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Olhos de mel 🌻X
🙂‍↕️relachando e conversando🙂‍↕️
1917 palavras • 10826 caracteres • ⏱ 7 min 40 s

🙂‍↕️relachando e conversando🙂‍↕️

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Agente não falou imediatamente, nós duas estávamos tentando encontrar a melhor coisa para dizer e no momento certo, eu pensei um pouquinho, e desafiando minha timidez, falei com toda a minha coragem.


Dandara: então, que tipo de maldição acompanha a maldição da invisibilidade?


Isabely: hummmmmm, não sei se deveria te contar isso, não é bom que as pessoas saibam de meus problemas físicos


Dandara: se as pessoas não conseguiam te tocar mesmo sendo cega, acho que você pode lidar com os outros.


A Isabely ficou um tempo sem falar, fiquei pensando no que ela poderia estar pensando, até que ela falou.


Isabely: ok, não conta pra ninguém, mas além da cegueira, o meu nariz não funciona muito bem também, e o meu coração é do jeito errado, e não tinha nenhuma magia de cura capaz de curar isso


Dandara: nossa, e você tá bem?


Isabely: claro que sim, eu troquei ele


Dandara: nossa, vocês da família real realmente vivem em outro mundo


Isabely: nós não somos egoístas também, nós ajudamos as pessoas que precisam de um pouco de assistência também (bate no próprio peito), mas e você? Que tipo de maldição acompanha o seu vazio?


Nem duvidei o por que ela sabia que eu tinha a maldição do vazio, parecia óbvio quando lembrei que ela me conhecia desde a casa de reabilitação.


Dandara: bom, além da própria maldição do vazio, pelo jeito eu tenho a maldição do coração de coelho que muitas vezes evolui pra maldição do coração de vidro, então eu tenho ataques do coração quando fico muito estressada


Isabely: que horror


Dandara: nem tanto, eu to me medicando com isso, mas eu tenho algo também chamado de “maldição de palco”, que em poucas palavras, é como se eu imaginasse que todas as pessoas ao redor de mim estivessem falando de mim, me xingando, falando meus defeitos pelas minhas costas, rindo da minha cara e espalhando boatos sobre mim


Isabely: mas todo mundo já passou por isso


Dandara: mas não na intensidade que eu faço, as coisas que eu sinto são tão intensas que minha magia cria ilusões de pessoas olhando de forma maligna pra mim, ela cria vozes e às vezes até faz os professores ficarem distorcidos, eu tive sorte de ter tido só um ataque do coração quando passo por essas coisas.


A Isabelly parou de falar por alguns segundos, depois virou o rosto pra mim, de novo, às vezes parecia que ela estava me olhando, mas eu nunca sabia dizer se ela estava mesmo.


Isabely: e como você trata isso?


Dandara: sempre que as coisas ficam muito intensas eu paro de andar totalmente e começo conversar com a voz da minha cabeça até ela se acalmar o bastante pra eu pelo menos não ter o ataque. Às vezes as pessoas começam a me olhar de verdade quando eu faço isso, mas é melhor do que eu só fingir estar normal e deixar minha voz pessimista piorar


Isabely: e isso ajuda mesmo?


Dandara: não cura completamente, mas pelo menos me acalma o bastante pro pior não acontecer


Isabely: bom saber.


Eu tava quase ganhando coragem para perguntar algo bem pessoal pra Isabely, mas antes de eu falar qualquer coisa, a Leide voltou, ela tava tão suada que as pegadas dela criavam poças, então ela se sentou ao nosso lado e só respirou. Olhando ao lado dela, dava pra ver que, assim como eu pensava, o Ace estava ao lado dela, e ele parecia feliz, realizado e satisfeito.


A Leide se sentou do nosso lado e respirou fundo por muito tempo, não querendo nos falar como perdeu pra um cachorrinho, mas tava tudo bem, já tinha passado raiva o bastante com o Ace pra saber que tentar cansá-lo era inútil, mas também sabia que tentar confortar a garota depois dessa humilhação só ia fazê-la se sentir pior, então só fiquei quieta e tentei relaxar.


