Fazia um bom tempo que eu não fazia isso, e internamente, estava com um pouco de medo como iria fazer, mas mesmo cheia de medo, me sentia aliviada de certa forma, porque pela primeira vez eu iria usar minha varinha em um duelo.
Já tinha passado por muita coisa até ali, eu troquei de varinha, aprendi a lutar sem a varinha, me adaptei a ela, cresci por dentro e por fora, conheci muita gente, falei um monte de coisa, aprendi muita coisa, fiz muita coisa. e quando olhava para a minha varinha, via como ela tinha virado um bastão.
Agora ela não tinha um lugar de couro pra eu a segurar, era apenas um grande e perigoso cacto, e ainda assim, sempre que eu tentava o segurar, flores nasciam bem no lugar onde eu agarraria pra proteger minhas mãos.
Essa peculiaridade em meu bastão me deixava muito intrigada sobre o que ele significava, e me fez questionar se eu realmente cresci, mas esse crescimento e dúvidas acabaram me levando a uma lembrança bem distante do meu príncipe.
Antonio: você lutava de forma estranha, era como se você tivesse virado uma representação do livro, com nenhum resquício de você, deixando apenas a praticidade e a técnica em conta, tudo em seus ataques eram completamente vazios.
Com certeza eu tinha distorcido as lembranças de alguma forma, mas isso não importava agora, pois se eu realmente tivesse mudado, então minhas lutas mudaram também.
Então eu me equipei, me preparei e fiz um broche bem especial, um broche de leão que tinha uma simbologia forte ali, um aviso sendo dado pra todos, dizendo com todas as palavras “estou aceitando duelos”.
E fiquei impressionada com o que aconteceu, nenhum aluno quis lutar comigo, fiquei na dúvida por um tempo por que? Mas quando perguntei a Kali, tudo começou a fazer sentido.
kali: desculpa miga, mas boatos são bem rápidos
Dandara: que boatos?
Kali: golem de carne.
GOLEM DE CARNE! O apelido que as pessoas me davam antes de eu mudar, a forma implacável, cruel, sem emoções que eu lutava, e que eu só queria ter certeza se eu ainda tinha ou não.
Dandara: eu mudei
Kali: e eu acredito nisso, mas também sei que não posso ganhar de você, desculpe
Val: você não pode, mas eu vou.
Hummm, isso foi interessante, não cogitei pedir pra minhas colegas lutarem comigo pois pensei que elas se segurariam, mas então parei de pensar demais nisso e apenas aceitei o convite de duelos da Val.
A arena de carpinteiros era algo peculiar, existiam varias lutas capazes de serem feitas, e para aquele duelo nós escolhemos uma grande floresta sem nenhum equipamento, e o duelo iria iniciar quando uma encontrasse a outra.
Eu entrei na floresta pronta pra fazer qualquer batalha com a Valentina, estava bem curioso pra saber o que a “garota do tricô” iria aprontar, mas primeiro, usei minha magia de corte para improvisar um broche de magia de água, um colar de ventos e um conjunto de 10 anéis de flexibilidade, tudo improvisado e com pouco detalhe pra eu não estar indefesa cado a Val aparecesse.
Senti um feitiço de detecção me pegando, mas não me importei, e coloquei uma armadilha de urso de madeira bem escondida em vários pontos da floresta.
Eu não me movi por muito tempo, tentei me concentrar em melhorar um broche de ventos mais complexo, e nessa hora, um jato de água poderosíssimo apareceu, eu desviei com pouquíssimo movimento, mas com meu colar de ventos, o jato de água teve sua direção mudada, e ele me errou, tudo enquanto várias árvores que ele atingiu, mesmo de raspão, foram derrubadas.
A Val parecia estar usando um colar de camuflagem, e apenas pensando um pouco, desviei e usei um feitiço em área, onde eu disparei um jato de água por toda a área ao redor de mim. Precisei da concentração máxima pra encontrar a Val, mas no momento em que pequenas partículas de minha água acertaram em algo que não deveria estar lá, eu disparei um jato de água, quase a acertando, mas ela desviou na hora e devolveu com outro jato de água.
