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Olhos de mel 🌻X
🥹sei que doi🥹
2250 palavras • 12744 caracteres • ⏱ 9 min 00 s

🥹sei que doi🥹

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E como eu pensei, quando abri de novo meus olhos, estava no castelo, mais precisamente, no campo, onde tinha uma vassoura novinha em folha esperando por mim e de costas para um grande portão de madeira para entrar no castelo. 


Do meu lado, a Monstrinha estava encolhida e com medo e na minha frente, um pouco mais afastada da vassoura que eu iria usar, estava o meu Trauma, era apenas assim que eu podia enxergar. 


Em cima de uma vassoura, existia uma espécie de entidade feita de sombras, recheada de ódio, e apontando pra mim um cajado, como um desafio. Estando animada, quis montar na vassoura, mas primeiro fui até a minha “eu” interna e falei com ela.


Dandara: quem é ele?


Monstrinha: não faço ideia, ele apenas apareceu do nada, e começou a fazer bullying comigo, eu tô com medo mamãe.


“Mamãe?” Era assim que ela me via agora? O que ela tava interpretando dessa vez? Bom, pelo jeito que eu tava a tratando não era pra menos também, e me sentindo diferente por algum motivo, falei pra ela com a voz mais calma do mundo.


Dandara: não se preocupe, eu vou dar um jeito nele


Monstrinha: você vai matá-lo mamãe?


Eu ia dizer “sim”, diferente dela, aquele monstro não parecia que iria se render numa derrota, mas enquanto eu pensava em algo, minha boca falou outra coisa.


Dandara: eu não sei.


E eu não sabia mesmo, algumas vozes me cercaram, as otimistas, dizendo que eu deveria ao menos dar uma chance pra ele, mas as pessimistas diziam que eu não podia dar chance e mata-lo pra acabar com isso. 


E por mais que as duas tivessem bons argumentos, eu estava bem mais inclinada para as vozes pessimistas dessa vez, então respirando fundo, eu me virei até a vassoura, subi nela, e peguei minha varinha.


Quando eu olhei melhor para o monstro, eu vi que ele tinha uma aparência bizarra, que tinha uma combinação de tudo que eu odiava em meus pais biológicos. 


Ele tinha as rugas cheias de maquiagem da minha mãe, os olhos cheios de ódio puro de meu pai, o corpo biologicamente impossível de se ter de forma natural da minha mãe, e as mãos gigantes de meu pai que nunca me bateram, mas eu sempre tive medo de acontecer…


Então eu vi, o cajado era a varinha, a varinha que eu quebrei e me livrei totalmente depois de um tempo, brilhando em um dourado sinistro enquanto brilhva com uma grande cascada de sangue infinito que caia dela, um sangue sangue ainda fresco que eu tinha certeza que era meu.


Não trocamos palavras, nós apenas olhamos um pro outro, e sabiamos que precisávamos lutar, nesse mundo dos pesadelos, e com o que nos dois representavam, a paz não era uma opção.


Eu ainda não era boa em batalhas aéreas numa vassoura, nunca fui, mas eu estava pronta pra testar meus limites e ver se eu conseguia vencer daquele bicho agora ou não.


Nós disparamos ao mesmo tempo, uma batalha de vassouras, nada de golpes de feitiço no início, primeiro agente se jogou um no outro com força, e dando uma pirueta, e misturando um pouco de mana em meu pé, consegui empatar com o Trauma com um chute. 


Mas quando me afastei, eu vi, aquilo que o Antônio falou pra mim quando nos conhecemos, o fato de que eu não tinha vida, o fato de que eu era apenas uma máquina seguindo a risca todos os ensinamentos dos livros, eu enxergava o Trauma sendo exatamente assim, e sentindo dor, pensava que tinha rachado o osso da minha perna, meu deus, ele era louco.


Trauma: saiba que sentir medo só me fortalece mais


Dandara: eu sei, mas você quer continuar?


Trauma: CLARO QUE QUERO.


E ele novamente se jogou na minha direção, e novamente fiz o mesmo movimento pra joga-lo pra longe, e a dor seguinte me fez sentir a perna quebrada de verdade, algo que me fez agradecer que esse lugar era um mundo dos sonhos, então minhas pernas podiam voltar de forma quase instantânea o tempo todo ali. 


Olhando o Trauma, vi que ele se machucou também, mas não havia ligado e continuou me atacando. Agente se bateu mais, sem usar feitiços e com meus gritos de dor sendo sinfonias para o Trauma, até que ele falou.


Trauma: é ruim né? Isso não teria acontecido se você só tivesse ficado quietinha, e não tivesse saído dali…


Fica calma, fica calma.


Trauma: agora por sua causa…nós nunca iremos ser amados pelo pai.


