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Olhos de mel 🌻X
😌Mudou tudo, ao mesmo tempo nada😌
2371 palavras • 13620 caracteres • ⏱ 9 min 29 s

😌Mudou tudo, ao mesmo tempo nada😌

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A escola, o lugar que mais mudou desde a minha transição, e ironicamente o que menos mudou desde a minha transição, o lugar continuava igual, os professores continuavam iguais, mas eu mudei, mais de uma vez.


Desde o meu showzinho comigo mesma ontem, eu estava “espiritualmente” esgotada, então eu tava bem cansada e só vim pra escola porque eu amava estudar e isso conseguia de alguma forma me acalmar mais que ficar em casa e ouvir as vozes pessimistas que as vezes eu não conseguia sufocar. Tá bom, pode me chamar de esquisita, mas esse é o meu jeitinho.


Também tinha prometido pra mim mesma que eu ia me manter longe de problemas, bom, isso pelo menos foi o que eu prometi, mas logo virou uma promessa que quebrei enquanto corria super rápido pelos corredores tentando agarrar a Val antes que ela estragasse algo muito importante.


Foi por pouco, mas consegui agarrar a Val antes dela entrar com tudo onde a Jez estava, eu não conhecia o garoto ruivo que tava na frente dela, mas não precisa saber muito pra entender um beijo que aconteceu bem na nossa frente. A Val tava agitada em meus braços, mas com um simples Shhhhhhhhh, bem sério, consegui acalma-la o bastante pra conseguir abrir a porta sem eles conseguirem nos ver.


Dentro da sala, era possível ver a Jez e o namorado dela, com certeza num clima digno de um filme de romance, se eu não tivesse impedido ela, aquele seria o momento em que o romance ia ser interrompido e eles iam ficar com vergonha demais pra tentarem aquilo de novo, mas eu consegui impedir isso, e os dois deram um beijo.


Nenhum dos dois notou que agente estava lá, e era melhor assim, depois de ver o que ela quase estragou, a Val parou de resistir e com muito cuidado, eu a soltei. 


Nós não entramos na sala depois daquilo, nós esperamos o clima deles passar, e depois agente simulou passos, como se estivéssemos nos aproximando e depois entramos.


Dandara: aí está você, te procuramos pela escola toda


Jez: hehe, desculpa, eu tava um pouco ocupada


Dandara: é, eu percebi.


Falei aquilo rindo, enquanto olhava para o namorado dela, ainda com a marca de batom dela na boca.


Dandara: anda, vamos, o professor tá esperando agente.


E de forma simples, nós três fomos até a sala, pensando se as outras já estavam lá ou não.


Aquela aula parecia bem tranquila, em nossa primeira aula fomos instruídas a entalhar broches novamente, era agora uma arvorezinha pouco detalhada, mas com “galhos” de árvore tão pequenos que era necessário um controle e uma paciência absurda para criá-lo.


A aula era longa o bastante para todos conseguirem falhar 4 vezes antes do tempo acabar, e isso tendo que começar do zero todas as vezes depois de quase terminar, muita gente ficou assustada, gritou de primeira e desistiu antes mesmo de começar. 


Já eu, errei o broche nas duas primeiras tentativas, conseguindo resultados bons apenas na terceira vez, mas continuei mexendo no broche pois não queria que alguém pensasse que e já eu terminei e ficasse ainda mais nervoso, e pelo visto, meu ato de bondade conseguiu acalmar muitos alunos que já estavam nervosos demais para fazer muita coisa. Quando todos terminaram o próprio broche, o professor falou.


Professor: muito bem, vocês irão lidar com coisas bem mais complexas do que broches esse semestre, mas por enquanto, relembrar o primeiro ano sempre é a melhor escolha, muitos já devem estar bem tranquilos em fazer broches, enquanto outros estão com dificuldades grandes, mas hoje vocês irão entrar num ponto bem mais complexo do que simples talhagem, deixem os broches comigo e estejam prontos pras próximas aulas.


Levei o conselho do professor a sério, mesmo depois da aula terminar, e antes da próxima aula acontecer, eu e as meninas fomos para um cantinho do pátio da escola e começamos a tricotar, a Val conseguiu, ela me viciou naquilo, e pelo jeito ela tinha feito isso com todo o grupo. 


Eu só tricotava, ficando feliz que os tecidos horríveis e simples que eu fazia no começo estavam finalmente virando tecidos normais. Tinha vezes ainda que eu esperava meu dedo, mas só dando um pequeno “ai” eu ainda sorria depois de fazer isso, nunca ia parar de ser engraçado, trágico e aliviador ao mesmo tempo finalmente conseguir expressar minha dor de forma simples assim, mas sempre que eu fazia isso, Val me olhava de forma estranha, uma mistura de pena, orgulho e tristeza.


Val: você passou por muita coisa né garota?