Não me impressiona que nenhuma de nós decidiu usar bola de fogo, usar bolas de fogo como carpinteiro era quase um tabu, mas feitiços como lâminas de vento e bolas de pedra era bem aceitável, a Val ate meteu a loucura e começou a usar serras de pedra pra cima de mim, eu quase fui pega por aquilo, mas notei a tempo que a verdadeira lâmina não eram as pedras, mas um feitiço de vento quase invisível, que por sorte só cortou meu cabelo.
Cara, era um saco lutar de cabelo solto, mas eu nunca iria prender meu cabelo de novo, NUNCA. E no meio do nosso duelo eu senti uma coisa estranha, mas no bom sentido, eu senti medo de ser atingida pelos golpes, eu fiquei feliz quando meus ataques acertaram a Valentina, eu gritei de dor quando ela passou pela minha defeza e me cortou na barriga e no olho, e eu gritei e agradeci aos céus quando meu colar de vênus ficou pronto, e implorei ajuda aos céus quando o colar de camuflagem complexo da Val ficou pronto.
Dandara: sim, sim, SIM, SIM, SIIIIIIIIIIIIIIM.
Nos meus gritos eu quase fui atingida pela Val de novo, mas consegui desviar a tempo, então isso que era lutar de verdade? NOOOOOOSSA, muitas pessoas falavam “agora que eu sei da coisa real tudo que eu vivi parece uma mentira” mas pra mim não apenas parecia, eu ria, mesmo sentindo dor, eu ria mesmo quando errava os golpes, eu ria até quando o broche que eu passei tanto tempo fazendo quebrou bem na minha frente.
Nao sei se eu infectei a Val, mas ela riu junto comigo, e meu bastão, que antes era um cacto com varas flores se encheu com cada vez mais flores enquanto eu disparava mais feitiços de água e ventos, eu já tinha rido de forma verdadeira, com essa nova eu.
Mas a risada que eu tava dando naquela hora era incrível, enquanto lágrimas de alegria caiam do meu rosto, eu sentia como se a criancinha do meu coração que eu cuidei e guardei naquele castelo dos sonhos por tanto tempo tinha saído pra fora e tomado controle, e eu não podia ver o rosto da Val, mas podia apostar que ela notou que algo estava errado.
E quando minha liberdade chegou, comecei a dançar, uma dança só minha, expressando toda a minha alegria doida e descontrolada pelos movimentos, a Val tentou me acompanhar, mas meus movimentos eram estranhos demais pra prever, em um desses movimentos ela até pensou que eu iria disparar nela e tentou um duelo de jato de água comigo, mas eu disparei no chão e voei pra cima e com o desequilíbrio da garota, ela caiu em uma das minhas armadilhas de urso e foi perfurada na hora.
A Val tinha feito uma armadura então o osso dela tava bem longe de quebrar, mas aquela armadilha era feita de madeira do sono, a maga não desistiu, usando toda a energia que ainda tinha, Val jogou todos várias bolas de madeira em minha direção, eu sabia o que era isso, então me preparei, e depois de ativadas, aquelas madeiras causaram uma inundação na floresta, mas aí, o fim da loucura do duelo começou, pois eu nadei no mar da garota igual a um golfinho e segurando minha varinha com a boca, e com dois jatos de água bem gelada, eu deixei a Val tão cansada que ela não resistiu e dormiu poucos segundos depois.
Mesmo dormindo, não conseguia acreditar no que eu fiz, eu me sentia tão completa, enquanto minha risada continuava e depois de se divertir, eu sentia que a minha “eu” interior já estava voltando para o conforto e a calmaria de dentro de mim.
Então eu vi que a floresta tinha sumido, eu estava em pé, com vários ferimentos e um olho ruim, enquanto a Val estava deitada no chao, dormindo que nem um anjinho.
Na plateia bem longe de nós, eu vi muitas crianças cochichando, outras não conseguiam aguentar o riso, mas a maioria estava muito chocada pra ter uma reação decente.
E quando os cerebro delas computaram por completo o que aconteceu, elas se levantaram e aplaudiram de pé, algumas assobiaram e algumas ate jogaram flores, chapéus e outras coisas no palco, e apesar de eu ter sido quem deu o show pra eles, fiz uma reverência como se eu tivesse atuado em uma peça, sentindo como tudo seria diferente depois daquela luta, enquanto as flores do meu cajado cresciam cada vez mais.
