No próximo dia, estava numa área protegida para voo dentro da casa de recuperação, estava em cima de uma vassoura de segunda mão que parecia ser capaz de quebrar a qualquer momento, e mesmo assim, algo dentro de mim sentiu algo familiar com aquele toque, eu me sentia uma caosinha voltando pra casa, assim que eu finalmente pude por as mãos numa vassoura de verdade, por mais quebradinha que ela estivesse.
Uma alegria absurda passou por mim quando eu subi em cima da vassoura e voei devagar pra cima. Quanto mais vento chegava em mim, mas eu deixava meu cabelo aproveitar aquele momento, ainda doía como eu mexia nele em alguns momentos, mas a liberdade de deixá-lo solto superava qualquer dor que eu sentia no meio disso.
Apesar de não poder ir muito longe, já que tinha uma rede de segurança no pátio, eu me senti um passarinho voando livre pelos céus, sem correntes ou cordões me prendendo, apenas o vento me levando a alturas maiores e bagunçando meus cabelos cada vez mais.
Algo irônico, já que tinha uma gaiola mágica que impedia agente de fugir através do parquinho, mas com ou sem a gaiola, eu me sentia mais livre do que qualquer outro momento que eu já estive lá fora,com meus pais biológicos, com os adotivos…e, e por mais que me doesse admitir isso, hoje, eu tava me sentindo mais livre que quando estava com meu Príncipe.
Nossa, era isso que ele queria dizer com “competir com outros amores?” era com esse tipo de amor que eu precisava dizer em voz alta que amava meu Príncipe mais que isso?
Bom, se for, esse é até o mais fácil, porque, querendo ou não, eu só descobri isso graças ao meu Príncipe, então, acho que ia ser fácil dizer que eu amo mais meu Príncipe que essa sensação de liberdade, mas ainda faltava eu me apaixonar pelos outros, só pra ter certeza do que eu tava fazendo.
Voltando minha atenção pro voo, olhei pros pontos mais baixos do lugar, e vi os outros Singulares se exercitando, alguns tavam levantando peso, outros tavam correndo, e outros estavam fazendo ioga, e isso só citando alguns.
Mas cada um tentava ou só se manter saudável, ou tentar se adaptar a sua própria Singularidade através dos treinos, cada um com seu próprio problema, e cada um com sua própria solução criativa, não muito diferente do que eu e muitos outros Singulares estávamos fazendo agora.
No alto, junto comigo, estavam muitos singulares com maldições mentais, mas muitos singulares, que por exemplo, tinham mãos gigantes, ou que tinham olhos extras, tentavam se adaptar a voar com sua vassoura com esses membros a mais.
Fiquei um bom tempo lá em cima, e quando decidi descer, não foi uma decisão minha, mas sim da vassoura, que ficou tão fraca que não conseguiu mais se manter em pé.
E mais uma vez que eu pus meus pés no chão…senti mais uma vez um calor pulsante bem familiar em meu coração, que mais uma vez se espalhou por todo meu corpo, enrijecendo meus músculos, e me preparando pra lutar, ah, essa ai eu sabia muito bem qual era…ela era familiar até demais pra mim.
Dandara: ah raiva, minha velha amiga, vamos, temos algo a fazer.
Seguindo meus instintos e emoções, andei com os sapatos batendo com força no asfalto quente e fui direto para o mago mais perto de mim.
Dandara: quem é que cuida das vassouras?
Mago: sou eu, por que?
Dandara: essa vassoura tem uma péssima qualidade, o cabo está desregulado, fazendo com que o passageiro tenha que fazer um malabarismo pra não cair, as cerdas estão com potência demais, e considerando o espaço fechado que agente fica, deixa muito difícil de mudar de direção com ela, e o núcleo mágico está tão velho que se eu não ficar enviando magia pra ele constantemente, a vassoura pode parar de funcionar no meio do ar, mas ao mesmo tempo, se eu mandar magia demais, o núcleo pode perder o controle e explodir em baixo de mim
Mago: lamento Lady Dandara, é que nós nunca vimos a necessidade de trocar as vassouras, já que tão poucos pacientes ficam tanto tempo assim com elas
Dandara: isso é muito irresponsável, eu sou uma louca por vassouras…
Queria continuar falando, mas…falar aquilo ativou algum gatilho em minha cabeça, eu contemplei essas palavras há um bom tempo, a ponto do mago falar comigo.
Mago: você tá bem Lady Dandara?
Dandara: ahn, áh, sim, eu to bem. (tosse). o que estou dizendo é que alguém podia ter desativado a vassoura no meio do ar e se machucar feio, vocês estão prontos pra lidarem com as consequências disso?
Mago: não se preocupe, temos magos a postos para isso nunca acontecer
Dandara: e nenhum paciente nunca se machucou por que um desses magos relaxou ou ficou no ponto cego pra não conseguir ver aquele aluno? nem uma única vez?
Mago: não, temos magos a postos o suficiente pra um cenário assim nunca ocorrer.
Nossa, aquilo era tão surreal que era difícil de acreditar, esses magos eram o tipo de “adulto” que o Antônio sempre mencionava? Interessante.
Dandara: mesmo assim, essas vassouras estão muito ruins, por que vocês não tentam consertar elas? Não precisa nem trocar, só concertar
???: por que você não faz isso? Tenho certeza que você irá se divertir bastante com isso.
