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Olhos de mel 🌻X
🙂‍↕️eu escuto voce🙂‍↕️
2513 palavras • 13964 caracteres • ⏱ 10 min 03 s

🙂‍↕️eu escuto voce🙂‍↕️

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O resto dos meus dias foi incrivelmente calmo, tudo parecia estar dando certo, graças a preparação que eu e as garotas fizemos, agente conseguiu entender as coisas na aula dos professores antes de muitos alunos.


E pelo jeito, as outras panelinhas tiveram a mesma ideia que agente, pois cada uma delas estava tendo a mesma facilidade que nós, além de nós ficarmos muito mais próximas nesse meio tempo que nós estudamos juntas.


Eu até descobri que a Lu tinha um namorado, haha, mas eu não apresentei o Antônio ainda pra elas, eu sabia que eu não podia mostrar meu Príncipe de qualquer jeito, tinha que tomar cuidado com a reação delas, e a dele.


Nesse meio tempo, eu também tive muitos outros sonhos com o castelo, e apesar do que falou, o “Trauma” não trouxe ninguém pra ajudá-lo, ele continuou lutando e me machucando para tentar me convencer a força a voltar a minha família. 


Mas eu apenas desviava e às vezes recebia os golpes na cara, e tentava ter uma conversa calma e civilizada com minha contraparte sinistra que vivia fora do meu castelo, e mesmo sem nunca ser atingido por um golpe direto, o Trauma sempre fugia da floresta, parecendo bem mais machucado do que eu.


E também, eu conheci outra pessoa que a Monstrinha queria me apresentar, a “Esperança”, mas apesar de conhecê-la, ela parecia mais uma grande quantidade de fumaça branca do que uma coisa propriamente dita, então não consegui falar muito com ela.


No fim, um dia qualquer, eu estava em uma sessão de terapia com o Diego novamente. Eu já tinha falado várias coisas com ele, mas hoje eu sentia que tava tudo bem mais tranquilo, e tirando um colar de girassóis do bolso, mostrei pra ele e perguntei.


Dandara: eu posso colocar isso?


Diego: você tem a Singularidade do Vazio, é claro que você pode


Dandara: eu não me sinto mais com a Singularidade do Vazio


Diego: isso é bom, significa que o tratamento está funcionando, mas infelizmente Dandara, sua Singularidade é daquelas que nunca some, só se enfraquece, você está bem agora, mas você pode piorar sem nem perceber, continue se tratando e continue se cuidando, pois no momento que você pensar que está totalmente bem e parar de cuidar da sua Singularidade, você vai ficar um milhão de vezes pior do que antes.


Absorvi com muita calma cada palavra do Diego enquanto colocava devagar o colar no pescoço. Não sei exatamente o quanto aquilo devia ter me deixado feliz, mas com certeza fiquei muito mais feliz do que deveria, pelo menos eu me sentia desse jeito


Mas eu também sentia que aquilo era uma alegria bem específica, quando eu coloquei aquele colar em meu pescoço e me deixei sorrir de forma calma, eu ouvi uma voz otimista na minha cabeça, que me fez sorrir e fechar os olhos de tão alegre que fiquei quando ouvi aquele pensamento meu.


“Eu não to mais sozinha”.


Dandara: hehe acho que todo mundo merecia ter um colar, você não acha?


Diego: eu acredito que cada pessoa em todo o mundo possui ao menos uma Singularidade, seja ela hereditária ou criada através de anos de negligência e sentimentos acumulados, mas sinto que não é isso que você está se referindo, não é?


Dandara: hmhmhmhm, não.


Eu toquei o colar que agora eu usava e mostrei pro Diego como se fosse a prova de algo.


Dandara: isso é além de um aviso para os leigos que não conseguem ser gentis com pessoas com dificuldades, e muito além de alívio para a pessoa que carrega ele…


Dandara: esse colar é um símbolo de união, eu não posso falar por todos os Singulares, mas posso falar por mim, e com esse colar no meu pescoço, eu sinto como se eu não tivesse mais sozinha, e que, em algum lugar nesse mundo doido, existe alguém como eu, que passou pelas mesmas coisas que eu, e que eu não fui a primeira ter uma Singularidade como essa, e que, de forma estranha, eu não sou especial, e por causa disso, eu posso descansar, sabendo que se eu procurar bem, encontrarei pessoas que passaram o mesmo que eu.


O Diego nao me falou nada, apenas olhou pra mim com um rosto que já dizia que ele tava bem feliz com o que eu tava falando.


Então eu comecei a brincar com o colar quase como instinto, acho que eu fui infectada pelo meu príncipe nas manias dele hihihi.


