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Olhos de mel 🌻X
🙂‍↕️escreva, cante e esprece🙂‍↕️
2908 palavras • 16469 caracteres • ⏱ 11 min 38 s

🙂‍↕️escreva, cante e esprece🙂‍↕️

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Chegar em casa foi bem simples, e num movimento calmo, mas diferente de antes, eu não tava me sentindo muito bem pra ficar com a minha família, não sabia bem que sentimento era aquele, tudo que eu sabia era que, eu tava com uma anciã bem grande de ficar sozinha, antes, quando eu saí da casa de reabilitação, eu estava faminta, e agora eu estava cheia, mas antes de chegar no meu quarto, minha mãe me interceptou.


Mãe: calma aí, agitada já, aonde você vai?


Dandara: ah mãe, é que eu quero ficar um pouco sozinha


Mãe: por que?


Dandara: eu só tô cansada, tá bom? Eu falei com muitas pessoas, fui a muitos lugares, e eu nem comentei de todos os papos com grande exaustão emocional que eu tive com vocês


Mãe: e você não gostou dessas coisas?


Dandara: muito pelo contrário, eu amei, mas eu quero ficar um pouco no meu quarto e apenas ouvir o silêncio ou minhas músicas, ou estar em um lugar que só tenha eu, por um tempo, entende?


Minha mãe olhou pra mim de cabo a rabo, tentando perceber se eu estava mentindo ou não, eu nunca mentia pra ela, mas tinha vezes em que eu pensava sentir uma coisas e na verdade tava sentindo outra, acontece né, e pelo sorriso que a minha mãe deu, eu não estava confusa, nem deprimida de novo, eu só queria ficar sozinha, graças o Criador ela entendeu.


Mãe: só tenta sair pro almoço, tá bom


Dandara: claro, claro.


Então fui correndo pro meu quarto, fechei a porta, e fechei os olhos, e tentei ouvir o silêncio, no fim não tive muita coisa pra escutar pois o Ace começou a lamber as minhas pernas e me desconcentrou, mas mesmo assim, eu fiz carinho nele e me deitei na cama, eu tava esgotada, minha bateria pra socializar com os outros foi totalmente zerada, e tava tudo bem, todo mundo precisava de um tempo sozinho, mas o que eu iria fazer?


A resposta veio quase imediatamente fiquei um pouco de vergonha em pensar que eu negligenciei essa parte de mim por tanto tempo, quando contei ao meu príncipe sobre isso, eu tava tão orgulhosas pensando nas músicas incríveis que eu iria fazer, mas no fim eu fiz apenas aquela que ele ouviu, mas também, eu tava com tanta coisa na cabeça que nem parecia impressionante que eu não consegui fazer uma música direito, mas isso iria mudar, agora. 


Pegando papel e pena, me coloquei na cabeceirinha e pensei no que eu poderia falar naquela música, e a resposta veio de forma quase imediata, meu mundo dos sonhos, as entidades que vivem dentro de mim, parecia bem mais um divertido falar daquilo do que minha próprias interpretações, que sempre pareceram bem meia bocas.


Dandara: muito bem, o que eu quero contar nessa música?


Músicas eram mensagens, significados, boas músicas tinham normalmente mais de um significado, mas eu estava tentando fazer uma música com um único significado, pra começar.


O bosque antes do castelo, tinha que começar com o bosque.


(Começo do rascunho)


Em uma noite eterna, só o que conhecia era solidão. Sendo sempre perseguida de uma aberração


Fugi desde cedo da aberração insaciavel abusando de minha teimosia inesgotável.


O monstro me machucava muitas vezes, mas nunca me matava. Às vezes eu o atacava, mas ele nunca se importava.


(Fim do rascunho)


Eu me esforcei muito, primeiro pra fazer as frases, depois um grande livro de rimas, levou um tempo, mas consegui organizar melhor muitas ideias minhas, e olha quem diria, tocar naquela ferida aberta em meu consciente me fez colocar muitas coisas na letra que estavam bloqueadas, uma dor peculiar como se minhas veias esquentasse de uma vez bem devagar se intensificou enquanto mais pensamentos bloqueados eram colocados no papel.


Eu comecei a tremer, meus traumas e minhas mãos pareciam ter entrado em um acordo e me excluíram de tudo. Eu tava com medo de ler o papel e ver algo que me assustasse, mas eu já tinha ido longe demais, com coragem e tremendo de medo, eu olhei o segundo rascunho


(Começo do rascunho)


Em uma noite de páscoa, eu pedi por ajuda, e o coelhinho respondeu. Com seus dentes, ele derrubou as árvores, se impressionado com o que comeu.


