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Olhos de mel 🌻X
👹Algo pior que não crescer👹
1849 palavras • 10458 caracteres • ⏱ 7 min 24 s

👹Algo pior que não crescer👹

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Eu virei a noite lendo, em profundo terror, amargura e traumas novos e profundos a ponto de reviraram e refazerem por completo minha alma eram criados em cada página, cada frase e cada palavra horrível que eu lia, e as imagens? Eu tinha certeza que mesmo depois de talvez 10 ou até 20 anos, aquelas imagens iriam me assombrar por bastante tempo…e assim como eu prometi, mesmo machucada, assustada e cheia de dor, eu estava calma, pois eu coloquei minha responsabilidade naquilo e eu iria lidar com isso.


Eu não jantei nem tomei café da manhã, eu apenas li a noite inteira até dar a hora de eu ir pra escola, mas até quando deu a hora, levei mais um tempinho pra me recuperar. Ler a parte final do livro foi mais que traumatizante, foi uma jornada tortuosa de pessoas horríveis, covardes, nojentas e ruins fazendo coisas horríveis e sofrendo. 


Tudo enquanto crianças tentavam se tornar adultos enquanto os “adultos” daquele livro era algo tão horrível que eles sequer podiam ser chamados de crianças, eles eram…”monstros” não tinha outra palavra para aquilo. Mas o pior, era o quão real cada cena era, era bem provável que, em vários lugares do mundo, o protagonista estivesse ali, sofrendo todas essas coisas, morrendo no final, e o mundo apenas seguiu em frente, sem ninguém sequer ligar para saber que ele sequer existiu.


Choque, essa foi a única coisa que eu pude entender em meu ser, depois que eu terminei o livro, eu coloquei ele do meu lado e olhei pra parede, mais especificamente, eu estava só olhando pra frente, para o “nada” por que eu precisava de muito tempo pra registrar o que aconteceu, entao eu pensei, pensei, e pensei…


Não cheguei numa conclusão, e tava tudo bem, aquele livro era algo que eu deveria digerir com cuidado, e pensar em detalhe por detalhe o que aquele livro mudou em mim, porque eu estava diferente, eu sentia isso em meu ser. 


Saindo do meu quarto, eu me sentia diferente, chegando na sala de jantar pra comer café da manhã, meu irmão sentia isso quando me viu, meu pais, minhas amigas, todo mundo notou. Só não pude saber se meu Príncipe notou porque ele estava muito longe pra saber o que eu estava fazendo, mas eu faria o possível pra não preocupá-lo.


Os próximos dias foram estranhos, eu tinha muito tempo antes do próximo encontro do Psicomago, e antes disso eu tentei montar tintim por tintim os pensamentos da minha cabeça de novo, o que tava bem longe de ser fácil. Minhas amigas e minha família perguntavam bastante se eu estava bem, e eu sempre falava a mesma coisa.


Dandara: eu li um livro que tinha coisas sinistras e agora tô traumatizada, não se preocupem, eu vou só falar com o meu Psicomago que vai ficar tudo bem.


Falar aquilo pareceu acalmá-los, é como meu Príncipe falou “mentir é muito complicado”. E quando o dia de eu reencontrar Diego finalmente chegou, eu entrei novamente na sala dele, e me sentei novamente no ninho, aquele ninho era tão fofinho que eu amava sentar nele sempre.


Diego: ola Dandara, me fala, como foi sua semana:


Dandara: difícil, eu li uma coisa essa semana, Diego, algo que me modificou. Eu fui a uma biblioteca que era famosa por ter livros de psicomancia, então eu fui pesquisar, mas de alguma forma, um livro estranho veio até a minha mão, um livro branco, parecendo infantil, mas ele tinha qualquer coisa nele, menos conteúdo infantil


Diego: o que tinha no livro?


Dandara: tudo, tudo que impediu a nossa raça de ser confiada a mana por tanto tempo, tudo tava ali, eu vi a pior parte da humanidade, nossa mesquinhes, brutalidade, egoismo, inconsequeencia, tudo peso em um mundo tao cruel e sombrio que se matar naquele lugar parecia mais viavel que viver ali. Aquilo…aquilo fazia a minha vida antiga parecer um morango.


O Diego estava surpreso com o que eu dizia, nós já chegamos um ponto que eu descrevi minha vida antiga pra ele, então ele sabe que se eu estava comparando minha vida antiga a um “morango” comparado com o que aconteceu naquele lugar, era porque algo “inumano” estava naquelas páginas.


Diego: você pode me contar todos os detalhes?


Dandara: ta bom.


Eu contei, pagina por pagina, da historia, falar em voz alta, de alguma forma parecia aumentar o meu medo e quanto mais eu falava, mais eu via o Diego mudar, ele tentava esconder, mas o completo terror no rosto dele podia ser visto, mesmo depois de anos de profissão. Quando terminei a história, eu me sentia assustada, meu coração estava acelerado, e parecia que eu tinha escapado de um monstro de filme de terror.


Diego: que história assustadora 


Dandara: é…e isso me faz pensar em como…eu apenas tive sorte


Diego: por que diz isso?


Dandara: foi apenas por acaso que o Antonio me conheceu, e apenas por acaso que eu consegui sair daquele lugar horrível, e foi apenas por acaso que eu nasci numa família que, apesar de todos os problemas que tinham, ainda nunca levantaram a mão pra me bater. Tem crianças que não tem nenhum pouco do que eu tive, e eu já nasci com pouco, as pessoas não são iguais Diego, nunca foram, a vezes, sinto culpa por isso, eu tive um final feliz, enquanto tem pessoas como o protagonista do livro, que nunca teve chance de ter um final feliz, E POR QUE?! POR CAUSA DE ADULTOS INCOMPETENTES, POR CAUSA DE ADULTOS QUE ERAM PROBLEMÁTICOS DEMAIS SEQUER PARA SEREM CRIANÇAS, POR CAUSA DE CRIANÇAS QUE FARIAM O PRÓPRIO DEMÔNIO MOLHAR AS CALÇAS DE MEDO. E POR CAUSA DE UM AMOR QUE TAVA CONDENADO DESDE O INÍCIO. 


