Era bem engraçado isso, mas quando eu fui para aquele teste, aquele foi o teste mais fácil de toda a minha vida. Comparado a todos os testes que já fiz, não eram apenas as questões que eram mais fáceis que o normal, o clima da sala tava mais tranquilo, a minha consciência tava muito mais tranquila.
E mesmo que eu tivesse em dúvida sobre algumas questões, não era uma dúvida gigantesca, como as que eu tinha quando estudava com os Galdinos, eu tinha um grande ar competitivo em mim ainda, mas quando eu entreguei aquele teste no fim da proa, não senti remorso quando o entreguei, pois eu sabia que não tinha tirado uma nota perfeita, mas eu tinha ido bem, e isso eu sabia que era o caso.
Mas acho que o que consolidou esse meu pensamento foi a minha familia, eu tava um pouco preocupada também, mas vendo como a minha familia tava tao calma, eu acabei me acalmando também.
E depois de quase 4 semanas, o resultado do tese foi dado…ah, como é bom estar certa
Dandara: eu…passei?
Pai: e, e olha só, as aulas começam amanhã, melhor você já ir dormir mocinha, não quer chegar atrasada no seu primeiro dia, não é?
Dandara: hihihi, nao, nao, claro que não.
E depois de dar um beijo no meu pai, na minha mãe e no meu irmãozinho, eu fui dormir, pensando que amanhã seria um dia incrível.
😴😴😴
Hahaha, acho que nunca tinha dormido um sonho tao leve quanto aquele, mas foi o que aconteceu, eu fechei os olhos, e quando os abri de novo, já era amanha de novo.
Bom, depoi de todas as doideiras que eu passei apenas pra entrar na escola, eu, previsivelmente, tava bem animada e agitada quando o meu primeiro dia de aula chegou.
Eu me arrumei, tomei minha poção, pra manter minha Singularidade fraca, e depois sai do quarto, eu fui pra sala do café da manhã, me preparando pra comer da forma mais rápida que eu conseguia, só pra chegar lá na hora.
Mas sinto que eu ia ter que fazer uma mudança de planos, pois quando cheguei na sala pro café da manhã, vi que eles fizeram um banquete pra mim cheio de pães, presuntos, queijos e até requeijão.
Assim que eu cheguei la, eu me sentei, bem empolgada, coloquei tudo que eu tinha direito e que não tinha direito, no meu pão, eu nem consegui sentir direito o que eu coloquei, tinha tanta coisa que se eu tentasse entender tudo ia ficar mastigando o primeiro pedaço por horas. E enquanto eu tava comendo meu pão, meu pai me chamou.
Pai: então querida, tá pronta pro primeiro dia de aula?
Dandara: não vou mentir papai, eu tô meio nervosa
João: você está nervosa? Imagina eu, eu vou ir pro ensino médio esse ano, eu vou evoluir praticamente.
Dei uma risadinha da piada ruim do meu irmão, ele sempre sabia como arrancar um sorriso de mim. E antes de uma conversa séria acontecer, tentei descontrair um pouco com meu irmãoele.
Dandara: sabe, por que todos os remédios tem gosto de cereja?
João: bom, eu tenho uma teoria, o sabor da cereja é tão especial, e tão bom que é essencial que ela seja posta em qualquer coisa que tenha a ver com a cabeça
Dandara: nesse caso, por que eles não põem o sabor chocolate?
João: chocolate é difícil, e muito ruim pra pessoas que tem intolerância a lactose, e também tem o lance que pessoas podem enjoar muito de ter que tomar um remédio de chocolate todo dia, a cereja é símbolo do amor, não precisa de muito pra conseguir e ainda é doce do nível perfeito pra não enjoar
Dandara: é, faz sentido, se eu tivesse que comer chocolate todo dia, acho que até eu chegaria a um ponto de ficar de saco cheio tipo “(suspiro de dor) fala sério, chocolate de novo?”
Irmão: é disso que eu tô falando, e como você acabou de mostrar, ela é ótima pra pessoas com problemas da cabeça, pra conseguir distrai-las dos próprios problemas mentais.
