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Uma amiga de verdade
2725 palavras • 15523 caracteres • ⏱ 10 min 54 s

Uma amiga de verdade

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Andando um pouco mais, chegamos em uma área de testes, onde vários aspirantes a monges tinham que passar por grandes pedaços de carvão para passarem por uma porta.


Saytus: nossa, pra que isso?


Dandara: é uma metáfora bem simples na verdade, a pessoas pensam que o ponto desse teste é não sentir dor, mas é bem pelo contrário, cada monge sente muita dor ali, mas eles aprendem a lidar com a dor não gritando, mas usando a energia que seria usada pra gritar e sentir a dor em coisas mais importantes, como, sei lá, andar um pouco mais rápido


Saytus: o quão diferente isso é de esconder ou ignorar a dor?


Dandara: é completamente diferente na verdade, quando nós ignoramos algo que “dói” a nossa energia não é redirecionada, ela é, como você falou, “bloqueada” enquanto o fluxo continua, continua, e continua. 


Dandara: e só existem dois caminhos quando uma energia interna é bloqueada por dentro, ou ela “transborda” fazendo com que a “dor” contamine todos os pedaços da personalidade de alguém, ou ela explode, fazendo todas as forças bloqueadas daquela dor atinjam tudo ao seu redor de forma muito mais intensa do que normalmente seria


Saytus: e como “lidar” com essa dor é diferente de “bloquear”?


Dandara: porque “lidar” com a dor é dizer em sua própria cabeça, “sim, eu sei que dói, mas ao invés de gritar, reclamar, e espernear que ta tendo, eu quero direcionar essa energia pra outra coisa”. 


Dandara: e usando a dor como uma metáfora, quando você admite que a dor está ali, ela não é mais um problema sem rosto, agora ela e algo que voce encherga, entende, e pode lidar. Como certos monges dizem: voce deu um nome ao seu demônio, e sabendo o nome de um demônio, vencê-lo se torna mais fácil.


Quando eu falei essa última frase, a Saytus olhou pra mim com um olhar bem espantado, um olhar que ficou mais fácil pra mim de reconhecer no rosto dos outros do que o olhar de felicidade. 


Pelo quão frequentemente e via olhares de surpresa ultimamente, mais que olhares de felicidade.


Dandara: pode ser lento, doloroso e muito dificil, mas pelo menos você já sabe como fazer algo sobre isso, e mesmo que um pouco, você vai estar muito melhor do que apenas ignorando a dor


Saytus: uau


???: e o que acontece quando existe mais de uma dor?


Quando me virei, eu tava esperando ver minha mãe, mas não, era um aluno que tava vendo as várias palestras, e tinha muitos alunos ao redor de nós.


E quando eu olhei ao redor de nós, vi que muitas crianças estavam ao redor de mim, tentando aprender de mim, a é, às vezes eu esquecia que todos tinham lugar de fala aqui, qualquer um podia ser um palestrante, desde que ela tinha algo interessante pra dizer a todos, e pelo jeito, eu tinha.


Olhando ao redor dos alunos, eu vi minha mãe no meio delas, sorrindo pra mim e dando um joinha, e tendo quase uma “confirmação” da minha mãe, eu respirei fundo, e me preparei para ensinar algo a aqueles alunos.


Eu respirei fundo e tentei não ficar nervosa com todas essas pessoas em volta de mim, e pra isso, tive que imaginar todos como bonecos de madeira, e isso conseguiu me acalmar um pouco.


Dandara: nesse caso é ainda mais importante você conseguir entender porque você está nervoso, jovem, se tem mais de uma coisa te preocupando, te estressando ou te machucando. Então você tem que sentir e classificar cada dor, lidar com a pior dor primeiro, e depois ir diminuindo até lidar com a menor dor


Aluno1: e como eu sei qual dor eu devo escolher primeiro?


Dandara: segue sua intuição, vai no instinto.


Colocando a minha mão no peito, me lembrei do tempo em que eu tinha descoberto que eu tinha a Singularidade do Vazio, eu tava com muitos, mas muitos problemas mesmo. 


Mas eu ainda sabia que no fim, me manter segura de mim mesma era o mais essencial, por isso entrei na casa de reabilitação, mesmo que eu tivesse com muitas coisas pra lidar ainda.


