Eu estava com a cabeça nas nuvens nos próximos dias, muitas vezes eu ainda ficava estressada, mas parecia que todos os problemas se tornaram quase insignificantes de serem sentidos de forma intensa demais.
Isso até os testes finais chegarem, testes esses que, com tudo que eu andei fazendo, acabei perdendo a noçao do tempo e mal percebi quando eles chegaram.
O desespero que senti no dia era bem diferente de tudo que eu já senti, ao mesmo tempo, era identico ao desespero que eu sentia quando era mais nova, o tornando velho e novo.
Pois esse desespero era parecido com o que eu sentia quando eu ainda segurava aquela varinha coberta de sangue.
Desde aquele tempo, a minha nova varinha cresceu muito, junto coimigo, ela estava maior e mais pesada que minha antiga, mas ela não machucava minha mão.
As minhas amigas estavam com um desespero normal, mas quando o teste começou, nós conseguimos nos manter calmas tranquilizando uma a outra.
O teste em si era bem simples, nós tínhamos que escolher 5 madeiras para fazer 3 objetos diferentes, um bracelete de proteção, um broche de cura e brincos de força extra.
Dandara: ai, boa sorte meninas
Lu: é, boa sorte, Dan, boa sorte Val
Val: boa sorte Lu, boa sorte Jez
Jez: boa sorte Val, boa sorte Kali
Kali: boa sorte meninas, boa sorte Dan
Dandara: ai, vocês me deram sorte duas vezes
Kali: (aponta) o dobro de sorte pra você então.
A piada me ajudou a descontrair, e quando o teste começou, consegui me acalmar e fazer tudo, decidi escolher a melhor madeira logo de cara, encontrar as ruins foi bem fácil, mas escolher a madeira certa foi bem mais difícil.
De início, o efeito das três até que era parecido, mas com o formato específico pra cada peça que nos deram, lembrei que elas tinham efeitos diferentes.
E pra brincos de ataque, um “carvalho estressado” era melhor, enquanto para uma cura, o “toco giratorio” era perfeito pra um broche, e finalmente, pra um bracelete de defesa, o “tronco teimoso” era perfeito pra defesa, tudo usado em seu ponto específico.
Depois que peguei cada madeira diferente, comecei a parte difícil, entalhar parte por parte da madeira, os desenhos simples já eram difíceis e bem demorados, mas os complexos eram de um nível que “não cometa erros, se você tiver que começar de novo é melhor apenas desistir”. Eu demorei um bom tempo em cada entalhe, tentando não caprichar nos entalhes, mas ter o bastante pro feitiço ainda ser forte.
Um equilíbrio cruel e bem cuidadoso de decisões.
Primeiro os brincos sendo o formato de totens irritados, depois o bracelete no formato de uma grande muralha de madeira desgastada, até acabar tudo com um broche com o desenho de uma capivara, porque eu gostava delas e meus estudos diziam que entalhar coisas fofas melhoraram o efeito do broche de cura.
Ai, eu tava sangrando, minhas mãos estavam raladas, e duas bolhas em minhas mãos tinham estourado. Então fui levada praa enfermaria, onde vários vídeos dos equipamentos recém entalhados eram mostrados.
Cada equipamento era usado por alunos aspirantes a cavaleiros, e pelo que os espelhos mostravam, muitos cavaleiros que recebiam equipamentos ruins eram bem feridos, muitos alunos começaram a ficar com medo de matarem alguém, mas os professores garantiram que os alunos cavaleiros estavam bem.
E quando minhas mãos estavam bem enfaixadas, a Kali chegou na sala, não falamos nada por algum tempo, até que ela fez uma careta de dor depois de ver uma lança de fogo acertar um escudeiro, com o bracelete de escudo dele quebrando antes sequer da flecha de fogo o atingir.
Dandara: mesmo sabendo que esse é o teste deles, é difícil de assistir
Kali: olha pelo lado bom, provavelmente ele passou depois de aguentar isso
Dandara: talvez.
Enquanto pensávamos isso, reconheci meus 3 equipamentos sendo usados por 3 cavaleiros em treinamento diferentes.
Eu estava com um pouco de ansiedade de ver meu trabalho em ação de forma real. Ao mesmo tempo que eu tava com um pouco de medo de ver o Aspirante a cavaleiro se machucar de verdade, primeiro foi o escudo, ele aguentou 5 golpes e apenas trincou, mas o cavaleiro novato tava sem nenhum arranhão: primeiro entalhe aprovado.
Depois o broche, o broche em questão estava no mesmo escudeiro que foi ferido antes, eita, eu estava com medo agora, aquela ferida era bem grave, e o fim eu estava certa, pois o broche não curou totalmente a ferida do cavaleiro, mas vendo como a ferida interna dele se fechou bem mais, acho que fui bem naquele teste também.
