A mudança dos quartos foi mais rápida do que eu pensei, por um momento, eu pensei que tudo o que eu tinha seria pouco pra um quarto só pra mim, mas depois de que todas as minhas coisas foram espalhadas pelo meu quarto novo, eu senti que tinham muitos espaços vazios nele, espaços esses que eu sabia bem até demais como preencher.
Assim como naquele dia em que eu negociei com o vendedor de vassouras, algo em ter aquele quarto todo pra mim pareceu acender algo dentro da minha cabeça, que eu não conseguia descrever em palavras normais, eu só podia sentir, então, eu estalei meus dedos, e comecei a “trabalhar” o meu quarto.
Primeiro eu coloquei alguns feitiços de som melhores conectados ao meu espelho-televisão, pus mais posters em tudo, pintei as paredes de preto e vermelho. (uma combinação de cores que eu ainda estava tentando entender porque eu amava tanto).
A minha escrivaninha, meu cantinho de escrever canções, e de estudo, e meu armário também estavam ali, mas depois de tudo o que eu já arrumei, agora tudo o que faltava eram as coisas do Rex.
Era coisa básica, assim como todo o resto, eu coloquei uma caminha de cachorro dentro do meu quarto, junto de vários brinquedos de morder, e até várias cordinhas que eu usava pra brincar de cabo de guerra com ele.
E quando ele foi pro meu quarto, ele estreou a nossa mudança pegando os brinquedos e os espalhando pra todo o quarto.
Dandara: e, agora parece que você dorme aqui.
O Rex era um filhotinho bem bagunceiro por algum motivo.
E além de tudo isso, teve algumas mudanças pequenas até que aquele quarto pareceu bom de verdade pra mim, e quando eu parei de mudar tudo no chão, e só tirei um tempinho pra ficar parada no meio do meu quarto, sozinha, eu me dei a chance de ouvir meus próprios pensamentos.
Eu sempre fazia isso, mas eu entendi bem rápido que era bem mais fácil fazer isso sozinha, era bem mais útil do que com várias pessoas em volta.
Dandara: …taaaaa, tudo tão calmo…
Ficar sozinha, depois de um período com quase mais de um ano não tendo quase nenhum momento completamente sozinha, realmente era algo muito estranho pra mim.
Pois, agora que eu pensava bem, era bem difícil que o meu tempo na Solitária podia contar tendo tempo sozinha, ja que, eu ava sendo observada ai, pra ter certeza que eu tava bem, (e quem sabe seja isso que me manteve calma naquela época, hummmm)
Mas isso, não tinha ninguém me olhando ali, claro, meus pais iriam me checar daqui a pouco, pra ver se eu ainda tava bem, isso eu tinha certeza.
Mas agora, eu tava completamente sozinha, sem ninguém aqui para me ver, conversar, ou apenas existir aqui junto comigo.
Eu tava completamente sozinha agora, sozinha de verdade…sim, eu tava com o meu pequeno Rex aqui também, mas em questão de Humanos, eu estava sozinha…
Eu pensei que, uma vez que tivesse sozinha, eu ia sentir algo ruim, que o meu vazio iria voltar, que minha tristeza iria me dominar, ou que meus pensamentos iriam jogar um milhão de pensamentos ruins em minha mente…
Mas não aconteceu nada disso, e nada tão espalhafatoso também, eu apenas sentia…silêncio, tava tudo tão calmo aqui dentro, uma calmaria que, mesmo com o meu querido Rex ali comigo, pra garantir que nada nunca estava completamente silencioso, eu amei de montão.
E pra eu aproveitar um pouco esse momento de pas, a primeira coisa que decidi fazer quando eu fiquei totalmente sozinha pela primeira vez, foi pegar o Rex e começar a rodopiá-lo com toda força pelo meu quarto.
É, apenas o meu quarto, e de mais ninguém, quando pensei nisso com calma, isso soou bem mais legal do que deveria, hahahaha.
Ele gostava que eu fizesse isso pra ele, por algum motivo.
Quando acabei de rodopiar, abracei o cãozinho e enchi ele de carinho, enquanto ele lambia as minhas mãos.
Quando pus o pequenino no chão, vi que ele tinha trazido um brinquedo de puxar, e rindo, peguei uma parte do brinquedo e ele pegou a outra, e fizemos um cabo de guerra onde eu puxei até que eu fiquei cansada e deixei ele ficar com a corda, e depois de comemorar a vitória jogando e rodopiando a corda que tirou de mim, ele queria um round 2, e eu dei pra ele.
E depois ele largou a cordinha e pegou uma bolinha, como uma parte 2 da nossa brincadeira, e agora que o quarto era só meu, tinha mais do que espaço o bastante pra eu conseguir jogar a bolinha e ele correr pra pegar sem que eu acabasse acertando alguma coisa do meu irmão sem querer.
