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Olhos de mel 🌻X
Onde tudo começou
2569 palavras • 14282 caracteres • ⏱ 10 min 17 s

Onde tudo começou

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Tinham muitas coisas com que eu fantasiava em fazer, quando estivesse finalmente livre do centro de recuperação.


Aquele lugar me deu tempo o suficiente pra eu entender tintim por tintim todos os meus desejos.


Eu querer ser uma carpinteira, eu querer ter o Rex, tudo isso eram coisas bem importantes, mas, com o passar dos dias, e depois que eu me adaptei pelo menos parcialmente ao “mundo exterior” de novo, eu fui tomada por um grande desejo…


Não, desejo não era a palavra certa, era mais certo dizer que era uma grande necessidade.


Desejos são coisas que você quer, e não precisa, já necessidades, eram coisas que você quer e precisa pra sobreviver, e o que eu ia fazer, era com certeza a segunda opção.


Em um dia qualquer, eu acordei, estando com muito medo do que eu ia fazer, ao mesmo tempo, com muita certeza do que iria fazer.


Mexendo em um dos armários do meu quarto, eu mexi em uma gaveta que eu não tinha tocado em nenhum momento em todas as 2 semanas que eu voltei pra casa.


Mesmo com a minha mente tendo certeza do que eu tava fazendo a coisa certa, eu ainda sentia tanto medo de fazer aquilo que eu fiquei paralisada por longos minutos enquanto eu abria devagar a gaveta.


E quando a abri, fui recebida com uma lufada de mana negativa, nossa, a negatividade que eu senti atingir o meu rosto foi muito agressiva, eu senti como se tivesse encarando minha versão antiga de mim mesma.


E considerando que, pra muitos, a varinha era apenas a extensão do corpo deles, isso não era exagero.


A minha carinha, a minha antiga varinha ainda estava ali, dourada, pesada, e manchada pelo meu próprio sangue.


Eu tinha tantas lembranças ruins com aquela varinha, que apenas vê-la, me fez quase ter um ataque de Pânico, mas usando a técnica de respiração, eu peguei ela e a coloquei numa caixinha.


E quando eu me virei, eu vi meu irmãozinho, preocupado comigo.


Os meus pais pareciam já estar considerando se eu devia estar pronta ou não para ter um quarto só pra mim, mas por enquanto, ainda tava muito cedo.


João: você tem certeza que quer fazer isso?


Dandara: nunca tive tanta certeza de algo em toda a minha vida.


E então, eu olhei um pouco pra baixo, vendo a varinha abaixo de mim uma última vez, antes de eu continuar.


Dandara: vai ser o melhor pra mim, e pra ela


Joao: tá bom, maninha, se e o que você quer


Dandara: sabia que você ia entender.


Eu dei um abraço no meu irmãozinho, e sorrindo pra ele, eu saí de casa, claro, acompanhada pelo meu pai.


Eu tinha insistido pra gente não ir em cima da Amanhecer desta vez, porque eu queria aproveitar um pouco a vista da cidade.


Eu tinha acabado de recuperar a minha noção de cores, eu queria dar uma desacelerada em minha vida super animada e olhar com cuidado tudo que estava em minha frente.


Mas o meu pai insistiu que nós tivéssemos ela, e com a insistência do meu pai, acabei cedendo…e acabei me surpreendendo um pouquinho. 


Porque, eu sabia que os cavalos podiam regular a velocidade, mas depois de ver a velocidade que a Amanhecer fez outro dia, eu fiquei surpresa que ela conseguia galopar de forma tão lenta assim, parecia quase que nos estávamos caminhando na estrada.


E eu meio que gostei como a rua em que agente entrou era tão grande que agente não parava nenhum “trânsito de cavalos” hihihi. 


E eu também fiquei felizinha como a Amanhecer amava só trotar um pouquinho, ela era uma égua muito boazinha, que amava galopar por aí…


E mais uma vez eu me segurei no meu pai por tras enquanto estavamos em em cima da Amanhecer…e mesmo que eu gostasse de andar em vassouras bem mais do que cavalos, essa sensação de galopar na Amanhecer enquanto eu relaxava com carinho nas costas do meu pai era algo que eu tava guardando bem fundo na minha memória.