Olhei na direção da voz, e era o Psicomago Gabriel, serio, as vezes era doido pra mim como ele sempre parecia estar no lugar certo, na hora certa, mas pensando um pouco sobre o que ele falou, cheguei a conclusão que não tinha motivo pra desconfiar dele, e eu também estava bem curiosa pra saber que tipo de história as marcas daquelas vassouras podiam me contar.
Dandara: quer saber, tem razão, isso vai ser bem maneiro.
Eu estava um pouco temerosa por eu estar fazendo aquilo sendo ainda uma Paciente, mas pelo jeito, ninguém ligou de eu dar uma olhada naquelas vassouras…ninguém ligou até de forma surreal, em meio as minhas mudanças nas vassouras, eu até fiquei curiosa, e perguntei isso diretamente ao Gabriel
Dandara: ai, esse lance de vocês usarem vassouras ruins…isso foi um truque seu?
Gabriel: foi sim, queria te mostrar como sua paixão podia ser vista no und real.
Eu devia ficar com raiva pelo que ele me fez passar, devia mesmo, mas quanto mais eu pensava sobre o que seu planinho ele permitiu fazer, eu só senti como, raiva era a última coisa que eu conseguia sentir agora.
Nos próximos dias, fiz um projetinho onde eu desmontei e tentei consertar as vassouras, com a ajuda de um fabricante de vassouras que foi levado para lá como mais uma recompensa pra mim pelo bom comportamento que eu tive.
Mas algo em mim também me dizia que o Gabriel tinha algo a ver com isso.
E aquelas simples aulinhas conseguiram modificar o interior da minha alma de formas que nem eu conseguia entender direito. Claro, isso também junto com as histórias que eu descobri em cada vassoura que eu montava desmontava.
Algumas vassouras tinham marcas de mão, mostrando raiva, medo e até excitação em voar, coisas que eu conseguia ver claramente enquanto tentava as concertar sem tirar aquelas marcas.
Outras tinham cores bem conservadas, mostrando que as pessoas que usavam elas queriam apenas um passeiozinho simples, e que só queriam ficar no ar sem pegar velocidades muito altas.
Outras tinham cerdas bem desgastadas, demonstrando que os que usavam aquelas vassouras, ou queriam fugir, ou queriam bater nas muralhas da casa de reabilitação com a maior força que tinham, não tinha uma terceira opção.
Tanta história, tantos sentimentos e tantas intenções. Tudo contado através de marcas em vassouras, a ponto que eu cheguei a abraçar alguns daqueles pedaços de madeira em minhas mãos, essas garotas eram guerreiras, elas passaram por muita coisa.
Dandara: não se preocupem, vocês vão ficar bem melhores agora.
No fim, não alterei as vassouras pro jeito exato que elas estavam antes, na verdade, as modifiquei com a ajuda do criador de vassouras e as coloquei de uma forma para cada um dos “costumes” daqueles que usavam as vassouras.
Uma vassoura menos potente pros caminhos e tranquilos, uma vassoura com cabo mais mole para os emocionados, e uma vassoura com bastante controle de direção para os loucos por velocidade.
E quando meu serviço tava feito, me senti inacreditável, desde que eu entrei naquela casa, eu senti coisas que não senti nem quando cheguei na minha nova casa, mas o sentimento de realização que tive quando vi aqueles bebês voando aos céus, e meus “clientes” satisfeitos com meu trabalho, senti que tinha achado meu dom, meu propósito, minha missão nessa terra.
Leide: são vassouras muito bonitas
Dandara: é, elas são mesmo.
Apesar de estar sorrindo, eu olhei para aquelas vassouras no céu, ficando bem feliz que eu tinha entendido e enxergando cada uma daquelas peculiaridades, e vendo como os “poucos” alunos que voavam estavam se divertindo e rindo, sabia que tinha ido bem.
Mas uma parte de mim mesma ficava martelando uma coisa em minha cabeça. “Como eu sabia de tudo isso?”
Bom, apesar daquilo realmente me incomodar em alguma intensidade, outra pergunta ficou em minha cabeça, e depois de equilibrar as perguntas, decidi que aquela era ainda mais intensa.
Dandara: humpf, ele fala tanto de adultos, mas o que é uma criança, ou um adolescente?
Leide: o que?
Dandara: ah nada não, só tô pensando alto.
Me dando carta branca pra pensar nisso, peguei uma das vassouras “calmas” e apenas voei enquanto pensava sobre essa pergunta constante, hummmmm.
O meu Príncipe, ele gostava muito de conversar sobre todo o tipo de coisa. Uma das nossas conversas mais constantes, era como ele amava me ajudar a como diferenciar “falsos adultos” como meus pais, de “adultos de verdade” como a Lady Marcela, a mãe dele.
Mas o meu Príncipe focava demais apenas em adultos, “adulto isso” “adulto aquilo”, ele nunca pensava muito no que as crianças deveriam passar, e quanto mais tempo eu pensava nisso, mais comecei a ter ideias melhores, do que cada fase deveria ser, “o que é ser uma criança”, “o que é ser u adolescente”, “o que é ser um adulto”, e até “o que é ser um idoso”.
Cada uma dessas perguntas se manteve bem forte na minha mente enquanto voava. E enquanto eu reformulava e reforçava ainda mais as minhas deduções, eu apenas podia pensar que o meu Príncipe não fazia ideia do que esperava ele no nosso próximo encontro.