Ah, la vai, mais uma das teorias mirabolantes do meu irmão. Eu viei os olhos com um sorriso, porque eu amava muito quando ele dava essa de teorista maluco…isso me fazia lembrar de alguém, então eu falei.
Dandara: como assim?
Irmão: fala a verdade irmã, quantas vezes você melhorou, pelo menos um pouco, de seus pensamentos ruins quando você parou de pensar em coisas depreciativas apenas pra pensar “por que cereja?”
Noooooossa, eu senti a maior vergonha do mundo quando ele falou aquilo, porque é, eu passei muito tempo fazendo isso, tempo o bastante pra eu ficar calma até em meus piores dias pensando na questão da cereja.
O motivo deles terem escolhido cerejas, entre todos os outros sabores, foi uma questão que morou na minha cabeça por muitos dias mesmo, cara, ainda bem que não podia morrer de vergonha, pois senão, eu com certeza teria morrido agora.
Eu não conseguia ver meu rosto, mas pela cara de todo mundo, ele devia estar tão vermelho quanto meu cabelo, aaaaaaaah, eu só queria me esconder no meio do meu cabelo e desaparecer pra sempre, mas até onde eu sabia, não tinha uma magia pra isso.
Pai: ah, para com isso filha, agente só tá brincando com você
Dandara: é, eu sei…vocês podem vir comigo pra escola?
Pai: desculpa filha, vou ter que sair mais cedo hoje
Mãe: deixa que eu te levo filha.
Ah, mamãe, quem olha o sorriso doce, o cabelo longo e azul, e os olhos roxos dela nem imagina o quanto ela gosta de músicas bardos bárbaros, dando um sorriso tímido, falei.
Dandara: é claro…eu ia adorar.
Sabia que podia falar tudo pra mamãe, mas por enquanto, apenas aproveitei meu café da manhã.
Quando saímos de casa, insisti a minha mãe que a levasse na minha vassoura, eu queria ter um pouco de controle agora, e ela seria mais meu apoio emocional, e graças a deus, minha mãe tinha entendido isso sem falar uma única palavra, ela era igual o papai, “sou sua mãe, eu conheço a filha que tenho”, hihihi.
Hehehe, durante essas semanas e que eu fiquei esperando a resposta da escola, o meu tratamento das mãos ficou muito melhor, e mesmo que precisasse de mais algumas semanas de tratamento para me livrar daqueles alos, a minha mao tava tao bonita agora que, nao ironicamente, ta vaca começando a me sentir uma mulher de novo.
Mas sem pensar muito nas minhas mãos, eu subi na minha Speed 360, e apertei o cabo com toda a força que eu tinha, isso sim era o porque eu tirei meus calos das mãos pra inicio de conversa.
Sorrindo, eu esperei minha mãe subir, e em segundos, voamos na maior velocidade da vassoura, deixando que todo o stress acumulado por mim, e talvez até pela minha mãe, fossem jogados pra fora através do vento.
HAHAHAHAHAHA, como em meus sonhos mais lindos e descontraídos, eu comecei a voar tão rápido que meu rosto se distorceu, eu tive que realmente colocar força na minha pegada pra nao acabar voando pra longe, mesmo com as magias de segurança da vassoura.
E mesmo com todas as doideiras ao redor de mim, eu me permiti ficar calma e aproveitar as pancadas de vento voando até o meu rosto.
Apenas naquele momento, não havia problemas como raiva, stress, problemas mentais, traumas, tudo aquilo não existia ali, apenas existia o vento, e as pancadas de vento que tentavam me fazer perder o controle, os raios rápidos que me eletrificam como uma bateria, e os milhares de insetos, que eu aprendi a defender com uma barreira pra eles não encherem o meu rosto.
Dandara: (respira fundo) LIBERDADE!
Mãe: LIBERDADE!
Eu já tive um gostinho daquilo na casa de reabilitação, mas ter um gosto de voar com uma vassoura pra valer e voar no céu azul com toda a alegria e liberdade do mundo em uma vassoura de primeira eram coisas totalmente diferentes.
Eu voei o máximo que consegui, a ponto onde usei minha velocidade pra conseguir dar voltas, voltas e mais voltas pelo território, fazendo com que eu chegasse em cima da hora, ao invés de adiantada.