A minha raiva explodiu de uma forma que eu nem entendia direito, e eu explodi tudo em volta, jogando a cadeira no ar e fazendo um monte de coisas explodirem, e quando minha raiva abaixou, e as coisas foram postas no lugar bem devagar, respirei fundo e então continuei.


Dandara: muitas crianças morrem sem sequer entenderem que o que elas passam não é normal, nem aceitável, eu sinto ódio disso, e quero salvar todo mundo, sei que isso não é possível mas…tipo…o mundo me deu tudo isso, (abre os braços) se eu não conseguir usar essas coisas pra ajudar o máximo de pessoas que eu posso, então pra que serviu tudo?


Diego: as pessoas nao sao tratadas de forma igual” certo?


Dandara: certíssimo


Diego: então me fala Dandara, você não acha que jogou bem com as cartas que recebeu?


Dandara: claro que sim


Diego: e o protagonista do livro, você não acha que ele jogou mal as cartas dele?


Dandara: claro que sim, mas ele não conta, o que ele passou pode ser chamado de “largado no escuro”. Nenhum único adulto na vida dele era decente o suficiente pra ele crescer, ele não conseguiu aprender sozinho a pedir ajuda, nem como se cuidar, nem o que é importante, a única coisa que ele aprendeu foi ser mau, ser cruel, ser egoísta, um monstro que nem eles…


Eu comecei a tremer enquanto lembrava como o livro descreve a transformação do protagonista em um monstro, foi no momento em que todo o trauma e dor dele o transformaram numa pessoa violenta, mentirosa e manipuladora, onde ele já sentia que não era mais ele mesmo, que ele sequer sabia o que ele era agora, apenas lembrar aquilo me enchia de calafrios profundos.


Dandara: você não espera que uma criança que nunca viu um animal selvagem na vida cace um alce sozinho, assim como você não devia esperar que alguém que nunca aprendeu sobre amor, alegria, ou compaixão de ninguém, seja dos amigos ou da família, consiga escapar sozinho do inferno que vive. claro, existem exceções, mas a maioria das crianças acaba como o protagonista, e eu…só posso fazer uma coisa por elas, além de ajudar elas, eu posso, ensinar as pessoas, passar o que eu descobri, e me esforçar pra nunca, jamais, existir uma criança que seja do meu círculo de amigos que tenha uma criança tão traumatizada como o protagonista


Diego: boooom, e mais o que?


Dandara: parece autoexplicativo, mas eu também faria o possível e o impossível pra minha criança nunca, jamais, em hipótese alguma passar por isso. Eu não vou deixar que algo assim aconteça em minha presença, EU NÃO PERMITO!


Diego: hmhmhm


Dandara: qual é a graça?


Diego: nada, só estava pensando que é lindo como cada vez mais pessoas como você tão virando a maioria, e pessoas doidas que pensam coisas como “e dai? o que nós podemos fazer?” estão diminuindo, e virando exceção


Dandara: não foram pessoas que se importam com os outros que fizeram esse reino se erguer?


Diego: sim, mas sabe como são as pesquisas, uma coisa nova aqui, outra coisa novinha lá, o que é óbvio pra nós hoje seria um absurdo a 22 anos atras, um absurdo indescritível, então entenda que muitas vezes você vai estar em dúvida se ligar pra tudo que acontece à sua volta, cada pessoa que sofre, cada pessoa que se machuca importa mesmo, não importa de que ponto você esteja


Dandara: mas eu vou continuar me importando, não importa o quão difícil, estranho ou doido fique, por que no momento que eu parar de ligar, vou estar mais longe de ser humana, e eu não quero isso


Diego: você tem medo de perder sua humanidade


Dandara: perder minha bondade pra ser mais específica, minha gentileza, minha empatia, todas as partes de mim que me fazem importar com os outros, sei que precisa se de muito tempo e de muitas decisões ruins e egoístas, dias ruins e tragédias para perder tudo isso completamente, mas, sei lá sabe, sou paranoica, e não quero me imaginar ficando nem perto de perder essas coisas


Diego: Já imaginou como ficaria se chegasse a esse ponto?


Dandara: eu ficaria igual aos meus pais biológicos, e eu quero evitar isso nem que eu tenha que perder uns membros ou alguns órgãos pra isso.


Não era um blefe, eu estava disposta a virar só uma cabeça sem corpo se isso significasse não ser parecida com meus pais biológicos, Diego entendia completamente isso, então ele apenas falou.


Diego, tudo bem, entendido, mas alguma coisa?


Dandara: não


Diego: otimo, por que a sessão acabou, teremos que continuar na semana que vem


Dandara: vou contar os segundos.


Não tinha terminado de falar, ainda tinha muitas coisas que eu queria dizer olho no olho para o Diego e para muitas pessoas diferentes, mas eu queria praticar com o Diego pra conseguir falar direito com os outros,


Ao mesmo tempo, sabia que era melhor só recuar agora, recuar, e pensar em tudo que eu falei e tudo que eu não falei, tudo que eu precisava melhorar, colocar meus pensamentos a solta colocou todas as minhas ideias a mil, se eu pensasse ainda mais forte ia sair fumaça da minha cabeça, hehe, eu falei isso de brincadeira, mas pouco tempo depois eu pensei estar com febre, mas não, era que a minha cabeça tava realmente soltando fumaça, que legal.


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