No fim, mesmo com toda a minha paranóia, não fiquei com muitos sonhos doidos, e hoje eu estava dando uma folga pra tudo, tudo mesmo, pras minhas pesquisas, prós meus planos na escola, para os meus investimentos em minhas amigas e para os investimentos no relacionamento.
Enquanto eu fazia meu cabelo, deixando ele ser limpo e massageado por uma fada bem experiente, minhas unhas sendo feitas por um elfo bem famoso e meus ombros sendo massageados por um grande gigante, eu apenas relaxava enquanto a Leide e a Isabelly estavam a esquerda e à direita de mim.
Eu não falei nada por um tempo, querendo que a Leide aproveitasse aquele momento, pois ela dividia a casa dela com 4 famílias diferentes, então não era muito fácil ela ter momentos de paz como esse, e mesmo não tendo ouvidos sensíveis, sei como ter um momento e calmaria era importante, e como ter o próprio espaço pode ser essencial.
A Leide já falou bastante que gosta de ficar comigo, e ela admitiu na lata que era bem relaxante e tranquilo ficar comigo, e enquanto deixava esses devaneios pegarem minha mente, contei mentalmente quantos minutos haviam se passado, e quando bateu de forma quase perfeita 60 minutos, me permiti quebrar o silêncio.
Dandara: aí, alguma de vocês quer falar alguma coisa?
Leide: eu quero, aí, o que vocês acham desse ditado. “Pessoas fortes criam tempos fáceis, tempos fáceis criam pessoas fracas, pessoas fracas criam tempos difíceis e tempos difíceis criam pessoas fortes”.
Antes de responder, me dei a estase pra ficar feliz, por que ela odiava falar com pessoas, (um trauma de ter uma familia que, alem de grande parecia nunca calar a boca), mas quando tinha haver comigo ou com a Isabely ou com meu Príncipe, ela ficava tranquila e às vezes até desejava falar mais.
Isabely: é a maior baboseira, mentira e idiotice que eu já ouvi.
E a Isabelly atacou de novo, sinceramente, as vezes ela parecia ser mais sincera e curta e grossa que o meu Príncipe, e considerando que ele dizia que “mentir é difícil então só falo a verdade”” eu sabia bem o que ser mais sincera que ele significava, algo que só me fez ficar quieta enquanto ouvia o raciocínio dela.
Leide: por que?
Isabely: não são pessoas fracas que criam tempos difíceis, pessoas ignorantes criam tempos difíceis, pessoas mal orientadas, perdidas, que pensam saber de tudo, mas sabem menos do que crianças de verdade. Ou seja, idiotas, são os idiotas que criam tempos difíceis e não os fracos, sim, os fracos tem uma parte disso, mas os fortes também, não importa se você é fraco ou forte, se for idiota e mal orientado, você vai deixar tudo difícil pras próximas pessoas
Dandara: e vou inteirar o pensamento falando que não são apenas as pessoas fortes que criam tempos fáceis, mas as pessoas inteligentes, sim, existem muitos tipos de inteligência, mas o ponto é, se uma pessoa se apegar e se aprimorar de verdade, ela poderá entregar algo as pessoas e o mundo irá se tornar um lugar melhor
Leide: para de enrolar e fala logo
Dandara: pessoas inteligentes encontram dicas que tornam os tempos difíceis mais fáceis e conservam essas facilidades pra seus descendentes, ou seja, os tempos fáceis
Isabely: e nem sempre os tempos difíceis criam pessoas fortes, muitas vezes as pessoas que sobrevivem aos tempos difíceis são ainda mais frágeis, instáveis e fracas que as pessoas que nasceram em tempos fracos, apenas uma olhada na história para falar que isso é verdade
Dandara: oh, e como é, já perdi a conta de quantos textos anciões eu vi que mostrava que muitos impérios não foram destruídos por inimigos, mas por aliados que estavam ruins da cabeça demais para fazer decisões certas
Leide: ou por um grande ex herói que foi descartado depois que derrotou o “grande vilão” da história dele, e em ser rejeitado, ele virou um vilão em busca de vingança
Dandara: é…tem certas coisas que só funcionam nos livros
Isabely: e principalmente, tempos fáceis não criam pessoas fracas, muito pelo contrário, claro, nós não temos a resistência, tolerância e nem o instinto de sobrevivência das pessoas dos tempos difíceis, mas a ideia de um tempo fácil é que ele é um ponto onde as pessoas podem parar de querer só sobreviver e tentar começar a viver, se entender melhor, entender o que ela quer fazer, sei lá, talvez até tentar começar uma família só pensando em ser feliz ao invés de apenas lutar pelo bem geral de um reino, ou aprender coisas por ser divertido, por ela querer se entender melhor, ao invés de só aprender algo pensando em “como isso será útil nesses tempos difíceis”. Tempos fáceis só enfraquecem quem não os entende e não sabe os aproveitar, e eu digo com todo o orgulho do mundo que tempos fáceis podem criar as pessoas mais incríveis do mundo, com a orientação certa
Leide: esse é o problema então, precisamos aumentar a orientação
Isabely: já estamos trabalhando nisso, mas você tem que entender Leide, essas coisas levam tempo
Leide: é…eu sei
Isabely: Dandara, você tá bem? Você tá muito calada
Dandara: nada não, só tô pensando no que você disse, sobre o lance de “nós” não sermos tão resistentes assim
Isabely: pois é, nós estamos num tempo fácil, não conseguiu ver?