Eu jogue a bola pra ele umas 100 vezes antes dele se acalmar, bbom, se acalmar na medida do possível pra ele, pois logo depois ele começou a pegar a cordinha de novo, e um pouco mais motivada a brincar com ele, eu agarrei aquela cordinha, e num duelo de cabos de guerra, eu consegui tirar a corda dele dessa vez, e depois a joguei no outro canto da sala, assim como a bolinha.
O Rex pegou a corda, mas ele nao foi ate mim, ele pegou a corda, foi até a caminha dele, e se deitou, e pela guagem dos cachorro, isso significava “eu estou cansado, vamos brincar mais outra hora” porque, é, aquilo era so um cochilo, daqui a algumas horas ele iria estar tão elitizado e rápido que parecia que ele bebeu uns 10 litros de cafe.
E enquanto via o Rex descansando, eu dei um bocejo bem logo, e decidi dormir um pouquinho, um cochilinho rápido, então eu me deitei na cama, e logo o Rex subiu também, porque ele gostava muito de dormir comigo acompanhou…
E algo em mim me fazia sentir muito mais tranquila quando aquele filhotinho dormia comigo, fazer um caminho tranquilo e calminho e sentir meus dedos passando pelo pelo fofinho e limpinho dele era uma das melhores sensações do mundo, uma sensação tão boa, que ele sempre me ajudava a passar, mesmo quando a luz ainda estava acesa (como era o caso agora).
Tinham vezes que eu achava estranho como, mesmo que eu não estivesse mais deprimida, eu ainda fazia cochilos no meio do dia assim, como algo que só eu gostava de fazer mesmo, mas depois dos dias que eu tive, eu sentia que fazia sentido eu gostar tanto de dormir assim.
Eu tinha que começar a estudar, pra me preparar para o teste da escola de carpinteiros, irá ser uma prova prática e um teste escrito, e a minha mente tava tão paranóica quanto eu estava acostumada, mas antes de eu entrar na grande espiral de estudar até eu quase perder a cabeça de vez, eu decidi que eu merecia um descanso.
Eu fiquei na cama por um bom tempo, apenas descansando, e fazendo carinho no Rex, mas nunca dormindo de vez, pois eu sabia que se dormisse, só iria acordar lá pela meia noite.
Até que eu só entendi que “ok, agora é hora de estudar” e abri os olhos, só pra dar de cara com o João, me encarando, com um rosto de decepção.
João: serio, eu achei que depois de ficar melhor você ia parar de dormir tanto
Dandara: (bocejo) antes eu dormia porque eu não queria fazer nada, agora eu durmo porque eu tenho tanto a fazer que preciso dormir pra fazer tudo em só um dia, agora, se me der licença maninho, eu preciso estudar
João: claro, claro, vou voltar quando você precisar de um puxão de orelha.
Eu ri um pouquinho do que o João falou, mas eu sabia que ele não estava brincando, apesar de todos os problemas que eu tinha na minha cabeça, um dos mais difíceis de cuidar eram os meus problemas de estudo.
Não, não era porque eu não conseguia me concentrar em estudar, mas sim porque às vezes, eu ficava tão focada em estudar que eu perdia a noção do tempo.
Teve um dia em que eu não entendi uma matéria, e eu basicamente virei a noite tentando a entender. (e considerando que naquela época eu só dormia, isso era dizer muito).
Mas eu tentei não pensar nisso, é só pensar em estudar sobre a carpintaria, era uma matéria até bem simples, então desde que eu não enrolasse muito pra sentar na cadeira, iria conseguir entender a matéria numa boa.
Eu fiquei estudando por um bom tempo, a ponto onde eu perdi noção do tempo, comigo só parando de usar minha pena pra escrever quando eu fazia carinho no Rex, de novo.
E depois de algum tempo, o meu irmão me chamou.
João: oi maninha, você já acabou de estudar?
Dandara: não
João: então dê uma pausa, o almoço tá pronto.
Almoço? Eu tenho estudado por tanto tempo assim? Bom, sabendo que eu ainda tava muito longe de acabar de estudar, tentei não pensar muito nisso na hora e apenas sai do meu quarto pra almoçar.
Uma vez lá embaixo, eu comi, ri e brinquei um pouco com minha família. E depois voltei a estudar no meu quarto sem pensar duas vezes, entrando num estado onde eu não conseguia pensar em nada além de estudar agora.
Aquela história sobre as vassouras era fascinante, olha só, pelo que parece, a magia estava embutida no solo em várias veias de mana que vazavam pra superfície, parecido com camadas de magma que viravam vulcões ou banheiras termais naturais.
Mas diferente do magma, a mana era bem menos letal e quente, e quando ela se conectava num rio ou numa árvore, ela modifica esse rio pra virar um rio de mana, e quando uma raiz de árvore era a sortuda de tocar numa dessa veias de mana, las virava árvores mágicas, árvores cuja madeira pode criar itens que uma madeira normal não e capaz de criar.
