Tinham muitas coisas que eu queria fazer, principalmente com o novo estado da minha mente, e desde que meu pai começou a me ajudar, a entrar na escola pra carpinteiros mágicos, eu fiquei mais aberta a contar meus sonhos pro meu pai.
Tanto que, quando eu falei pra ele que eu queria um cachorrinho, ele ficou tão feliz que por um momento eu pensei que ele ia começar a chorar lágrimas de alegria.
Pelo jeito, um cãozinho era algo que ele queria a muito tempo, mas como a mamãe e o irmãozinho não eram muito chegados a cachorros, ele nunca teve uma oportunidade de revelar esse sonho a ninguém.
E em uma manhã como qualquer outra, onde eu ainda tinha um tempinho, antes da minha série de deveres da escola de carpinteiros começarem, eu e meu pai saímos pra comprar um cãozinho.
A mamãe quis vir junto, mas ele queria passar um momento pai e filha comigo, mesmo que agente tivesse fazendo algo tão comum quanto adotar um filhote.
Mas, agente não foi andando pra lá, não, agente foi em um transporte de luxo, e uma muito bonita.
O meu pai tem uma égua branca com um símbolo preto de prisma no rosto e com uma crina loira. Ela era a coisa mais bonita que eu já vi na minha vida, quando a vi pela primeira vez, não resisti à vontade de fazer carinho nela, e eu senti um amor florescer no meu coração quando ela relinchou de felicidade com meu carinho.
Pai: hmhm, ela gostou de você
Dandara: e também gostei dela
Pai: que estranho, ela normalmente e não confia muito em estranhos
Dandara: pois é, mas deve ter o bastante do seu cheiro em mim pra ela entender que eu sou sua parente.
Eu falei aquilo de forma casual, mas meu pai levou isso a sério, e tava bem feliz quando falei aquilo. E com meu pai como apoio, eu subi na garupa dela e esperei meu pai subir.
Noooooooossa, foi incrível isso, eu gostava mais de vassouras, mas eu consegui sentir o poder daquela égua linda, ela era potente, e muito leal.
Dandara: a belezinha tem um nome?
Pai: eu gosto de chamá-la de…amanhecer.
A grande égua relinchou vitoriosa ao ouvir o próprio nome, e eu até fiquei feliz quando ela fez isso.
Pai: e ela também gosta de ser chamada assim
Dandara: amanhecer: hmhm, combina com ela.
E combinava mesmo, porque quando a grande égua começou a trotar pela grande rua, eu senti o vento no meus cabelos, e uma velocidade tão grande que eu fui obrigada a agarrar meu pai por trás.
Mas assim que o galopar da Amanhecer ficou mais calmo, lento e constante, eu continuei segurando meu pai, pois eu me sentia segura quando o segurava daquela forma, e apesar do sol, do barulho e até do movimento do cavalo.
Eu quase dormi na garupa pelo quão relaxada eu me sentia perto dele, e depois dagente cavalgar alguns minutos, nós chegamos numa lojinha beeeeeem diferente do que eu esperava. Antes, eu pensei que agente iria pra uma lojinha de cachorros, mas não, nós fomos para um canil estranho.
Era estranho porque, a loja não parecia acolhedora e nem convidativa, como a forma que eu imaginava um canil. Ela era dura e com cores frias, quase como uma prisão pra animais.
E ter esse pensamento só fez com que eu quisesse entrar ainda mais ali, pois seja lá quais animais estavam ali dentro, eles com certeza precisavam da minha ajuda, e eu queria muito saber quantos animaizinhos eu conseguisse.
Pai: olha, podemos ir pra outro lugar se você quiser
Dandara: não, tudo bem, tudo bem mesmo, eu quero entrar.
E eu não estava mentindo “não julgue um livro pela capa” não é mesmo, assim que eu entrei no canil, eu já me preparei pro cheiro de mofo e cachorro molhado de um lugar muito mal cuidado.
Mas o que vi e senti lá com certeza não era o que a entrada mostrava, o lugar, no máximo, o lugar tinha um peculiar cheiro de hospital, mas nada ali, do chão ao teto dava qualquer sinal que os animais dali eram maltratados.
Muito pelo contrário, agora eu reavaliei a mim mesma, aquilo não era uma prisão pra animais, era um hospital de internação pra animais.
