Alguns dias se passaram depois do doididssimo dia que eu tive com a minha mãe. E em um dia como outro qualquer, eu tava olhando meu quarto com mais cuidado.
E apesar de só terem se passado algumas semanas, e eu aind estar dividindo meu quarto com o João, eu fiquei feliz com o tipo de coisas que eu coloquei nele, vários posteres de bardos famosos que comecei a ouvir constantemente atrás de meu espelho-televisão.
Uma cama com decoração simples de preto, pois pelo jeito, preto se tornou minha cor favorita ultimamente, por motivos que eu não entendia ainda. Com um travesseirobranco e um cobertor igualmente preto pra acompanhar.
Uma pequena mesinha que eu usava pra estudar…e também fazer músicas, pois esse era um hobbie que eu tava começando a me interessar bastante.
E um grande armário, onde eu guardava quase tudo, com a parte de cima dele, guardando uma das minhas maiores preciosidades, a minha vassoura.
Ela era uma vassoura barata, ruim, de baixa qualidade, com cerdas velhas, uma madeira desgastada que nunca foi trocada que dava pra ver nitidamente minhas marcas de mãos nelas.
E principalmente, tinha um estranho amor que eu possuía naquela vassoura velha, enrugada e defeituosa, um tipo de amor que me impedia de jogá-la fora, não importa o quanto eu quisesse isso…
Não parecia ser algo tóxico como a minha varinha pra mim, ela não doía ou me machucava, ela era uma vassoura ruim, de péssima qualidade, e que me deu problemas muitas vezes.
Mas assim como a minha varinha, mesmo fazendo o trabalho dela de forma muito ruim, ela era previsível, e como uma forma de me lembrar que, de alguma forma, até as coisas ruins podem ser boas em situações cetas, aquela vassoura absurdamente horrível havia sido a minha tábua de salvação.
O meu pequeno brilho de esperança no grande caos que era minha vida antiga, eu não ligava de nunca mais usar ela, já que agora ela parecia que iria quebrar se eu a usasse adulta, mas jogar fora, isso era algo que eu não conseguia fazer.
E enquanto pensava dessa forma, eu ouvi alguém batendo na porta do meu quarto.
Dandara: pode entrar.
A porta se abriu, e eu ouvi passos pesados, eu não precisei nem me virar pra ver quem era, quando ele se aproximou de mim, e colocou a mão no meu ombro, eu relaxei, e fechei os olhos.
Pai: um dia, eu ainda vou fazer jogar essa porcaria fora
Dandara: talvez, mas não será hoje…então, vamos comprar a varinha hoje?
Pai: ah, ela é muito mais coisas meu amor, eu ouvi que você teve um tempinho incrível com a mamãe ontem, então hoje você vai ter um dia feliz com o papai, o que acha?
Dandara: (sorri) eu acho ótimo.
Hihihi, eu gostava de passar uns dias com meus pais, eles eram divertidos pra caramba. Quando meu pai me falou aquilo, eu caminhei de forma devagar até a saída, e novamente ficamos frente a frente a Amanhecer.
E quando a amanhecer me viu, ela relinchou de felicidade, e mordeu a minha mão quando me aproximei demais, foi uma mordida de brincadeira, ela não mordeu pra machucar, mas ela ainda era uma égua, então doeu da mesma forma.
Dandara: AI!
Ah e, uma coisa que eu descobri e que a Amanhecer gosta de morder pessoas por brincadeira, ela fazia isso com o meu pai, mas parecia que ela não percebia que eu era fraquinha demais pra essa brincadeira.
Pai: ah, qual é filha, não faz essa cara, ela só tá brincando com você.
E a amanhecer deu mais um relincho quando meu pai falou isso, mas então ela olhou pra mim com olhos de cachorrinho, como se tivesse se desculpando, e eu não consegui ficar com raiva dela depois disso.
Dandara: (suspiro) você tem sorte de ser muito fofinha, senão eu já teria testado alguns golpes novos que eu aprendi em você
Pai: ela aguentaria, afinal, ela e minha égua desde filhote
Dandara: sera pai? Eu descobri alguns golpes bem interessantes de lá pra cá
Pai: seja lá o que você aprendeu, tenho certeza que eu e minha garota já lidamos com esse golpe 20 vezes, hahaha
Dandara: a proposito pai, sei que é do nada, mas, o que você faz?
Pai: ah, eu sou o ferreiro de uma forja famosa por aqui
Dandara: ah, não e atoa que sua pele é tão grossa
Pai: pois e ne?
Eu e meu pai rimos um pouco enquanto a Amanhecer ganhava um pouco mais de velocidade, mas de novo naquele ritmo calmo que meu pai já tinha entendido que eu amava de paixão.
