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Olhos de mel 🌻X
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Hoje seria um dia bem cheio, pelo menos eu achava, pois voando em meio aos prédios com minha vassoura, eu tentava encontrar um endereço em um papel, hoje seria meu primeiro dia com um Psicomago diferente, e não fazia ideia como iria ser no final.


Eu voei bastante e no meio do caminho, peguei um colar em um dos meus bolsos, o colar de girassóis que meus pais insistiam que eu deveria usar, enquanto eu mesma ainda tinha minhas dúvidas se deveria ou não o usar.


Eu tinha o direito de colocá-lo? Não, acho que ser tímida não era digno de usar um colar desses…ou seria? 


Se eu colocasse aquele colar, alguma coisa mudaria? O que eu tinha era uma coisa que eu biologicamente não conseguia fazer? Não tinha cura pro que eu tinha? 


Bom, isso era algo que iria passar com o tempo, então, a resposta era provavelmente “não”...então eu não precisava do colar…não é?


Mesmo assim, tinha algo dentro de mim que só conseguia pensar como “quando você colocar isso, tudo vai ficar mais fácil, não tente negar o que você é”.


E aquela voz ficava batendo em minha cabeça, a ponto que eu tava até na dúvida, de, quem deveria ser essa voz, era a pessimista ou a otimista? A essa altura eu nem sabia mais.


Enquanto ainda pensava no colar, acabei chegando no lugar certo, uma peculiar fazenda bem mais rural do que eu tava esperando.


Uma clinicasinha feita de madeira, ossos de galinha em formato de apanhadores de sonhos e outros tipos de amuletos de proteção, e várias máscaras tribais que tinham pinturas que deixariam pintores famosos com inveja.


Aquele era de longe o prédio mais diferente que eu já vi, mas sem ficar preocupada, eu pousei minha vassoura e com um pouco de magia, mudei até ficar na forma de um bracelete, depois eu entrei e fui pra dentro de boas.


E dentro do estranho prédio, vi muitas crianças, muitos adultos, e muitos adolescentes da minha idade, muitas pessoas wue pareciam “normais”. 


Muitas que não tinham colares, e muitas que usavam um colar, meio que com vergonha, uma vergonha que eu entendia, uma vergonha de “eu posso mesmo usar esse colar?” 


Essa dúvida, a dúvida de carregar algo que tem tanto peso, sem ter algo tão sério ou perigoso quanto as pessoas que realmente precisam disso, era algo que realmente não tinha problema? 


Todo mundo aqui que não tinha colar deve estar se perguntando a mesma coisa, hummmm.


Coitados, estavam cheios de medo, eu queria ajudar, mas já estava com muitos dos meus próprios problemas pra cuidar deles.


E se apenas um deles tiver a mesma atitude da minha antiga “eu” eu com certeza ia acabar regredindo se essa fosse a primeira pessoa que eu acabasse ajudando aqui.


De forma bem tranquila, me sentei na cadeira e só esperei minha vez. 


Levou pouco tempo pra eu ser chamada, e logo que entrei na sala, me dei de cara com um lugar cheio de cadeiras.


E por costume, me sentei numa cadeira que parecia um ninho gigante, não sei por que, mas aquela cadeirinha divertidinha me atraiu de forma absurda.


O Psicomago que iria cuidar de mim estava numa cadeira bem grande, quase como um trono todo estufado, ironicamente, era a menor e menos extravagante cadeira dali. 


Ele também era bem magro, ele tinha um cabelo liso e preto, junto com olhos castanhos, e um sorriso gentil que era bem parecido com o do Gabriel.


Ele me me lembrava um bonequinho de pano, por alguma razão.


Psicomago: ola Dandara, eu sou o Diego e serei seu psicomago agora, o que quer conversar?


Dandara: bom, acho que podemos começar fazendo algumas atividades pra nós descobrirmos quem eu seja


Diego: claro, e o que você quer descobrir?


Dandara: bom…na verdade eu tava esperando que você me ajudasse com isso


Diego: como?


Dandara: bom, eu achei que seria dessa forma, não quero me gabar mas, eu melhorei de forma milagrosa desde que eu entrei na casa de reabilitação. 


Dandara: eu li isso num lugar uma vez, e antes de entrar lá, a minha mente era quase como uma grande vassoura tirada de um campo de batalha gigantesco, destruído por explosões, pedaços irreconhecíveis que precisavam ser separados dos pedaços ainda bons. 


Parei de falar um pouco pra respirar, depois continuei.


Dandara: o que o Psicomago Gabriel fez comigo ali foi basicamente tirar tudo que tava destruído do que ainda estava inteiro e depois reconstruir tudo…


Dandara: e isso é o que eu sou agota, eu sou uma vassoura reconstruída com as partes de mim que sobreviveram ao meus dias ruins ainda comigo…


Dandara: mas também sou uma vassoura lotada de partes novas que estou lutando pra descobrir o que elas fazem, enquanto ainda tento entender as minhas partes mais antigas que sobreviveram até aqui.


E depois de falar tudo aquilo, cheguei na conclusão de algo, e de forma instintiva, apontei para o Diego e continuei.


