Eu aproveitei aquele tempo que eu tive com a minha nova vassoura o máximo que eu pude, quase cheguei a falar com ela, mas eu não cheguei a esse nível de insanidade, mas eu cheguei no ponto de me exibir e mostrar ela para todas as pessoas que eu conhecia, sim, essa parte eu cheguei, todo mundo tava bem impressionado com a minha vassoura nova.
Algumas alunas mais riquinhas falaram que a vassoura era ruim por ser barata, e as mais ousadas até chamaram ela de “vassoura de mendiga”, mas eu ignorei por completo aquelas ali e só aproveitei tudo com minhas amigas, até que um dia, meu Príncipe me chamou pra um encontro, e transbordando de felicidade, eu me sentia feliz como uma formiguinha ao redor do açúcar, mal podia esperar pra fazer minhas coisas, falar coisas pra ele e muito mais, eu tava tão empolgada.
Desde que ele virou um mago oficial e começou a viajar por todo lugar doido, ficou bem mais difícil falar com ele, mas ele sempre fazia questão de ir me ver quando conseguia.
Eu me arrumei toda, penteei meu cabelo, pus meu melhor vestido, e até dei uma polidinha em minha vassoura, queria estar no meu melhor estado quando o encontrasse.
E pra variar, ele estava no exato ponto que agente sempre se encontrou no banquinho perto da quadra do dia onde agente se conheceu. Eu via, ao lado dele estava o Zorro, um cavalo pardo de crina preta e uma linha pequena em seu nariz, mesmo não sendo ligada a cavalos, eu podia ver o quão especial aquele cavalo era, de várias formas diferentes.
Quando me aproximei, vi que o meu príncipe estava com os olhos fechados e fazendo batidinhas na madeira do banco, pelo jeito ele estava com o feitiço de orquestra nos ouvidos ligado, tentei chamar atenção dele, mas antes de eu conseguir ele cantou alto um verso da música, e eu fiquei paralisada por alguns segundos.
Antônio: …caaaaaante, aaaaalto, contra essa dooooor, o pior já passou, é tempo de sorriiiiiir, mas sempre que, o soooool se pooooor, saiba que eu, ainda estou aquiiiiiiiiiii.
(Atenção: a cantora dessa música é a Felícia Rock)
Eu não sabia o ritmo, não sabia a letra inteira, nem sabia o contexto pra ele estar cantando aquilo, mas eu ainda fiquei emocionada, pensando como a letra da música devia ser linda pra caramba.
Então ele finalmente me viu, desfez o feitiço de orquestra e me abraçou. Ainda era doido pra mim que o meu Príncipe, alguém que era um Singular dos super sentidos, ficava tão confortável em ser abraçado assim, talvez ele só ficasse confortável com quem conhecia, mas no fim isso não importou muito, pois o abraço dele era realmente digno de ser o meu amor, eu o abracei com a maior força que eu tinha, e consegui apertá-lo a ponto de estalar alguma coisa, hehehe.
Dandara: senti saudade
Antônio: eu também senti.
Depois disso, agente deu um beijo. O Antônio, ironicamente, não parecia ter mudado muito, além do clássico manto de mago, o chapéu grande e o mais novo cajado cheio de raízes que ele carregava. Ele estava fisicamente igual, mesmo que era nítido que ele já passou por várias coisas, ele parecia ainda maior do que antes, mais maduro, e pela forma como ele me olhava, sentia que ele pensava a mesma coisa de mim, mesmo que às vezes eu mesmo não pudesse ver.
Antônio: então, qual os planos de hoje?
Dandara: eu tava pensando em dar uma voltinha por aí, você no Zorro e eu na minha vassoura
Antônio: por mim tudo bem.
E assim, nós subimos em nossas montarias e passeamos por aí, não estávamos apostando corrida, nós apenas caminhamos pelo ar indo para os lugares mais calmos e silenciosos possíveis e com o vento batendo em nossos rostos quase nós fazendo dormir em meio a montaria, foi a primeira vez que usei minha nova vassoura numa velocidade tão baixa, e não podia estar mais feliz por fazer isso.
