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Olhos de mel 🌻X
🤔qual o meu centro?🤔
1620 palavras • 9008 caracteres • ⏱ 6 min 29 s

🤔qual o meu centro?🤔

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O jantar estava incrível, era a primeira vez que eu comia costelas de porco, e eu sentia que estava me apaixonando perdidamente por aquilo, ao mesmo tempo que eu tentava pensar a forma certa de falar aquilo, eu não tinha medo de perguntar isso pra eles, mas eu queria perguntar isso de uma forma que minha família entendesse, por que acho que nem eu entendia direito o que eu iria falar.


Dandara: mãe


Mãe: sim querida


Dandara: se você tivesse que dizer o meu traço mais forte o que você falaria?


Mãe: que você é calma


Dandara: não, não é isso


Mãe: mas é isso que eu percebi em você


Dandara: acho que falei errado então, (tosse) mãe, você sabe que além de calma, eu sou criativa, estável, amante de animais, amante de vassouras, amante de coisas picantes, amante de doces simples, mas principalmente uma grande questionadora, não é?


Mãe: sim


Dandara: bom, eu estou tentando encontrar o que conecta tudo isso, todas essas versões de mim que ficam trocando o tempo todo, todas essas facetas de mim, tipo eu ser calma, ou eu ser criativa, ou eu ser paciente, tudo isso são partes de quem eu sou, mas eu acredito que existe algo dentro de mim que liga tudo isso, ou que dê origem a cada parte de mim, algo dentro de mim que pega cada parte de mim e pense “isso fica e isso vai embora” algo que me permitiu manter a parte calma e permitiu que eu substituísse as minhas partes monótonas e descartar quase totalmente as partes irritadas. Meu centro, o meu interior mais profundo


Mãe: aaah, acho que não posso te ajudar nisso querida


Dandara: é claro que pode, você é uma das pessoas com o centro mais fácil de entender de todos


Mãe: jura?


Dandara: juro, você tem o centro da conexão, você é a pessoa que é chamada pra fazer a conexão com alguém, seja namorado, amigos, ou irmãos que se desentenderam, esse é o seu interior, a sua essência mais pura…a bússola que guia toda a sua vida, aquilo que sobra quando todos os detalhes da sua personalidade são jogados pra fora.


Falando tudo alto daquele jeito me fez pensar bastante, sobre a minha “bússola” aquilo que sempre me guiou, aquilo que me guiou desde que subi na vassoura pela primeira vez, aquilo que me fez amar o Antônio antes de sequer conhecê-lo, aquilo que me fez ser calma, aquilo que me fez nunca puxar briga ou entrar em discussão com qualquer um desde que voltei ao “normal”, parecia tudo tão simples e tão complexo ao mesmo tempo, era os dois e ao mesmo tempo nenhum dos dois, interessante.


Dandara: hahaha, acho que você quase acertou mãe, por que, acho que o meu centro, é a calmaria


Mãe: então acabamos?


Dandara: não, por que eu posso estar errada, mas isso é outra história, mas eu acho que meu centro é a calmaria por que agora eu percebi que…desde que eu me entendo por gente…desde que eu entrei naquele estado quase zumbificado, desde que eu entrei e saí da casa de reabilitação, e até agora quando estou no meio de garotas maravilhosas que sempre tentam se ajudar, apoiar e tranquilizar. A falta de conflito, eu fui a garota perfeita para meus pais não brigarem comigo, eu me aproximei do Antônio, da Saytus, do Brutus e do Davi por que apesar deles serem meio malucos, eles são mais tranquilos que muitas pessoas normais, não sei se isso faz sentido pra você


Mãe: não ironicamente, faz sim


Dandara: acho que no fim, eu sempre tento me guiar pro lugar mais calmo, passifico, tranquilo e sem brigas desnecessárias de uma sala, e esse é o meu centro


Mãe: nossa, que legal querida


Dandara: é, hehe, legal.


Aquilo devia ter me deixado feliz, e realmente deixou, eu já sabia quem eu era, mas mesmo assim, sentia que tava faltando alguma coisa, algo pra me deixar inteira que nem eles, mas então, a pergunta e a resposta vieram ao mesmo tempo na minha língua.


Dandara: uau, o que eu faço agora? Acho que vou me guiar pela minha bússola.


Eu sussurrei aquilo tão baixinho que eu tenho certeza que ninguém me ouviu, e eu fiz isso mesmo, mas com o passar dos dias, meus padrões de “calmaria” foram bem atualizados. 


Eu não ligava de ficar num lugar barulhento, super festivo e cheio de coisas que muitas pessoas iriam considerar “barulhentas”. 


O meu problema de verdade era quando eu estava num lugar totalmente tranquilo, mas com uma ou duas pessoas brigando no fundo, ou pessoas brigadas, ou pessoas que estão deixando o clima desconfortável. 


