Ok, eu tava tentando ser totalmente surpreendida, mas quando nós saímos da área dos mercadores, e entramos na área dos Curandeiros, eu me surpreendi um pouco.
Porque aquele canto do território era conhecido por ser bem mais limpo que o normal, os centros de Psicomancia, os centros Curandeiros, as casas de alquimia, e tudo que podia ser ligado a medicina estava lá. Então, meio que deixar qualquer sujeira lá, física ou visual era apenas impensável.
Eu nunca olhei direito para aquele lugar, mas tudo lá parecia tão novo, tão cromado, tão avançado, que por alguns segundos, pensei que eu tinha viajado pro futuro.
Mas não era apenas doideras também, pois lá também tinham cosméticos, salões de beleza, e outras coisas assim, porque, querendo ou não, os produtos de beleza eram também um lado do estudo Curandeiro, mesmo que fosse algo mais especializado.
Dandara: sinto como se tivesse viajado pro futuro
Pai: eu sei não e, eu sempre tenho um sentimento estranho quando venho pra esse lugar, mesmo quando é pra uma consulta Psicomantica.
E quando estávamos nesse papo, a Amanhecer relinchou, como se sentisse uma estranheza naquele lugar também.
Eu fiquei tão fascinada por tudo que tava ao redor de nós, que eu meio que não olhei muito para onde estamos indo, até que eu olhei pro lugar onde paramos, um salão de beleza.
Dandara: um salão de beleza? Por que?
Pai: lembra o que o vendedor falou sobre você precisar de ajuda?
Dandara: sei
Pai: bom, ele não estava totalmente errado, mas ele estava errado quando ele falou que só uma pomada iria te ajudar, não, pra esses danos que você recebeu, você vai precisar de um tratamento um pouco mais especial que isso. Anda, vem.
E quando meu pai falou isso, de novo ele me desceu da Amanhecer, e me levou pra dentro do salão de beleza, lá dentro, eu vi coisas normais, mulheres cortando o cabelo de outras mulheres, e conversando de montão. Até que eu olhei pra cima, e vi meu pai conversando com a atendente.
Pai: oi, eu tenho hora marcada, tá no nome de Cassiel.
Esse era o nome do meu pai? Cassiel? Estranhamente, combinava com ele.
Atendente: ah, sim Sir Cassiel, manicure às 10 horas, não e?
Pai: sim sim, e é pra a madame, a propósito.
A Atendente então parecia ter me visto, e mesmo me olhando superficialmente, ela perguntou ao meu pai.
Atendente: tem certeza que só quer uma manicure?
Pai: e, eu sei, ela tem muitas coisas a cuidar, só estou tentando resolver uma coisa de cada vez, por favor só leve a minha filha para a sala, por favor.
"Minha filha". Ahhhh, gostei de como ele falou isso. Depois que ele falou aquilo, eu fui levada pra uma salinha diferente, uma salinha com pouca coisa, só umas 3 cadeiras, uma mesa com uma ia e uma torneira, e uma cadeira que eu presumia pra clientes que iam fazer o cabelo ali.
E além de tudo isso, também tinha uma mulher esperando por mim, e quando ela se virou pra mim, ela sorriu e falou.
Mulher: ola, eu sou a Maria, e vou atender você, por favor, coloque as mãos ali, um minutinho.
Não tendo nenhum motivo pra desconfiar dela a essa altura, eu só coloquei minhas mãos na pia, e só agora eu percebi que ela estava cheia...e então, eu só fiquei lá, com minhas mãos mergulhadas naquele líquido...até que eu comecei a sentir uma coceira estranha nas palmas das minhas mãos.
Dandara: ah, é normal coçar assim?
Maria: sim, é totalmente normal, não precisa se preocupar.
E quando ela falou aquilo, ela foi até mim, e pediu pra eu tirar as mãos, e, MEU DEUS, eu achava que minhas palmas estavam feias, mas elas tinham ficado piores com, seja lá o que for aquele liquido.
Meus calos estava desfiados, com pedaços de pele caindo e parecendo quase que meu corpo tivesse rejeitando a minha pele extra, como minha mente estava rejeitando as memórias dos Galdinos.
E então, a Maria pegou uma das minhas mãos, e começou a esfregar elas com uma escova que parecia uma lixa na minha mão, que deveria doer, mas aquilo só fez eu rir, muito. Eu ri muito mesmo.