Dandara: não sei explicar direito, mas com esse colar no pescoço, eu sinto pela primeira vez na vida que eu não estou mais sozinha…que eu…não sou a única que sente essas coisas, muitos me diziam que pessoas sentiam o que eu sinto 


Dandara: mas se tem algo que eu descobri bem nova é que pessoas são muito boas em fingir, então a menos que eu falasse diretamente com alguém, não podia dizer se alguém realmente entendia o que eu sentia, e digamos que eu não tive muita sorte de encontrar pessoas iguais a mim ao longo do tempo…


Dandara: mas com esse colar, o fato de que por sentir o que eu sinto, eu posso usa-lo, me faz pensar que, em algum lugar por aí, tem alguém usando o mesmo colar que eu, sentindo as mesmas coisas que eu, e com certeza lidando com as coisas ou melhor ou pior que eu…e saber que eu não sou mais a única que tem esse tipo de Singularidade do Vazio…me dá um alívio intenso em minha alma.


O Diego não falou nada por alguns segundos, pensando no que iria falar, ele teve até que fechar os olhos um pouco, provavelmente pra eu não ver ele chorando, depois de levantar a cabeça de novo, Diego falou.


Diego: acho que eu entendo


Dandara: por isso penso que todos deveriam usar um colar, não precisa ser um de girassol, acho que as pessoas podiam mais ajudar os outros e permitir que as pessoas fossem como elas são, sem precisar de um colar pra saber se precisa ser gentil ou não


Diego: e nós estamos tentando fazer isso querida, o problema é que as pessoas são burras, não importa o quanto agente tente, tem pessoas que não querem mudar, e até as que não entendem o que o colar significa.


Eu já tinha passado por coisas o bastante pra saber que, por mais que aquilo doesse, o Diego estava certo, e isso dói, e dava raiva ao mesmo tempo. 


“As pessoas são burras”. 


Essa era a resposta mais simples pra muitos desastres que muitas “raças inteligentes” criaram, mas algo em mim não podia aceitar isso.


Dandara: isso me deixa com tanta raiva, tem tantas crianças lá fora que não tem ideia alguma que…elas precisam de um colar, e não tem nada que eu possa fazer pra ajudá-las?


Diego: na verdade tem sim, mas primeiro você precisa se fortalecer mais, primeiro você precisa terminar seus estudos, e depois conseguir se manter bem sozinha, e só depois de tudo isso, você vai poder ajudar as pessoas que quer


Dandara: e quantas pessoas vão morrer no meio disso?


Diego: por favor Dandara, não perca toda a fé na humanidade, acha que é a única garota que já pensou assim? Na verdade, você apenas está aqui porque muitas pessoas a milhares de anos atrás pensavam da mesma forma que você, e criaram esse colar apenas pra começar essa grande jornada de dar mais voz ao inteligentes do que as pessoas burras.


Sim, o Antônio, o Davi, a Leide, todos eles conseguiram chegar tão longe porque alguém teve a grande ideia de criar esse colar pra início de conversa.


Dandara: não sei quando, mas sinto que em algum momento, todos nesse território vão usar colares


Diego: eu também, garota, eu também.


Dandara: e sabe, eu quero excluir o que eu disse antes, sobre eu estar totalmente curada da Singularidade do Vazio…na verdade parece o contrário, quase como se ela tivesse mudado comigo, pra tentar me fazer não sair do lugar horrível e solitário que eu tava na minha cabeça


Diego: como assim?


Dandara: é que eu comecei a perceber que eu sou uma garota bastante tímida, eu não consigo falar com ninguém, tenho medo de falar com as pessoas, medo de que elas possam gritar comigo, que possam me rejeitar, oh o pior de tudo…me ignorar, ignorar a ponto de que nem parece que eu estou ali…


O meu peito ficou bem pesado, e minha garganta quase engasgou de emoções quando cheguei naquela parte. 


Nossa, fazia um bom tempo que eu não sentia algo assim, mas eu estava tranquila, pois eu sabia que isso significava que as próximas coisas que eu ia falar teriam que ser ditas de uma forma ou de outra.


Dandara: eu tenho medo de…parecer que eu não existo…eu melhorei bastante nesse pensamento também, mas algo me diz que isso é apenas mais uma das “faces” da minha Singularidade, e quanto mais eu crescer, mais faces aparecerão, faces que eu nem sei que existem, mas as descobrirei e tentarei entendê-las ao invés de apenas fugir, ter medo, ou…ignorar elas…


Eu tive uma epifania quando falei isso, e o Diego notou também, mas ele queria que eu falasse.


Dandara: então é isso, eu sentia medo, fugia e até ignorava as partes ruins de mim por um bom tempo, e como eu sou um grande espelho das minhas relações, eu espero que as pessoas me tratem como eu mesma me tratava…nossa, você é bom.


Diego: obrigado, eeeeeee, uma forma de dar um jeito nisso é tentar se ver de forma melhor, sei que você já está fazendo isso, mas sempre que ir até uma pessoa, antes de querer que ela seja sua amiga, antes de querer que ela seja qualquer coisa sua, você sempre deve pensar “devo tratar essas pessoas da forma que eu gostaria de ser tratada” isso normalmente ajuda as pessoas a começar uma boa relação


Dandara: com calma, paciência, e aceitando todas as estranhezas dela


Diego: é um bom começo, mas acho que podemos fazer melhor, é claro que nem todo mundo merece um tratamento bom como esse, mas se você for boa com alguém e a pessoa for um babaca com você, apenas comece a ignorá-la e siga sua vida


Dandara: mas ignorar não é ruim?