Não falamos nada um pro outro, por que naquele ponto, nós só queríamos ficar perto um do outro, curtindo a companhia ao nosso lado, e tentando não estragar esse momento de conexão simples e indescritível com palavras, apenas sentir na pele, na mente e no coração o que era impossível de descrever com simples palavras como “eu te amo”.
“Eu te amo” era algo bobo, simples demais, um simples “eu te amo” não poderia explicar a quantidade de coisas diferentes que eu sinto por eles mas ao mesmo tempo era a mais simples de entender, algo bobo, idiota e que englobava tudo, e com pouca vergonha de quebrar o silêncio, eu falei.
Dandara: eu te amo
Antônio: eu também te amo
Dandara: aí, você já parou pra pensar que não existe diferença pra forma como as pessoas voam?
Antônio: não
Dandara: pensa bem: quando você anda rápido, você está correndo; quando você anda muito devagar você está caminhando; e quando você anda normal, você está andando. Três formas e três palavras diferentes de andar. Mas só tem uma palavra pra voar, “olha, ele está voando rápido” ou “nossa, o passarinho tá voando bem devagar”. Não acha isso estranho, tipo, isso que estamos fazendo agora, as pessoas ao nosso redor apenas poderiam dizer que nós estamos “voando devagar” não acha.
Meu Principe demorou um tempo pra responder, até que ele finalmente falou.
Antônio: PORCARIA, CÊ TÁ CERTA
Dandara: E NÃO É
Antônio: então que tal inventarmos um nome pra quando estamos voando de forma lenta e voando de forma rápida
Dandara: concordo, vamos ver, que tal agente falar que nós estamos “planando” quando estamos voando devagar
Antônio: mas nós não estamos realmente planando quando estamos voando devagar
Dandara: é, mas estamos usando pássaros como exemplo bobão, agora, o que podemos dizer quando estamos voando rápido
Antônio: que tal “mergulhar”
Dandara: por que mergulhar?
Antônio: por causa de seu próprio exemplo do pássaro, a maioria dos pássaros que voam super rápido são pássaros que despencam de pontos bem altos e abrem as asas no meio do mergulho ganhando uma alta velocidade
Dandara: não sei não, as pessoas podem entender errado e achar que é outra coisa
Antônio: deixe elas entenderem errado, com certeza com o devido tempo elas vão entender o que “mergulhar” significa com o passar do tempo
Dandara: unhun, parece o certo, agora a parte difícil, como vamos fazer isso virar padrão?
Antônio: vamos usar um efeito manada, vou pedir para que o Davi, o Brutus, a Saytus e o Jay começarem a falar assim, e você pede pra suas amigas fazerem o mesmo
Dandara: não é mais fácil agente só pedir ajuda para a Isabelly?
Antônio: não fica pedindo ajuda da Princesa pra tudo, vamos tentar fazer apenas esse projetinho nosso mesmo
Dandara: tá bom.
E de novo, voltamos apenas a planar, até pegarmos uma frente fria que nos fez quase apagar de vez, eu bocejei e ele bocejou de volta, então falei.
Dandara: eu amo planar com você
Antônio: eu amo fazer qualquer coisa com você
Dandara: até ir pra bailes?
Antônio: principalmente isso, não lembro quando foi a última vez que me diverti tanto em um baile
Dandara: aquilo foi há meses atrás, e você não foi em nenhum outro baile?
Antônio: bom, fui, mas as pessoas não entendem que quando é chega pra mim, é chega
Dandara: devem ter falado coisas como, “qual o problema? você parecia tranquilo antes” não é?
Antônio: sim, algumas pessoas parecem não entender que…eu tenho menos paciência que os outros
Dandara: e é por isso que você usa o colar
Antônio: é…mas as vezes eu fico pensando, o que realmente é apenas a minha Singularidade e o que é apenas birra minha, por que tem muitas vezes que é difícil de diferenciar
Dandara: essa é fácil, a birra é algo que você pode controlar, mas escolhe não fazer isso e deixar explodir pra fora, mas a dificuldade real não pode ser contida, pelo menos não pra sempre
Antônio: eeeeeeita, então acho que fiz birra lá
Dandara: com certeza não foi birra, você só queria sair do baile e não te deixaram, você não é um cara que fica muito tempo em bailes, mas qual é o problema disso? Você sai cedo em bailes, (aponta pro Antônio) eu sou sincera demais (aponta pra si mesma) todos tem suas peculiaridades
Antônio: você, sincera demais?