Então eu vi a Kali, a Ju e a Jez descendo do palco e correndo até mim, elas me abraçaram, e me levantaram, mesmo eu estando bem machucada, e até levantaram a Val também, e fizeram uma grande festa, me jogando pra cima e eu ria de forma que elas ficaram bem chocadas.
Ju: ta bom, quem é você e o que você fez com a Dan:/
Dandara: pus ela pra dormir, mas não se preocupe, ela vai acordar logo.
As garotas ficaram um pouco intrigadas com aquelas palavras, mas ainda assim me levaram pra sala de curandeiros, e depois de conversarem mais um pouco, todas foram embora, menos a Kali (e a Val, mas ela tava ainda dormindo pela mina madeira do sono, entao ela nao conta).
O olhar da Kali era misterioso, mas apesar de eu não entender por completo o que ela tava sentindo, conseguia dizer que o que estava mais aparente era como ela estava orgulhosa.
Kali: pelo jeito não dá pra confiar em boatos mesmo
Dandara: acredite miga, os boatos eram reais
Kali: Até aquela parte em que você fazia uma cópia perfeita do que estava escrito nos livros?
Dandara: principalmente essa parte, mas como eu falei e demonstrei, eu mudei…e não podia estar mais feliz com isso
Kali: nem consigo imaginar o que fez você mudar tanto
Dandara: (mexe colar) eu só…encontrei o garoto certo.
Eu sorri, de uma forma que eu fazia o tempo todo, mas algo parecia diferente, falar parecia diferente, sorrir parecia diferente, me mover parecia diferente, EXISTIR PARECIA DIFERENTE, algo dentro de mim mudou naquela luta, e tudo que eu conseguia pensar era “por que eu não fiz isso mais cedo?” Mas não adianta lamentar o tempo perdido, só tentar compensar com o tempo que ainda tinha.
Kali: por que você quis lutar agora? sempre que eu te chamava pra lutar você falava “não! nunca mais fale isso pra mim” ou “NAO, LUTAS E QUALQUER COISA ENVOLVENDO MAGIAS DE ATAQUE NÃO PODEM SAIR DE SUA BOCA”
Dandara: é, eu era bem dramática
Kali: traumatizada, não dramática, nunca confunda
Dandara: às vezes é difícil de diferenciar
Kali: você não quis chamar atenção, você estava realmente machucada e precisava de tempo, essa é a diferença.
Meu sorriso diferente apareceu na minha cara de novo, eu realmente não merecia uma amiga como a Kali.
Kali: e o que mudou?
Dandara: nada demais, eu só tava me sentindo pronta, eu sentia que eu melhorei muito de lá pra cá, mas eu comecei a pensar seeeeeee…eu realmente mudei tanto, ou se na hora da verdade eu só iria congelar e voltar a ser aquela pessoa fria e completamente pragmática que lutava igual a um golem.
A risada que a Kali deu quando falei aquilo tirou qualquer duvida que eu ainda tivesse em meu rosto, a risada dela era tão gostosa, e eu não aguentei e ri tambem, cara, a “eu” de 1 hora atras era tão idiota, era tão dificil pensar que uma hora podia mudar tanto a vida de alguem, mas isso aconteceu comigo.
Kali: Dandara, acredite em mim, depois do que eu vi ali, posso dizer, você é tudo, tudo menos fria e pragmática. E você nunca lutaria como um golem, na verdade, voce tava a poucas ações de parecer um animal completo
Dandara: isso ofenderia muitas pessoas que eu conheço, mas eu só consigo ficar feliz em ouvir isso
Kali: você não existe mesmo Dandara.
E em mais uma risada agente pensou como nós seriamos amigas pra sempre, hehehe, e não importa o que eu teria que passar, eu faria aquilo ser verdade, e do mais profundo nada, eu levantei minha mão, e como se tivesse lido minha mente, a Kali levantou a própria mão e me deu um aperto firme, um aperto de mão tão forte que eu e ela devíamos ter pensado a mesma coisa.
Dandara: um juramento de união eterna
Kali: lado a lado e qualquer situação
Dandara e Kali: Dandara e Kali, para sempre irmãs.