Dandara: e você é um outro mago, que agora irá me ajudar a me inteirar, ira me fazer entender o quão resistentes minhas partes antigas são e quais eu deveria cortar fora e substituir por algo melhor


Dandara: enquanto simultaneamente me ajuda a entender o que das partes novas de mim eu mantenho e quais eu devia trocar


Dandara: mas principalmente, você irá me ajudar a entender o que essa nova eu, essa vassoura que eu sou agora, é.


O Diego ficou calado por Alguns minutos, apenas analisando e pensando tudo que eu falei, até que ele disse.


Diego: interessante, me diz, você tem alguma ideia do que seriam suas partes antigas ou partes novas?


Dandara: essa é fácil, minhas partes antigas são minha confiança, minhas comunicações e minha forma de estudar


Dandara: em algum momento da minha vida antiga, comecei a pensar que as pessoas não eram confiáveis, todos eram inimigos, e eu nunca poderia abaixar minha guarda pra ninguém…


Dandara: esse vai ser um pedaço difícil de remover, porque, por mais que eu queira moldá-lo e modificá-lo, eu quero que ele ainda esteja aqui, porque querendo ou não, essa é uma parte importante de mim


Diego: como quer modificá-lo?


Dandara: claro que eu não quero confiar em todo estranho que entra na minha frente, mas ao mesmo tempo, também quero tratar as pessoas ao meu redor de forma normal


Dandara: pois sempre que eu saio na rua por um milhão de movidos diferentes, empre acabou pensando que todos ao meu redor, até minhas amigas mais novas, não passam de inimigas, que estão apenas esperando uma chance pra colocarem o pé na minha frente pra eu tropeçar.


E depois de eu falar isso, o Diego pensou um pouco, depois falou.


Diego: uma boa forma de lutar contra isso é deixar seu corpo se adaptar devagar a essa sua nova vida


Diego: usando a sua própria metáfora da vassoura, esse caso é como se você esquentasse o pedaço da confiança bem devagar, lhe dando tempo pra ele ficar mole o bastante pra você conseguir moldá-lo da forma que você quer, até conseguir a forma que você deseja ver no mundo inteiro, entende o que eu digo?


Não respondi imediatamente, pois eu estava realmente surpresa pela forma que ele entendeu minha alegoria das vassouras de forma tão boa e conseguiu fazer um exemplo tão rápido dela, hehe, eu subestimei aquele Psicomago.


Diego: mais alguma coisa?


Dandara: muito mais, também tem minhas comunicações, que diferente da minha confiança, foi uma parte de mim que foi arrancada, mas não foi substituída


Dandara: antigamente, eu falava de forma bem fria com todos, tratando até as pessoas que deviam ser, na teoria, próximas de mim, com a frieza como se eu tivesse falando com um estranho, então essa foi uma das partes de mim que eu fiquei mais que feliz em remover.


Aquilo saiu de forma bem pesada do meu peito, mas apesar da dor, consegui tirar com um pouco de força de vontade pra continuar falando.


Dandara: e depois de muitas sessões de terapia, eu perdi isso e comecei a falar como uma pessoa normal…


Dandara: o problema, é que parece que eu não sei mais falar de forma normal com estranhos…


Dandara: eu fiquei tão acostumada a falar sem sentimentos, que agora, meu medo e ansiedade social me impedem de falar com alguém que eu nunca conversei antes


Dandara:  pra muitos  isso poderia ser uma bênção, mas quando você tá numa escola nova, preparada para estudar, fazer amigos e ter um recomeço de vida, mas quando a hora chega e você sequer consegue sair de sua cadeira, você percebe como esse problema é bem maior do que você pensava.


Parei um pouco pra respirar, e depois deixei o Diego falar.


Diego: ok, esse é um caso interessante porque, você ainda está em formação, tentando entender a forma certa de falar com todos, não só estranhos, mas pessoas que você ama também, não é


Dandara: bom, quase com conhecidos eu falo normal, são estranhos que são o problema


Diego: hummm, entendi, nesse caso, acho que você só não colocou e por causa disso, você não colocou essa peça de comunicação com estranhos ainda em sua “vassoura” por que você ainda tá testando qual peça é boa pra falar da forma certa com esses ditos “estranhos”, não estou certo?


Dandara: (risada envergonhada) não, eu não tô testando comunicações novas…mas talvez tentar isso me ajude.


Pensar nas possibilidades para o que o Diego falou fez minha mente viajar pra todos os tipos de lugares doidos, e eu começei a falar de formas mais soltas


Porque como eu falei pro Diego, eu tinha problemas com estranhos, e algo em mim dizia que ele não era mais um estranho pra mim.


 Dandara: quem sabe, ser mais imperativa, ser mais intelectual, ser mais reclusa. Eu tenho muitas peças, muitas formas e muitos tamanhos diferentes pra testar, tenho uma pequena ideia de qual vai ser a certa, mas é só a experiência que vai confirmar se eu tô certa ou não


Diego: jura? e qual é a certa?


Dandara: Shhh, ainda é segredo.


