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Olhos de mel 🌻X
😨📖🪩Noite das garotas🪩📖😨
3658 palavras • 20435 caracteres • ⏱ 14 min 38 s

😨📖🪩Noite das garotas🪩📖😨

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Eu não fazia ideia se eu tava com as expectativas muito altas ou muito baixas, pois eu tava preparada pra ter uma "noite das garotas" completa, pintando unhas, dançando, cantando e falando sobre garotos. 


Ao mesmo tempo que eu estava preparada pra ser o alvo de pegadinhas delas e virar a chacota de toda a festa.


E eu até tava pronta mentalmente pra caso agente só estudasse e não tivesse nada estilo "filmes de adolescente" nesse encontro. Não importa o que acontecesse na casa da Kali hoje, eu não iria ser surpreendida.


Por sorte, a casa da Kali era beeeem longe de onde eu morava, então dava pra eu ter bastante coisa pra pensar, esfriar a cabeça, e me preparar pra seja lá o que fosse acontecer comigo na noite das garotas.


A casa da Kali era exatamente o que eu esperava, ao mesmo tempo que não era nada do que eu esperava, era um castelo grande, com uma estética bem militar e muralhas grandes de pedra. 


Fiquei com um pouco de medo de ter ido pro lugar errado, mas quando bati na porta, a própria Kali atendeu.


Kali: Ah, Dandara, você veio, entre, entre, as outras já estão te esperando.


Eu fui levada pra dentro da casa, vendo como tinha muitos animais empalhados ali. Ursos, cervos, gorilas, hipopótamos e até elefantes. 


Dandara: uau, pelo jeito o seu pai gosta mesmo de caçar


Kali: se você acha isso incrível espera pra ver o que ele e a mamãe conseguiram juntos.


E o que ela estava falando estava bem feito na sala de estar, que parecia o grande troféu de toda a casa, era tipo um museu verde, todos os móveis pareciam feitos de um osso entalhado que eu não conseguia entender o que era, mas ao redor do lugar estava uma grande variedade de cortinas, estofamentos de móveis, pinturas, tapetes, tudo daquela sala era decorado por uma pele verde super clara, iluminado por duas lâmpadas negras no céu que davam um tom de mistério supremo a aquele lugar, mas não havia mistério, pois eu sabia que bicho era aquele.


Dandara: e-e-e-eles mataram um kraken dos céus!?


Kali: pois é...você devia ter visto a confusão na nossa casa quando a brigada da proteção das bestas apareceu, o papai tava pronto pra brigar com todo mundo e eles queriam isso, mas a mamãe o impediu (risada alegre) haaaa, bons tempos.


Tentei não ficar muito chocada com isso e apenas me sentei em uma das cadeiras, esperando as outras chegarem, e em pouco tempo, elas chegaram.


Eu não sabia o que esperar daquela noite, eu tinha feito muitas pesquisas do que garotas na minha idade curtem, e pelo jeito nós gostamos de falar de garotos, de pintar as unhas e falar sobre filhotes fofos. 


Mas pelo jeito elas não estavam brincando sobre estudar, agente passou um bom tempo estudando e tudo mais, tinha muita coisa pela frente, então conseguimos fazer muita coisa, mas pra uma preparação rápida, tudo ficou tranquilo e mais calmo bem rápido, nós continuamos até termos certeza que não iríamos ser pegas de surpresa de alguma forma por alguma matéria daquele professor maluco.


E eu vou admitir, eu já tava com um pouquinho de medo daquele professor também.


E quando tivemos certeza que não iríamos ser surpreendidas, passamos o resto da tarde tentando ajudar uma a outra a entender as matérias que a outra tinha dificuldade, eu ajudei elas com algumas coisas e elas me ajudaram com outras. 


A Val estava tendo uma dificuldade bem particular em sentir a diferença entre as madeiras, e eu não sabia o por que, mas eu era muito boa nisso.


Dandara: você tá tentando demais, tenta só relaxar um pouco e deixa sua mão fazer o trabalho


Val: eu não entendo o que isso significa


Dandara: só, deixa fluir.


Foi bem complicado, mas consegui fazer ela entender, mesmo que um pouco o que eu já sentia naturalmente.


Val: como você faz isso?


Dandara: acho que é bastante prática. E o fato de que eu tô tentando entender todas as minhas sensações de novo ajuda também, quando eu to reaprendendo a sentir meu tato com detalhes, saber a diferença de madeiras diferentes se torna mais fácil


Val: bom, quando você fala desse jeito, até que faz quase sentido.