O lugar pode ser o lugar mais barulhento do mundo, mas se todos estiverem felizes, calmos e ninguém tentando esfaquear o outro pelas costas, eu iria me divertir a rodo.


Essa bússola nova me ajudou a também ser mais aberta com os Bardos Bárbaros, também me ajudou a dançar igual uma lunática com minhas amigas, e até a mostrar a vários colegas de classe como chegar ao ponto mais alto do limite das vassouras, foi engraçado ver como todo mundo caia no chão quando subiam demais.


Mas apesar de tudo, o que eu mais gostava era que eu nunca mais estava entediada, claro, tinha dias em que eu ia contra minha bússola, por teimosia do meu cérebro, ou porque era proibido eu fazer o que minha bússola queria.


E no meio de tudo isso, comecei a pensar no quanto essa trindade dentro de mim era interessante, em minhas entranhas tinha uma grande bússola, que era a combinação de todos os meus sentimentos, me guiando pra vida que eu queria, na minha cabeça existia uma voz super restritiva, que me impedia de fazer as coisas mais absurdas que minha bússola mandava fazer (não importa o quanto eu quisesse matar alguém, eu não podia fazer isso, não importa o quão irritado ele me deixasse). 


E também tinha algo que era tecnicamente controlado o por mim, não era a bússola nas entranhas, nem as paredes da mente, era algo que eu decidia as coisas do dia a dia, as escolhas básicas, como se eu devesse estudar ou se eu devia dormir, e depois que eu percebi isso que agora que eu conheço a bússola e as minhas vozes na cabeça, eu tinha que aprender a controlar, ouvir e até modificar certas vezes essa terceira coisa que parecia estar em meu peito, não achei um nome pra isso ainda, mas mesmo sem sequer saber o nome, eu sabia que teria que aquela ali iria demorar muito mais pra ser bem feita, mas antes de eu chegar muito longe no meu pensamento, o meu irmão foi falar comigo.


João: oi maninha


Dandara: oi maninho


João: me fala, qual é meu centro?


Dandara: isso é muito fácil, você é lutador


Aquilo veio imediatamente, pois se tem uma coisa que eu entendia desde que eu vi o meu irmão quando ainda estava naquele estágio da maldição do vazio de “eu não tô morta, mas também não tô viva” eu já conseguia pensar, “esse garoto gosta de brigar”...era interessante pensar que muita gente só nasceu com sorte de gostar de coisas que é normal pra sociedade ela gostar. 


O meu irmãozinho gosta de lutar, a Val gosta de ursinhos fofos e o Davi desde que se conhecia por gente queria ser um cavaleiro, e ninguém achou nada demais eles quererem isso, era apenas, normal.


Dandara: maninho, você já pensou alguma vez que seu centro era outra coisa tipo, algo além de ser o brigão?


João: bom, não conta pra ninguém, mas quando eu tô sozinho em algum lugar…eu gosto de praticar trompete 


Dandara: jura? Que legal maninho, você deveria mostrar isso pra alguém


João: ah naaaaao, isso seria muito vergonhoso


Dandara: mas você não precisa mostrar seu rosto, você pode usar uma máscara pra tocar, ninguém nunca vai saber que é você.


E como se algo tivesse se ligado no meu irmãozinho, ele me olhou com um olhar brilhante, um tipo de olhar que apenas a mais pura esperança pode criar e falou da forma mais inocente que eu já ouvi


João: promete?


Dandara: eu prometo, mas não podemos fazer isso hoje, eu tenho muito o que fazer


João: ocupada de novo? Normal, só não esquece do irmãozinho tá bom?


Dandara: nunca.


Dando um abraço no meu irmãozinho, acabei beijando a bochecha dele, ele beijou a minha e nós dois fomos até os nossos caminhos…até que eu notei que seria a primeira vez que iria visitar a casa de uma amiga desde o meu “retorno” 


Não sei por que, mas quando pensava na casa das minhas antigas amigas, nada parecia tão íntimo quanto aquilo parecia. Nossas “festas de chá” agora só pareciam mais uma reunião de nossos país que um encontro nosso, já quando eu visitava o Antônio era o contrário, era íntimo até demais, mesmo agente nunca tendo passado da segunda base. Isso seria íntimo, mas não íntimo demais ao mesmo tempo, isso seria muito legal.


E enquanto caminhava pra fora, me lembrei da vez em que visitei a casa da Saytus, mas visitar a casa de uma fada urbana era tão surreal, mas tão surreal, que eu sequer sabia se aquilo contava também, tentando não pensar mais e embolar ainda mais minha própria cabeça, eu só pensei que hoje seria legal, e que eu não precisava pensar muito nisso, e quando saí pela porta e montei na vassoura, pude ouvir meu pai falando.


Pai: divirta-se querida, e volte antes do anoitecer


Dandara: tá bom.


E sorrindo pelo amor que recebia dos meus pais, voei céu adentro, pensando se agente iria estudar, ou as garotas planejavam alguma coisa pra passarmos o tempo.


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