No meio da nossa caminhada, eu me lembrei que eu tinha insistido muito tempo pro meu pai que ainda tava cedo comprar a varinha, porque não tinha muito tempo que eu a quebrei.
Mas acho que eu realmente subestimei o conhecimento de um amante de varinhas, porque ele discutiu comigo de uma forma tão perfeita que quando eu dei por mim, eu tinha falado “sim” pra já trocar a varinha.
Aquela conversa com meu pai foi esquisita, foi uma conversa rápida demais pra eu entender, mas lento o bastante pra eu entender que tentar argumentar com ele não ia funcionar…
Mas enquanto eu olhava pra tudo ao meu redor, tava começando a pensar que comprar minha varinha agora não era uma ideia tão ruim, mesmo que eu ainda estivesse bem resistente sobre isso.
Outra coisa que me deixou mais tranquila sobre a ideia de uma nova varinha era o fato de estarmos indo lá em cima da Amanhecer, pois apesar da personalidade brincalhona dela, a cor branca e crina amarela da égua sempre me fazia sentir como se estivesse montada num anjo toda vez que viajávamos juntos.
E a aparência dessa próxima parte do reino que eu visitei era bem bonita também, pois, como aquele ponto da cidade era mais descrito como: a área dos mercadores. O lugar era um pouco mais rústico que o normal, as casas tinham tijolos mais brutos, tinha uma lojinha em cada esquina, junto de várias casas que pareciam propositalmente sem tinta, só pra mostrar o bom trabalho dos construtores, e o trabalho deles era fenomenal mesmo.
Bom, quando entramos no território dos carpinteiros, encontrar a loja certa pareceu ficar mais simples, a rua dali era tomada por casas de madeira, um trecho da cidade que parecia que iria queimar fácil se uma chaminha fosse colocada ali.
Pai: não, isso não ia acontecer, eles colocaram feitiços a prova de fogo em tudo
Dandara: ISSO É SÉRIO! SEI QUE EU NÃO SOU A PESSOA MAIS NEUTRA DO MUNDO AGORA, MAS VOCÊ E TODO MUNDO CONSEGUIR ME LER TÃO BEM ASSIM É RIDÍCULO
Pai: não precisa de tanto também, filha, é só porque agente te ama muito, então é mais fácil pra entender o que você está sentindo.
Eu tava muito irritada agora, muito mesmo, mas não queria começar uma discussão com meu pai, então eu só engoli o choro e me aconcheguei mais nas costas dele.
Eu tinha que aprender a disfarçar melhor o que eu tava sentindo, antes que a pessoa errada acabasse sendo meu pensamento e metesse eu e todo que eu amo numa fria.
Tentando melhorar meu humor, olhei um pouco mais pra rua, percebendo que tinham alguns cavaleiros patrulhando a rua, e muitos magos fazendo feitiços diferentes e divertidos pra conseguir alguns trocados, por que esse era o custo de fazer feitiços de salao deles, apenas alguns trocados.
Quando descemos, vi que meu pai me levou pra uma lojinha de varinhas bem, diferente da que eu estava acostumada, a minha última varinha eu consegui numa loja grande, na central dos mercadores.
Pelo que eu me lembro, a loja que fui quando estava com os Galdinos era enorme, ela era cheia de varinhas diferentes, retoques, coisas chiques demais, varinhas que eram de primeira qualidade, e que parecem valer mais que várias casas.
Além de um brilho na loja, que, eu tinha que admitir, era bonito, mas ela era tão extravagante que eu nem conseguia olhar as varinhas direito.
E quando eu me lembrei daquilo, eu me lembrei que eu nem cheguei a ver as outras varinhas, eu apenas tive minha varinha escolhida pelos meus pais e apenas aceitei isso sem pensar duas vezes.
Já aquela lojinha, ela parecia muito…normal, no bom sentido, ela não era extravagante de nenhum jeito, ela era apenas mais uma casinha bonitinha de madeira como todas as outras, sim, ela tinha o estilinho dela, mas como todas as casas tinham um estilosinho proprio tambem, ela parecia quase se misturar na estranheza daquela rua, de certa forma, ficando basicamente invisível.
Acho que se não fosse pela placa de madeira, meu pai nem teria percebido que ela tava ali. Mas ao mesmo tempo, eu tava sentindo uma energia positiva bem forte do lugar também, uma energia que já ganhava de 10 a 0 a última loja que fui, e olha que nós nem tínhamos entrado no lugar ainda.
Dandara: que lugarzinho simpático
Pai: essa é a ideia né?
Falando aquilo, meu pai me tirou de cima da Amanhecer, me colocou no chão, e me levou pra dentro do lugar.
E pelo jeito, a lojinha era igualzinha por dentro e por fora, uma lojinha simples, com o próprio estilo, mas não algo muito “por favor olhe pra tudo menos as varinhas” como era a outra oja.