Mas o passeiozinho não era a única coisa que eu tava prestando atenção, com a Amanhecer indo mais devagar, eu podia olhar com mais cuidado tudo à minha volta, e me maravilhar com tudo à minha volta também.


Eu achava bonitinho como todos os prédios eram irregulares, quase nenhum deles se parecia com o outro, e cada um tinha a própria cor altamente viva.


Quando eu olhava muito tempo pros prédios, eu sentia que tava sonhando de novo, a ponto que eu precisei dar uns beliscões no meu braço só pra ter certeza que eu tava acordada.


E principalmente, o que eu mais notava eram as estátuas do lugar, eu pensei que só lugares especiais como escolas e bibliotecas teriam estátuas, mas pelo jeito, tinham estátuas de muitas pessoas famosas nos livros de história espalhadas pelo Reino.


Tinham estátuas da Lady Gracieli, do Sir Jean, do Sir Alaric…e muitas, mas muitas estátuas da Jaqueline.


Era impressionante como tinham estátuas da Jaqueline espalhadas por aí, sim, ela era a mãe do Alaric, ela era conhecida como “a mãe de todos os Singulares” e uma das que mais mergulhou na luta pelos direitos iguais dos Singulares, talvez só perdendo pro seu próprio filho.


Mas o fato de que tinham mais estátuas da Lady Jaqueline do que do Sir Alaric, mostrou bastante pra mim o quanto o Sir Alaric amava sua mãe. 


Pelo jeito, ele não queria que sua mãe fosse esquecida, mesmo que ele fosse esquecido antes dela.


Dandara: nunca notei o tanto de estátuas que tem por aqui


Pai: jura? Tipo, os quadros eu até entendo você não ter percebido, mas as estátuas estão por toda parte, como você não percebeu?


Dandara: bom, eu não sabia muito de casa, então deve ser por isso que eu não sabia delas também


Pai: é, essa é uma possibilidade também.


Eu queria olhar as estátuas mais um pouquinho, eu tava bem interessada em ver melhor como algumas eram pintadas, e muito engraçadinhas.


Mas o meu desejo pelas estátuas logo se dissipou quando eu cheguei no lugar que eu queria, e a minha noção de, pelo que eu estava me preparando, voltar com tudo dentro da minha cabeça.


E se eu tava com alguma dúvida se eu tava sonhando ou não, assim que eu fiquei na frente da grande arquitetura de castelo medieval da escola de Golens eu tive certeza que tava acordada.


Principalmente porque, tinham algumas memórias minhas que estavam meio confusas, tinham coisas que eu lembrava que eram maiores, menores, ou uma mistura dos dois. 


Enquanto a coisa real era apenas “comum” nem grande nem pequena demais.


Mas a escola de golens não era assim, aquele lugar estava tão imenso, blindado, e impenetrável do jeito certinho que eu me lembrava, e a minha memória não distorceu nem um pouquinho daquilo, ela não precisou exagerar.


Eu não sabia se ia ser permitida de entrar, já que eu não era mais aluna, mas tentando a sorte, eu me aproximei da entrada pra alunos sem cavalos, e antes de eu entrar, um golemzinho apareceu, pra falar comigo.


Golem: olá, visitante, o que deseja?


Hum, pela fala ele parecia bem avançado, mas eu não queria tentar a sorte, então eu falei da forma mais direta que eu consegui pensar.


Dandara: eu quero falar com a Diretora


Golem: e qual seria o motivo da visita?


Dandara: porque eu quero quebrar minha varinha, e não consigo pensar em ninguém melhor além dela pra pedir isso.


O golem, após ouvir isso, ficou alguns segundos parado, processando o que eu falei, então, ele se virou pra trás e falou.


Golem: siga-me.


