E depois de uma refeição bem feita, agente acabou indo pro quarto de Kali, e lá dentro tinham várias plantinhas, junto de almofadas pra pessoas sentarem no chão e uma cama bem grande.
E como eu esperava, agente começou a pintar as unhas uma da outra, eu cuidava bem das minhas unhas, mas foi a primeira vez que coloquei unhas postiças, e apesar de serem bem bonitas me senti um pouco arrependida.
Dandara: mas como eu vou conseguir segurar minha varinha com isso?
Kali: eu te mostro como.
E depois agente se sentou no chão e viu um romance chamado “coração selado” era uma série bem bonitinha do romance de uma grande heroína que devolveu a um dragão seu coração roubado, uma série de desconfiados pra amigos e amigos para amantes, era lindo, e no meio de um episódio, a Val me chamou pra um cantinho e tentou conversar comigo.
Val: ai, desculpa por aquilo de antes, sei que pode ser meio do nada de novo, mas me fala, por que você quer tanto se formar nesta escola?
Dandara: é que eu quero ser uma carpinteira de vassouras, e voce?
Val: eu? eu quero ser uma carpinteira de navios, criar navios pro mar azul, o branco e o vermelho. Parece incrível demais pra mim, pensar que algo que veio das minhas mãos está carregando a vida de milhares de pessoas ao mesmo tempo é incrível demais pra mim
Dandara: hmhmhmhm, pra mim é bem parecido, eu desejo muito ver a satisfação das pessoas quando se apaixonarem pelo meu trabalho, sei que irá demorar, mas apenas pela satisfação de ver meu trabalho ser reconhecido dessa forma me deixa mais que motivada pra fazer de tudo e mais um pouco pra ficar naquela escola
Val: não tem medo de tudo isso de vassouras ser mais coisa de passatempo e não algo que você quer ganhar a vida fazendo
Dandara: (balança cabeça em negação) um hum, nem um pouco, eu nem tenho um hobbie
Val: não tem?
Dandara: não, nunca senti nada que me atraiu o bastante pra eu fazer no tempo livre, bom, tem a música e a dança, mas como é algo que eu não faço com muita frequência, acho que não conta como hobbie
Val: você faz alguma ideia do que “hobbie” significa?
Dandara: e algo que você faz por diversão e não por obrigação, sim, eu sei o que é um hobbie, por isso que eu digo que, apesar de amar música e danças, consigo ver que ela não tá nem perto de ser um hobbie, e no melhor dos casos um dos milhares de passatempos que eu tenho, um hobbie e algo um pouco mais intenso que um simples passatempo, voce não acha?
Val: pior que faz sentido…hmhm, você tem um dom com as palavras garota
Dandara: jura, louvado seja o criador, estou me recuperando
Val: recuperando?
Dandara: eu meio que tinha perdido minha habilidade de comunicação, mas se você está falando a verdade, eu to a recuperando bem rápido
Val: é, isso eu tenho certeza.
E com um sorriso bem maldoso no rosto, a Val vasculhou a mochila que ela trouxe e pegou dois pares de agulhas e dois rolos de tecido.
Val: você quer testar o tricor?
Dandara: você carrega isso por aí com você?
Vale: sim, eu sou uma viciada, quer virar uma viciada também?
Hmhmhm, ela nem precisava perguntar, eu peguei duas das agulhas e tentei fazer um simples tecido, pois segundo a Val, tinha que aprender a fazer um tecido antes de pensar em fazer algo com “camadas”. E como eu esperava, foi difícil, complicado e eu perfurei meus dedos várias vezes.
Dandara: ai!
A parte mais contraditória sobre minha nova mentalidade eram minhas “reações” de dor, porque a dor nunca ficou pior ou melhor, o que mudou foi como eu reagia a ela, ao invés de pensar “isso dói” eu pensava “que saco, tomara que isso acabe logo” e agora eu pensava apenas “ai”, nenhum raciocínio complexo, mas isso ironicamente me fazia sorrir, mesmo que a Val não entendesse por que eu tava sorrindo quando ela remendava meus dedos.