Acho que eles gastaram tantas moedas pra fazer um interior confortável que esqueceram de fazer um interior convidativo. Bom, não dava pra ganhar todas né? E vendo algumas coisinhas dali, acho que, no final, eles escolheram bem onde investir.
E depois de meu pai falar com o atendente, fomos ver os cãezinhos, e como eu pensei, muitos dos cães ali pareciam ou cachorros abandonados, ou cachorros de rua recém resgatados, ou cachorros que passaram por cirurgias recentes.
Todos com problemas, todos mal cuidados, e todos com um olhar de esperança que eu o escolhesse como uma nova dona. E com uma casa melhor que a sua anterior.
Não fazia ideia do por que meu pai me levou ali, mas ver aqueles bichinhos ali apertou meu coração, como podia ter tantos? De onde eles vieram?
Pai: de idiotas
Dandara: anh?
Pai: gente idiota que não respeita nem a própria mãe terão em todo lugar, a realesa daqui faz o possivel pra encontrar essas pessoas e garantir que elas nao machuquem ninguem, e na maioria do tempo elas conseguem, so que, sempre tem as execoes, a pequena porcentagem daqueles pobres animais ou pessoas que eles nao enchergam a tempo, e sao apenas ajudados depois do estrago estar feito.
E falando aquilo, meu pai segurou um pouco o caixão, como se tiviesse problemas pra acreditar nas próprias palavras, e depois de respirar por mais algum tempinho, ele continuou.
Pai: sei que eles parecem muitos, mas em comparação a todo o reino, eles são poucos
Dandara: e eles não merecem ajuda por isso?
Pai: muito pelo contrário, filha, eles estão aqui, e eu consegui te levar pra cá, porque todo mundo que criou e cuidou desses cachorros, mesmo depois de todasas experiências horríveis que eles tiveram, eles só fizeram isso porque acreditava que eles importavam, não importa o quão poucos essas “exceções” fossem.
O meu pai falou aquilo, enquanto eu andava devagar entre os corredores. E enquanto eu caminhava e via muitos outros cachorros, eu me lembrei da Lady Isabeli, aquela princesa, invisível, mas com um coração tão grande que parece querer colocar o mundo inteiro nele.
Eu não conhecia a Rainha Alexandra, mas eu conhecia a Lady Isabeli o bastante pra saber que isso com certeza era algo que ela faria.
Dandara: e, isso é algo que posso ver o reino fazendo…(suspiro) mas ainda me sinto muito mal pelos cãezinhos.
Falando isso, eu senti meu pai colocando a mão no meu ombro, com carinho, e falando.
Pai: você é muita gente querida, só saiba que, eles vão estar seguros, entao, nao precisa pensar que você tem que escolher um cãozinho específico só porque ele parece o mais miserável ou triste, escute seu coração, e deixe que ele te diga qual desses carinhas azarados merece ser seu
Dandara: sim papai.
Depois de tudo o que o meu pai falou, eu senti como, de uma forma estranha, todos aqueles cãezinhos eram como eu, seres que nasceram num mundo incrível e lindo, mas que tiveram o azar de nascer nos 10% do mundo que ainda era terrível.
Sabia que apenas um deles iria ganhar a loteria da bondade e ser levado para fora do canil como meu amiguinho. E, depois de tudo que meu pai falou, me senti estranhamente calma andando no meio dos cãezinhos.
Isso porque, eu sabia que eles sairiam daqui, apenas em outros dias, tudo ia ficar bem…então, eu podia me permitir ser apaixonada por um deles em específico, assim como meu Príncipe se apaixonou por mim, assim que nós encontramos nossos olhos pela primeira ves.
Aaaaaah, claro que isso não ia rolar, acho que eu tava sendo muito otimista, mas tentando não pensar demais nisso e criar cenários muito idealizados em minha cabeça, eu olhei de novo prós cãezinhos os avaliando um a um.
Isso enquanto eles mesmos pareciam me avaliar de certa forma, alguns pareciam gostar um pouco de mim, alguns se retraíam, outros pareciam rosnar e até querer me morder.
Andei naquele corredor de gaiolas por um bom tempo até que em uma das gaiolas, eu vi um cãozinho bem pequeno, ele tinha um corpo pequeno, mas patas bem grandes, e o rostinho dele era tão bobinho.