Dandara: sinceramente, eu não consigo saber disso depois do que eu passei
Isabely: querida, o simples fato do seu caso não ter sido varrido em baixo do tapete e tratado assim que descobrimos sobre ele é por que estamos em um tempo fácil
Dandara: uuuuui, você é boa
Isabely: eu sei amor, eu sei disso
Dandara: hummmm, tô pensando um pouco no lema, acho que ele pode ser dito assim “alguém inteligente facilita a vida de todos e alguém ignorante dificulta a vida de todos”
Isabelly: acho que precisa de umas correçõezinhas, já que tem gente que é ignorante e não é ruim
Dandara: por exemplo?
Leide: crianças
Dandara: crianças são inocentes, ignorância é você estar errado e achar que está certo, mesmo que o que você faz é horroroso
Leide: como seus pais?
Dandara: sim, mas tem extremos menores, como quando alguém não entende que mulheres gostam mais de coisas além de vestidos, princesas, passarinhos e flores…quer dizer, eu gosto de todas essas coisas, mas é por que eu gosto, não por que eu sou mulher
Isabely: também tem o caso onde as pessoas acham que eu sou de vidro porque eu sou Invisível, e eu admito, não sou a garota mais forte e resistente do mundo, mas eu tô longe de ser a boneca de porcelana que todo mundo pinta que eu sou
Dandara: sinceramente, quando se tem alguém do top 10 te guardando, fica meio difícil de acreditar nisso
Isabely: eu não tive escolha sobre isso, o meu pai não conseguia dormir a noite pensando que os guardas que ele deixava comigo não seriam o suficiente para me proteger
Leide: pai é pai né? não tem o que fazer
Isabely: pior que é mesmo, hehe
Dandara: ainda ficou impressionada que você tenha feito tantos inimigos sendo só uma princesa, e não a rainha ainda
Isabely: tem muita gente no conselho que quer os próprios interesses, guerras com as fadas, pilhagens em ilhas no mar branco, e um monte de coisas que eu não posso falar aqui senão você corre risco de envolver voces duas nisso, mas eles não conseguem me contrariar, eu já tenho poder o bastante naquele conselho idiota pra eu não poder ser calada, além de que muitos desses caras perderam os filhos deles prós guardiões das crianças, a maioria por minha causa, então o meu pai sabia que se eu não tivesse a melhor pessoa perto de mim, eu iria morrer.
Eu tentei ficar calma, mas eu sempre ficava bem assustada quando a Isabelly falava tão casualmente esse jogo de xadrez que ela fazia com aqueles “adultos” do conselho, tudo enquanto às vezes parecia que ela tinha mais peças que eles, levantei minha cabeça só pra olhar a Bruna, a segurança e dama de companhia de Isabely, ela não estava fazendo as unhas, só estava em pé em um canto no salão, vigiando nós três.
Dandara: tem certeza que você não quer participar?
Bruna: não obrigada, pode não parecer mas eu tô de serviço aqui
Dandara: você nunca tira uma pausa?
Bruna: eu folgo nos fins de semana e nos feriados quando ela ta com a família
Dandara: é claro.
Eu quase dormi de novo, até a Isabelly falar.
Isabely: ai Dandara, o que você acha dessas pessoas que falam que “apenas precisa de um dia ruim para uma pessoa boa ficar louca”
Dandara: pegando suas palavras como as minhas, “isso é a maior besteira que eu já ouvi na vida”. Não é só um dia ruim que faz uma pessoa boa ficar louca, é algo MUUUUUITO mais do que isso, uma pessoa fica louca depois de uma sucessão absurda de dias ruins, dias mais ou menos e dias vazios, cada um bem diferente um do outro, mas com uma coisa igual, nenhum desses sentimentos ruins ser tratado, pois ninguém nunca deveria tratar sentimentos ruins, apenas dar luz, sentido e poder aos sentimentos positivos. E esses sentimentos negativos eles se enchem, quase como uma bomba esperando pra explodir, no fim, antes do tão “dia ruim” essas pessoas estão aos poucos enlouquecendo, e quando elas finalmente perdem a cabeça de vez é apenas uma liberação, uma faísca, a combinação completa de todas as coisas ruins, feias e doidas que eles aguentaram até aquele momento…alguns conseguem se recuperar disso, alguns não conseguem, e alguns não querem se recuperar, e não ironicamente cada um tem um motivo válido pra fazer o que faz
Isabely: que horror, isso que aconteceu com você?