Dandara: PARA UM POUCO, ISSO FAZ CÓCEGAS HAHAHAHAHA.
Maria: espera só mais um pouco, eu to quase conseguindo aqui.
E basicamente me ignorando, a Maria continuou esfregando, e esfregando meus calos, os deixando um pouco menores, e quando risada começou a doer, a Maria parou, entendendo que devia parar.
Eu respirei um pouco, e comecei a recuperar o fôlego, até que a Maria foi pro outro lado da sala, pegou uma outra escova, e pediu a minha outra mão pra tirar os calos daquela dali também.
E mesmo bem receosa, eu ainda entreguei minha mão, porque, mesmo que ela exagerasse bastante quando não parava de escovar de jeito nenhum, ainda era bem divertido rir até quase perder o ar com essas escovadas.
Mas depois que ela fez isso com as minhas duas mãos, assim que ela trocou pra minha outra mão de novo, ela escovou com um pouco menos de força, deixando um pouco mais fácil de eu aguentar as risadas.
Maria: e ai, tá aqui porque?
Dandara: ah, os calos nas mãos já não são uma resposta?
Maria: cada um tem uma história diferente, normalmente eles que começam a conversa, então é meio estranho pra mim nao ouvir algo enquanto eu trabalho
Dandara: ah, não sei não, não tô confortável de dividir minha vida com estranhos
Maria: ta bom, eu espero por você contar os detalhes quando te ver de novo
Dandara: pff, agente vai se ver de novo?
Maria: claro que vamos, esses malandros aqui não vão se desfazer numa sessão só...
E ela falou aquilo enquanto escovou minha mão até parar em um certo momento, e nós duas vimos, as minhas mãos estavam bem melhores, mas muito longe de estarem livres daqueles calos infernais.
Maria: nossa, tipo, olha esses caras, não me culpe por estar interessada em saber o que foi que causou isso em você
Dandara: fui eu mesma...
A Maria então olhou pra mim, esperando que eu continuasse, mas assim como eu falei pra ela, ainda tava cedo demais pra eu confiar em estranhos assim.
Entendendo a mensagem, ela voltou a escovar a minha mão, e me fazendo rir mais. E depois de mais uma troca de mãos, eu falei pra ela algo, já que era nosso primeiro encontro, acho que podia falar alguma coisa, mesmo que só um pedacinho da minha vida, pra ela.
Dandara: são calos de uma coisa ruim que eu passei, por muitos, mas muitos anos mesmo. Eu to com esses "malandros" como você mesma falou, já tem anos, mas isso já tem tanto tempo que eu já tinha até esquecido que eles estavam ali a essa altura, sinceramente, não sei porque meu pai fez tanta questão de me levar aqui. De todos os problemas que tenho que resolver, esse parece ser o menos importante.
Maria: hmhm
Dandara: qual a graça?
Maria: foi seu pai que te trouxe aqui?
Dandara: é
Maria: bom, eu sinto que seu pai não vê esses calos apenas como incômodos, eu sinto que ele vê eles como uma lembrança.
E fiquei um pouco em choque quando ela me falou aquilo, a ponto que ela fez cócegas na minha mão de novo, mas eu nem senti dessa vez.
Dandara: como assim?
Maria: esses calos, eu consigo ver da forma que você olha pra eles que ele não são de lembranças legais, é só o devaneio de uma manicure, mas sinto que o seu papai apenas pensa que você deve se lembrar dessas coisas ruins que você passou sempre que você olha pra esses calos, e quando você se livrar desses calos, vai ficar mais fácil de esquecer das coisas ruins que você assou pra ter eles pra começar, eu estou certa?
Eu fiquei de olhos arregalados quando ela falou aquilo, não queria menosprezar a moça, mas eu não conseguia acreditar que alguém como uma manicure conseguia entender tão bem o que eu tava passando, então eu falei mais no reflexo mesmo.
Dandara: a quanto tempo você tá trabalhando aqui?
Maria: bom, eu comecei na quinta, então...eu devo completar 30 anos amanhã
Dandara: (assovio) trinta anos? Deve ter ouvido de tudo já desse território doido, não é mesmo?
Maria: correto, por isso sei que você iria gostar de conversar comigo, mas de novo, eu não ia te forçar a isso se você não quisesse...