Dandara: é, por sua causa parece que eu quase sempre falo a primeira coisa que vem na minha cabeça, as vezes minha língua parece mais rápida que o meu cérebro. Você faz ideia do que eu falei pra Kali da primeira vez que eu vi ela? “nossa, que nariz enorme você tem”.
O que eu falei foi tão inesperado que o meu Príncipe fez o possível pra segurar a risada, foi a primeira vez que eu vi alguém tentar isso e conseguir, foi impressionante de certa forma.
Antônio: (ainda segurando o riso) podia ter sido pior, você podia ter completado dizendo que ela tem olhos grandes também
Dandara: ah não, se eu falasse isso já podia considerar que cometi um suicidio social.
Falei aquilo enquanto fingia que tinha uma corda presa em minha cabeça, e o Antônio riu. Era errado pra caramba, mas agente se entendia o bastante pra fazer piadas assim.
Antônio: heeee, legal, mas me fala, você já se meteu em problemas por isso?
Dandara: ainda não, mas ainda sinto medo de acabar falando a coisa errada na hora errada e acabar numa enrascada.
Antônio: contanto que você não entre em nenhum beco perigoso, duvido que chegue a isso
Dandara: quem sabe, mas também não é só isso, eu também meio que, penso alto, e acabou falando coisas que eu penso e apenas percebo depois o que eu falei
Antônio: nossa, agora acho que isso é um problema, você devia falar isso com seu Psicomago
Dandara: eu vou, mas me fala, o que você acha?
Antônio: ruiva eu já passei por coisas o bastante pra saber que tem momentos que é bom falar o que você pensa e momentos pra você ficar quieto, mas nunca existem momentos pra mentir, mentir é difícil, e mais fácil falar a verdade e lidar com as consequências que se enrolar em mentiras
Dandara: eu já ouvi todos os tipos de formas pra mentira ser chamada, mas “difícil” e novidade
Antonio: e a verdade.
E o meu Príncipe falou aquilo, como se tivesse falado o óbvio, como “a água é molhada” ou “o eu é azul”. Não sei se ele tinha percebido isso, mas ele tambem tinha aumentado a velocidade do voo, não foi problema pra mim acompanhar, mas a seriedade dele estava já aumentando seus feitiços.
Antônio: grave minhas palavras Dandara, não minta, não importa o quão insignificante seja, mentir apenas traz desgraças, dor e desconfiança, vale mais apenas machucar as pessoas com verdade do que iludi-las com mentiras, por que quando descobrirem a verdade, irá doer ainda mais do que você só tiver dito a verdade logo de início
Dandara: ahn, obrigada pelas palavras inspiradoras Antônio, mas não precisa se preocupar, se tem algo que fiz bastante ênfase em aprender é como dizer “não”
Antônio: isso é além de dizer “não” também é dizer “sim”, dizer “não quero ir” dizer “isso é meu”. Significa ser capaz de dizer várias coisas, não importa o quanto isso machuque, e estar pronto pra entender as consequências disso
Dandara: acho que faz sentido…tem algum exemplo pra me dar?
Antônio: bom, recentemente eu conversei com meu pai
Dandara: tá falando do cara que você odeia mais que tudo nesse mundo?
Antônio: não mais, minha raiva passou, ou eu pelo menos estou disposto a deixá-la passar, já senti ódio o suficiente pra pensar que é o bastante então estou tentando resolver as coisas com ele
Dandara: eu não entendo
Antônio: eu te explico depois
Dandara: então você acha que eu deveria…
Antônio: NÃO!
Não senti medo com o grito dele, na verdade, depois da surpresa inicial, eu fiquei aliviada e feliz dele ter falado aquilo.
Dandara: por que?
Antônio: por que meu pai ele é diferente do seu pai biológico, meu pai foi um idiota, o seu era um negligente, tem uma diferença
Dandara: e você me daria a honra de explicar isso?
