Em num dia como outro qualquer, eu estava na escola, eu pensei que eu teria muitos gatilhos quando voltasse a estudar, mas foi muito pelo contrário, quando li os livros, quando eu anotei cada coisa que o professor falou, quando eu discuti com meu novo grupo de amigas sobre as aulas, tudo isso me deu a maior alegria do mundo, estudar agora era legal, ao invés de uma posição ou tortura.
Era como eu tinha falado com o Diego, eu arranquei o pedaço com defeito e substitui ele por um novo, mas às vezes era surreal pra mim pensar o quão fácil aquele pedaço saiu, às vezes parecia fácil demais, quando tudo dizia que não era fácil, ainda me dava essa impressão às vezes.
E enquanto eu tava andando pela escola em um dos intervalos, senti algo peculiar, apesar de ter tanta gente em volta de mim, eu me sentia completamente sozinha, no bom sentido claro, sozinha no sentido em que, apesar de todo o barulho, eu conseguia ouvir meus próprios pensamentos, pensamentos que agora, em sua maioria, eu conseguia ouvir os bons e ruins, conseguindo muitos debates bons comigo mesma, ajudando e curando a mim mesma, pensando que talvez nunca me curasse totalmente, mas aquarela altura, aquilo não era mais importante, pelo menos não tanto quanto eu pensava.
Até que eu cheguei em um corredor bem limpo, bem cuidado e iluminado em branco e em uma madeira simples.
Lá existiam muitos quadros de antigos alunos, pensar que todos aqueles alunos passaram por tanto antes, depois e durante esse tempo até conseguirem ser esses adultos incríveis frente a uma grande turma e uma professora orgulhosa que mais uma vez, fez uma grande legião de novos adultos prontos pra enfrentar tudo pela frente, e algum dia, eu estaria em uma dessas fotos.
Eu olhei as fotos por um bom tempo, como se aquelas fotos conseguissem contar algo pra mim, me dizer algo que tenho problemas pra ver sozinha, mas não consegui, as fotos apesar de tudo eram apenas inspiração, e pro que eu precisava agora, eu tinha que encontrar minhas amigas de novo.
Na próxima aula, nos 5 nos aconchegados nas mesmas carteiras, até agora, eu não tinha entendido o que as fez ficarem atraídas por mim, meu modo sobrevivência me falava várias vezes que não era bom pensar naquilo agora enquanto eu tava feliz demais para me importar, se eu quebrar a cara e me decepcionar depois, eu iria me desculpar bastante com minha voz pessimista, mas por enquanto, eu a ignorava, “nem tudo precisa ter lógica” eu repeti várias vezes pra mim mesma enquanto ficava tranquila perto de todas elas e felizmente, o professor chegou e todos ficaram mais calminhos.
Na aula de hoje, iria aprender a entalhar coisas. E mais precisamente, nós estávamos cada um com um pequeno pedaço de madeira em nossas mãos, era nosso primeiro ano então não estávamos no nível de fazer algo muito complexo. Afinal, não era fácil ser uma carpinteira.
A professora estava bem empolgada, não sei por que, mas algo nela me fazia entender que ela era bem doidinha, mas eu não falei isso alto.
Professora: escutem crianças, hoje iremos começar tudo do zero, um pedaço de madeira, totalmente carregado com magia, usado pra varinhas, vassouras, navios de madeira e prédios especiais, muitos daqui querem virar construtores de navios, outros querem criar vassouras, e outros só querem começar sua própria fazenda de árvores, mas todos vocês vão seguir o mesmo caminhos antes de se separarem. Nós já passamos o estudo básico de “o que é a madeira de mana” e agora, vamos pra algo mais prático, todos olhem seu pedaço de madeira.
Todos obedeceram, e apesar de tudo, eu conseguia ver algo, beleza, uma forma, desengonçada e mal feita, mas ainda uma forma.
Professora: seja em pedras, em madeira, ou em qualquer outro lugar, uma boa escultura sempre está ali, um grande artista apenas consegue enxergá-la e levá-la pra fora, mas para vocês alunos, será muito difícil fazer algo assim na primeira aula, então vamos começar por algo beeeeeem fácil.
A professora falou aquilo enquanto raspou o pedaço de madeira dela com a facilidade de alguém descascando uma tangerina, até ele ter a simples forma do rosto de um ursinho de pelúcia.
Professora: broches como esse são de uso único, para coisas como cura instantânea, escudos fracos ou uma imobilização de um osso quebrado, as possibilidades são infinitas, mas pra essa aula, iremos fazer o modelo de escudo simples e uso único, agora, entalhem.
Agora que eu tinha um “caminho” pra entalhar aquilo, eu tive o caminho pra começar a fazer o broche, mas quando comecei, eu notei que aquilo era bem mais difícil do que parecia, tinha lascas demais, então eu tinha que ter cuidado pra aquilo não cair no meu olho, além de que precisava ter cuidado com as farpas, além de tudo levar uma eternidade pra ficar pronto.