E assim eu fiz, e quando eu passei pelas defesas mágicas e físicas gigantescas da escola de Golens do território, eu fiquei com muitas lembranças, tanto boas quanto ruins.


E enquanto estava andando no meio daqueles grandes corredores, eu fiquei com um pouco de medo que alguém me reconhecesse e quisesse conversar comigo.


Porque eu já tava com traumas e problemas mentais o suficiente sem ninguém sendo uma prova ambulante de todos os erros que eu cometi no passado.


Mas pro meu alívio, mesmo que eu me lembrasse de cada um deles, e de cada coisa horrível que eu fiz com eles, ninguém parecia se lembrar de mim.


Na verdade, enquanto eu andava pelos corredores eu ouvi os alunos dizendo coisas como “nossa, é uma aluna nova?” Ou “wow, como ela é linda”. E quando eu ouvi esses papos paralelos, eu meio que entendi porque eles não ficaram com medo quando me viram.


Enquanto eu tava estudando ali…e ainda morando com meus pais, eu ouvia coisas mais como “cuidado, a Dandara está vindo” ou “não olhe pra ela, senão você vai ser amaldiçoado”. E considerando o estado horrível que eu estava antes, eles tinham todos os motivos pra cochichar em assim quando eu passava.


Haaaaaa, quando olhei pra cima, eu vi umas coisinhas legais, um chão de pedra sólida, com um tom lilás bem sutil, um corredor com paredes rosas, e as portas em branco, era um pouco de vergonha no começo, mas aquele lugar parecia ter um ar bem tranquilo e bonitinho. 


Sério? Como eu nunca tinha notado isso quando eu estudava aqui? Eu já sabia a resposta disso, mas eu não ter percebido nada daquela coisa linda ainda era tão inacreditável pra mim que eu questionava a mim mesma mesmo sabendo a resposta.


E uma vez que eu cheguei no escritório da diretora, fiquei um pouco impressionada de finalmente estar olhando pra ela com tanta atenção.


Ela tinha uma pele pálida, uma pele pálida daquelas que pareciam queimar fácil no sol, olhos pequenos, sobrancelhas grandes, e um nariz bem grande.


Junto de um conjunto de roupas que pareciam um terno na parte de cima, e uma sai preta e longa na parte de baixo, que ia até os sapatos.


Eu tinha entrado no escritório dela junto com o Golem, mas ela continuou revisando um milhão de papéis na mesa dela, com a precisão de uma máquina, e com um foco tão grande, que eu conseguia ver que ela nem tinha nos percebido lá.


Golem: Diretora, uma visitante veio aqui visitá-la.


E como uma máquina que foi desligada, a revisão de papéis frenéticas da Diretora parou, e então ela me olhou nos olhos, e falou.


Diretora: ah, oi Dandara, o que lhe trás aqui?


Eu fiquei em silêncio e piscando algumas vezes perto dela, só pra ter certeza que ouvi direito o que ela disse, e quando tive certeza que eu não ouvi errada, eu falei.


Dandara: você lembra do meu nome?


Diretora: eu lembro do nome de todos os meus alunos, quando você vive tanto tempo como eu, lembrar dos nomes de crianças é bem fácil…


E com um olhar mais melancólico, ela arrumou os últimos papéis e continuou.


Diretora: mas quando um aluno tem um caso complicado como o seu, meio que fica mais fácil de lembrar.


Eu fiquei um pouco triste e envergonhada quando eu ouvi aquilo, mas antes de eu ficar com vergonha de verdade, a Diretora falou de novo.


Diretora: mas enfim, o que lhe trás aqui?


Dandara: ok, Diretora, eu queria te pedir um favor


Diretora: ah, claro Dandara, o que deseja, mesmo não sendo mais minha aluna, vou fazer o que puder pra te ajudar


Dandara: tá, mas, eu quero que você saiba que eu não podia pedir isso pra qualquer um, e eu só foi até você porque sabia que me entenderia


Diretora: nossa, Dandara, é tão sério assim?