Dandara: muitas vezes você vai sentir que “tudo dói, mas eu devo cuidar disso primeiro”.


Depois que eu falei aquilo, muitos continuaram sentados, esperando que eu falasse mais, mas acabei só dizendo.


Dandara: (risada sem graça) desculpa gente, eu não preparei um discurso tão grande, só estava conversando com minha amiga sobre o teste do chão em chamas e então falei isso


Aluno2: sem problemas, só isso já foi uma coisa boa pra nós, não é pessoal?


Os outros alunos que vieram até mim concordaram e depois se dispersaram com educação, com comprimento, se espalhando em outros montinhos de palestrantes. Eu tava envergonhada demais pra falar, mas a Saytus me protegeu e me levou pra perto da escadaria.


Saytus: você é a garota mais inteligente que eu conheço, sabia?


Dandara: isso porque você não conhece a Princesa Isabelly


Saytus: Dan, não é uma competição, para de pensar tanto nisso


Dandara: hehe, e, você tem razão…amiga.


Amiga…amiga…amiga, essa era uma palavra tão bonita, sem segundas intenções, sem nuances, sem algo que eu preciso ter pra amizade ser digna de mim. 


A Saytus era minha amiga, apenas isso, e nada mais, eu não sabia se a Saytus entendia o quanto ela era importante pra mim, mas eu queria que ela soubesse o quanto era especial em meu coração, eu queria falar isso pra ela.


Dandara: você é muito especial pra mim, saia disso?


Saytus: eu tenho uma pequena noção


Dandara: o meu príncipe se aproximou de mim porque ele me amava, e eu sempre vou ser grata a ele por isso, mas você, você quis ser minha amiga por motivos que eu ainda nao entendo, nao sei se vou conseguir entender um dia porque você me deu aquele sorvete naquele dia


Saytus: não tem nada pra entender Dandara, eu apenas te dei aquele sorvete porque não queria que você comece um que você não gostava, e quando agente conversou, pensei que você era uma Sapien legal, nada demais.


A minha boca fez um O perfeito quando ela falou aquilo, a Saytus nem sempre falava coisas normais, porque, bom, ela era uma Fada e nossas esculturas eram diferentes, mas ela, falar aquilo me pegou muito de surpresa.


Dandara: eu? A eu daquela época? Legal?


Saytus: e, isso mesmo.


Eu queria falar alguma coisa, qualquer coisa pra Saytus, mas depois do que ela disse, eu apenas comecei a rir de descrença, porque, a Saytus falar comigo naquela época só por me achar legal era algo que até superava o que meu príncipe fez.


Sim, meu príncipe se aproximou de mim, mas foi por amor, enquanto a Saytus, ela apenas fez aquilo porque ela tava afim, era mesmo possível que alguém fosse tão “solto” assim quando se era questão de risco?


Nossa, elas nao eram chamadas de “raça guerreira” atoa


Dandara: nossa, você é insana


Saytus: eu escuto isso mais do que gostaria, então, pra onde vamos agora?   


Dandara: ah, vem vem vem vem vem.


Quando me recuperei um pouco, continuamos andando tranquilas até um lugar que era o candidato a ser meu lugar favorito no Reino Gigante, o templo dos pensadores. 


Diferente dos outros prédios, aquele templo era quase 100 vezes maior do que os outros, tinha pedras mas duras e pesadas, o fazendo parecer muito mais blindado que os outros, e com uma porta de ferro que parecia tao protegida quanto os grandes portão da escola de Golens.


Mas dentro do templo, o ambiente não podia ser mais calmo, pois em seu interior, não tinha nada além de uma grande gama de panos cobrindo vários pontos do lugar, junto de uma gama de quase 100 gigantes sentados em almofadas.


Todos os gigantes eram idosos e com barbas gigantescas, parecendo estar na casa dos 500 anos (100 anos Sapien). E todos eles estavam sentados em almofadas e refletindo sobre os maiores mistérios desse mundo doido que vivíamos. 


Mae: hmhmhm, eu sempre tenho uma vibe muito gostosa quando visito esse lugar.