E tinham madeiras diferentes pra trabalhos diferentes, existiam madeiras pra varinhas, madeiras pra vassouras e madeiras pra navios e muito mais…
O livro ficou um bom tempo explicando a maravilha que acontecia quando cada uma dessas madeiras era usada da maneira certa, e cada varinha, vassoura e navio explicado naquele livro era tão detalhado que eu fiquei totalmente sem palavras quanto mais eu passava as páginas.
Eram livros desse jeito que me lembraram que estávamos em um mundo mágico, e que eu devia estar fascinada por isso.
Eu queria ser uma carpinteira de vassouras, eu tinha certeza disso, mas aprender sobre todas as coisas que os carpinteiros faziam era tão maneiro que eu perdi a noção do tempo de novo, e eu apenas fui quebrada desse transe quando o meu irmão tocou meu ombro de novo.
Eu sabia que já devia ter passado muito mais tempo que apenas algumas piscadas, assim como eu mesma estava percebendo, mas ainda era doido pra mim ainda como meu corpo parecia não entender o tempo passando assim.
João: ai maninha, você vai levar o Rex pra passear ou eu levo?
Dandara: ahm como assim? Eu já levei ele
João: você levou ele de noite?
Dandara: ah já é de noite?
E eu olhei pra janela do meu quarto quando ele falou isso, e tava mesmo de noite. Droga, eu perdi noção do tempo de novo.
João: cara, eu queria muito ter sua concentração pra estudar
Dandara: não é concentração, é obsessão, por isso que eu gosto de passear com o Rex, ai Rex, vamos dar um passeio.
E quando eu falei aquilo, o Rex, que tava dormindo em um canto no meu quarto já tinham algumas horas, acordou e começou a pular, lair e balançar o rabo e tão empolgado que ele estava.
Eu amava sair com ele, e…não tinha um motivo mega especial de eu gostar de passear com ele, eu apenas andava passear com o meu cãozinho.
Então, eu coloquei uma coleira nele, sai de casa, e comecei a anda pelo reino.
E enquanto eu estava andando no meio da cidade a noite, eu senti uma estranha calmaria…hihhi, acho que esse foi outro momento que o meu Príncipe me infectou com a influência dele, pois, de forma estranha, o meu Príncipe tinha um amor estranho pela escuridão.
Um amor que eu tinha certeza que tinha uma grande história por trás dela, mas se tinha, então ele não me contou o que era, pelo menos não ainda.
Mas passear com o Rex sempre era muito legal, eu conhecia lugares diferentes no reino, pessoas paravam pra fazer carinho neles, e uma piada constante que as pessoas faziam dele ser meu filho, já que nós dois éramos novos.
Algo que eu notei apenas na primeira vez que eu vi aquilo.
Eu caminhei com o Rex por um bom tempo, mas quando eu voltei pra casa, eu tomei banho e fui direto pro meu quarto, mas quando eu estava prestes a sentar na cadeira de novo, eu ouvi uma tosse, que parecia mais um aviso do que uma tosse.
João: caham…
Eu olhei pra trás, e vi meu irmão, ele deve ter visto que eu tava cansada, e nesse momento, eu agradecia dele estar ali comigo, pois senão, eu iria virar a noite estudando de novo.
João: o que você tá fazendo?
Dandara: ahn, eu vou estudar
João: acho que você já estudou o bastante por hoje, tá na hora de parar
Dandara: (respira fundo e solta) ok.
E assim, eu parei de estudar por hoje…isso era algo estranho sobre minha cabeça, existiam certas coisas que eu fazia que eu não podia parar por conta própria, eu precisava que outra pessoa me falasse que eu podia parar.
Talvez, apenas talvez, eu sentia que a minha opinião não valia nada, e que eu precisava que outra pessoa validasse que eu realmente tinha que parar e que eu já fiz o suficiente por apenas um dia pra conseguir relaxar sem me sentir culpada.
E, esse tipo de coisa parecia perfeita pra eu dizer pro Gabriel, mas ele não era mais meu Psicomante, eu iria receber outro Psicomante em breve, então eu só tava pensando no que iria falar pra ele quando a hora chegasse.
Mas tentando não pensar muito nesses cenários futuros, eu falei.
Dandara: obrigada maninho
João: disponha
Dandara: Então, agente vai realmente ficar com quartos separados?
Joao: a mãe e o pai vieram te ver de tempos em tempos, e me falaram que você estava bem
Dandara: ah, eles foram me ver? eu não notei
João: ótimo, significa que a sua tranquilidade foi natural…ai, quer assistir alguma coisa no espelho-televisão da sala?