Mas a pior parte era que minhas mãos não conseguiam acompanhar minha cabeça, não era o caminho perfeito e estava cheio de falhas, mas as minhas mãos estavam tão trêmulas que a linha reta que eu queria entalhar virava uma linha desengonçada e totalmente torta.
Eu fiquei super focada naquilo, mesmo com minhas amigas do meu lado me dando dicas e outras coisas, e quando terminei meu trabalho, havia sim um ursinho ali, mas ele tava tão mal feito que eu pensei em queimá-lo e começar de novo, mas a Kali me impediu.
Kali: não faz isso sua maluca
Dandara: não fazer? Olha isso, tá horrível
Kali: você acha isso horrível? Olha o meu.
A raiva e decepção que eu tava sentindo por mim mesma começou a diminuir, pois o meu broche pelo menos parecia um urso, mas o broche da Kali tava com tintas falhas que nem dava pra saber direito o que era. E logo a Val apareceu um pouco depois mostrou o broche dela que era só um círculo, um bem mais bonito que o de nós duas, mas ainda um círculo. E a Jez tinha apenas quebrado a madeira dela, não tendo sequer chão pra ter algum broche. Quando pensei que eu era a melhor delas e ficando meio feliz, a Lu apareceu atrás de mim, e colocou um broche bem na minha cara, era um broche idêntico ao da professora.
Lu: acho que vamos ver colegas de livro, Dan
Dandara: acho que sim
Kali: como você faz isso?
Dandara: se você tivesse um pedaço de madeira eu posso te mostrar
Kali: ei professora, pode nos dar mais um pedaço de madeira?
Professora: ah, eu adoraria meninas mas a aula já acabou, podem me entregar seus broches?
Eita, a aula já acabou? mas agente só fez um entalhe, mas quando olhei atrás de mim, vi que muitos alunos sequer tinham terminado de fazer até o broche da madeira inicial
Dandara: entalhar sempre demora assim?
Kali: no começo sim, mas relaxa, agente vai ficar melhor com o tempo
Dandara: eu espero.
E bem devagar, os broches foram coletados um a um, a Jez e a Val estavam bem tristes, mas a Lu dava uma de mãe e tentava acalmar elas. Então a professora falou.
Professora: muito bom, existem modelos muito bons aqui, alguns simplificaram e muitos tentaram ir além, mas só quero que saibam que estou bem feliz com os resultados que ganhamos, e espero poder guiar bem os alunos esse ano.
Eu fiquei bem orgulhosa de mim mesma, mesmo que não fosse a minha primeira vez, e que não tivesse sido meu melhor trabalho, ainda sentia que todo o meu cuidado acabou servindo pra alguma coisa, ou pelo menos queria acreditar nisso.
A próxima aula foi sobre como diferenciar pedaços de madeira, nós não apenas tateamos e olhamos a madeira, mas também catalogamos qual tipo de madeira era boa pra tal coisa e qual madeira era ruim pra outra coisa.
E pra variar, eu acabei tendo problema nos primeiros testes, mas depois peguei o jeito bem rápido, a Jez e a Kali pegaram rápido o jeito também, enquanto a Lu e a Val ficaram com tanta raiva que quebraram a madeira ao mesmo tempo. Eu nunca vi alguém quebrar uma madeira com uma cabeçada antes, mas quando a Lu fez isso, eu falei em voz alta.
Dandara: isso foi muito maneiro
Val: acha isso maneiro? Espera até ver o que ela faz com o bastão.
Pensei que teria muitos problemas tendo uma varinha nova, mas foi muito pelo contrário, assim como meu Psicomago falou, mesmo tendo bem menos poder, e comigo estando pouco acostumada com ela, a varinha ainda era bem mais forte agora que todo o meu poder com minha varinha antiga.
E depois de catalogamos todas as madeiras, fomos chamados pelo professor de novo. Com ele criando um grande filme bem acima de nós usando um grande espelho de imagens.
Professor: sei que esse catálogo todo pode ser muito chato, mas eu quero que saibam que, em momentos de crise e emergências, onde você precisa pegar uma madeira substituta, se você não tomar cuidado você pode, sei lá, transformar um navio em um canhão.
E com uma imagem sendo feita, um navio montado as pressas, que estava prestes a partir, ao invés de ir pra frente, ele deu um disparo pra trás que jogou uma cidade inteira nas chamas, muitos alunos gritaram e outros fecharam os olhos.
Professor: ou você pode transformar um broche de defesa em um broche de super velocidade.
Agora a imagem mudou, de um curandeiro fugindo de um mercenário, e tentando ativar o broche de defesa pra defender um golpe, mas o broche o acelerou e jogou ele bem na cara do mercenário.
Já tava esperando o terceiro exemplo, por que não ironicamente, ver aqueles desastres horríveis não me fizeram ficar tão abalada como os outros, eu estava triste sim, mas não a ponto de ficar em pânico ou chorando como os outros.