Ah, é, a mamãe ainda tava lá conosco, eu continuava esquecendo que minha mãe tava ali comigo, mas que coisa, porque eu fazia isso?


Mas sentindo a vibe que minha mãe falou em mim mesma, eu meio que parei de pensar muito nisso também.


A mana naquele lugar era pesada, mas não de hostilidade, mas de intensidade, era quase como se o ar tivesse se densificado até virar uma água, mas que não era água, causando uma atmosfera que era difícil de respirar, mas não impossível.


Pelos boatos que eu li, pessoas mal treinadas se sentem sufocadas apenas de entrar ali, e alguns até se afogavam na mana, de tao densa que a mana era.


Mas por mais difícil que fosse respirar lá, eu e as minhas duas acompanhantes andávamos lá dentro, apenas tendo que ter uma atençãozinha maior em nossas respirações, só sentindo que o ar estava mais pesado que o normal, mas não sufocante, como muitos pareciam dizer que era estar ali.


Eu via em seus rostos, suas poses de paciência e até em seus pensamentos soltos em murmúrio, cada gigante ali tentava se dedicar a aprender todos os segredos do universo, a razão de existirmos, o que era a mana? Por que as pessoas nascem diferentes? Existia algo antes de nós? o que existirá depois de nós?


Dandara: esse lugar é muito lindo


Saytus: eu não entendo o que você vê…mas meus corações concordam com você


Dandara: um dia você vai conseguir conversar direito com seu corpo, (toca o próprio coração) eu tive que gastar altos papos comigo mesma pra conseguir me comunicar direito com meu corpo, então, com o tempo você vai acabar conseguindo, so seja paciente


Saytus: é, eu espero.


Desses 100 gigantes, eu tinha o mais profundo respeito pelos 10 gigantes principais, gigantes que faziam uma pose de lótus com suas pernas dobradas e com suas mãos juntas em um símbolo de meditação que eu não conhecia de tão antigo que elas eram. 


Aqueles 5 gigantes eram tidos como os gigantes mais velhos do mundo, tendo uma idade impressionante de 2000 anos(400 anos sapiens) esses 4 eram velhos até para gigantes, e por causa disso, o conhecimento que eles carregavam era o que liderava todo esse templo.


E considerando o quão bom o Reino estava até agora, podia presumir que eles estavam fazendo um excelente trabalho quando não estavam meditando.


Não atrapalhamos nem fizemos nada, apenas observamos, mas durante nossa pequena estadia lá, olhei bem perto para os gigantes reunidos juntos e sussurrei.


Dandara: eles estão tentando achar a Criadora


Saytus: eu pensei que vocês magos tecnicos não acreditassem em Deus


Dandara: ah S, assim você me ofende, ninguém acredita tanto em Deus quanto nós, nos apenas acreditamos em algo diferente de um cara barbudo sentado num trono que consegue distorcer a realidade como quer pois ele a criou pra início de conversa


Dandara: não, nós acreditamos sim em Deus, mas enquanto outras raças adoram uma visão imaginária de Deus, os Magos tentam encontrar um verdadeiro Deus, um ser perfeito, todo poderoso e com vontades o suficiente para nos criar


Saytus: ah, desculpa, mas agora eu boiei um pouco


Dandara: ok, tenta acompanhar meu raciocínio, você já parou pra perceber que, em questão de “leis da física” tudo que existe no nosso mundo é perfeito?


Saytus: ok, estou acompanhando, pode continuar


Dandara: então, tudo no nosso mundo é tão resistente, tão frágil, tão grande, tão pequeno, tão rápido, tão lento, tão forte, tão fraco, tão quente, tão frio, tão letal, tão inofensivo quanto deveria ser. Tudo que existe tem a necessidade e a quantidade certa pra existir…


Saytus: uhum, unhum


Dandara: e quais as chances de isso acontecer por coincidência, S?


Saytus: uma coincidência ou outra poderia até passar, mas, o planeta inteiro? (balança a cabeça) não teria como tudo ser coincidência, (sorri) tô acompanhando, pode continuar


Dandara: não tem mais o que falar, S, nós buscamos e acreditamos em Deus também, só não o chamamos de “Deus”, mas sim “criador”, pode parecer a mesma coisa, mas não é


Saytus: e qual é a diferença?