Dandara: mais de 20 anos de coisas, tanto ódio, dor e trauma do meu próprio ninho, mas olha só, em menos de 5 anos, me sinto boa o bastante a ponto de mal me reconhecer de como eu era quando era criança


Val: hurra pra você então


Dandara: tenho certeza que voce deve ter muitas histórias doidas pra contar


Val: nem muito, sou só uma Sapien normal, uma sapien que foi criada só pelo pai, mas ainda sou normal


Dandara: totalmente normal, o que houve com sua mãe?


Val: não faço ideia, sou adotada


Dandara: sério? E você não tem mãe, só pai?


Val: é, o meu pai não confia muito em mulheres


Dandara: mas você não é uma mulher?


Val: bom, sim, mas sempre que eu dizia isso pro meu pai ele falava a mesma coisa, “querida, você é meu bebezinho especial, não conta”.


Eu arregalei meus olhos ouvindo aquelas palavras, pessoas que falavam frases como aquela de forma tão casual tinham histórias bem interessantes na maioria do tempo.


Dandara: sei que deve ser difícil pro seu velho, mas qualquer dia agente pode se conhecer?


Val: claro, eu tenho certeza que ele não vai ligar.


Com uma risadinha, agente continuou tricotando, eu queria tricotar um ursinho, mas nem terminei a cabeça, eu queria fazer uma coisa com esses bonequinhos de tricô, mas eu precisava de mais tempo, hummm.


A próxima aula foi bem mais tranquila que a outra, era sobre verniz e tinta. 


Professor: sei que muitos de vocês devem estar bem morrendo de stress, raiva e indignação depois da primeira aula do dia, mas eu lhes garanto, o verniz irá fazer vocês se relaxarem muito.


Eu estava tranquila, mas olhando ao redor de todos, todo mundo estava coberto de raiva, todo mundo parecia estar a um erro de explodir por completo mesmo, só um pequeno grupo de alunos pareciam calmos de alguma forma, e até eles pareciam carregar um pouquinho de stress, eu sabia disso por que eu era um dos estressadinhos, mesmo que bem menos que os alunos que falharam tanto.


Professor: o verniz é um item bem comum, mas muito importante, ele é usado para garantir que um entalhe de uso único dure vários usos sem se despedaçar, e quando aplicado da maneira de forma correta, o entalhe pode até se tornar permanente, mas isso é apenas para os especialistas.


Aquela explicação simples relaxou os alunos, o fato de não ter nenhum método super complexo envolvendo o exercício deixou todo mundo mais calmo, pois tinha o frio da sala que fazia todo mundo se sentir quase no polo norte, uma música clássica relaxante que parecia massagear meu cérebro e espremer todo o stress para bem longe de mim mesma, tudo junto com o cheiro do verniz que me fazia quase desmaiar de sono frente da mesa. 


Mas eu me controlei, me foquei e voltei a pintar o verniz, mas logo, quando mais broches começaram a funcionar “errado” eu consegui me manter acordada pensando que eu não queria acabar como eles.


Todo Mundo entendeu bem rápido que aquilo tava longe de ser algo fácil, pra começar, existia uma forma certa de espalhar o verniz pelo entalhe. Um dos alunos apenas derramou o pote de verniz em cima do broche entalhado, e quando ele ativou o broche, o objeto explodiu seu grande poder a ponto de jogar o aluno pro teto.


Pintar o broche com pincéis era ironicamente bem relaxante, enquanto respirava fundo, tinha pequenos devaneios enquanto fazia meu exercício. 


Olhando ao redor, fiquei impressionada ao ver muitos alunos tentando relaxar e aproveitar aquele momento igual a mim, claro, tinha muitos alunos que deixavam pequenos buracos sem verniz que faziam os broches racharem, mas eles ainda pareciam aliviados, pois tirando as rachaduras, nenhum aluno voou como o primeiro aluno do verniz.


E pra variar, a turma toda conseguiu pintar direito os broches com verniz, era apenas passar um pincel com cuidado num entalhe de madeira, não era pra ser difícil. 


Na verdade, a única coisa que rolou era que a sala tava tão calma, tão tranquila e tão silenciosa que muitos alunos dormiram, um aluno até bocejou e começou um efeito manada que fez toda a turma bocejar, e a música clássica era o último prego no caixão pra todo mundo tirar um cochilinho, eu descansei meus olhos e vi que tinha dormido um pouco, mas a professora não parecia irritada, muito pelo contrário, ela parecia até feliz.


Com seu único assistente a acompanhando, ela olhou cada um dos broches, e pelo jeito, todo mundo se saiu bem, ou pelo menos fez um trabalho decente, aquela professora exalava uma calmaria que ressoava com sua própria sala, e quando ela terminou de inspecionar todos os alunos, ela voltou a sua mesa e falou.