Professor: ou voce pode criar um efeito totalmente oposto do que ele deveria ser.
E a imagem então mostrou um cavaleiro que estava claramente envenenado, e um broche que na hora dava pra saber que é mal feito foi posto nele, e ao invés de parar o veneno, o broche o aumentou, o fazendo espumar pela boca e morrer em segundos, ok, aquela ali realmente mexeu comigo, respirando fundo e com cuidado, soltei e falei.
Dandara: é, melhor eu fazer meu melhor pra ir bem nisso
Lu: concordo.
Dessa vez era a Lu e a Kali que estavam chorosas e era a Jaz que estava as acalmando. Enquanto a Val estava tão inabalada quanto eu. Humpf? Que estranho. Então o professor falou.
Professor: vocês já devem ter entendido isso, mas tentem não trapacear na escola, vocês estão entrando em algo que um erro pode custar muitas vidas, sei que é bobo falar algo óbvio assim, mas existem alguns aqui que preferem arriscar a vida de inocentes antes de se esforçarem, então peço que fiquem de olho.
Não sabia se o professor estava se referindo a alguém específico, mas ainda assim fiquei desconfiada de todo mundo, e todos os alunos ficaram assim também, ninguém confiava em pessoas de fora do grupo, mas eu não julgava, apenas tentava ficar junto de quem eu pensava poder confiar, se essa confiança seria bem cuidada, ou destruída, isso apenas o tempo poderia me dizer.
Kali: aí meninas, o que acham da gente ter uma tarde de estudos na casa de alguém?
Lu: por mim tudo bem, e você Jez?
Jez: meu irmão tá finalmente dormindo a noite então acho que vou estar livre
Val: e eu não tenho nenhum treino, então tô livre também, e você Dan?
Dandara: eu tô livre também, mas o que agente vai estudar? Agente não tem muito o que se basear
Kali: não com o que eles já passaram, eu quero que agente estude adiantado algumas matérias, pra pegar o professor de surpresa
Dandara: não vou mentir não Kali, eu pensei a mesma coisa mas tava com medo de contar, pensando que vocês não iam gostar
Kali: mesmo se agente não gostasse, tenho certeza que agente não ia falar do jeito que você pensa.
Eu tava fazendo alguma cara estranha de novo? Era bizarro como a Kali conseguia me ler tão bem, ela parecia até o Antônio quando fazia isso, todo mundo consegue me ler tão fácil assim?
Lu: como assim Kali? Você entende algo na garota?
Kali: é, algo como isso.
Vendo as caras de confusão de todo mundo, percebi que era apenas a Kali que conseguia me ler assim, e minha mente estava decidindo se aquilo era muito bom, ou muito ruim.
A Dandara Rodrigues, nova, jovem, despreocupada e infantil dizia “não tem por que ela nos maltratar, tá tudo bem” mas a Dandara Galdino dizia de forma bem sutil “não vire suas costas pra ela” e as duas tinham argumentos válidos, então eu peguei um meio termo, eu iria até a festa, mas não iria ficar muito vulnerável lá.
Quando sai dos meus devaneios e voltei a me focar nas das garotas de novo, vi que elas estavam falando da série Titia Cuca, aí meu deus.
Dandara: vocês vêem essa série? Eu me tornei uma viciada nela desde que a vi
Kali: com certeza você não é mais viciada que essa mina (aponta pra Val) ela é tão viciada na série que viu a série na língua das fadas, gigantes, sapiens e dragônica
Dandara: eeeee, você aprendeu a falar alguma coisa?
Lu: no, né saia juste une chose ou deux (não, so sei uma coisinha ou outra, (na língua das fadas))
Dandara: uuuuuuh, impressionante, você tá com um pequeno sotaque, mas você tem uma boa pronúncia
Lu: merci, il m’a fallu trois saisons pour apprendre
Dandara: só três temporadas? Jura, achei que levaria mais tempo
Lu: c’est parce que j’apprenais aussi d’autres langues
Dandara: jura? E quais foram?
Lu: seulement des fées, des ogres, des dragões era des goebelins. Je né pae bien que deixa d’entre eux, mais né fazia de mon mieux.
Dandara: mesmo assim, é uma grande conquista, devia se orgulhar disso
Lu: obrigada, e a propósito, se quiser alguma dica de série, eu posso te sugerir a série, “a mulher de madeira” vai por mim, você vai amar
Dandara: se você tá falando né?
Depois de ficar mais um tempinho com elas, voltei pra casa. Quando cheguei perto da minha família, eu queria falar com eles, sei lá, tudo que eu queria falar com as garotas, pareceu ainda mais importante falar pra eles primeiro, afinal, eles eram a minha família, não de sangue, mas apesar de não sermos de sangue, eu podia dizer que eu era filha deles, e por causa disso, me preparei pro almoço, pronta pra talvez uma das maiores conversas que eu teria com eles.