E quando falei aquilo, a Val começou a me olhar de forma estranha de novo, ah não, não, não. AQUELE OLHAR DE NOVO NÃO!


Dandara: por favor, não me olhem assim, eu não quero que você olhe pra mim e apenas veja...a minha maldição 


Val: mas eu não falei nada sobre sua Singularidade


Dandara: você não precisou falar (aponto para meus olhos) consigo ver nos seus olhos


Val: não fique chateada por eu querer entender mais o que você passou


Dandara: sei que pode ser idiotice, mas eu quero ter um grupo que simplesmente não fique falando apenas sobre a minha Singularidade a cada 5 segundo, eu já penso muito sobre isso sozinha, junto com minha família e a minha propria vida, nao preciso de mas um grupo de amigas que me lembra da minha Singularidade...


Eu falei aquilo, mas vendo os olhos da Valentina, ver como ela estava interessada, fez algo estranho ceder em mim, ela não falou quase nada e nem insistiu, mas acho que algo em mim queria realmente falar.


Dandara: (suspiro) tá bom, eu falo


Val: não precisa me falar se não quiser


Dandara: acho que eu quero falar, então não se preocupe.


Era estranho, aquele tipo de coisa eu não contei nem mesmo pro meu Psicomago, eu tava com um sentimento estranho no peito, parecia raiva, mas era fraco demais pra ser raiva.


Dandara: era chato


Val: como assim chato?


Dandara: tudo que eu via era cinza, mesmo que eu tivesse no lugar mais colorido do território, tudo que eu comia tinha o gosto de arroz sem sal, e nada que eu fazia sequer conseguia me fazer sentir alguma coisa, eu só conseguia sentir direito o tédio e o medo. 


Dandara: todo o dia eu acordava e só podia pensar que o dia de hoje seria o mesmo de ontem, e eu sempre estava certa, meus dias eram tão chatos e iguais, que eu perdi a noção de tempo por um bom tempo, durante muito tempo, todos os dias da minha vida foram exatamente iguais, uma vida de tédio sem fim.


E depois que falei aquilo, a raiva diminuiu um pouco, mas estava curiosa pra saber que sentimento era aquele, eu tinha certeza que não era raiva, mas também era bem parecido, hummmm.


Depois eu explicquei mais coisas da minha Singularidade pra ela, como o fato do Vazio no meu peito ter engolido quase todos os meus sentimentos, menos o medo, e assim que cheguei naquela parte, ela me cortou por uma duvida.


Val: e como você sabe que só o medo parecia estar funcionando na sua cabeça?


Dandara: por que eu nunca me cortei, eu sempre fui covarde demais pra acabar com o tédio, então só aguentei.


Não sei se foi a casualidade com quem falei aquilo, mas agora a Val estava com um olhar muito assustado pra mim, e começou, ela tava me olhando como se eu fosse algo frágil, de vidro.


Dandara: não me olha assim, eu já melhorei muito desde aquilo


Val: bom, você deve ter melhorado mais do que eu, olha isso.


E depois de falar aquilo, ela desconectou o braço do ombro, não tinha dor ou sangue em volta, então pensei que era apenas a Singularidade dela.


Val: desculpa falar desse jeito, é que a minha Singularidade é muito mais física quer mental então os efeitos são diferentes em mim, e eu fiquei curiosa pra saber como é ter uma Singularidade mais mental, sabe


Dandara: não tô ofendida de você me perguntar, tô ofendida de você olhar pra Singularidade primeiro e depois pra mim...não quero que as pessoas apenas me vejam como "a garota da Singularidade do Vazio"


Dandara: ok e uma parte de mim, e uma bem importante, mas eu sou mais que uma Singularidade, e eu trabalhei muito pra fazer isso ser verdade


Val: bom, vendo como você é boa nesses testes, você não tá mentindo.


Eu e a Val trocamos sorrisos quando ela falou aquilo e voltamos a estudar, agente estudou muito até começar a escurecer lá fora.


Kali: aí, alguma de vocês tem problema em passar a noite aqui?


Todas: não.


Hehe, acho que era agora que a noite das garotas ia começar, era fim de semana, todo mundo tinha levado uma mochila, apesar de nunca termos combinado de antemão, acho que todas nós esperávamos isso acontecer.


Kali: venham comigo, vocês já devem saber o que eu estou falando, mas quero apresentar a Dandara a uma das maiores cozinheiras de Uiruuetê: minha mãe.