Dandara: hummm, e, obrigado por isso, acho que já tô entendendo melhor porque to fazendo isso
Maria: ah, isso me deixa muito feliz, eu tive muitos problemas com clientes que não queriam passar pelo tratamento, então sei que fazer a pessoa entender porque nós estamos fazendo isso e o essencial antes de qualquer coisa
Dandara: é a experiência falando, também, como eu posso discordar?
Maria: simples, você não pode, olha só, nós acabamos.
E quando ela falou aquilo, vi que ela tinha pegado uma toalha pra eu limpar minhas mãos, e quando eu tive uma olhada melhor nas minhas próprias mãos...
E...eu fiquei impressionada com o quanto elas estavam bonitas...
Elas ainda tinham muitos calos estavam bem longe de estar livre deles, mas eles diminuíram a ponto de minhas palmas voltaram a ter uma cor mais clara que minha pele, algo que eu tinha esquecido como era a muito tempo.
E pela primeira vez em um tempo que eu nem mesmo me lembrava, deu pa fechar minha mão, com força, sem sentir que meu punho ficava dolorido ou ameaçava rasgar de alguma forma...
Por alguns segundos, achei doido como eu nem lembrava como era não sentir esse incômodo na pele, e uma vez que me vi livre desse incomodo, só consegui me perguntar "como eu consegui viver com isso por tanto tempo?".
Mas no fim, minha tristeza foi pega pelo alívio que eu senti quando aqueles calor foram embora, sim, ainda tinham calos insistentes, alguns que tavam bem longe de sair, mas aquele trabalho inacabado foi o suficiente pra eu pelo menos ficar satisfeita e alegre.
Maria: ok, a suas mãos vai ficar sensível por algumas horas, então não estranhe se você sentir uma coceirinha quando pegar em alguma coisa depois daqui, tá bom?
Dandara: tá bom, entendi.
Eu ouvi a Maria, ouvi mesmo, mas eu ainda tava focada demais só em entender por completo essa sensação nova que minhas mãos tavam tendo agora...
E enquanto eu admirava minhas mãos um pouco mais, eu voltei pro meu pai, vi ele conversar um pouco mais com a Atendente, e depois, eu voltei a subir na Amanhecer, e logo depois ter que segurar com cuidado meu pai por trás pra eu nao cair da égua.
Nos dois cavalgamos em cima do Amanhecer por um bom tempo, até que eu falei.
Dandara: obrigada...eu pensei que os meus calos podiam, se sabe, esperar pra quando certas coisas já estivessem boas na minha cabeça...mas acho que estou começando a notar o quão essencial era que eu cuidasse disso antes do que muitas outras coisas
Pai: tranquilo filha, sei que você devia estar passando por muita coisa, mas não se preocupe, eu vou cuidar de tudo
Dandara: então...a gente vai pra loja de vassouras agora? É meio perigoso eu ir lá com minhas mãos sensíveis agora
Pai: bom, sim é perigoso, por isso você só vai ficar em cima delas, e nada mais, entendeu?
Dandara: sim papai.
Hoje já tava sendo o dia mais incrível da minha vida, eu não me importava se eu não pudesse voar a toda a velocidade com a minha vassoura nova, eu a ter todo o tempo do mundo pra fazer isso, mas subir em uma vassoura de qualidade parecia muito...muito...incrível...
E enquanto eu pensava nisso, eu acabei de perceber uma coisa, e com muita raiva, eu olhei pro meu pai e falei.
Dandara: pai
Pai: sim filha?
Dandara: você fez agente vir pra cá primeiro pra eu não voar na vassoura muito rápido?
O meu pai tentou segurar a risada, mas ele não conseguiu, ele riu um pouquinho, e na hora que eu ia gritar, o meu pai falou.
Pai: conheço a filha que eu tenho, sei que você não ia aguentar ficar sem voar naquela vassoura se eu deixasse você subir em cima dela
Dandara: você é um babaca malvado, sabia?
Pai: e, eu sei.
Dandara: pfff, hihihihihi.
Eu tentei segurar o riso, como meu pai fez comigo, e assim como rolou comigo, eu não consegui segurar o riso, e como eu não pude manter minha voz contra ele, eu sorri um pouco mais, enquanto meu pai sorria também.
Dandara: haha, isso, não, acabou, ainda
Pai: ah, com certeza você vai me perdoar quando nos chegarmos na loja de vassouras
Dandara: melhor não contar com isso.
Eu falei isso como uma ameaça, mas até eu tinha percebido a falta de seriedade na minha voz, então eu só continuei calma, enquanto nós chegamos na loja de vassouras.