Val: você é masoquista?
Dandara: não, eu só to pensando que…é bom poder reagir de forma nor…saudável, reagir de forma saudável
Val: vida complicada em casa?
Dandara: antiga vida complicada, eu fui resgatada por um guardião das crianças e levada pra alguém que realmente me ama e consegue me ver como filha ao invés de um simples objeto
Val: uau, nem consigo imaginar, os meus pais são bem rígidos comigo, e ficam me criticando bastante, mas sei que no fundo se importam comigo, se não eu não estaria me preparando pra ser uma construtora de navios, os seus pais biológicos não se importavam de nenhuma forma com você?
Dandara: eles não se importavam nem com eles mesmos, acha que eles se importariam comigo? Até eu ter algum valor pra eles, eles sequer sabiam que eu existia
Val: nossa, deve ter sido difícil
Dandara: ainda tento entendê-los as vezes, mas sei que isso ficou no passado, agora só penso nisso quando preciso entender melhor algumas emoções
Val: tipo quais?
Dandara: tipo o lance que eu sinto quando falo algo íntimo pra alguém, quando falo algo que guardei por muito tempo, eu sinto algo que parece ser raiva, mas não é raiva
Val: como assim “parece raiva mas não é raiva?”
Dandara: eu me sinto alerta, e meu corpo se esquenta, se preparando pra uma explosão de adrenalina virada pra atacar ao invés de fugir. Isso que é a raiva pra mim, e o que eu sinto quando confesso algo íntimo, é quase a mesma coisa, o mesmo calor, a mesma preparação de adrenalina pra atacar, mas no fim, todo o ódio e raiva é usada em minha voz, e depois ela é aliviada…eeeeee acho que eu descobri o que significa
Val: nossa, você entende tão bem seus sentimentos, eu apenas deixo tudo que eu sinto sair em meus tricos.
E falando aquilo, a Val me mostrou um tricô super assustador de um olho sendo acertado por um punho imenso, era tão realista e bem detalhado que fiquei com um medo genuíno vendo aquilo.
Val: eu tava com muita raiva nesse dia
Dandara: uau, tenho pena do dono desse olho
Val: Edgar, um cara irritante da sala na frente da nossa, ele ama fazer pegadinhas comigo, e colocar chiclete no meu cabelo (amassa tricô) mas eu tô um dia ruim de arrancar alguns dentes dele
Dandara: por que não pede um duelo com ele?
Val: só se você for comigo
Dandara: por mim tudo bem
Val: de onde veio a ideia de duelo?
Dandara: eu fiz uma amiga na casa de reabilitação que dizia “na vida, não tem algo mais lindo e incrível que um duelo, tem algum conflito? Resolva ele no ringue”
Val: eu quero conhecer essa sua amiga um dia
Dandara: vai ser difícil, ela tá na casa de reabilitação
Val: com certeza ela deve sair logo, ninguém fica muito naquele lugar.
Eu, uma garota que ficou apenas um ano naquele lugar, concordava totalmente com ela.
Agente continuou conversando sobre bobagens e mais bobagens, chegando até num ponto onde nós chegamos a falar sobre os povos do mar branco e os povos do mar vermelho, e chegamos no papo de padrões de beleza pra cada povo, até chegarmos no ponto onde agente questionou a diferença entre ser inteligente e ser malandra, era a primeira vez que meu assunto de conversa mudava tanto de uma vez só, e eu amava cada segundo daquilo.
Dandara: hahaha, é divertido conversar com você
Val: você também Dan, você também
Jez: aí, alguém quer jogar uma partidinha?
Me virando para Jez, vi que ela tava com um tabuleirinho, e jogamos um pouco, e todas as vezes que alguém perdia, era bombardeada com muitos travesseiros na cara.
Hehe, e pra terminar a noite, agente pôs uma música bem alta, e dançamos até não poder mais, elas dançavam de forma bobinha e desengonçada enquanto a minha era mais polida.