E com curiosidade, segui elas para a cozinha da casa, e como se esperasse por nós, a mãe de Kali preparava um prato cheio de vegetais quase como uma imensa salada.


Mãe: olá queridas, venham, tentem esse prato aqui, uma iguaria do reino dos vampiros que eu estava ansiosa pra experimentar.


Ela tinha uma energia contagiante e tranquila de um sol, idêntica a de sua filha. E apesar do prato vegetariano, me impressiona com o sabor, era totalmente diferente das costelas que comi la em casa, mas ainda era uma delícia.


Dandara: uau, eu nunca achei que um prato sem carne podia ser tão saboroso assim


Mãe: claro que pode, você só precisa saber misturar tudo certinho querida.


E depois de uma refeição muito bem feita, agente acabou indo pro quarto de Kali de novo pra passarmos a noite, e lá dentro tinham várias plantinhas, junto de almofadas pra pessoas sentarem no chão e uma cama bem grande. 


E como eu esperava, agente começou a pintar as unhas uma da outra, eu cuidava bem das minhas unhas, mas foi a primeira vez que coloquei unhas postiças, e apesar de serem bem bonitas me senti um pouco arrependida.


Dandara: mas como eu vou conseguir segurar minha varinha com isso?


Kali: na escola eu te mostro como.


E depois agente se juntou nas nossas camas e vimos um romance chamado "coração selado" era uma série bem bonitinha do romance de uma grande heroína que devolveu a um dragão seu coração roubado, uma série de desconfiados pra amigos e amigos para amantes, era lindo, e no meio de um episódio, a Val me chamou pra um cantinho e tentou conversar comigo.


Val: ai, desculpa por aquilo de antes, sei que pode ser meio do nada de novo, mas me fala, por que você quer tanto se formar nesta escola?


Dandara: é que eu quero ser uma carpinteira de vassouras, e voce?


Val: eu? eu quero ser uma carpinteira de navios, criar navios pro mar azul, o branco e o vermelho. Parece incrível demais pra mim, pensar que algo que veio das minhas mãos está carregando a vida de milhares de pessoas ao mesmo tempo é incrível demais pra mim


Dandara: hmhmhmhm, pra mim é bem parecido, eu desejo muito ver a satisfação das pessoas quando se apaixonarem pelo meu trabalho, sei que irá demorar, mas apenas pela satisfação de ver meu trabalho ser reconhecido dessa forma me deixa mais que motivada pra fazer de tudo e mais um pouco pra ficar naquela escola


Val: não tem medo de tudo isso de vassouras ser mais coisa de passatempo e não algo que você quer ganhar a vida fazendo?


Dandara: (balança cabeça em negação) um hum, nem um pouco, eu nem tenho um hobbie


Val: não tem?


Dandara: não, nunca senti nada que me atraiu o bastante pra eu fazer no tempo livre, bom, tem a música e a dança, mas como é algo que eu não faço com muita frequência, acho que não conta como hobbie


Val: você faz alguma ideia do que "hobbie" significa?


Dandara: e algo que você faz por diversão e não por obrigação, sim, eu sei o que é um hobbie, por isso que eu digo que, apesar de amar música e danças, consigo ver que ela não tá nem perto de ser um hobbie, e no melhor dos casos um dos milhares de passatempos que eu tenho, um hobbie e algo um pouco mais intenso que um simples passatempo, voce não acha?


Val: pior que faz sentido...hmhm, você tem um dom com as palavras garota


Dandara: jura, louvado seja a Criadora, estou me recuperando


Val: recuperando?


Dandara: eu meio que tinha perdido minha habilidade de comunicação quando...eu passei por umas coisas difíceis de explicar em poucas palavras, mas se você está falando a verdade, eu to a recuperando bem rápido


Val: é, isso eu tenho certeza.


E com um sorriso bem maldoso no rosto, a Val vasculhou a mochila que ela trouxe e pegou dois pares de agulhas e dois rolos de tecido.


Val: você quer testar o tricor?


Dandara: você carrega isso por todo o lado com você?


Vale: sim, eu sou uma viciada, quer virar uma viciada também?


Hmhmhm, ela nem precisava perguntar, eu peguei duas das agulhas e tentei fazer um simples tecido, pois segundo a Val, tinha que aprender a fazer um tecido antes de pensar em fazer algo com "camadas". E como eu esperava, foi difícil, complicado e eu perfurei meus dedos várias vezes.


