Ainda estava pensando em todo o lance que eu vi naquele espelho, tentando não pensar muito em coisas desnecessárias, principalmente no meio das aulas, mas por um bom tempo, eu pensei em todos os gatinhos que eu vi naquele vídeo, pensando qual dos meus colegas poderia ter um problema pelo menos parecido com os gatinhos que eu vi, e quando foquei em meus próprios problemas de novo, questionei por alguns segundos se eu realmente tinha a maldição do vazio, se eu realmente precisava dos remédios. Mas naquela hora, eu lembrei das palavras que o Diego me falou.
Diego: lembre-se Dandara, nunca pare de tomar suas poções, você sente agora que você não é amaldiçoada por que você está se cuidando direito, mas no momento em que você parar de tomar as poções e parar de tentar melhorar, o vazio irá voltar mais forte do que nunca, pois sua maldição é do tipo que nunca se cura, apenas pode ser enfraquecida e tratada ao limite na parte enfraquecida, nunca pare de lutar, nunca pare de melhorar, e nunca pare de se importar.
Tinha certeza que as minhas lembranças se distorceram com o passar do tempo, mas isso não importava mais, pois agora, cercada por minhas amigas, eu sentia que podia parar de pensar nas maldições, e tentar focar na aula, porque pelo que nós fomos preparadas, chamar a aula de hoje de “interessante” nem poderia ser a ponta do iceberg do que ela iria ser.
Dandara: e ai, prontas pra aula de hoje?
ju: o se to
Kali: é eu to com um capacete invisível, só pra garantir.
Kali falou aquilo enquanto dava toquinhos na própria cabeça e criava um som doido de metal, e com uma mistura de medo e empolgação, agente entrou na sala, dando de cara com muitos alunos, ou com equipamentos de proteção da escola, ou com armaduras que trouxeram de casa igual a Kali, e todo mundo tava com o coração na boca pelo que iriamos fazer hoje.
Professor: bom dia meninas, aqui, peguem um.
Eu e os outros alunos que não trouxeram nada recebemos um equipamento da escola, não era de primeira linha, mas servia pro baixo que agente iria ver hoje.
Quando cheguei na minha mesa, vi que tres troncos exatamente iguais esperavam por mim, apesar de todas as preparações que eu fiz até aquele momento, não podia mentir, eu tremi que nem vara solta quando cheguei a ver os tocos enormes na minha frente, mas bem calma, a professora falou.
Professora: sei que avisei a todos vocês com bastante antecedência, mas para aqueles que foram azarados ou burros o bastante pra não me escutarem todas as vezes, hoje iremos estudar sobre como lidar com parasitas de árvores de mana, como muitos já devem estar familiarizados, é bem…trágico lidar com eles despreparados, então ninguém sairá dessa sala até ter ao menos o básico para lidar com esses carinhas. agora olhem pro quadro.
“Tragico”, nao tinha uma palavra mais perfeita pra descrever aqueles parasitas, aqueles monstros, na natureza, conseguiam infectar uma floresta inteira sem ninguém notar, e quem entrasse sem cuidado numa floresta dominada por ele, iria virar um fantoche de carne liderado pelos parasitas mais novos, esses bichos eram algo digno de uma peça de terror, e estavam colocando isso na frente de alunos, os professores dessa escola deviam ter algum problema na cabeça, não era possível.
Dandara: (respira fundo e solta)(sussurra) fique calma Dandara, só se lembre dos estudos que tudo vai dar certo.
Continuei repetindo isso pra mim mesma enquanto tentava conferir com cuidado os tocos, mas logo, os alunos menos atentos já começaram a irritar muito os parasitas, fazendo eles explodirem o tronco e voarem pra cara deles. Os gritos de horror de meus amigos quase me desconcentraram, mas consegui me manter calma pensando que precisava manter a calma se eu não quisesse acabar como eles, e no meio de todo o terror, a professora ainda continuou.
Professor: pelo grande processo que os tocos passam até chegarem nas milhares profissões que vocês irão disputar, a chance de vocês encontrarem um parasita desses é extremamente baixa, mas não é zero, e com o estrago que um desses carinhas podem causar, é melhor voces não criarem outro porto Gubrulil.
O porto Gbrulil era uma história trágica, pois ele teve o azar de ter um único tronco com um parasita, e um único parasita fez o porto inteiro ser reduzido a destroços, casas quebradas e muita dor. A ponto que o rei em pessoa não teve escolha além de explodir aquele lugar inteiro e reduzi-lo a cinzas, uma história simples e trágica, onde muitas pessoas perderam suas vidas, e um lembrete que, mesmo as coisas bem raras devem ser evitadas.
Dandara: (sussurra) talvez eu estrague tudo, mas o motivo disso não vai ser você.
Falei isso encarando um tronco que eu sabia que tinha um parasita, e dando dois toquinhos, consegui fazê-lo se agitar o bastante pra saber que ele estava lá, mas não o bastante pra ele querer me atacar.