Dandara: isso acontece ou já aconteceu com todo mundo, a diferença é como as pessoas reagem a isso, eu por exemplo precisei de muita ajuda pra parar minha sequência de dias ruins, e precisei de muita assistência. Você já deve ter tido dias ruins também, mas você parece ter muita ajuda para não ter muitos dias ruins seguidos
Isabely: culpada
Dandara: e apesar da maldi-quer dizer, Singularidade da Leide ser bem complicada, e ela não ter uma casa muito “tranquila” pra pessoas como ela, a família dela também a ajuda a lidar com as emoções acumuladas nos dias ruins, o que impede que ela acabe, enlouquecendo como esse lema fala, entende?
Isabely: e tem gente que tem um pouquinho disso tudo que você falou
Dandara: e tem gente que não tem nada
Isabely: exatamente…exatamente.
Agente tentou continuar a conversa, mas o papo tinha morrido e ninguém conseguiu continuar, então a Isabelly só tentou começar uma conversa diferente.
Isabely: e aí Leide, como foi voltar pra casa?
Leide: horrível, meu lado pessimista ainda não tava acostumado em ter que voltar pra escola e meu lado hiperativo me colocava de castigo o tempo todo
Isabely: você, uma adulta dessas recebendo castigo?
Leide: isso pra você ver o caos que eu estava, quando voltei lá no primeiro dia eu joguei minha cama na minha prima e ela atravessou a janela
Isabely: ainda bem que ela é aspirante a cavaleira
Leide: ela deu sorte que eu não coloquei mana naquela cama
Isabelly: hihihi, tenho certeza que não ter mana só assustou ainda mais ela
Leide: pelo menos eu tenho uma boa legião e primas que me escuta, morar numa casa pequena e com quase 4 famílias diferentes já é difícil não sendo Singular, mas quando o humor de alguém é uma roleta russa, digamos que os adultos tentam te evitar e as crianças só tentam te irritar
Dandara: (tosse) nem todos os adultos
Leide: tá bom, eu tenho um grupinho de amigas de tios que me ajudam, quando eu tô depressiva elas gostam de me usar de manequim de maquiagens e quando estou agitada elas gostam de me usar de motor pros carrinhos das crianças (risada fraquinha) eu amo isso
Isabely: uuuuuh, dessa eu não sabia
Leide: e como iria saber? não é uma coisa que você pode dizer sem nenhum contexto numa conversa. é tipo falar. “oi Isabelly, quer saber das vacas modificadas que eu to fazendo agora?”
Isabely: é, quero sim.
A Leide parou de responder por alguns segundos, mesmo parecendo estar no estado de raiva, ela ainda podia ficar calma e surpresa.
Leide: bom, uma epidemia estranha tava dando problemas em uma plantação próxima, então minha turma foi levada lá, pra fazer umas modificações como um teste prático, eu fui lá junto de outros curandeiros pra forçar as vacas a evoluírem a ponto de ficarem resistentes a doença
Isabelly: deve ter sido dureza
Dandara: dureza nada, pelo pouco que ela me fez aprender de biomancia, tenho certeza que esse deve ser o trabalho mais simples dela até agora
Leide: a fórmula é fácil, mas o método não, tenta fazer um monte de vacas estressadas, doentes e desconfiadas deixarem você jogar uma magia nelas pra ver se não vai querer transformar todas em hambúrgueres
Dandara: já quis transformar até pessoas em hambúrgueres por menos
Isabely: tem pessoas que merecem mesmo virar hambúrgueres, e eu to falando isso sabendo o processo doloroso de fazer eles.
A Isa de novo falou isso numa casualidade que fez o papo morrer, mas as cuidadoras também pararam de se mover de tão abaladas que também estavam, então eu e a Leide só nos levantamos e olhamos para a Isabely, que mesmo sem a maquiagem, dava pra ver que ela estava relaxada e de olhos fechados.
Isabely: que foi?
Dandara: como você pode falar coisas assim de forma tão casual?
Isabely: eu me vejo como alguem tranquila considerando o ambiente que eu vivo
Dandara: é, o castelo não é diferente de um campo de batalha às vezes
Isabely: nunca se sabe quem tá do seu lado
Dandara: você mata, mente e trai pro seu próprio bem
isabely: faz amizades com inimigos que você não tem escolha de ter
Dandara: entra em planos que você sabe que são armadilhas e tenta usar a armadilha ao seu favor.
Suspirando ao mesmo tempo, nós relaxamos e falamos ao mesmo tempo.
Dandara e Isabely: ser influente não é fácil
Leide: ahn, vocês podem falar alguma coisa na minha língua?
Dandara: ai, você já viu aquele bolo de nuvens que começaram a vender naquela lojinha?
Leide: se eu já vi? Eu já tenho uma plaquinha de “cliente do mês” la
Isabelly: espera, a quanto tempo aquele restaurante tá aberto?
Dandara: um mês.
Ai ai, só a Leide mesmo, agente continuou conversando até o tratamento acabar e agente só se despedir.
Dandara: tenta não ser assassinada até agente se ver de novo
Isabely: eu nao te prometo nada
Leide: eu posso prometer.
E me despedindo daquelas doidas, eu fui pra casa