Ali, eu conseguia ver direitinho as varinhas todas guardadas em caixinhas pequenas, só esperando seu dono a pegar.
Eu olhei o lugar por muito tempo, um pouco fascinada pelas mesas e prateleiras serem seguradas por raízes de árvores, como se a própria natureza cuidasse do lugar. E enquanto meu fascínio crescia, eu olhei pra frente e vi o vendedor de varinhas.
Ele andou até nós com cuidado, e…ironicamente, ele era igualzinho ao que eu achava que um vendedor de varinha era. Ele usava um terninho de modelo antigo, parecia ter 1 milhão de anos de idade e óculos de fundo de garrafa, que deveriam ter um grau capaz de ver a beira do universo.
Pai: não se preocupe querida, quando o assunto é “varinhas” esse cara é um mestre
Vendedor: bem vindos ao “jardim de Deméter” o que desejam?
Pai: viemos comprar uma varinha, Senhor
Vendedor: a varinha é para o cavaleiro ou para a madame?
Pai: para a madame
Vendedor: madame, por favor, deixe-me ver suas mãos.
Não sabia onde isso iria fazer mas obedeci mesmo assim, eu admito, eu fiquei com um pouco de medo quando ele falou aquilo, mas quando olhei pro meu pai, e vi que ele tava preparado pra separar eu e o vendedor caso eu tivesse um ataque de pânico, eu me acalmei bastante.
Mas apesar de não entender porque precisava mostrar as mãos, fiquei tranquila vendo o cuidado do Vendedor pra não me deixar desconfortável, era nítido da forma como ele parecia examinar minhas palmas o quanto ele tinha experiencia naquele trabalho, e como ele tinha experiência em não deixar clientes desconfortáveis.
Pelo jeito, ele era um especialista mesmo.
Vendedor: aaaaaaah, simmmmm…triste…durona…inocente.
Ele continuou examinando minhas mãos mais alguns minutinhos até que ele as deixou de lado e começou a falar com meu pai.
Vendedor: as mãos dela estão piores do que parecem, as feridas fisicas e emocionais sao bem ruins, mas a ferida magica pode impedir que ela sequer segure uma varinha no futuro, isso se usar uma varinha logo depis de se desfazer de…de seja lá o que foi que criou isso nela.
A minha boca fez um formato de O perfeito quando o vendedor falou aquilo, mas pelo jeito meu pai já sabia disso, porque ele sequer piscou quando o vendedor falou aquilo pra ele.
Pai: estou ciente disso, então não precisa se preocupar, sei como cuidar da madame, como disse, só estou aqui para comprar uma varinha
Vendedor: bom, não pode culpar um vendedor por não querer ver um possível cliente regular apenas uma vez, hehe…(tosse) enfim, existe uma loja do outro lado da rua que vende pomadas para infecções mágicas como a dela, se quiser ajuda, é só ir até lá
Pai: senhor, eu realmente aprecio a ajuda, mas só viemos comprar a varinha
Vendedor: ok ok…(respira fundo e solta) nesse caso, peço licença a vocês.
Após se curvar ao meu pai, o vendedor foi para um dos cantos mais fundos das lojas e começou a procurar no meio de várias varinhas, algumas ele pegava com as mãos, outras ele usava o cajado pra elas voarem ate a mao dele, e outras os alhos literalmente cresciam pra ele olhar, dizer algo nas linhas de “nao essa nao” ou “nao essa tambem nao” e continuar procurando,
Tudo enquanto tentava puxar papo comigo.
Vendedor: você gosta de coisas fofas?
Dandara: sim
Vendedor: quer desfazer esses ferimentos do seu corpo?
Dandara: sim
Vendedor: você sente que esses ferimentos são sua punição por ter abandonado seu antigo fardo?
Dandara: por que tá perguntando essas coisas?
Vendedor: conversar me ajuda melhor a escolher as varinhas.
Ele falou isso enquanto tirava mais 2 varinhas do caminho, e depois me mostrou duas, ele não falou nada, mas olhar aquelas duas varinhas me fez sentir, alívio, tristeza e raiva ao mesmo tempo.
Vendedor: varinhas não são simples ferramentas, são a extensão do mago, mas não só em questão de magia e poder, mas como a sua própria existência. Varinhas são a forma que magos se apresentam ao mundo, varinhas grandes e que criam feitiços pesados são feitas para magos brutos, varinhas afiadas e finas são feitas paga magos que desejam acabar as batalhas em um único ataque, varinhas divertidas e estilizadas são feitas pra magos excêntricos, e por aí vai
Vendedor: uma varinha não é uma ferramenta para todas as funções, ela é algo que é criado com um simples e único propósito, pra ser melhor em uma coisa do que as outras varinhas. Algo que a torna especial, pra que seu futuro portador se sinta tão especial quanto a própria varinha
Vendedor: por isso, o pior erro que um mago pode cometer, é escolher uma varinha errada…mas como meu vovôzinho sempre diz, “nunca é tarde demais pra escolher a varinha certa”.