Na primavera, uma borboleta me fez voar, eu nem notei os tijolos que ela deixou em meu lar.


No natal frio, papai urso me levou pra sua cabana. Nevando, ele me esquentou de forma bacana.


(Fim do rascunho)


Hummm, talvez eu tivese bloqueado mais coisa do que pensei, eu não tentei forçar nada, eu só continuei tentando fazer uma música melhor, mas novamente, mesmo que no fim, não tivesse nada muito sério nela, eu sentia uma dor de cabeça absurda como algo estava voltando, algo guardado a sete chaves em minha cabeça estava tentando sair, e eu nao sabia ainda se eu devia deixar, mas talvez aquela música me dissesse.


(Começo do rascunho)


No silêncio da noite, eu senti medo. O que o escuro escondia ainda era segredo.


Ouvindo sussurros, acendi uma chama. Olhando pro chão, enfim vi a grama.


Pisando com cuidado, mexi nos presentes. cuidando da chama, criei algo resistente.


Não sabia o que eu criei, nem sabia o que eu fiz. Mas quando terminei, o monstro nos prendeu lá todo feliz


(fim do rascunho)


E aquilo pareceu o ponto final, eu senti memórias fluindo, mas não processando em minha mente, a pequena dor de calor que sentia em minhas veias aumentou, a ponto de eu ficar com muito medo, meu coração começou a acelerar, enquanto a pena na minha mão parecia a ponto de se partir. 


Minha respiração começou a falhar enquanto eu ouvi algo entrar pela janela, Jade, minha linda arara Jade, a queridinha percebeu que eu estava mal e voou até ali.


Vocalizando, ela começou a tocar de forma perfeita uma melodia de uma serenata de uma música sobre crianças correndo em campos de flores. 


Pra quem estiver lendo isso não consegue imaginar o que eu sinto, se imagine em uma casa em chamas, você não pode escapar, não pode respirar, e nem se mexer, tudo ao seu redor ficou perigoso e você só pode sofrer pelo resto da miserável vida que você tem. E com a música da Jade, eu consigo me acalmar o bastante pra achar a saída dessa casa imaginária e me acalmar.


E bem devagar, meu coração de coelho se acalmou, essa maldição era a parte que eu mais odiava em mim, mas ainda mantendo ela sob controle graças a incrível música da Jade, comecei a escrever de novo, wow, wow, wow, não consegui acreditar no que eu estava escrevendo, aquilo era recheado de sentimentos bons e ruins, de forma boa, eu não acreditava no que eu estava escrevendo, até que eu terminei e senti um orgulho tão grande de mim mesma que beijei o papel. Graças a deus que eu não usei tinta, ou eu ia ficar com uma marca de batom de tinta por um tempo, hihihi.


Noooooooooossa, isso era lindo, eu tinha que mostrar isso pra alguém, não entendia como, mas sentia que meus olhos estavam brilhando, e quando fui pra perto da porta, mas me parei no meio do caminho, o que e tava pensando: eu terminei a letra, mas ainda tinha tanta coisa pra fazer, instrumental, ritmo, tema da música e milhares de coisas. 


E enquanto eu ria vendo minha grande paixão finalmente despertando, eu continuei escrevendo, às vezes apagando coisas e escrevendo outras, às vezes testando alguns ritmos em minha boca mesmo. Talvez em algum ponto naquele rolê eu entrei no estado de “calmaria extrema” que desejei tanto conseguir, mas a escrita de música era tão importante pra mim que eu nem notei, só bem depois.


No fim não consegui cumprir a promessa pra mamãe, pois eu perdi o almoço, bom, perdi o almoço com a família, pois ela levou o meu prato pro meu quarto e eu dei um jeito de comer sem parar de escrever (como eu fiz isso? Eu ainda tava tentando descobrir), e com o jantar chegando, o João meu irmãozinho, foi pro meu quarto, pra ter certeza que eu tava bem, e com exceção do meu rosto obcecado na cara do papel, realmente tudo tava normal.


João: tá comendo o papel de novo?


Dandara: (risada sem graça) não…não ainda.


Apesar de ver que eu estava bem, o João não saiu do quarto, e no meio dos meus devaneios, consegui ver bem o olhar dele, o medo do desconhecido, ele já estava acostumado com a Dandara fraca, a Dandara machucada, a Dandara amedrontada até a Dandara vazia. Ele também estava acostumado com a Dandara calma, a Dandara tranquila, mas indecisa sobre o que ela era. Mas nem ele e nem eu estávamos preparados pra lidar com essa minha nova “eu”. 