Eu dei sorte, porque do meu lado, a Kali e a Val estavam brigando com seus parasitas já libertados com ajuda dos assistentes, pois a professora fez questão de deixar um adulto assistente com cada aluno pra impedir que o pior acontecesse, e vendo como até agora, nenhum aluno se machucou de forma séria, tava tudo dando certo até ali.
Já a Ju estava tão calma e tranquila quanto eu. Mas a verdadeira surpresa foi a Jez, o tronco dela parecia a um erro de liberar o parasita, mas como ele ainda estava no tronco, dava pra pensar naquilo como um acerto. a Jez olhou pra gente então e falou.
Jez: não é o meu primeiro encontro com um parasita
Dandara: é, eu percebi.
Olhando a nossa volta, agradeci que aquela professora tinha muitos assistentes, então eles podem facilmente parar o parasita de acertar uma criança antes que o pior acontecesse. Depois de muitas pessoas traumatizadas e de muitos tocos substituídos, cada aluno conseguiu encontrar o parasita no próprio toco antes da aula chegar na metade.
Professora: tuuuuuudo bem, agora que todos vocês já entenderam como identificar um parasita, vamos testar os 3 métodos para cuidar deles. O primeiro método é o mais simples e difícil ao mesmo tempo. Uma determinação simples, onde nós apenas atacamos os parasitas de dentro do tronco e os matamos.
A cara de medo e incredulidade nos olhos dos alunos, incluindo no meu, dizia a professora que ninguém iria usar esse método, e isso, de certa forma, pareceu deixá-la aliviada.
Professor: (risada) mas esse método não é recomendado, pois nunca se sabe quando um parasita é mais resistente do que você, além de estragar qualquer madeira não tocada pela praga e ainda por cima ser bem custoso fazer isso várias vezes seguidas.
O alívio dos alunos era tanto que tava quase pra saboreá-lo no ar…hummmmm, tinha gosto de morango. Então continuamos ouvindo a professora.
Professor: o segundo método, é de toda forma, um método complicado demais sequer pra ser ensinado, que é usar o poder de suas varinhas para assimilar o parasita no tronco e transformá-lo em madeira, mas é tão difícil fazer isso como algo vivo que a maioria dos professores, alunos e profissionais só estudam esse método para saber que ele existe ao invés de ser realmente algo prático.
Todo mundo, ao invés de medo, apenas olhou pra professora com um olhar de total incredulidade, não acreditando que algo como aquilo realmente poderia ter existido, todo mundo, incluindo eu, tinha o mesmo pensamento em mente. “quem foi o doido que inventou um método tão especifico assim?” enquanto esses pensamentos tomavam a turma, a professora continuou.
Professora: já o terceiro método é o mais comum, que é de adormecer o parasita e depois tirá-lo com cuidado do tronco usando pequenas fendas que se criam durante a identificação, por ele ter um exoesqueleto mole, esse método é por muitos considerado o mais simples dos três, primeiro peguem suas varinhas, e com cuidado, repitam a melodia que colocarei no quadro e toquem ela em looping para o parasita.
A música era uma melodia simples de 6 notas de teclado, taaaaa, ra ra raaaaaa, ra raaaaaaa. Uma melodia simples que muitos alunos precisaram so de alguns minutinhos pra entender, e como se fosse natural pra mim, toquei a melodiazinha usando meu bastão para jogar o som pra dentro do tronco.
Eu ouvi muitos parasitas não gostando do som de alguns alunos e escapando logo depois da música, mas eu não me desconcentrei e continuei olhando apenas para meu tronco.
E depois de 5 minutos, eu peguei um balde, e das fendas de meu toco, o parazita deslizou e caiu no balde cheio de seiva.
Assistente: ótimo, agora jogue um pouco de feitiços de frio nele, se a seiva estiver muito quente ele pode se debater e acordar.
Era engraçado que quando eu cheguei naquele momento, muito alunos tinham problemas e eram atacados depois de colocar os parasita no balde, “e sério? Como era possível ser atrapalhado a ponto de estragar tudo no finalzinho?” Isso só podia ser azar extremo ou incompetência extrema, não tinha uma terceira opção.
Mas no fim, consegui manter meu parasita calmo e consegui sela-lo num balde.
Dandara: entaaaaão, o que eu faço agora?
Assistente: agora você vai enviar esse carinha para a casa de extermínio, onde eles darão um jeito definitivo nele
Dandara: que maldade
Assistente: acredite minha jovem, esses bichos são tão perigosos que especialistas dizem que até os “mosquitos alzheimer” são mais fáceis de lidar que eles
Dandara: O QUE!? MAS ELES ROUBAM MEMÓRIAS!
Assistente: exatamente, é pra você ter noção do quão perigosas essas coisas realmente são.
Um medo crescente chegou na minha espinha de forma instantânea, e quando olhei devagar pro parasita agora selado e em hibernação na minha frente, fiquei tremendo, com medo de estragar tudo de alguma forma.
Dandara: algo tão perigoso assim? E vocês colocam isso nas mãos de alunos?
Assistente: Isso é porque nós acreditamos que vocês são capazes de lidar com isso, e como a senhorita pode ver, também porque nós temos equipamentos para lidar com qualquer “imprevisto”.