Dandara: nós acreditamos que “A Criadora” é algo que é incompreensível por mentes comuns, que possui um nome impronunciável, e apenas com o desejo mais puro de conhecê-lo totalmente nós conseguimos realmente o encontrar.


Eu tinha aprendido sobre toda a história sobre a Criadora há poucas semanas, mas fiquei tão fascinada em tudo sobre a “Deusa” dos elfos e dos gigantes que eu me converti quase imediatamente.


Os Galdinos não acreditavam em Deus, não, eles não acreditavam que podia existir um ser superior a eles, mesmo que fosse um Deus “convencional”.


Mas não querendo transformar aquele momento em um momento triste e pesado, eu parei de pensar de forma tão pesada nisso, e apenas continuei falando de forma feliz.


Dandara: não sei se estarei viva até lá, mas meu maior sonho é conseguir ver, ver eles conseguirem, ver eles acharem “A Criadora”, apenas pensar que, um ser como esse, um ser que transcende o que nós pensamos entender pelo universo não é fascinante?


Saytus: fascinante e assustador ao mesmo tempo, imagina olhar a criatura que criou tudo que você conhece nos olhos, parece ser assustador


Dandara: e ironicamente e por isso que quero tanto encontrar…sinto que fico melhor cada vez que venho aqui.


Era meio doido pensar que, apesar da Saytus ser alguém que parecia tão inteira e tranquila não conhecer direito o Reino Gigante, eu sabia que as Fadas deviam ter sua própria filosofia e jeito de pensar.


Mas ainda era muito doido pra mim como alguém tão completo como a Saytus poderia existir sem conhecer os Gigantes…eu não pensei que algo além dos gigantes conseguiriam ter uma iluminação tão grande quanto ela…


Mas, pra variar, eu estava errada, pela forma que a Saytus parecia ter aquilo que muitos dos meus colegas pacientes lutamos muito pra ter, “propósito”, por isso ela parecia tão completa, comparada a maioria das pessoas que eu conheci.


Eu olhei pra Saytus por um bom tempo, contemplando um pouco a completude dela, até que eu percebi que ela tava olhando pra algum lugar, e mais uma vez, eu olhei pra trás, e vi a minha mãe, em um canto específico do templo, com os olhos fechados, e mudando o peso do corpo prope esquerdo pro pé direito, como se tivesse dançando.


Ao ver aquilo, eu respirei fundo, e a imitei, eu fechei os olhos, e prestei muita atenção no que tava ao redor de nós…então, eu comecei a ouvir uma musiquinha.


Aquela não era uma música criada através de falas, era uma música criada através da música, que pareceu fazer meu cérebro brilharem várias cores e luzinhas diferentes dentro da minha cabeça, até eu entrar num estado novo, onde eu não estava acordada, mas também não estava dormindo. dormindo ou acordada, mas que ainda era bom demais.


Dandara: o que nós estamos fazendo?


Mãe: eu não sei, mas é bom demais.


E nisso, eu concordava com a minha mãe, pois eu tambem nao sabia o que agente tava fazendo, só sabia que era bom. Nós ficamos daquele jeito, ali, só ouvindo a música mental que a magia daquele templo criava por um bom tempo. A ponto que até a Saytus se juntou a nós, mesmo que não entendesse direito o que agente tava sentindo ou vendo.


E depois de sentir aquilo por um bom tempo, eu só falei 


Dandara: pra mim já deu, e vocês?


Mãe e Saytus: pra mim também.


E depois daquele dia maravilhoso que tiv com duas das mulheres mais incríveis que já conheci na vida,eu me preparei pra descer as escadas e voltar ao Reino Sapien.


Foi um dia divertido, mas já tava na hora de ir pra casa, então nós andamos e fomos em direção as escadas bem rapidinho , então ela olhou pra mim de novo, e depois falou.


Saytus: sei que agente nunca se falou muito antes de você entrar na casa de reabilitação, mas eu sinto que to conhecendo a verdadeira você agora


Dandara: eu também sinto que só to me conhecendo de verdade agora, fadinha, eu também.


Nos três cantarolamos a canção que ouvimos no templo até nós chegarmos na escada, e logo iríamos voltar pro caos que eu estava passando a amar.


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