logo do projeto lunar

Capa
Olhos de mel 🌻X
A última ligaçao
1545 palavras • 8824 caracteres • ⏱ 6 min 11 s

A última ligaçao

0
0
0

Estava bem escuro, muitas velas estavam ao redor de mim, e muitas tochas também, junto da Diretora da minha antiga escola, ela olhava pra mim com uma mistura de pena, compreensão e felicidade. 


Não era nem um nem outro, eram os três ao mesmo tempo, tudo enquanto segurava a varinha que estava quase se tornando um bastão, mas sequer era grande o bastante para ser um bastão.


Diretora: tem certeza que quer fazer isso jovem Dandara?


Dandara: desde que eu comecei a sentir coisas de novo, eu tenho sido bem sincera por muitas coisas, mas isso, isso eu tenho a mais absoluta certeza


Diretora: essa varinha deve ter lhe causado muita dor, mas tenho certeza que ela deve ter muitas lembranças boas também


Dandara: é, tem mesmo, mas todas as lembranças boas são completamente engolidas pelas lembranças ruins, não vale a pena essa varinha continuar existindo.


A diretora entendeu e apenas me permitiu continuar isso, além do sangue, aquilo talvez fosse a última coisa que eu tinha que pertencia a minha antiga família, eu coloquei força em lados opostos da varinha, e ela resistiu, tentou se manter dura, tentou ficar forte, impedir que aquilo acontecesse.


Ironicamente, isso fez com que ela ficasse mais fácil de partir, naquele ato, muitas lembranças, de mim desmaiando, indo pro hospital e ninguém da minha família estando do meu lado, dos gritos que eu constantemente levava dos meus pais, e das brigas constantes que eu tinha com meus irmãos. De vez em quando, uma imagem deles me abraçando, me dando um bolinho, ou apenas sendo gentis comigo, apareciam, mas tinha tantas lembranças ruins, que essas poucas boas eram totalmente esmagadas e reprimidas. 


Com o rosto cheio de fúria e ódio, eu parti a minha varinha ao meio e algo peculiar aconteceu, ela começou a soltar magia, uma magia bem bonita, fofinha e linda que estava presa naquela madeira feia, ela parecia tão alegre de ter sido libertada daquela prisão, e vendo a madeira da varinha queimar até virar cinzas, eu me senti bem melhor comigo mesma, como se um peso tivesse saído das minhas costas.


Dandara: oh minha jovem, como se sente?


Era engraçado que tantas pessoas começaram a perguntar isso pra mim, e o mais engraçado é que eu amava sempre responder a pergunta.


Dandara: melhor


Diretora: quer ajuda pra conseguir uma nova varinha?


Dandara: não precisa, eu vou ir com meu pai na loja


Diretora: ah, você vai na loja com o senhor Rodrigues? Sortuda, ele é um grande especialista em varinhas


Dandara: sério? bom saber.


Depois daquilo, eu saí pela claraboia da minha antiga escola com minha vassoura, antes de ir pro meu caminho, agradeci a Diretora por aquilo, deve ser difícil alguém ocupada como ela me ajudar a “quebrar” a última coisa que me ligava a minha família. 


Eu voei bem baixinho depois de algum tempo, até me encontrar com uma fadinha de 4 braços e 4 pernas muito especial, depois de colocar magia em minha vassoura e a encolhi até ela virar apenas um bracelete em meu pulso, tentei apenas ficar tranquila com a fada no meu lado, mas enquanto subia as grandes escadas transparentes daquele lugar, percebi que ela estava preocupada.


Saytus: você fez mesmo aquilo?


Dandara: sim, eu fiz


Saytus: se sente melhor?


Dandara: não tanto quanto eu queria, mas sim


Saytus: vai quebrar a vassoura também?


Dandara: não, pode ser difícil de entender, mas eu sinto que aquela varinha, não importa o que eu via, era apenas algo dos meus pais, não algo meu, isso junto com minha magia antiga, antes de eu virar uma dançarina, muito dos meus antigos pais e pouco de mim, mas a minha vassoura é o oposto, ela tem tão pouco dos meus pais que sinto que posso trabalhar para que tenha apenas eu nela depois de um tempo.


Ainda andando pra cima, comecei a olhar o bracelete, pensando em todas as vezes que eu fiquei em cima de uma vassoura antes de conhecer  Antônio, antes dele, talvez minha vassoura tenha sido a única coisa que me impediu de enlouquecer, e eu não sabia até onde isso era bom ou ruim.


Saytus: eu espero poder amar algo um dia tanto quanto você ama essas vassouras


Dandara: todo mundo tem uma paixão Saytus, você só não descobriu a sua 


Saytus: talvez, então, onde você quer ir primeiro?


Dandara: pra lá.