Aquilo aconteceu…eu não tinha certeza quando começou, mas agora eu não tinha mais medo, e agora eu tinha “certeza” do que eu queria fazer. Talvez essa minha nova “eu” fosse uma mistura de muitas coisas, mas minha nova impulsividade deixava meu irmãozinho preocupado. 


Me acalmando através desses pensamentos e devaneios, parei de escrever freneticamente, peguei o papel, assoprei as lascas de pedra e penas e olhei pro meu irmãozinho.


Dandara: maninho, ta afim de ver a obra mais recente da maninha?


João: é claro.


Eu tava animada, o João tava animado, as vezes eu sonhava se ele iria tocar seu trompete em algum grande show no futuro, mas as primeiras coisas primeiro, minha linda música tinha que ser algo digno de estar num palco antes de querer ir pra um palco. 


Primeiro, eu imaginei cada instrumento, usando o princípio das araras gravadoras como a Jade, e comecei tudo com um ritmozinho triste de dois instrumentos ligados com a batida alto astral de um terceiro som, uma melodia que tentava dizer “as coisas estão difíceis, mas não desista”, depois eu continuei aumentando o ritmo devagar até enfim começar a ler a música.


(começo da música)


Fugindo num grande bosque só tinha um monstro pra me acompanhar.


Ele me matava e me machucava mas eu era teimosa demais pra parar 


Explorar o bosque era inútil, presa por árvores, não tinha saída.


O grande escuro escondia a todos, me salvando de virar comida.


Monstros vinham do escuro e eu sempre os ataquei.


Olhos sinistros me vigiavam e eu sempre os encarei.


A dor era minha melhor amiga e até ela eu parei de escutar.


Vivendo em buracos, eu não entendia o que era amar.


Até eu achar uma sombra estranha, brincando no escuro com muita artimanha.


A sombra tentou brincar comigo, mas com medo gritei e 


 A sombra quis brincar, mas com medo eu gritei me sentindo em perigo.


Quando ela fugiu já implorei que voltasse, temendo a hora que o monstro chegasse.


Sem quela perto sombra eu voltei a sobreviver, dias de fome e medo me cercavam sem se resolver.


Gritei por ajuda em meu pior momento, nunca pensei ser escutada, mas com um ronronar, senti um fim ao tormento.


Ronronando em meu colo, vi o pequeno afastar pesadelos, e o vendo levantar, olhei muito tempo seus olhinhos amarelos.


Em ronronos e miados, ele me chamou, tropeçando em pedras, cheguei em num lugar que ele encontrou.


Um lugar ainda escuro, mas tranquilo, com muito mato mas sem nenhum monstro, e um lugar com outros cãezinhos, haaaaaaa, eu era um cãozinho…eu era um cãozinho…eu…sou…um cãozinho.


(fim da musica)


Tentei continuar cantando, mas aquela última estrofe me pegou de forma desprevenida, era engraçado, eu não lembrava de ter escrito aquilo ali, aquilo sequer fazia sentido? Como é possível você escrever algo e não perceber?


No meio desses devaneios eu comecei a chorar, chorar muito. Levei um tempo pra entender do que eu estava chorando, mas o meu irmão não precisou resolver nenhum quebra cabeça pra decidir me abraçar enquanto eu tava vulnerável, isso pelo menos até ele me olhar direito e ver que eu estava chorando lágrimas de alegria.


O João não sabia se devia sorrir ou ficar calmo, e eu apenas dei o polegar pra ele, liberando que ele risse também, eu estava feliz, muito feliz mesmo, por que agora, meus vazios de memória se preenchiam, eu sabia agora o que eu era naqueles sonhos, juntos e muitas memórias dos meus primeiros pesadelos começaram. Era como se uma caixa de pandora de memórias reprimidas tivessem se aberto.


Sim, eu me lembrava, eu era um filhotinho bem feliz, mas quanto mais tempo eu ficava naquele bosque, o “monstro” apareceu e começou a atacar, não foi imediato, e levou bastante tempo, mas eu comecei a ficar com muitos ferimentos, comecei a ficar muito agressiva, e comecei a latir pra todo mundo, literalmente todo mundo.


Eu também lembrei que eu sonhei com o gatinho dos olhos de mel quando eu conheci o Antônio, não, o que agente tinha era mais um evitamento, agente se evitava e tentava o máximo não se encontrar pelos corredores, quando conheci ele pela primeira vez, lembrei como sonhei que eu tinha deixado o gatinho se aproximar de mim e ele lambeu meus machucados. 


