarice e Vicenzo estavam prestes a falar sobre emoções mais profundas.


Vicenzo estava como se um algodão estivesse preso em sua garganta, mas se pôs a falar mesmo assim.


- Clarice?


- Diga, Vicenzo!


- Você acha que eu, com 14 anos, já teria idade para sentir coisas por alguém?


- Então - Clarice ficou pensativa antes de dar uma resposta - depende da emoção.


- Você, desde que me conhece, me vê como esquisito?


- Não, você só é um tanto tímido, mas é uma pessoa legal.


- Então... espero que me entenda porque, de todo mundo que conheço na classe, você é a que mais me sinto livre para falar.


- Ah, Vicenzo - Clarice corou de felicidade - obrigada por confiar em mim. Diga para mim o que você está sentindo!


- Lá vai... Já faz um certo tempo eu acho as meninas lindas, maravilhosas... você é maravilhosa!


- Vicenzo, você vai me deixar vermelha me elogiando desse jeito...


- Então... eu quero que fique aqui só entre nós até eu ficar adulto. Tudo bem?


- Pode falar - Clarice segurou sua mão em apoio a ele - Até que você diga que posso contar para as pessoas.


- Pois bem... Eu sinto que acho as meninas lindas, mas não me atraio a elas. Mas sinto algo a mais pelos garotos. Então...


- Vicenzo... eu já entendi. Você sente atração por meninos. Só por meninos. Você teve coragem de contar para mim este segredo, e ele ficará comigo até a vida adulta, quando você então poderá expressar o que sente com mais firmeza. Dá aqui um abraço!


Vicenzo se entregou ao choro quando abraçou Clarice.


- Meus pais... Eles... eu acho que eles iriam me aceitar... Mas é que sou muito jovem!


- É como eu disse: quando você ficar adulto, vai poder expressar o que sente muito melhor que agora. Tudo bem?


- Obrigado, Clarice. Obrigado por me ouvir.


- E obrigada por se abrir comigo.


Clarice entendeu que Vicenzo estava reunindo coragem para contar o que sentia e que ela seria a pessoa escolhida para ouvir o segredo dele.


Porque, no final, não era sobre afrontar para ter coragem, mas ter coragem de guardar um segredo.


9 de Agosto de 2018


Cidade Tiradentes


Era o dia do primeiro debate dos candidatos à Presidência da República na Band. Mesmo tendo 11 anos, Daniel sentia que a campanha eleitoral daquele ano estava extremamente tensa.


Cláudia via o debate com desdém e resolveu desabafar:


- Eu nunca ouvi falar desse doido do Daciolo. Esse Bolsonaro eu lembro de aparecer na Rede TV para falar dos gays. E o resto eu já vi em outras eleições. Daniel, desliga isso aí e vamos dormir porque, no mundo de Satanás, não importa o governante: estamos todos na mão do iníquo!


Daniel vê o mundo pelos olhos de sua mãe: um território corrompido, administrado pelo diabo, onde governantes são apenas marionetes do iníquo.


9 de Agosto de 2018


Vila Clementino


A TV estava ligada na Band. Clarice e sua família assistiam atentamente ao debate.


- Esse Daciolo é um meme ambulante - disse William.


- Bolsonaro não vai falar de outra coisa que não seja pauta moral? - disse Barbara.


- Mãe, ele só sabe falar disso! - disse Clarice indignada.


William suspirou.


- Ele não tem projeto de país! É só bravata! Mas é o "mito"!


- Gente, mas até o Alckmin está indo bem - observou Barbara - O Álvaro Dias também está bem. O Meireles... ninguém merece um Temer parte 2. Marina Silva já deu o que tinha que dar. Ciro e Boulos até que teriam meu voto. Em Haddad, eu só votaria nele num segundo turno dependendo de com quem ele for.


- Amor, eu tenho a mesma linha de pensamento que a sua - disse William.


- Que bom que a gente avalia tudo isso com calma, né, pai, né, mãe? - perguntou Clarice.


- Como sempre, filha - disse William.


- Como sempre - finalizou Barbara.


Clarice cresceu em um lar onde seus pais discutem os filmes que acabaram de ver e falam de debates políticos com a devida visão crítica. Ela sabe guardar segredos íntimos de seus amigos e sabe celebrar a vida


Duas infâncias, duas vidas.


E as duas vidas seguirão por caminhos que mudarão os seus jeitos de serem.


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