Mas tanto eu quanto a minha mãe tínhamos decidido que valeu totalmente a pena o atraso se isso significava passar por esse momentinho de liberdade na vassoura, até fiquei tentada em largar minhas mãos muitas vezes, mas me contive, pois minha mãe tava ali, além disso, eu tinha um lugar pra ir.
Eu ainda tinha muita coisa pra fazer, mas ainda voei pelo caminho mais longo, voei bastante, eu podia voar pra onde quisesse, e pra hoje, eu queria voar até a escola, muitas outras crianças voavam em suas vassouras ou cavalgavam em seus cavalos.
Mas nesse primeiro momento, nenhum de nós trocou nenhuma palavra, nós apenas voamos até chegar na escola.
Mãe: não quer falar com algum deles, querida?
Dandara: cedo demais, vou deixar pra quando eu estiver na aula
Mãe: você que sabe.
Eu desci da vassoura junto da minha mãe, enquanto eu ficava na frente da entrada pra alunos de vassouras da escola, que era basicamente uma claraboia que ficava em um prédio que parecia quase um observatório do lugar.
(Porque uma escola de carpinteiros teria um observatório, eu nao sei, mas esse não é o ponto aqui)
Mas quando me aproximei daquela claraboia, muitas lembranças ruins vieram até mim, eu não conseguia lembrar de algo específico que me fazia sentir aquilo, mas existia uma repulsa impregnada em meus ossos que dizia sem nenhuma palavra “esse lugar é perigoso, afaste-se, rápido”.
Apesar de tudo o que eu fiz, e todas as melhorias que tive e todas as memórias boas que recebi ao longo do tempo, eu não conseguia superar esse trauma impregnado nos meus ossos, pelo menos não totalmente.
Eu não conseguia dar o primeiro passo sozinha, pois tinham pontos, onde nem o mais forte dos soldados pode ir sozinha, mas enquanto eu tava encharcada de medo, minha mãe pegou minha mão e me levou mais perto pra claraboia.
Mãe: nenhuma lotus consegue sair da lama sozinha…nunca se esqueça que você pode pedir ajuda pra entrar na água, minha pequena lotus
Dandara: sim mamãe.
Eu não ligava de estar parecendo uma criança, mas enquanto todos me olhavam, eu apenas pensava que, agora, eu me sentia a mulher mais forte do mundo, tudo porque minha mãe tava aqui, bem do meu lado…
Bom, ali estávamos, no limite de até onde minha mãe poderia me levar.
Mãe: não se esqueça, qualquer problema apenas fale com a senhora S
Dandara: sim mamãe.
Quando me desvencilhei dela, eu entrei na claraboia e quando cheguei no chão, e usei minha magia pra transformar minha vassoura em um bracelete.
E quando entrei na escola, logo eu percebi que, eu tinha um símbolo na mão, um símbolo que recebi quando eu recebi a confirmação que tinha virado uma aluna daqui.
Não era nada demais, era apenas o emblema da minha escola nova, nas costas da minha mão, ela tinha várias funções.
Uma delas era permitir que eu passasse por certos níveis de sistema de segurança da escola.
Além de agir como uma bússola pra eu saber quais salas eu deveria ir, assim como ela tava fazendo agora, me puxando pra um lugar que eu presumi ser a minha sala.
Mas quando comecei a andar um pouco mais pra dentro do lugar, eu comecei a ver pessoas olhando pra mim, rindo de mim, e me xingando de várias formas diferentes.
Mas eu sabia o que era aquilo, aquilo não era real, aquilo era a minha cabeça, e minha magia tentando mudar de forma distorcida o que eu tava vendo.
Era por coisas como essas que meus pais não deixaram eu entrar uma escola tão cedo, e isso tava acontecendo agora, imagina como eu iria ficar se tentasse entrar pra lá quando eu ainda tava ruim da cabeça antes, com certeza eu teria me matado.
E ainda tinha o fato de que eu tava “quase” sozinha lá, porque eu tinha uma parceira, uma Psicomaga infantil que estava dentro da escola, e que eu podia pedir ajuda caso tivesse um momento de crise.