Diego: ignorar sem motivos pra ignorar é ruim, se alguém é hostil com você, você não deve nenhuma satisfação a ele, pois você lhe deu o beneficio da duvida e ele se provou não valer a pena, e agora você pode ignorá-lo sem nenhum peso na consciência de que cometeu um erro


Dandara: é um jeito interessante de enxergar as coisas


Diego: e um jeito já mostrado bem eficaz, mas é perigoso usá-lo sem ter uma boa noção de certo ou errado, e me diga garota, você tem uma boa noção de certo e errado?


Dandara: eu converso bastante com isso com meu principe, agente conversa bastante sobre o que é errado e sobre o que é apenas alguém não gostando de algo que você fez, tudo isso junto com minhas experiências passadas me deu uma boa noção de quem é meu amigo e quem só tá fingindo ser


Diego: bom saber, você tem passado por alguma dificuldade? Pelo que você me fala de suas amigas parece que não, mas eu preciso ter certeza


Dandara: não mesmo, é engraçado pensar assim mas, todo mundo naquela escola é muito legal comigo


Diego: (sorri) fico feliz em ouvir isso


Dandara: e não se preocupe Diego, eu já passei por coisas o bastante pra saber quem é meu amigo, e quem não é.


Falei aquilo com um sorriso sinistro, que não desmanchou a alegria de Diego.


Diego: tem mais alguma coisa que queira me falar?


Dandara: bom, eu também tenho tido sonhos bem estranhos, sonhos…até simbólicos talvez


Diego: o que tem de estranho neles?


Dandara: é que eu sinto que meus sonhos e a minha magia querem me dizer algo mas não faço ideia do que é


Diego: me conta um pouco sobre eles.


Então contei ao Diego tudo, desde os pesadelos constantes que eu tinha na floresta sombria antes de conhecer o Antônio (pesadelos esses que eu tinha começado a lembrar naquela hora). 


Até os sonhos de tensão onde um monstro me perseguia em um castelo, a transição de mim pegando o monstro e o capturando, pra logo depois descobrir que ele era a antiga eu, uma eu que agora eu cuidava. 


Até a chegada do Trauma, e apesar do medo que eu sentia dele, e dos vários amigos que ele trouxe pra acabarem comigo, eu conseguia sempre fazê-lo fugir, recuar, ir de volta pra floresta de onde ele vivia. 


O Diego ouviu cada palavra com muita atenção, era nítido que ele estava usando todo o conhecimento de Psicomago que ele acumulou pra tentar entender esses sonhos, e eu sinceramente queria que ele me ajudasse nisso.


Dandara: e depois disso tudo, ainda descobri que quem cortou as árvores pro terreno, construiu aquele castelo e o encheu de lanternas foi eu. Sendo que eu não lembro de nenhum sonho onde eu construía algo naquela floresta.


Diego: bom, talvez o castelo simbolize outra coisa, por exemplo segurança, por isso que quando você e o “monstro” já estavam dentro dele quando ficou pronto, mas o trauma e os outros monstros continuaram do lado de fora. Se lembra da primeira vez que sonhou com o castelo?


Dandara: foi na minha primeira noite na casa de reabilitação.


Aquela resposta saiu tão natural que eu na hora comecei a lembrar detalhe por detalhe as emoções, momentos e coisas que passei naquele dia.


Dandara: aquele dia foi estranho, ele parecia um dia como outro qualquer, ao mesmo tempo que ele era diferente de todos os outros, pra aquela época, eu tava sentindo muitas e muitas coisas diferentes, e por mais que eu tenha vergonha de admitir isso, de uma forma bem fraca e um pouco descontraída, comecei a confiar nos meus pais adotivos…e foi nessa época que eu descobri que, eu realmente tinha um problema, e eu precisava tratá-lo rápido…


Falei aquilo enquanto colocava a mão em meu peito, minha voz interior estava calada, mas não senti desespero, era estranho mas, antes, parecia que ela estava me ignorando, ela não queria falar comigo, me dar dicas, nem me guiar, como se estivesse decepcionada comigo de alguma forma. 


E agora, parecia apenas que ela estava dormindo, pois sabia que eu não precisava dela, mas estaria pronta, caso em algum momento, eu precisasse dela.


Dandara: (tosse) eu precisava tratá-lo, porque eu já tinha o ignorado por tempo demais 


Diego: hummmm, Dandara, eu estou bem curioso pra descobrir o que esses sonhos significam


Dandara: eu também Diego, eu também.


Eu acabei falando tanto pra ele, mas não falei muito sobre a Esperança, a nova integrante do castelo, mas talvez fosse melhor assim, eu ainda não a conhecia bem, na verdade eu mal sabia se “Esperança” era realmente o nome dela,  ou se era apenas o nome que eu dei a ela eu precisava de mais tempo pra entender tudo.


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