Antônio: uma outra hora, esse é um pensamento que eu mesmo ainda tô desenvolvendo com cuidado, por enquanto, só quero que saiba que, talvez eu apresenteie você ao meu pai qualquer dia
Dandara: já te ouvi gritar, reclamar e amaldiçoar o seu velho tantas vezes, fico imaginando o que fez você mudar tanto
Antônio: simples, eu tenho um cérebro, e até onde eu sei, eu consigo pensar, e eu tive muito tempo pra pensar que, no fim de tudo ele não era o monstro que eu pensei que eu era
Dandara: aaaaaaaai, eu tô ficando cada vez mais empolgada pra saber desse babado.
O Antônio virou pra mim, ele parecia pronto pra gritar, mas como se ele tivesse engolido o próprio grito e conseguido falar de forma calma, ele disse.
Antônio: já disse, depois.
A voz dele aumentou um pouco, mas eu entendi a mensagem e não toquei mais no assunto.
Dandara: você tem algum exemplo que você pode falar?
Antônio: bom, eu comecei a avisar aos outros o quanto eu tô passando mal, sem sentir vergonha, sei que deve ser algo estranho pra você, depois de tudo que passou, mas poder falar o que eu sinto pra alguém é realmente algo revolucionário.
O meu Príncipe estava bem calmo, mas eu estava bem impressionada, eu não conseguia imaginar ele tendo vergonha de falar o que sentia.
Dandara: você? Com medo de falar o que sente? É meio difícil de acreditar nisso
Antônio: com você é diferente ruiva, com você eu sinto que eu posso falar qualquer coisa, até o fato de que eu sou virgem e não sentir vergonha, medo ou qualquer coisa que me impedisse de falar.
Nossa, eu já sabia disso, mas deduzir por conta própria e ouvir da boca da própria pessoa eram coisas totalmente diferentes, e tentando provocar ele um pouquinho, eu cheguei bem pertinho dele, e como sempre, ele não foi pra trás, agente ficou tão perto um do outro que se tivéssemos num vendaval movimentados podíamos bater em alguém.
Dandara: (sussurra) vou te contar um segredo: eu também sou virgem.
Não sabia que uma pele tão escura podia ficar tão vermelha, até aquele momento. Não achei que ele iria reagir de forma tão bruta assim, mas o meu príncipe ficou tão vermelho que ficou igual a um tomate, ok, agora chega, mais um pouco e ele iria querer ir pra casa.
Antônio: (tosse) bom saber.
Eu não fazia ideia de onde veio aquilo, mas seja lao que o sentimento que eu tive pra fazer aquilo se dissipou depois dele aparecer, que doidera. Agente voltou a ficar quietinho logo depois disso, estava um pouco desconfortável ficar em silêncio depois de tudo que agente falou, mas agente preferiu aquilo a tentar conversar mais, meu último comentário parou qualquer ponte de conversa que poderia se iniciar.
Achei que o desconforto iria fazer agente se separar rápido, mas não, mesmo com o desconforto, estava passifico e tranquilo o suficiente pra ficarmos ali por um bom tempo, e logo, o desconforto passou e continuamos voando por aí, até mesmo chegamos ao ponto de “mergulhar” de tão empolgados que agente ficou. Hehe, agente precizava se acostumar a dizer isso, tínhamos que convencer a nós mesmos antes de convencer todo mundo.
Agente só decidiu ir pra casa depois dos nossos rostos já estarem dormentes de tanto vento que eles receberam na cara, mas antes da gente se separar, o meu príncipe me deu um cartãozinho e falou.
Antônio: tá aqui meu novo endereço, vê se não some ein
Dandara: você que tá viajando pra todo lugar doido, eu que devia te dizer isso
Antônio: seja forte Dandara Rodrigues
Dandara: seja forte Antônio Carvalho.
Não foi a mesma intensidade da minha última “declaração” mas o Antônio ainda ficou bem vermelho com o que eu disse, hmhmhm, eu amava falar o nome dele todo, parecia estranhamente especial pra ele por algum motivo, hummmmm.