Dandara: ai!


A parte mais contraditória sobre minha nova mentalidade eram minhas "reações" de dor, porque a dor nunca ficou pior ou melhor, o que mudou foi como eu reagia a ela, ao invés de pensar "isso dói" eu pensava "que saco, tomara que isso acabe logo" e agora eu pensava apenas "ai", nenhum raciocínio complexo, mas isso ironicamente me fazia sorrir, mesmo que a Val não entendesse porque eu tava sorrindo quando ela remendava meus dedos.


Val: você é masoquista?


Dandara: não, eu só to pensando que...é bom poder reagir de forma nor...saudável, reagir de forma saudável de novo


Val: vida complicada em casa?


Dandara: antiga vida complicada, eu fui resgatada por um guardião das crianças e levada pra alguém que realmente me ama e consegue me ver como filha ao invés de um simples objeto


Val: uau, nem consigo imaginar, os meus pais são bem rígidos comigo, e ficam me criticando bastante, mas sei que no fundo se importam comigo, se não eu não estaria me preparando pra ser uma construtora de navios, os seus pais biológicos não se importavam de nenhuma forma com você?


Dandara: eles não se importavam nem com eles mesmos, acha que eles se importariam comigo? Até eu ter algum valor pra eles, eles sequer sabiam que eu existia


Val: nossa, deve ter sido difícil


Dandara: ainda tento entendê-los as vezes, tentar entender porque eles ficaram assim, e porque eles eram tão maus comigo, mas sei que isso ficou no passado, agora só penso nisso quando preciso entender melhor algumas emoções mais complexas e antigas minhas, entende?


Val: ais ou menos, mas, emoções diferentes? Tipo quais?


Dandara: tipo o lance que eu sinto quando falo algo íntimo pra alguém, quando falo algo que guardei por muito tempo, eu sinto algo que parece ser raiva, mas não é raiva


Val: como assim "parece raiva mas não é raiva?"


Dandara: eu me sinto alerta, e meu corpo se esquenta, se preparando pra uma explosão de adrenalina virada pra atacar ao invés de fugir. Isso que é a raiva pra mim, e o que eu sinto quando confesso algo íntimo, é quase a mesma coisa, o mesmo calor, a mesma preparação de adrenalina pra atacar, mas no fim, todo o ódio e raiva é usada em minha voz, e depois ela é aliviada...eeeeee acho que eu descobri o que significa


Val: nossa, você entende tão bem seus sentimentos, eu apenas deixo tudo que eu sinto sair em meus tricos.


E falando aquilo, a Val me mostrou um tricô super assustador de um olho sendo acertado por um punho imenso, era tão realista e bem detalhado que fiquei com um medo genuíno vendo aquilo.


Val: eu tava com muita raiva nesse dia


Dandara: uau, tenho pena do dono desse olho


Val: Edgar, um cara irritante da sala na frente da nossa, ele ama fazer pegadinhas comigo, e colocar chiclete no meu cabelo (amassa tricô) mas eu tô so um dia ruim de arrancar alguns dentes dele


Dandara: por que não pede um duelo com ele?


Val: só se você for comigo


Dandara: por mim tudo bem


Val: de onde veio a ideia de duelo?


Dandara: eu fiz uma amiga na casa de reabilitação que dizia "na vida, não tem algo mais lindo e incrível que um duelo, tem algum conflito? Resolva ele no ringue"


Val: eu quero conhecer essa sua amiga um dia


Dandara: vai ser difícil, ela tá na casa de reabilitação ainda


Val: com certeza ela deve sair logo, ninguém fica muito tempo naquele lugar.


Eu, uma garota que ficou apenas um ano naquele lugar, concordava totalmente com ela. 


Dandara: e, concordo.


Agente continuou conversando sobre bobagens e mais bobagens, chegando até num ponto onde nós chegamos a falar sobre os povos do mar branco e os povos do mar vermelho, e chegamos no papo de padrões de beleza pra cada povo, até chegarmos no ponto onde agente questionou a diferença entre ser inteligente e ser malandra. 


Era a primeira vez que meu assunto de conversa mudava tanto de uma vez só, e eu amava cada segundo daquilo.


Dandara: hahaha, é divertido conversar com você


Val: você também Dan, você também


Jez: aí, alguém quer jogar uma partidinha?


Me virando para Jez, vi que ela tava com um tabuleirinho, e jogamos um pouco, e todas as vezes que alguém perdia, era bombardeada com muitos travesseiros na cara. 