E apesar da dor intensa das minhas pernas, vi que o Trauma estava chorando, chorando por uma dor que fazia minhas pernas quebradas parecerem insignificantes. 


Coitado, agora eu via que, de forma distorcida e desfeita, ele tava apenas tentando se manter vivo, ele não queria desaparecer, mas infelizmente, ele já estava desaparecendo.


Dandara: você quer continuar?


Trauma: SIM.


E agora, ele começou a usar feitiços, feitiços poderosos, mas ortodoxos demais, e eu mesma entendia o que eram aqueles golpes, pois todos eles eram meus, então consegui desviar deles em uma facilidade que parecia que eles estavam em câmera-lenta.


Mas não, eles não tavam em câmera lenta, eles só eram previsíveis demais pra mim. 


Não fui pega nem quando ele usou vários golens pra me pegar, ou quando disparou várias bolas de fogo através de canhões, nem quando ele jogou o feitiço mais poderoso que eu sabia bem na minha cabeça.


Eu recebi uma tempestade massiva de lava imensa na minha cara, foi difícil, mas tirando os golpes iniciais, fiquei apenas cansada, pois com um único broche de ursinho, consegui curar seus ferimentos.


Dandara: hahaha, tão básico, e tão útil, (olha Trauma) tão complexo e tão confuso.


Eu sussurrei aquilo mais pra mim, mas eu sentia que o Trauma me ouviu de alguma forma, mas ele estava ofegante demais pra fazer algo sobre isso, ainda chorando e cheio de ódio, apenas olhando eu sabia que não poderia prendê-lo como a Monstrinha. 


Ele era bem mais difícil de prender, tinha muitas formas, e ainda não queria ser ajudado, essa era a pior parte, a monstrinha queria ajuda e carinho, ja o Trauma, ele estava propositalmente me machucando…


Tentando me fazer voltar a minha vida antiga, mas isso era impossivel, eu e ele sabíamos disso, mas ele continuava tentando me convencer, pois se eu não voltasse a minha vida antiga, ele iria desaparecer, e isso era algo que ele não queria permitir de jeito nenhum.


O Trauma queria sentir a dor pra me deixar culpada, me fazer sentir que não poderia esquecer da dor e medo que senti na época, me fazer sentir que precisava mantê-lo vivo, mas eu sabia que esse não era mais o caso.


Ele também queria sentir dor, porque ele tinha medo de não gostar do que tinha depois da dor, ele tinha medo…de entrar no castelo, o grande lugar iluminado e seguro de toda a dor fora dele.


Dandara: você quer continuar?


O Trauma não respondeu, mas além de cansado, ele mudou de forma novamente, agora ele não estava tão agressivo, agora ele tinha o rosto jovem e olhos vazios das minhas irmãs mais novas, e o corpo “ideal” de meus irmãos, que não pareciam ter gordura em seus corpos, e pareciam ter uma saúde tão artificial como da minha mãe biológica, depois, ele respondeu.


Trauma: não, mas não pense que acabou, eu vou voltar, muito mais forte do que antes


Dandara: o que você pretende fazer se me vencer?


Trauma: ué? Te levar pra casa, óbvio


Dandara: mas eu já estou em casa


Trauma: isso é o que você acha, eu sei onde é nossa casa, e vou te levar de volta


Dandara: nesse caso, vou tentar te convencer a vir pro meu castelo, pra ver se você acha mesmo que a minha casa é em outro lugar


Trauma: pfff, isso não vai acontecer


Dandara: se não vai acontecer de qualquer jeito, então só vamos conversar por 10 minutos a cada batalha, e no fim, se você conseguir me convencer de alguma forma, eu vou com você sem resistir.


O trauma não mudou de forma, mas ele pareceu gostar da ideia.


Trauma: pode falar


Dandara: primeiro, eu queria que você lembrasse a forma como agente se sentia solitária lá em casa


Trauma: isso porque não tentamos o bastante, se tivéssemos tentado mais, poderíamos ter conseguido algo deles


Dandara: isso foi o que pensei também, mas quando conheci a minha nova família, fiquei surpresa por eles me abraçarem tanto, por eles falarem tantas vezes que me amavam, por eles me darem muita comida pra eu “crescer forte e durona igual eles”.


Deixei uma risada de alívio sair de meus lábios enquanto via o Trauma recuar cada vez mais.


Dandara: eles me dão amor e carinho sem pedir nada em troca, e sei que isso nunca iria acontecer em nossa casa antiga. E graças a isso, eu consigo ficar sozinha e não ficar desesperada


Trauma: ma-ma-ma-mas o que uma coisa tem a ver com a outra?