“Imprevisto”, com o que ele acabou de dizer sobre esses parasitas, era certo chamar essas máquinas de destruição de apenas um imprevisto? Bom, chamar algo tão perigoso apenas de “imprevisto” talvez demonstrasse o verdadeiro poder daqueles assistentes, apenas talvez.
Professora: muuuuuuuito bem, agora que vocês tiraram o parasita, vamos conferir se o toco habitado ainda serve ou ele terá que ser descartado
Aluno1: por que temos que conferir se o toco ainda ta bom?
Professora: é possível fazer coisas muito interessantes com o toco de um parasita, como cadeados anti-magia, coleiras de choque pra monstros, esponjas de magias “instáveis” e muito mais, então sim, a madeira de parasita é bem útil.
Aquilo me convenceu o bastante de pegar meu toco e analisá-lo da melhor forma que eu conseguia, e não era difícil saber se um toco ainda estava bom ou não, era apenas conferir se ele estava com muitas “raízes pretas” que mostravam que o parasita já tinha sugado tudo de magia e deixou apenas ovos pra trás, que logo depois seriam incinerados. E infelizmente eu consegui um desses
Olhando ao meu lado, vi que a Ju havia ficado com uma madeira com raízes bem finas, era até bonito, se olhado do ângulo certo.
Dandara: você teve sorte
Ju: não podia dizer o mesmo delas.
Atrás de nós, Kali e a Val estavam tentando tocar seus troncos sem quebrá-los de vez, o que era difícil com a brutalidade normal deles.
Diferente de todos os traumas daquela aula até agora, os alunos pareciam aliviados que nada voou na cara deles dessa vez, a maioria dos alunos que errou aquilo eram alunos que pegaram tocos num estado muito no meio, tocos não eram muito ruins, e nem muito bons. (alguns assistentes até tiveram que olhar o toco com cuidado pra falar do jeito certo). Mas depois de tuuuuuudo aquilo, a professora pareceu satisfeita e falou.
Professora: ótimo, acho que já chega por hoje, vocês passaram coisas o bastante para sonharem com parasitas por meses, turma dispensada.
Todo mundo estava com muito medo sequer de levantar da cadeira, tremendo, com muito medo e olhando em cada passo, vendo aquilo só pude pensar “esqueça os pesadelos, esses coitados vão ter até alucinações com parasitas pelos próximos meses antes de conseguirem ficar tranquilos de novo, que tristeza.
O pior é que eu não podia nem me excluir, eu não fui acertada na cara por um parasita, mas eu ouvi gritos o bastante pra estar toda trêmula assim que tentei me levantar. No fim da aula, a Kali e a Val estavam com remendos por todo o rosto, enquanto a Ju e a Jez estavam com nenhum arranhão.
Ju: (se arrepia) aqueles bichos eram assustadores.
Dandara: fica tranquila Ju, não lembra o que a professora falou, nós temos apenas 5% de chance de encontrar essas coisas por ano, a maioria do tempo nós só vamos tocar o tronco e suspirar de alívio por ele estar bom e sem parasita
Kali: pfff, isso se não escolherem os tocos errados
Ju: ai ai, as vezes eu queria espancar o cara que inventou a probabilidade
Dandara: não fala desse jeito, ele aliviou a barra pra nós, e pra muitas pessoas, agente só precisa aprender o que ele descobriu
Val: pra você é fácil falar ruiva, você é inteligente
Dandara: obrigada, mas você é bem inteligente também
Val: valeu.
Nós andamos juntas pra casa naquele dia, a Kali fez questão de ir com cada uma pra casa, e eu não me importei de ficar com ela até sermos só nós duas de novo.
Dandara: quer entrar?
Kali: não precisa, eu tenho carona.
E depois de falar aquilo, vi um grande cavaleiro chegando em seu cavalo e esperando a Kali.
Kali: eita, tenho que ir, meu pai ta me esperando, bons sonhos Dan
Dandara: pra você também.
Era engraçado como a professora estava certa, por que quando eu fui dormir, tive pesadelos horríveis com insetos e os parasitas de mana, e algo mais engraçado ainda que apesar de eu estar morrendo de medo, eu preferia 100 vezes mais os sonhos com os parasitas antes de ter um pesadelo naquele bosque horrível, antes do castelo aparecer.
Era engraçado como foi a primeira vez que tive pesadelos assim, pesadelos em que eu acordava e apenas abria os olhos, um pouquinho assustada mas não muito.
Tinha algo ironicamente estranho, maneiro e chato na ideia de apenas ter um pesadelo e levar isso de forma tranquila, e não gritar de forma desesperada e super dramática, como eu fazia com meus piores pesadelos, um “pesadelo normal”, isso sequer faria sentido, e não sabia, mas apesar de não saber, eu cheguei a conclusão de que, “esse pesadelo é algo que eu aguento, então tá tudo bem.
Não tinha terminado o raciocínio apenas ali, mas chegar naquele raciocínio pequeno já me deixou bem feliz, e me deu força e um chão pra continuar, haha.