Eu estava com medo, medo como não doeu, medo como ele era carinhoso comigo, naquela noite, eu tinha dormido pela primeira vez naquele sonho, e eu também lembrei que foi naquela época que os pesadelos constantes pararam, e eu comecei a ter sonhos normais de novo, coisas bobas como tomar uma pirâmide de sorvete, ou sonhar voando no meio de várias nuvens. Meu maior sonho foi comigo sonhando que eu tava lutando com um travesseiro com braços, hehe, aquele sono foi bem doido, mas eu ainda não estava feliz.


Enquanto o próprio João tentava apenas computar o que escutou, era o rosto de surpresa completa, que lentamente se transformou em orgulho. E com uma risada grave, ele falou.


João: uohohohohou, essa ai vai ser uma joia depois de ser polida com mais cuidado.


Ele falou isso enquanto se aproximava com cuidado de mim e continuou.


João: a belezinha já tem um nome?


Dandara: na verdade não?


Tirei um tempinho pra pensar nisso, e falei.


Dandara: que tal, “gato preto”?


João: não, genérico demais, tem que ser algo que destaque ele.


Tentei pensar em alguma coisa, mas não vinha nada, minha mente estava num branco total naquela hora.


Dandara: que taaaaaaal, “amigo das trevas”:


Joao: uuuuuh, gostei dessa ai, é, “amigo das trevas”, você só precisa botar um pouco mais de tchaaaaan, na música e essa belezinha vai sair rapidinho daqui de casa


Dandara: o que exatamente seria um tchan?


João: você é a compositora, não eu, tenta descobrir, (voz mais chique) eu sou só um humilde conselheiro.


Dando risadinhas, eu achei graça do que o João fez, às vezes pensava que o João tinha o objetivo de me fazer rir sempre que agente conversava, e na maioria das vezes, ele conseguia.


Dandara: hahah, ok, é melhor agente ir pra cozinha antes que a mamãe e o papai reclamem


João: claaaaro.


Eu falei aquilo, mas quando agente foi até a mesa, vi que minha mãe tava desenhando pequenos círculos no peito do papai enquanto ele apenas a olhava nos olhos.


Dandara: ahn, vocês querem que agente coma no quarto?


Pai: não precisa filha, vamos comer antes que a comida esfrie.


Apesar de sentir nojo deles fazerem isso tão perto da gente às vezes, uma parte de mim ficava feliz que meus pais conseguiam ainda ser tão próximos assim, hmhmhm, é, o gatinho preto me levo pra uma matilha muito bonitinha. 


E enquanto pensei nisso, tive outra lembrança de meu sonho, com uma matilha de lobinhos sendo levados até mim por uma gatinha que parecia muito a mãe do gatinho, nooooooossa, mas de novo, não sabia muito bem o que meu corpo queria dizer com isso, hummmmmm?


Mãe: o que foi querida?


Dandara: minha magia tá tentando dizer algo, mas eu não sei o que é


Mãe: tenta ver as coisas por outro ângulo.


Tentei colocar a dica da mamãe em prática, mas eu não fazia ideia como poderia “olhar por outro ângulo” um sonho antigo que eu mal tinha lembranças dele. Bati minha cabeça por bastante tempo tentando encontrar algo que valesse a pena falar, e então eu vi algo, talvez errado, mas algo que talvez me levasse ao resultado aceitável também.


Dandara: será que…ele não tá me preparando pra proteger o castelo, mas sim pra sair dele


Mae: castelo? que castelo?


Dandara: ah, não liga pra isso no mae, eu só tava pensando alto


Mãe: mesmo assim, pode me explicar que castelo é esse?


Eu pensei que ia ficar mais difícil de falar sobre essas coisas com a minha mãe, mas foi bem pelo contrário, eu estava beeeeeem disposta a falar detalhe por detalhe meus sonhos do castelo pra ela, apenas nao falei pra ela coisas que eu não tinha certeza que eu fiz ou que aconteceram mesmo, e o que aconteceu foi algo surpreendente, ela ficou preocupada e me abraçou bem forte.


O calor daquele abraço era confortável, ouvindo o coração dela, me senti relaxada a ponto de que eu tive que fazer o possível e o impossível pra não acabar dormindo encostada no peito dela, e os tapinhas nas costas foi apenas a cereja no bolo.


Mãe: meu bebe está crescendo tanto, saiba que pode me perguntar qualquer coisa que precisar, querida.


Demorei pra responder, não queria estragar o conforto e a calmaria do momento com palavras.


Dandara: eu sei, mamãe, eu sei.


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