E por último, o mais fácil de avaliar, os brincos da força, o mais simples dele conseguia multiplicar a força de um cavaleiro em 50%, então estava desejando deixar meu cavaleiro 2 vezes mais forte pelo menos.
Primeiro o cavaleiro bateu num golem de pancada, que com um espelho de números no peito que ia até o número 1000, mesmo que apenas professores eram fortes o bastante pra chegar ao limite do robô, e às vezes nem os professores conseguiam.
A primeira nota do cavaleiro foi 50 pontos, e depois dele usar meus brincos, ele deu os mesmos socos, no mesmo ritmo e com a mesma força de antes, mas agora, o espelho mostrava o número 110
Dandara: uuuuuh, além do dobro de poder, mandei bem.
Mais distante, vi o broche de cura de Kali curando uma ferida maior que a minha de forma perfeita, o escudo que ela fez nem trincou quando os 5 ataques inimigos acabaram, mas os brincos dela deram apenas 10% a mais de força para o cavaleiro.
E assim foi, a Lu foi ótima no bracelete, mas seus brincos e seu broche estavam medianos demais.
A Val fez os melhores brincos de nós 5, um escudo bem fraquinho e um broche de cura bem potente.
A Jez foi a mais, “comum” de nós três, ela foi quem foi boa em tudo, e mesmo assim, foi apenas boa, o escudo, os brincos e o bracelete dela não se destacavam de nada, mas eram bons trabalhos.
Se não fosse por aquele ser o equipamento de Jez, era bem provável que até eu perderia eles no meio de tantos outros espelhos-televisão no meio da sala.
Dandara: e ai, vocês acham que passaram?
Kali: isso garota, nós vamos descobrir daqui a pouco.
E depois de todas nos serem tratadas e curadas, e todas serem avaliadas, todos foram levados a uma tabela que mostrava as notas de todos, e eu estava no número 23, um número bom em uma sala com mais de 100 alunos diferentes e minhas amigas estavam espalhadas por toda aquela tabela, mas quando elas gritaram de alegria e me seguraram como se eu fosse a campeã delas ou coisa do tipo, eu sabia que elas tinham passado também.
Eu não conseguia entender o que sentia, eu estava chorando, eram lágrimas de alegria, eu não conseguia dizer o que era, apenas sentir, então ri, ri e deixei as lágrimas correrem cada vez mais enquanto minhas melhores amigas apenas me empurravam pra cima e faziam o favor de gritar em meu lugar, enquanto me levavam pra um Baile muito doido.
Kali: a gente vai pro segundo ano
Dandara: ISSO AI, EEEEEEEEE.
Eu não lembro das comemorações depois disso, a coisa que eu mais lembrava era meu cajado, quando eu tinha meu cajado antigo, eu não conseguia soltá-lo, era quase como se o sangue que derramei nele, secou a ponto de me impedir de soltá-lo, já esse, esse eu não queria soltar…e essa belezura havia crescido.
Agora, meu belo cajado se parecia bem mais com um grande bastão de cacto agora, e ele parecia mais belo agora do que já foi em qualquer outro momento que já o vi.
Eu já tinha ouvido falar disso, mas vendo aquilo acontecer comigo, eu comecei a acariciar meu mais novo bastão, ele continuava liso e com os detalhes da varinha original, mas eu sentia que aquele bastão era muito mais a minha cara.
Não era apenas a minha força, magia ou estado mental, isso tudo ajudava também, mas eu conseguia sentir que minha varinha estava pesada, pesada com a história, pessoas e promessas que ela carregava. Quase como se ela crescesse junto comigo, e naquele momento, falei sem nem perceber palavras que lembrei de quando ganhei aquela varinha.
Dandara: “uma varinha é a extensão de um mago, ela acorda, cresce e amadurece junto de seu dono, quem sabe, talvez essa varinha te conheça melhor do que você mesma”.
E por um bom tempo, enquanto ainda olhava meu bastão, pensei disso ser verdade, pois quando eu olhava o bastão, eu via o conhecimento, conhecimento que coletei até ali, a ponto de minha varinha, apesar de desgastada, ainda estar inteira e sem sujeira, tanto mental quanto física.
Em um último movimento, ergui meu bastão aos céus e o fiz cobrir o sol, só de brincadeira, e então falei algumas palavras que eram minhas mesmo.
Dandara: não sei se você consegue me ouvir, mas quero que saiba que não crescemos totalmente ainda, irei te ajudar a crescer, então espero que possa crescer junto comigo.
Eu já tinha visto tanta coisa doida que nem iria achar estranho a varinha me responder, mas também não fiquei surpresa quando ela não me respondeu.
Ou pelo menos era isso que eu pensei, mas em algum lugar, bem no meu subconsciente, dentro do meu castelo mental, protegido de monstros, o Bom senso, que não parou de arrumar o castelo ate agora, falou.
???: e eu espero crescer junto com você.