Dandara: quero
Uma parte bem profunda de mim duvidava com todas as forças que tinha estudado o bastante, e essa parte era insistente, ela sobreviveu aos meses de aperfeiçoamento, a casa de reabilitação, e as “conversas” que eu tinha com meus amigos e família, uma voz simples de “eu não sou o suficiente”.
Não sabia se um dia iria me livrar dessa voz, mas depois de lidar com minha Singularidade por tanto tempo, eu entendi que tinham certos traços de mim que eu não podia descartar, apenas modificá-las até elas me ajudarem ao invés de atrapalhar.
E mesmo assim, eu sabia muito bem que esse traço seria bem difícil de modificar da forma certa também, ai ai, pessoas como eu não tinham paz mesmo.
E lá no sofá, a mamãe e o papai estavam nos esperando, e como se nos pertencessem naquele ambiente, e não estivessemos invadindo nada, , nós só subimos pra cima do sofá e nos ajustamos la, dispostos a ver o que quer que os nossos pais estivessem vendo agora.
Pois nós tínhamos certeza que, o que quer que fosse, com certeza ia ser doido e muito legal, pois no espelho-televisão só tinha coisa doida.
E pelo jeito, não erramos dessa vez também, pois o canal estava ligado agora em um show de corrida de vassouras através do espelho.
Mas mesmo quando o jogo tava rolando, meu stress decidiu voltar, e com meu pessimismo atacando eu falei, quase sem pensar
Dandara: eu devia estudar mais
João: não, voce não devia
Dandara: mas, e se eu for reprovada se parar de estudar agora?
Pai: aí você vai tentar de novo
Dandara: mas aí eu vou ficar mais velha, eu não devia fazer isso mais nova?
Pai: qual é a diferença entre dois ou três anos? Sinto que mesmo se você fazer tudo em 8 anos, vai valer a pena se te deixar feliz
Dandara: hehe se eu falhar 8 vezes não é prova que eu deveria tentar algo diferente?
Mãe: talvez, mas isso vai depender de você, se você quiser continuar até a morte, iremos te apoiar, iremos te guiar, mas ainda vamos apoiar sua decisão.
E novamente, pus minha mão em meu peito, ainda tava com problemas pra ouvir a garotinha no meu peito, mas eu me esforçava…e hoje ela tava em silêncio, vamos lá garota, fala, fala, por favor, eu preciso de você agora, não me abandona agora…
E quando eu fiz esse pedido desesperado pra minha voz interior, ela me respondeu mesmo, e a resposta dela não podia ser mais clara: “eu quero vassouras”.
Dandara: eu quero continuar
Pai: então descanse, você já terminou, tá feito, não precisa mais pensar nisso
Dandara: não é algo que dá pra simplesmente parar de pensar, precisa de tempo
Pai: e é por isso que estamos te fazendo carinho e vendo essa corrida no espelho
Dandara: jura? Eu pensei que era por que você me amavam muito e queriam participar de algo que eu gostava enquanto me mimavam igual a um bebê
Pai: por que não os dois?
Agente deu uma gargalhada sincera e depois agente se acomodou e voltamos a ver a corrida de vassouras, hehehe, era engraçado, a pista de uma corrida de vassouras tinha a ver com velocidade, mas ela não era uma simples pista circular.
A pista ia pra cima pra baixo, esquerda direita, as diagonais e por todas as voltas que conseguia se imaginar, tudo junto com alguns aros que faziam as bruxas ficarem mais rápidas, e obstáculos que derrubavam bruxas no chão com um golpe poderoso.
De alguma forma, aquela cena toda me deixava relachada pra caramba, e eu amava olhar as vassouras e adivinhar qual vassoura ia ser eliminada, enquanto o meu irmãozinho olhava as bruxas, apostando em qual era a mais incompetente e qual não conseguiria ficar acima da vassoura por muito tempo.
E quando todas as bruxas incompetentes e vassouras mal feitas fossem eliminadas, nós iríamos escolher a bruxa mais competente e a vassoura mais bem feita para vencer a corrida, às vezes nós vencemos, as vezes nos perdemos, dessa vez nos perdemos, mas aquela que nós escolhemos juntos ficou no segundo lugar, e por enquanto era melhor assim.
Dandara: drooooooga, nós quase conseguimos
João: agente consegue na próxima maninha
Pai: se continuarem assim, vocês vão virar apostadores
Dandara: você não viu como agente perdeu ali? Não, apostar é muito dependente da sorte, agente vai ficar rico á moda antiga
Pai: uuuuh, vai querer ficar rica? Então vai ter que caprichar nas vassouras mocinha
Dandara: eu vou pai, eu te prometo.
Eu não tinha medo do meu futuro, pois no fundo, eu sabia que iria bem, só precisava aprender a confiar em mim tanto quanto os outros pareciam confiar, um trabalho que ainda estava em processo.