Dandara: sim…


Eu respirei bem fundo quando eu falei essa última parte. Eu tinha me tornado bem ousada desde que recuperei a maioria dos meus sentimentos, mas falar esse pedido para a Diretora, mesmo que minha mente estivesse 100% certa disso, ainda era algo muito complicado pra eu dizer em voz alta.


Dandara: é que, eu quero uma varinha nova, mas sei que eu tô ligada a minha carinha antigo tempo demais pra eu me desvencilhar dela, então, eu quero que você me ajude a fazer um ritual pra parti-la do jeito certo e a nossa conexão ser quebrada, pra sempre.


Eu pensei que a Diretora ia ficar chocada com o que eu disse, mas não, ela não mudou em nenhum momento o sorriso gentil dela. O mesmo sorriso que sempre me fez ve-la como uma vovozinha que via toda a escola como seus netinhos, e eu não tinha certeza se eu tava tão fora da realidade assim.


Diretora: Dandara, olha, eu estou muito ocupada, e não posso fazer o ritual agora, então, porque você não volta hoje a noite pra nós fazermos tudo direitinho e com calma?


Dandara: por mim tudo bem, até a noite, Diretora


Diretora: até a noite Dandara.


Hum, isso tudo se saiu muito melhor do que eu pensei, eut ava um pouco chateada por perceber que eu tinha carregado aquela varinha defeituosa pra cima e pra baixo hoje, apenas pra descobrir que a Diretora não ia conseguir me ajudar a quebra-la até a noite.


Mas no fim, acho que eu tava desesperada demais pra me livrar dessa carinha pra pensar direito, se eu tivesse pensado só um pouquinho com mais calma, eu ia ter percebido que eu não ia conseguir a ajuda da diretora no meio do dia também, quando a maioria dos alunos estava em aula, e num dos momentos em que a defesa devia estar nas alturas.


Hum, isso até me deixava um pouquinho impressionada que eu consegui falar com a diretora em uma situação como essa…


Bom, eu podia tirar todas as minhas dúvidas com ela na hora, mas por enquanto, talvez eu só iria tentar me manter calma, enquanto eu voltava pra casa, com aquela horrorosa Verinha ainda inteira.


Isso, até que eu me lembrei que meu Pai estava comigo, e a Amanhecer também, cara, que loucura, eles ficaram tão quietos quando chegamos na escola que eu mal notei eles lá


Dandara: e ai papai, mandei bem?


Pai: voce foi otima filha, mas aquilo foi só uma reunião, vou esperar pra te dizer o quão bem você foi quando você voltar lá e quebrar a varinha


Dandara: ok, entaaaaaaaaão, nós vamos pra casa?


Pai: não sei, o que você quer fazer?


Dandara: hummmmmmm, eeeeeeeeeeu, queeeeeeeeero…(espira fundo e solta) andar um pouco mais pelo Reino


Pai: jura? Então tá, vem, o Papai vai te mostrar todos os lugares bacanas que tem do lugar


Dandara: hmh, você não faz ideia do quanto isso vai ser útil pra mim no futuro


Pai: é, com o seu namoradinho, não é?


Dandara: ah pai, para.


Sério, tinham muitas coisas ainda muito estranhas pra mim no meu relacionamento com os outros, mas acho que o mais doido ainda era como meu pai gostava tanto do meu Príncipe, claro, o meu Príncipe era alguém muito legal, mas era impressionante pra mim ainda o quanto meu pai gostava dele.


Não parecia nem um pouco as reações “normais” de sogros que eu li em minhas histórias, era um desses casos que as pessoas diziam que “a ficção não é igual a realidade”? Ou era outra coisa?


Hmhmhm, pensar naquilo conseguiu acalmar um pouco minha cabeça, só esperava conseguir ficar assim quando a hora de destruir a varinha chegasse…ela ainda tava pulsando no meu bolso, como se estivesse lutando pra me impedir de fazer isso, coitadinha, o esforço dela seria sempre em vão, porque eu não ia desistir. 


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