Professora: muito bem, o verniz de todos está bem feito, com essa aplicação, na teoria seus broches deveriam aguentar ser ativados 10 vezes de uma vez no melhor dos casos, e no pior dos casos eles deveriam aguentar pelo menos duas a mais, eu adoraria falar das tintas mas, parece que vocês não estão em condições de ouvir mais nada.


“Não ter mais condições de ouvir” era eufemismo, metade da sala estava dormindo e a outra metade estava se esforçando pra não dormir, incluindo eu.


Professora: então que tal nós só pormos a cabecinha na mesa e tirarmos um cochilinho?


Ninguém respondeu, as pessoas apenas começaram a dormir, minhas amigas já tinham apagado a muito tempo, mas eu tirei alguns segundinho a pra olhar a professora, era uma das minhas primeiras aulas daquele segundo ano, mas enquanto deixava meu cansaço vencer minha consciência, só conseguia pensar como aquela professora era legal.


Quando acordamos, já estava na hora da saída e fomos lanchar, andei pela escola, notando como todo mundo tava muito sonolento pra ter qualquer conversa coerente, então só passamos o recreio comendo e tentando acordar.


Kali: (bocejo longo) sério? quem teve a ideia de deixar aquela professora com a aula do meio dia?


Ju: um sádico talvez? (bocejo) só podemos rezar pra que a aula de pintura seja mais agitada


Dandara: não façam tempestade num copo d'água meninas, tenho certeza que a aula de pinturas vai ser bem animadinha.


E eu estava certa, nada de música clássica nessa sala, janelas jogando sol em todas as cadeiras, me fazendo pensar se eu conseguiria sequer ver o quadro com esse sol na minha cara e um frio tão intenso que quem ainda estava dormindo acordou quase na hora. E o professor parecia bem mais animado que a última.


Professor: muito bem crianças, sei que vocês devem estar com sono depois de toda a aventura de hoje, mas eu lhes garanto, pintar seu broche vernijizado, fará coisas que vocês sequer poderiam imaginar, ok, agora como todos têm o mesmo broche, repitam comigo.


E mais uma vez, escutei direitinho o professor, pintando meu broche de forma perfeita, e quando dei os toques finais nele, um brilho intenso de todas as cores diferentes que eu o pintei começou a aparecer. 


Wow, era apenas isso? O professor falou de uma forma que eu pensei que algo especial iria acontecer, mas quando o brilho diminuiu, aí eu vi, meu pequeno broche se prendeu em meu corpo em um empurrão, e eu senti meu corpo inteiro se enchendo de energia, era como se eu tivesse bebido 10 litros de café de uma única vez, nossa, nossa, NOSSA, eu tava tremendo de adrenalina, eu queria bater em alguma coisa, qualquer coisa, hehehe, minha energia não tinha limites, olhei ao redor e vi que alguns alunos já haviam terminado os broches deles, e todos pareciam iguais a mim, pessoas super agitadas que pareciam ter bebido 10 litros de cafe.


Professor: muito bem, aqueles que já terminaram, venham a frente da sala e ataquem essa punching ball.


Eu vi alguns alunos indo lá, e a punching ball se multiplicava cada vez que um aluno chegava lá, então eu voei até lá e comecei a dar socos intermináveis naquilo, o meu broche se manteve inteiro, eu não estava sentindo dor ou cansaço, apenas energia pra dar e vender, aquilo era incrível, e engraçado de alguma forma, porque eu não conseguia parar de rir. 


De tempos em tempos, um broche diferente rachava e outros alunos perdiam o ritmo, o meu nunca rachou, mas quando os broches começaram a quebrar, muitos alunos começaram a cair no chão e foram segurados por assistentes, e quando um assistente levava o que restou do broche ao professor, ele então falava.


Professor: hummm, entalhamento ruim, verniz bom e pintura mediana, é, até que ele ficou bem com a base que tinha. Vamos ver, entalhamento bom, verniz ruim e pintura ótima, no fim ele acabou não conseguindo ligar direito a madeira e a tinta. Entalhamento bom, verniz bom e tinta péssima, que pena, ele perdeu um trabalho tão bom por bobeira.


E assim o professor continuava, e nem depois de tudo aquilo meu corpo parou de bater, eu só parei os ataques quando meu broche perdeu a força, mas ele não quebrou, ele apenas ficou vazio, como se tivesse virado uma madeira normal, não precisei de assistência pra voltar pra cadeira, mas quando entreguei meu broche ao professor, eu fiquei feliz com o que ouvi.


Professor: entalhe bom, verniz bom e tinta boa, muito bem, espero que esse aluno continue assim.


Voltando a cadeira, eu percebi que as minhas amigas tinham ficado bem, o que me aliviou, enquanto que depois de tudo que eu fiz apenas naquele dia, eu senti que eu merecia ficar com a cabeça baixa e ficar quietinha até o professor me chamar de novo. Cara, a escola era o máximo mesmo. 


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