A gente deu uma risada fraquinha, depois fiquei séria de novo e coloquei minhas mãos bem firmes no ninho antes de continuar.


Dandara: mas os meus estudos talvez sejam a peça mais importante até agora, por que ela é igual a minha peça da comunicação


Dandara: mas diferente das outras, essa peça eu recebo a ajuda da minha família nova, elas me ajudam a esquentar, a moldá-la, e deixa-la como ela é hoje, não um produto finalizado, mas algo bom o bastante pra substituir a antiga.


Dandara: e diferente de todas as outras peças, os meus estudos mudaram e ficaram bem mais flexíveis de forma que nenhuma outra peça mudada ficou ao longo do tempo.


Dandara: eu descansei de formas bem melhores do que a alguns meses atras, e diferente de antes, não deixei nada me impedir de relaxar, mesmo que um pouco


Diego: essas são as únicas partes antigas suas que você conhece?


Dandara: muito pelo contrário, essas só as partes que vieram primeiro na minha cabeça quando você perguntou


Dandara: eu poderia ficar horas aqui tentando só descobrir as partes antigas de mim, mas acho que precisamos pôr um pouco das partes novas pra equilibrar, e acredite, as partes novas eu to tendo bem mais facilidade pra entender


Diego: estou ouvindo


Dandara: bom, primeiro tem as minhas vassouras, é algo que parece contraditório por que eu usava vassouras antes de mudar de vida, mas as vassouras que eu usava antes, eram peças velhas, antigas e quebradas, em resumo, peças com defeito. 


Dandara: então eu na mesma hora arranquei elas fora e coloquei uma peça de vassoura novinha em folha em mim, e essa foi a melhor escolha que eu fiz pra mim mesma a muito tempo…


Dandara: hmhmhm, é serio, conseguir rir e me divertir com uma vassoura sem os meus pais corrompendo o que eu amava era mais do que uma libertação, ainda agora, muitas vezes quando eu fico em cima da vassoura, eu sinto que eu estou me aproximando do paraíso, de tão incrível que me sinto em cada momento desses.


O Diego não falou quando eu terminei, novamente ele pensou bastante antes de falar.


Diego: fascinante, e existe algum outro caso assim onde as “peças” de sua personalidade tinham uma função, mas eles estavam tão com defeito que você apenas o substituiu por uma versão “concertada”?


Dandara: ah, muitos, muitos mesmo. Por exemplo, minhas peças de etiqueta, apesar de que, usar salto alto, vestidos quentes e até bailes de etiqueta que tem só gente importante e sofisticada. Também foram motivo de muita alegria quando eu as tirei, tudo isso era ainda algo que eu gostava muito.


Dandara: o único problema que cada uma dessas peças tinham, é que elas estavam colocadas no meu corpo  com o pensamento que eu precisava ser “perfeita” nessas festas, estragando mais uma coisa que eu amava de paixão a distorcendo com a maldade


Dandara: e agora, com minhas peças novas sinto que, mesmo um pouco mais soltinha, eu iria amar participar de uma baile assim…


Eu apenas percebi o que eu falei depois que terminei…eu não tinha participado de nenhum baile ultimamente ainda mais um chique…


 Bom, com tudo o que eu tinha feito ultimamente, os Bailes eram a última coisa que eu chegava a pensar últimamente, talvez porque eu tava evitando pensar qualquer coisa que lembrasse dos Galdinos…


Mas depois que eu pensei um pouco mais nisso, eis sabia que esse não era umotivo bom o suficiente pra não querer ir em um baile, então eu olhei pro Diego, e falei com o maior sorriso do mundo pra ele.


Dandara: olha quem diria, acabei de descobrir isso, e só por que pensei em voz alta, isso é muito comum aqui?


Diego: mais do que você imagina, Dandara, mais do que você imagina


Dandara: acho que vou tentar ir pra um Baile esse mês, um baile quem sabe


Diego: é claro, depois me diga como foi, pois nosso tempo acabou


Dandara: o que? Mas já!?


E olhando o relógio nas minhas costas, vi que o atendimento acabou mesmo, eu não briguei, eu já tava acostumada com isso desde as minhas consultas com o Gabriel.


Mas ainda não tinha me acostumado com o quão rápido o tempo parecia passar quando tinha a ver com os Psicomagos.


Às vezes, parecia que os Psicomagos tinham feitiços de acelerar o tempo só deles, de tão instantâneo que o tempo parecia passar, mas isso era bobagem e eu pensava nisso só como delirios da minha cabeça, hihihi.


E enquanto ainda pensava sobre o Baile que eu iria sair, eu já tinha a pessoa certa em mente pra convidar, mas se ele iria aceitar ou não, isso já é outra história.


E como sempre, assim que sai da sala, eu me senti leve, muito mas muito leve, alegre e tranquila a ponto que eu  sentia que meu corpo tinha perdido toda a sensação de peso.


 Eu tinha virado uma nuvem e estava voando pra casa sem nem pisar no chão, mesmo que na vida real eu tivesse bem pesada e pisando forte no chão. 


Eu amava esse sentimento, e eu tinha muitos planos quando chegasse em casa.


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