Hehe, e pra terminar a noite, agente pôs uma música bem alta, e dançamos até não poder mais, elas dançavam de forma bobinha e desengonçada enquanto a minha era mais polida. 


E depois de me soltar um pouco mais, agente se deitou nos sacos de dormir e nos preparamos pra dormir, mas quando as luzes se apagaram, a Jez se aproximou de mim e me perguntou.


Jez: ai Dan, sei que é do nada mas, o que você faz no seu tempo livre?


Dandara: as vezes fico pensando sobre as coisas


Jez: por exemplo?


Dandara: sobre por exemplo: o que um espelho quebrado reflete?


Jez: ta falando daquela metáfora de "preciso juntar os pedaços de mim pra eu me completar sozinha"


Dandara: sim e não, eu comecei a pensar de forma bem literal o que esse ditado poderia significar, de forma como "de onde o espelho inicial veio?" "quem o quebrou pra inicio de conversa?" "fomos nos?" "foram nossos parentes?", esse tipo de coisa


Jez: e o que você descobriu?


Dandara: eu descobri que o espelho inicial, aquele que começamos quando somos crianças, ele nunca se quebra, ele apenas fica sujo demais, sujo de pedaços e cacos desnecessários, pois desde o momento que nós percebemos que estamos vivos, nós andamos em um grande labirinto de espelhos, com várias curvas, tropeços e lugares com cacos no chão. Isso porque nós temos que quebrar vários espelhos em nosso caminho e colocar os cacos que queremos no espelho. É por isso que quando viramos parte de uma nova comunidade agente adota um pedaço da personalidade daquela comunidade, mesmo que seja apenas um pouco


Jez: maneiro, e você sabe que pedaço ganhou de nos?


Dandara: alegria, comunicação e principalmente cacos sobre ser uma garota saudável, esses são fáceis de entender


Jez: e o que ser saudável significa pra você?


Dandara: agir como alguém normal, alguém normal de verdade, não o que as pessoas pensam que é "normal", entender meus sentimentos e tratá-los com o respeito que merecem ao invés de ignorá-los ao extremo. Fazer amizade e laços com pessoas que realmente querem ser minhas amigas com pouquíssimas exceções 


Dandara: e principalmente, ser normal pra mim é perceber que eu estou desconfortável ou com dor e tratar isso, isso é o que...um ser humano saudável faz, hehe, eu falei errado, não quero ser normal, eu quero ser saudável.


A Jez me encarou no meio da escuridão por alguns segundos, impressionada com o que eu disse, até falar.


Jez: pelo que eu to vendo, você já conseguiu bastante disso


Dandara: é, mas ainda não o suficiente, só vou ficar boa mesmo quando eu parar de me sentir de guarda alta perto de vocês


Jez: agente mal se conhece direito, é normal você ter a guarda alta assim.


Sorrindo, gostei da resposta de Jez e decidi dormir, já imaginando quem estaria me esperando quando abrisse os olhos. Mas antes de apagar de vez, ouvi a Jez falando.


Jez: e o que as pessoas pensam que é normal mas não é?


Dandara: sorrir o tempo todo, nunca ficar triste, com medo e irritado, nunca dizer uma blasfêmia de "não tá tudo bem hoje?" Se você tiver um problema, você não pode falar pra ninguém, você tem que dar um jeito no problema sozinho. 


Dandara: e nunca exponha seus sentimentos a alguém, se você tem um problema mental, um desconforto ou infelicidade, guarde pra você pra não ser motivo de chacota ou virar um alvo das outras pessoas "normais".


Eu não abri os olhos de novo, mas eu podia sentir não apenas a Jez, mas todas com os olhos arregalados com o que eu disse, elas não falaram nada por alguns segundos, até que a Lu falou.


Lu: quem te ensinou isso?


Dandara: ninguem, tudo que eu falei são as regras que "gentilmente" estavam nas entrelinhas de todo meu antigo ambiente familiar, ninguém nunca disse nada disso diretamente pra mim, mas eu meio que descobri sozinha


Jez: você passou por poucas e boas ruiva


Dandara: eu escuto isso de forma mais recente do que você pensa, (boceja) meninas, eu to com sono, então eu vou dormir, boa noite.


Não queria parecer rude, mas eu estava realmente com sono, e vendo como nenhuma delas tentou puxar papo comigo, no fim, elas talvez também estivessem com sono.


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