O pelo dele era laranja com manchas vermelhas, e ele tinha orelhas caídas, e…assim como eu idealizei dentro de mim, quando o olhei bem fundo naqueles olhinhos escuros, algo acordou em mim naquela hora, algo tao instantâneo, que eu comecei a pensar que acabei de me apaixonar à primeira vista pelo animal.
Dandara: ele morde?
Cuidador: não?
Dandara: quantos anos ele tem?
Cuidador: 2
Dandara: ele tem um nome?
Cuidador: chamam ele de Juliano
Dandara: que horror de nome é esse?
Apesar de estar bem indignada que alguém teve a cara de pau de dar esse nome pra um cachorro, aquela raiva não foi o bastante pra quebrar esse momento mágico que eu tava sentindo com o caozinho agora.
Ainda não olhando pra mais ninguém além dele, eu me aproximei do cãozinho até eu tocar nas barras da grade dele e ele lambeu minha mão, todo empolgado e feliz de ter alguém interessado nele.
E feliz de formas que eu estava tentando decifrar ainda, eu fiz carinho na cabeça dele, e mais uma vez aquela sensação de uma flor florescendo em meu coração me afetou de novo.
Nossa, uma sensação de flor desabrochando no meu peito rolando duas vezes no mesmo dia? Esse era um novo recorde.
E enquanto brincava com a orelha do cãozinho, como futura dona do animal, eu sabia que não ia conseguir chamá-lo por aquele nome difícil, então falei.
Dandara: você quer um nome novo, querido? Vou chamar você de Rex, o que acha menino?
Não sabia se ele me entendia, mas quando falei isso, ele pulou na jaula todo animado, acho que gostou do nome.
Cuidador: uuuuh, ele está animado, acho que gostou do nome novo
Dandara: e, concordo com você
Pai: vai querer esse, filha?
Dandara: sim, eu quero.
Eu já tinha passado por muitos momentos onde eu conseguia falar sem arrependimentos, mas acho que hoje foi um dos dias onde meu arrependimento diminiu ao zero, instantaneamente, pela primeira vez.
Pai: vamos querer esse.
E depois do meu pai ir pro balcão e conversar um pouco com o cuidador, nós levamos o Rex para a casa dos Druidas, pra ver se ele tinha alguma doença ou alergia, e depois passamos o resto do dia comprando brinquedos pro Rex, junto de comprarmos um hambúrguer e tomarmos sorvete no meio do caminho.
Foi divertido ver meu pai se impressionando comigo fazendo coisas normais como rir, achar fofo quando outro cãozinho chegava perto do Rex, ou gritar quando eu me machuquei tropeçando no chão.
Era interessante e estranho, ao mesmo tempo pra mim, como, para os meus parentes, eu sentir sentimentos era algo tão novo assim pra elas, isso me deixava mais empolgado pras próximas aventuras que eu ia ter com todos, humhumhum.
E era muito legal me agarrar nas costas do meu pai e galopar com tudo nas costas da Amanhecer, toda a vez que eu subia nas costas da Amanhecer e fechava os meus olhos, me sentia a garota mais protegida do mundo.
O meu Príncipe tava certo, aquele porco sujo, que um dia eu chamei de pai, nunca mais iria chegar perto de mim, ele, meu novo pai, e qualquer um que se importasse, mesmo de forma mínima, comigo, não ia permitir isso acontecer.
E no fim do dia, quando voltamos pra casa, todo mundo foi cumprimentar o novo membro da família. E olha só, apesar de nenhum deles querer um cãozinho, dava pra ver que eles já estavam apaixonados pelo Rex.
Eu tinha que tomar cuidado quando desse ordens nele, senão, ele que ia ser quem manda na casa, não o papai, e eu não podia deixar isso acontecer.
João: qual é o nome dele?
Dandara: o cuidador o chamou de Juliano, mas como era um nome idiota, eu tô chamando ele de Rex
João: Rex? E de onde você tirou isso?
Dandara: ah, num livro que eu li.
E depois de mostrar a casa pro novo membro da família, fiz uma festinha de chá com minha mãe, desejando ter um momentinho tranquilo, estilo mãe e filha, com ela.