Eu ouvi com muita atenção cada palavra do Vendedor, enquanto ele se aproximou devagar de mim com duas gavetinhas de varinhas.
A energia de uma das caixinhas chamou minha atenção, eu sabia muito bem que eu não devia abrir aquela caixa, aquela, não era mais eu, mas eu abri mesmo assim, e dentro daquela caixinha tinha uma varinha peculiar, que parecia toda felpuda e fofinha, junto com jóias pretas e um cabo de couro super estiloso, como se quase fosse um animal vivo e muito fofinho.
Aquilo despertou um estranho gatilho em mim, um gatilho que me dizia: “isso seria algo que eu teria adorado quando criança”.
Mas quando peguei a varinha, me senti estranha, eu gostei dela, mas o peso da varinha, os meus calos incomodados com o cabo, e as manias que consegui graças a minha varinha antiga até aquele momento.
Tudo aquilo atrapalhou muito minha adaptação, e sem nem disparar um único feitiço, eu já tinha entendido que, mesmo se eu conseguisse fazê-la funcionar, não era a varinha ideal pra mim, pelo menos não mais, e apesar de eu saber disso, ainda doeu ter que abandonar algo que eu tinha certeza que a antiga “eu” teria amado.
Vendedor: está arrependida?
Dandara: não…sou alguém diferentes preciso de uma varinha que respeite quem eu sou agora
Vendedor: e é por isso que eu pensei nessa aqui.
A segunda varinha era algo interessante, era uma varinha com o cabo de pele de serpente, uma madeira parecida com um cacto espinhoso…mas com um detalhezinho especial, os pontos onde o cabo de serpente e a madeira de cacto eram separados com uma grande quantidade de flores.
Alguma coisa naquela varinha, seja a corazul da ele de serpente, as flores fofinhas, a duresa e resistencia dos cactos. Ela parecia ter tudo que a minha antiga “eu” iria gostar ao mesmo tempo, que parecia ter cada pedaco da minha nova eu, e não apenas o abraçava, mas estavam mais que prontos pra crescer através dessas minhas partes novas também.
Então, com muito cuidado, me aproximei da varinha, e como se minha magia estivesse reagindo primeiro que a minha mente, minha mana começou a se concentrar nas minhas mãos, e quando eu toquei a varinha, ela se agarrou na minha mão, quase como se tivesse crescendo em minha mão, mas ela nao tava crescendo, nem um pouquinho.
Aaaaaah, os caos da minha mão, pareciam estar se ajustando de forma perfeita aquela forma da varinha, o peso dela estava perfeito, e por mais que o espírito dentro dela estivesse bem adormecido ainda, eu conseguia sentir que aquele espírito gostava de mim.
E enquanto meu cérebro parecia estar analisando cada resquício de coisa boa daquela varinha, ela parecia estar fazendo o mesmo por mim, e quando eu olhei pro chão, eu vi que uma pequena fumacinha azul foi criada ao redor de mim, ah, o espírito já estava saindo da varinha? Nossa, eu sabia que nós tínhamos nos conectado bem, mas não pensei que teria sido tanto.
Quando a fumaça se dissipou, eu percebi que tinha uma cobrinha azul enrolada no meu pescoço, e eu tinha que admitir, aquela cobra azul me dava um estilinho que eu amava de paixão, mesmo com o colar de girassóis no meu pescoço ainda.
Mas o que eu mais senti naquela hora alem de tudo que eu senti na minha vida, era inexplicável por qualquer palavra além de uma “completa”.
Pela primeira vez em minha vida como maga, encontrei minha peça faltando, a extensão de mim, o meu futuro cajado que me guiaria até o futuro.
A varinha que iria crescer junto comigo até a minha jornada para a maioridade.
Mesmo não tendo 18 ainda, eu me senti uma mulher quando segurei aquela varinha pelo qual crescida me senti naquele momento, hihihi.
Eu olhei pra cima, e meu pai e o vendedor sorriram pra mim, não precisando me perguntar nada pra saber que aquela varinha era ideal pra mim mesmo.
Pai: quanto é?
Vendedor: siga me.
O papai e o vendedor conversaram por um bom tempo, até que o papai entregou uma sacola de moedas para o vendedor, e depois voltou pra mim com o estojo da varinha.
Pai: melhor você guardar isso ai com cuidado, porque isso é apenas a nossa primeira parada.
Hihihi, o papai tava animado mesmo, me deixava um pouquinho animada pelo que ele poderia estar preparando pra mim lá fora, mas eu não pensei no que poderia ser, eu queria deixar que ele me surpreendesse.