E depois de me soltar um pouco mais, agente se deitou nos sacos de dormir e nos preparamos pra dormir, mas quando as luzes se apagaram, a Jez se aproximou de mim e me perguntou.
Jez: ai Dan, sei que é do nada mas, o que você faz no seu tempo livre?
Dandara: as vezes fico pensando sobre as coisas
Jez: por exemplo?
Dandara: sobre por exemplo, o que um espelho quebrado reflete
Jez: ta falando daquela metáfora de “preciso juntar os pedaços de mim pra eu me completar sozinha”
Dandara: sim e não, eu comecei a pensar de forma bem literal o que esse ditado poderia significar, de forma como “de onde o espelho inicial veio?” “quem o quebrou pra inicio de conversa?” “fomos nos?” “foram nossos parentes?”, esse tipo de coisa
Jez: e o que você descobriu?
Dandara: eu descobri que o espelho inicial, aquele que começamos quando somos crianças, ele nunca se quebra, ele apenas fica sujo demais, sujo de pedaços e cacos desnecessários, pois desde o momento que nós percebemos que estamos vivos, nós andamos em um grande labirinto de espelhos, com várias curvas, tropeços e lugares com cacos no chão. Isso porque nós temos que quebrar vários espelhos em nosso caminho e colocar os cacos que queremos no espelho. É por isso que quando viramos parte de uma nova comunidade agente adota um pedaço da personalidade daquela comunidade, mesmo que seja apenas um pouco
Jez: maneiro, e você sabe que pedaço ganhou de noz?
Dandara: alegria, comunicação e principalmente cacos sobre ser uma garota saudável, esses são fáceis de entender
Jez: e o que ser saudável significa pra você?
Dandara: agir como alguém normal, alguém normal de verdade, não o que as pessoas pensam que é normal, entender meus sentimentos e tratá-los com o respeito que merecem ao invés de ignorá-los ao extremo. Fazer amizade e laços com pessoas que realmente querem ser minhas amigas com pouquíssimas exceções e principalmente, ser normal pra mim é perceber que eu estou desconfortável ou com dor e tratar isso, isso é o que…um ser humano saudável faz, hehe, eu falei errado, não quero ser normal, eu quero ser saudável.
A Jez me olhou por alguns segundos, antes de falar.
Jez: pelo que eu to vendo, você já conseguiu bastante disso
Dandara: não o suficiente, só vou ficar boa mesmo quando eu parar de me sentir de guarda alta perto de vocês
Jez: agente mal se conhece direito, é normal você ter a guarda alta assim.
Sorrindo, gostei da resposta de Jez e decidi dormir, já imaginando quem estaria me esperando quando abrisse os olhos. Mas antes de apagar de vez, ouvi a Jez falando.
Jez: e o que as pessoas pensam que é normal mas não é?
Dandara: sorrir o tempo todo, nunca ficar triste, com medo e irritado, nunca dizer uma blasfêmia de “não tá tudo bem hoje?” Se você tiver um problema, você não pode falar pra ninguém, você tem que dar um jeito no problema sozinho. E nunca exponha seus sentimentos a alguém, se você tem um problema mental, um desconforto ou infelicidade, guarde pra você pra não ser motivo de chacota ou virar um alvo das outras pessoas “normais”.
Eu não abri os olhos de novo, mas eu podia sentir não apenas a Jez, mas todas com os olhos arregalados com o que eu disse, elas não falaram nada por alguns segundos, até que a Lu falou.
Lu: quem te ensinou isso?
Dandara: ninguem, tudo que eu falei são as regras que “gentilmente” estavam nas entrelinhas de todo meu ambiente, ninguém nunca disse nada disso pra mim, mas eu meio que descobri sozinha
Jez: você passou por poucas e boas ruiva
Dandara: eu escuto isso de forma mais recente do que você pensa, (boceja) meninas, eu to com sono, então eu vou dormir, boa noite.
Não queria parecer rude, mas eu estava realmente com sono, e tendo como nenhuma delas tentou puxar papo comigo, no fim, elas talvez também estivessem com sono.