Falei isso assim que nós chegamos no topo da escada, e entramos no reino dos gigantes, alem da praça de palestras rincipais existiam vários prédios em volta da praça, nos entramos em um dos prédios e chegamos em uma academia de Yoga, e depois de me trocar, comecei a participar.


Esticando meu corpo, deixei todas as partes ruins de mim saírem, e respirando bem fundo, senti todo meu corpo tenso, e depois de desfazer a pose, me senti ainda mais relaxada.


Contando hoje, passei 3 meses fora da casa de reabilitação, e apesar de tudo, estava sentindo que as coisas estavam começando a funcionar agora, eu não tinha muito tempo até que meu amado fosse embora pra realizar seu sonho, já pra mim, eu estava apenas começando o meu, mas eu não precisava pensar nisso, não ali, ali eu só tinha que me preocupar em esticar meu corpo tanto quanto o instrutor, algo que mesmo desejando muito, era difícil pra caramba por ele ser um gigante, então todos os alongamentos dele eram fora do normal. 


E depois do alongamento básico, fomos colocadas de pé e depois começamos uma pequena dança de ritmo, não era algo espalhafatoso, muito pelo contrário, cada movimento parecia manter as partes agora alongadas do meu corpo ainda relaxadas, movimentos que faziam minha mana empurrar e limpar minhas veias, e jogando meu cabelo as vezes pra trás, me sentia a garota mais completa do mundo enquanto terminavamos o movimento final com uma pureza em meu coração que eu tentava manter com todas as minhas forças sempre que ela aparecia, mas pra variar, a pureza desapareceu e foi infectada por muitos outros sentimentos, mas mesmo infectado, a mente dessa nova “eu” era algo que eu amava de forma indescritível.


Gigante: muito bom irmãos e irmãs, espero vê-los novamente amanhã.


Depois fomos dispensados para fora do prédio, e apesar do quão bem eu estava depois do que eu passei na casa de reabilitação, sempre me sentia renovada quando saia de uma boa sessão de relaxamento. Pra variar, eu estava estressada naquele dia também, nem sabia o porque, eu apenas estava estressada.


Eu saí da sala de yoga do reino dos gigantes com bastante calma e de olhos fechados, de tão sonolenta que eu estava, até que uma outra giganta esbarrou em mim de propósito, e pela risada doidinha.


Dandara: você realmente gosta de encher meu saco, não é Saytus ?


A prendi numa chave de braço e comecei a fazer cascudos nele, ainda me impressionada como eu conseguia prender uma fada assim, e quando a soltei, a gente riu um pouco e caminhou um pouco mais.


Saytus: ainda estressada?


Dandara: ainda estressada.


Apesar de gostar muito da garota, eu me sentia muitas vezes como um gatinho de rua que ela adotou, e o mais estranho era que eu não me sentia nem um pouco ofendida com isso, no fundo eu era mesmo uma gatinha de rua, além do fato de eu dividir uns neurônios com ela muitas vezes.


Não era a primeira vez de nenhum de nós aqui, então ao invés de irmos para as palestras logo de cara, nós fomos em um ponto bem interessante do templo, que não fazia ideia se o Antônio sabia se existia ou não. 


Era um ponto do templo onde vários gigantes faziam esculturas de massa de pessoas específicas que eram pedidas de antemão, e você poderia espancar a escultura quanto quisesse sem se machucar, a Saytus nunca tinha uma estátua pra esmurrar, mas eu tinha ido lá tantas vezes, que o escultor que eu ia até já me conhecia.


Escultor: Ah, senhorita Dandara, ola, vai ser o mesmo de sempre?


Dandara: (sorri) sim por favor.


Ele apenas perguntou isso e deixou as estátuas já prontas bem na minha frente, então eu olhei, meu pai, minha mãe, meus dois irmãos mais velhos, minhas duas irmãs mais novas, todos eles ascenderam a maior raiva e fúria que tinha em meu interior. De todos os sentimentos que perdi, acho que a raiva foi a primeira a voltar completamente e ela voltou mais forte do que nunca.


Eu não usei magia, apenas bati com força, as estátuas eram macias para se deformarem sem machucar minhas mãos, eu bati em cada estátua com uma fúria tão intensa que quando terminei, com nada além das minhas mãos cobertas de massa, e uma respiração ofegante. Era assustador ver que as estátuas não eram mais nada além de uma grande pilha de entulho, sequer podiam ser chamadas de estátuas agora.


Saytus: eu to com pena se um dia você reencontrar com um deles


Dandara: se eu os reencontrar, eles que virão atrás de mim, e eu vou fazer eles se arrependerem disso.


Falei isso enquanto amassava a massa que tava na minha mão, e a Saytus não deu nem uma tremida quando fiz isso, talvez acreditando que eu  nunca machucaria ela, e talvez ela estivesse certa, então continuamos.


Comentários (0)

Seja o primeiro a comentar ❤️

Seja respeitoso. Comentários são públicos e não podem ser apagados.