Dandara: hahaha, acho que você não percebeu porque eu deixei de te alimentar muito, mas eu tenho ficado muito tempo sozinha, ironicamente muitos desses momentos tem muitos estranhos em volta de mim…mas eu me sinto sozinha, (por não no peito) sozinha de forma que eu consigo ouvir meus pensamentos, e agora eu não te escuto mais.


Achei que ele ficaria ofendido com isso, mas ele parecia até feliz com o que eu falei.


Dandara: eu tinha medo de ficar sozinha, porque eu conseguia apenas te ouvir, mas sei melhor do que ninguém que não posso te ignorar


Trauma: não, NÃO, SE AFASTA.


Ele jogou três bolas de fogo em mim, consegui desviar de duas, mas fui pega pela terceira, ele já estava quebrando a falta de emoções em nosso interior, e isso não podia me deixar mais feliz.


Dandara: aí, isso doeu


Trauma: é pra doer


Dandara: sei disso…você tem guardado muita coisa não é?


Trauma: você ainda duvida?


Dandara: em nenhum momento, na verdade, vou até deixar você ir, pra conseguir cultivar essa raiva um pouco mais


Trauma: hahaha, e como você sabe que eu não vou trazer ajuda?


Dandara: pode trazer, eu te criei, dei vida a você e ouvi suas vozes quando eu estava na pior, e como minha responsabilidade, sou literalmente obrigada a te escutar.


O Trauma não parecia esperar que eu falasse isso, tanto que ele ficou com tantas emoções diferentes que o rosto dele distorceu a ponto dele morfar de novo pra ficar com milhares de rostos diferentes, que tentavam o controlar e manter cada uma das emoções que ele tava sentindo na hora, e depois de morfar, modificar, e ficar com quase 20 pares de orelhas, olhos, bocas e narizes diferentes. 


E depois de morfar o rosto tantas vezes, ele voltou a ter só um rosto e ficou muito cansado por causa das suas próprias transformações e decidiu apenas ir embora, se espreitando no meio das florestas sóbrias, onde nenhuma civilização ou luz poderia ser vista, estava cansada, machucada e muito tonta, e quando cheguei no chão, já esperava encontrar a Monstrinha me esperando.


Quando pousei, deixei ela tratar meus ferimentos, e mesmo sendo um sonho, pisquei os olhos de cansaço os olhos algumas vezes, até que eu deixei eles fechados por tempo demais, e quando abri eles de novo, eu estava vendo tudo pelos olhos da Monstrinha de novo, e aos olhos dela, eu estava com muito mais sangue, ossos expostos e queimaduras do que tinha na realidade. Fechei os olhos de novo, e voltei pro meu próprio corpo, então olhei o castelo novamente, e falei mais pra mim mesma.


Dandara: então o trauma vive na floresta?


Monstrinha: eu também morava lá, até o castelo aparecer


Dandara: e quem fez esse castelo?


Monstrinha: foi você.


Hum, que estranho, não me lembrava de ter sonhado em construir um castelo.


Monstrinha: pedaço por pedaço, bloco por bloco, até que ele ficou grande o bastante para eu conseguir entrar


Dandara: eu nem tenho ideia como fiz isso


Monstrinha: isso não importa agora, você só precisa de uma ideia de como trazer os outros 


Dandara: além do Trauma, quem mais está na floresta?


Monstrinha: mamãe, papai, irmãos, irmãs, e as crianças crescidas…acha que vai dar pra levarmos todos pra dentro?


Dandara: provavelmente não, na verdade, acho que em minha ausência, eles que mantiveram o Trauma vivo.


Eu ironicamente estava aprendendo muitas coisas naquele sonho, ao mesmo tempo que eu ficava cada vez mais confusa sobre o que aquele sonho deveria significar. 


Toda, santa, vez, que eu pensava ter entendido o sonho, eu acabo sonhando com algo ainda mais doido logo depois, por que magia? Por que você faz isso comigo?


Depois de tudo, eu fechei os olhos e apenas respirei sentindo como eu tava começando a acordar, mas antes de eu abrir meus olhos no mundo acordado de novo, eu ouvi a Monstrinha falando comigo de novo.


Monstrinha: vou te apresentar aos outros quando você voltar.


Ainda na casa de Kali, eu acordei novamente chorando, chorando muito, santo deus, o que esses sonhos significam? 


Hum, e pelo jeito fui a primeira a acordar de novo, não querendo acordar ninguem, dormi de novo, e até ser acordada de novo, eu tive um sonho normal, algo que eu agradeci aos céus por acontecer, mas não podia dizer que não estava curiosa pra saber o que aqueles sonhos significavam, minha mente e minha magia estavam tentando me dizer algo, mas eu era burra demais pra entender.


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