Agente não falou nada por algum tempo, só olhamos os outros donos de animais brincando, vendo como muitos usavam frisbee, gravetos, ou só deixavam os cães brincarem entre si, era tudo muito divertido, e nós estávamos só olhando enquanto o Ace estava deitado no meu lado e eu fazia carinho nele, agente só relaxou e comemos os sanduíches que a Isabelly trouxe.


Dandara: uuuuui, que sanduíche gostoso


Isabely: sabia que ia adorar, é como o medo em uma mordida, cheio de energia, separado em pedaços, como se estivesse pronto pra se desconectar a qualquer momento e com muitas pedrinhas pra manter agente alerta, eu amo esse sanduíche


Dandara: to mais ligada em encontrar um sanduíche de tristeza, se der me mostre um sanduíche assim quando der 


Leide: e eu vou conseguir um sanduíche de tristeza pra mim, e não precisa dizer qual é qual, eu sou uma profissional de sanduíches.


Nós rimos da piadinha de Leide e só continuamos comendo o sanduíche enquanto olhávamos tudo. Até que a Leide falou.


Leide: e aí, teve algum outro sonho doido ultimamente?


Dandara: não, desde que comecei a fazer as músicas, meus sonhos pararam de aparecer…e também eu descobri muita coisa dos meus sonhos antes do castelo ser feito


Leide: jura, e o que soube deles?


Então contei para a Leide detalhe por detalhe o que eu descobri, estava orgulhosa de mim por ter tanta coerência, e quando terminei, a garota estava tão animada que pensei que ela iria explodir de raiva de novo.


Leide: QUE INCRÍVEL, SO, SO…eu nem consigo falar direito o que é isso


Dandara: é assim mesmo, mas me fala, você já tá trabalhando na biomagica?


Leide: não, ainda não terminei minha especialização, vou voltar às aulas logo, mas não to preocupada, a maioria dos meus surtos da escola eram bem mais sobre coisas que eu não estava entendendo, nenhum aluno implicou comigo por causa da minha Singularidade.


Eu perdi o fio da meada quando ela falou aquilo, por que eu quase sempre esquecia, eu sou uma Singular, não sou uma amaldiçoada, enquanto falava isso pra mim mesma, comecei a prestar atenção nela de novo, mas ela tinha parado de falar, só pra ter certeza que eu escutaria.


Leide: eu só tive problema com um professor, uma vez, mas isso foi a tanto tempo que eu nem penso que outro problema assim irá acontecer.


Dandara: que problema?


Leide: bom, a minha escola atual não é um problema, mas em uma das escolas do primário, a professora não gostava de mim, ela me dava notas baixas mesmo quando eu tinha feito tudo certo, me repreendia por coisas pequenas e às vezes nem deixava eu ir ao banheiro


Dandara: que horror


Leide: aquilo foi antes de eu saber que eu era Singular, então eu aguentei e guardei, por que eu sou uma das mais velhas da família, e com toda a criançada, fica difícil querer que as pessoas prestassem atenção em mim, até que um dia…eu nao aguentei.


Dandara: (sussurra) tem certas coisas que parecem se repetir


Leide: o que?


Dandara: nada não, me fala, o que aconteceu?


Leide: um dia eu tive coragem de perguntar a ela por que ela fazia aquilo comigo…e ela apenas elogiou meu cabelo lindo e bem feito, minha voz angelical e meu olhar todo alegre e inocente, tudo isso só tava fazendo minha raiva aumentar mais até que ela terminou com um “eu não suporto garotas bonitas como você, que pensam que tem tudo no mundo de mão beijada”...


Dava pra ver que aquela lembrança despertou um ódio imenso em Leide, a ponto dos olhos dela brilharem em vermelho intenso, mas ela os fechou, respirou fundo e conseguiu se acalmar.