Todos a chamavam de Lady S, por algum motivo, eu nem sabia o nome inteiro dela, mas eu sentia ue, contanto que eu me mantivesse calma, eu poderia pelo menos me dar o privilégio de não visitar a Psiccomaga da escola ogo no meu primeiro dia ali, mas quando ficou muito ruim, eu apenas fechei os olhos e tentei me acalmar.
Ahhhhh, vamos, “isso não é real, não é real, não é real”, “tudo vai ficar bem”, “ninguém tá olhando pra você”, “ninguém está falando pelas suas costas”.
Continuei falando baixinho aquilo pra mim mesma, minha voz pessimista, que agora estava mais forte do que nunca, tentou argumentar com a voz otimista várias outras vezes, mas mesmo com um desgaste emocional forte, consegui abrir os olhos de novo, e por graça do próprio criador, todos estavam normais de novo.
Alguns olhavam pra mim, mas não com malícia ou desprezo, mas com curiosidade e até preocupação por eu não parecer bem pra eles.
Mas consegui respirar fundo e continuar andando, e quando cheguei a minha sala, respirei fundo mais uma vez, e depois entrei, que estranho, não era nada diferente do que eu fiz várias e várias vezes, mas agora…tudo parecia tão colorido.
As roupas das pessoas(que não usavam uniforme) as vozes diferentes de tanta gente e até as mesas, que estavam enfeitadas com as assinaturas de vários outros alunos, pareciam mais uma obra de arte, ao invés dos grandes garranchos que eu sempre via quando estava nas escolas antigas.
Me sentindo um pouco mais calma e acolhida ao ver aquela cena, eu andei pra um ponto mais calmo da sala, coloquei minha mochila na mesa, eu esperei um pouco.
Ai, que saco, os meus pais e até meu irmãozinho, não conseguiam entender porque eu tava tão nervosa pra ir pra escola, “você conversa horrores conosco, com certeza você vai fazer amigas bem rápido ali”.
Sim, eu conseguia falar fácil com eles, porque eu os conhecia, mas falar com estranhos, parecia uma coisa que eu ainda estava praticando muito a fazer.
Uma prática com resultados bem limitados pra se dizer o mínimo, e a minha posição naquela sala de aula, onde eu estava parada, em minha cadeira, sem conseguir falar com ninguém antes da Aula começar, mostrava o quão eu realmente tava encurralada.
Eu não tinha coragem o bastante pra falar com ninguém ali, mas eu queria falar, eu queria conferir se eu não menti pra minha Monstrinha interior, que diferente de tudo que eu já vivi, sim, existiam pessoas boas no mundo que nao eram apenas a minha familia, agente só teve o azar de ser cercada e criada por pessoas ruins.
Tentei me forçar a levantar, até entender que forçar mais iria me fazer ter um treco…aaaaaaah, por que? Era só uma conversa, não era algo que eu já não tivesse feito milhares de vezes, mas o medo, o medo em meu ser de encontrar alguém ruim e mal de primeira, o medo de estar errada, o medo que toda aquela cor, amor e alegria, era só uma armadilha pra eu abaixar a guarda e me machucar mais ainda…tudo aquilo era forte demais para eu sequer levantar a cabeça.
Eu fiquei paralisada, e de forma instintiva, comecei a mexer no meu cabelo, já fazia muito tempo que eu não fazia isso que eu quase me esqueci o quanto aquilo me acalmava.
Mesmo depois de tanto tempo, ele tava sensível em vários lugares, mas quando eu apenas alisava ele de cima pra baixo, eu conseguia me acalmar numa velocidade que eu mesma ficava impressionada.
Levou algum tempo, mas consegui me acalmar de novo, mas ainda me sentia uma tartaruga se escondendo no casco de tão tímida que eu tava naquela hora, até que eu ouvi a voz de alguém, a doçura daquela voz era bem familiar pra mim, mas não familiar em tom pessoal, mas sim familiar em intenção.
Eu não sabia quando, mas eu fiquei muito boa em entender o tom de voz das pessoas, e a voz daquela pessoa, com certeza era o tom de alguém preocupado e que queria ser minha amiga.
???: ola, você tá bem?
Quando levantei, dei de cara com uma giganta de cabelo preto, longo e cheio como almofadas e com um nariz enorme.
Dandara: nossa, você tem um nariz gigante.