Dandara: e o que aconteceu depois?


Leide: eu tentei me controlar, tentei mesmo, mas eu não estava sendo medicada na época, e eu nem sabia direito o que eu tinha, e pra completar, eu estava no episódio de mania quando a professora falou aquilo…então eu arranquei o olho dela, com uma caneta.


Eu arregalei os olhos, a Isabelly, mesmo com seu rosto invisível estava nitidamente arregalando os olhos e até a Bruna tinha arregalado os olhos, a distância.


Leide: e pelo jeito, o ódio, magia e várias outras coisas que coloquei naquele golpe foi o bastante para eu deixar o dano permanente, ou seja, nenhuma magia de cura conseguiria consertar aquilo.


Eu não sei o que era mais assustador naquela história, o que ela fez, ou o fato de que eu não estava com tanta medo quando pensei que deveria ter, mas nao ligando pra isso, eu só falei, com uma voz que definitivamente tava calma demais pro que eu estava perguntando, falei.


Dandara: eeeeeee, você foi presa?


Leide: não, uma investigação foi feita, os cavaleiros descobriram como a professora estava me tratando, e além dela, muitos professores do lugar foram punidos, e quando meus pais viram o que eu fiz, eles decidiram me dar atenção depois de muito tempo…(suspiro) eles tiveram sorte que, apesar de tudo, eu ainda amava eles, e depois deles me levarem a um psicomante especial, deles me fazerem vários testes, descobriram minha Singularidade…e foi a primeira vez que eu fui levada pra casa de reabilitação, pois quando eu descobri o que eu tinha eu, enlouqueci, senti raiva, raiva do mundo inteiro por eles terem demorado tanto pra descobrir o que eu tinha…


Dandara: (sussurro) e de novo, a história se repete.


Eu tinha certeza que a Leide ouviu dessa vez, mas ela estava tão focada na história que nem falou nada quando sussurrei aquilo.


Leide: levei dois anos para sair, mas sinto que saí da melhor forma, pelo menos até eu surtar com mais dificuldades que apareceram em minha vida, tudo enquanto tentava entender melhor o que eu tinha, até eu acabar conhecendo você, sinto que eu fiquei melhor te conhecendo, tinha algo especial em poder contar pra outra pessoa o que eu já descobri.


Ela falou isso enquanto fazia carinho em minha cabeça, e eu apenas falei.


Dandara: quei isso, você já tava ótima sem mim, com certeza você teria saído mesmo sem minha ajuda


Leide: isso talvez nunca saberemos, mas sabemos que eu fiquei melhor te guiando, e a propósito, se quiser posso te mostrar como eu era antes da minha, descoberta


Dandara: manda.


E pelo resto da tarde, a Leide usou um feitiço estranho para tirar as memórias de sua cabeça e mostrar algumas das aventuras que ela passou quando criança, e depois de ver lembranças o bastante, entendi que a Leide era bem invocada quando era criança, e super tranquila a ponto de às vezes parecer morta de tão calma, mas pra uma criança que não sabia que era bipolar já era esperado.


Nós continuamos só relaxando naquele parquinho, até cada uma de nós ver a hora e decidirmos ir pra casa. 


A Isabely (obviamente) foi primeiro, ficamos lá até começar a escurecer, e depois eu fui embora primeiro, percebendo como a Leide parecia gostar do clima que a cidade estava tendo com a noite chegando, mas apesar do progresso que eu fiz com minha convivência com o escuro, eu ainda não conseguia ficar na rua muito de noite sem ficar com medo. 


Vendo a garota ali, me perguntei o que a capetinha que ela era criança fez a noite pra estar tranquila assim, mas não, isso poderia ficar pra utro dia, um dia mais tranquilo e simples, diferente de hoje.


Dandara: tchau Leide, ve se nao fica fora de casa ate tarde


Leide: relaxa, eu não vou fugir, só quero aproveitar essa pas que eu tenho aqui o máximo que eu posso


Dandara: você que sabe.


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