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Olhos de mel 🌻X
2+2=4
1751 palavras • 9964 caracteres • ⏱ 7 min 00 s

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Nos ficamos no escuro por um bom tempo, ate que, depois de alguns minutinhos apenas olhando pro escuro, e finalmente sendo permitida devaneiar sobre tudo na minha vida sem ser interrompida, o Antônio se levantou e acendeu a luz, e eu odiei aquilo. 


Dandara: aaaah, que saco, eu queria ficar deitada daquele jeito pra sempre


Antonio: eu também ruiva, mas a Criadora e alguém muito cruel quando quer tambem, entao nao podemos ficar de bobeira no escuro o tempo todo


Dandara: Aaaaaaah, acho que você me contaminar de alguma forma, porque eu to começando a ficar com ódio da luz também, humpf


Antonio: nossa, eu fiz isso? Desculpa então, mas fica difícil gostar da luz depois das coisas que nós fizemos no escuro


Dandara: hehehe, pior que é mesmo.


O meu Príncipe olhou com um rosto cúmplice pelo que agente fez, mesmo que agente não tivesse chegado nem perto de cruzar aquela linha ainda.


Mas logo depois que eu parei de brigar com a luz do quarto do meu Príncipe, eu me peguei olhando com cuidado pro quarto do Antônio.


Apesar de não ser minha primeira vez ali, eu sempre me impressionava que ele era exatamente como eu esperava, e ao mesmo tempo, nem um pouco como eu esperava. o quarto gritava “Antonio Carvalho”, enquanto tinha algumas surpresas nele também.


Ele tinha paredes azuis escuras, com quadros de parentes e amigos que ele tinha, bom, 4 amigos, o Davi, o Brutus, a Saytus e eu. 


Ele tinha uma mesinha branca, que tinha um quadro dele com a família ao lado de vários cadernos que pareciam bem velhos e desgastados. E ao mesmo tempo, muito bem cuidados.


E a cama dele era o que mais se destacava, era macia, mas era coberta por um edredom preto recheado com pontinhos brancos, como constelações. Um travesseiro idêntico a um sol, amarelo e cheio de manchinhas brancas, e por baixo uma lona azul clara.


Mas o que sempre me chamava a atenção no quarto do meu Príncipe era um quadro bem simples de frente pra cama dele. 


Era talvez, a fórmula matemática mais simples de toda a terra, 2+2=4. Era um quadro branco com nada além de 2+2=4 em preto de forma grande.


Aquele quadro se destacava de quase tudo no quadro do meu Príncipe, antes de ir pro centro de recuperação, eu já tinha curiosidade pra saber o que aquele quadro significava, mas eu era tímida demais na época, eu era timida ate pra perguntar algo como isso


Mas depois de ter entrado e saído da casa de reabilitação, e ter passado por tudo e mais um pouco com meu Príncipe, acho que fiquei íntima dele e corajosa o suficiente pra perguntar o que aquele quadro significava.


Dandara: aí Antônio


Antônio: fala


Dandara: o que aquele quadro significa?


O Antônio olhou pro quadro, mas quando ele o viu , ele ficou alguns segundos o analisando, depois ele fechou os olhos, e lentamente deu um sorrisinho de nostalgia, enquanto abria levemente os olhos.


E olha só, naquela simples piscada, os olhos do meu principe ficaram bem mais iluminados, já tava vendo que a história daquele quadro devia ser boa.


Antônio: é um lembrete pra mim mesmo


Dandara: lembrete de que?


E depois de eu perguntar isso, a nostalgia dele pareceu estar lutando com os traumas dele, pra ver quem iria liderar as próximas falas do meu Principe. E felizmente, depois de uma batalha mental intensa, a nostalgia ganhou. 


Antônio: lembrete de que, eu sou eu, e nao tem nada de errado nisso…(respira fundo e solta) desde que eu me entendo por gente, eu gosto de entender a lógica exata das coisas, se você leva um tapa na cara, você sente dor, se você faz algo que deixa alguém incomodado, ele fica irritado com você, mesmo que um pouco, e se você procurar fundo o bastante, você pode entender o que você realmente é.


Ele falou essa última parte olhando as próprias mãos, como se tivesse entrado em alguma espiral de pensamentos e reflexões, antes de continuar.


Antônio: nem todas as perguntas do mundo estão respondidas, mas muitas delas também estão respondidas, respostas e perguntas o bastante pra ficarmos entretidos e juntos até encontrarmos as respostas que faltam…


Antonio: e é isso que essa pintura significa, eu não tenho todas as respostas do que eu sou…ainda tô buscando essas respostas, mas sei que elas existem em algum lugar, pois nunca existiu uma pergunta sem resposta no mundo, mesmo que tivesse demorado pra encontrar muitas. Hoje, todos sabem que 2+2=4, mas imagina na época que descobriram isso? Devia ter sido a descoberta do século.


Dei umas risadinhas e ele parecia feliz de me fazer rir.


Antônio: enquanto o mundo continuar sendo o mundo 2+2 sempre será igual a 4. Ao mesmo tempo, enquanto o mundo for mundo, toda a pergunta tem uma solução, pode ser a errada, distorcida, ou incompleta? Sim, mas elas existem, e é nosso dever como animais inteligentes encontrá-las, entende?


Nossa, aquilo parecia tão…grande, o meu príncipe insistia em dizer pra mim que eu não deveria pô-lo em um pedestal, mas como ele podia falar aquilo e depois me falar coisas assim? Parecia discordância demais pro meu gosto.


Mas apesar de ainda o amar muito, eu reconhecia que o que eu estava sentindo agora não era paixão ou amor pelo que ele falou, eu já sentia tudo isso naturalmente “amá-lo só por ele ser ele” como pesquisei. Não, não. 


O que eu estava sentindo agora era puro orgulho e admiração. Orgulho de ter me apaixonado por alguém tão inteligente como o Príncipe. 


E também admiração por ele conseguir falar esse tipo de coisa na minha frente como se não fosse nada demais. 


Por menos saudável que isso fosse, ver ele fazendo essas coisas me fazia querer ser igual a ele um dia.


Dandara: hehe isso parece inalcançável demais pra mim é grandioso demais pra mim também


Antônio: e como exatamente? Você parece já ter descoberto muitas respostas.


E aquele simples comentário me calou por completo, Aaaaaaah, então isso que as “respostas” eram, não era apenas coisas super complexas e super difíceis de entender, era apenas…


Antônio: nós.


Ele…leu minha cabeça?


Antônio: muitos desejam descobrir tudo, em muitos momentos, eu desejo isso também, mas antes de eu descobrir o que tem ali. (Aponta pra janela) Sinto que preciso entender o que tem aqui(toca a cabeça) e aqui(toca o peito). Não ligo se você não tiver o mesmo sonho que eu, mas essa jornada inicial…hehe, eu sinto que todo humano deveria passar por isso, ou eles podem perder a própria humanidade no caminho, mas isso sou só eu, o que você acha?


Dandara: tá se brincadeira né? EU CONCORDO COM VOCÊ COMPLETAMENTE!


Não sabia porque, mas eu agarrei ele com um braço e fiz cascudos nele, enquanto pensava isso,  foi infantil e muito do nada, mas o Antônio pareceu gostar.


Antônio: hahaha, o que é que foi isso?


Dandara: não faço ideia.


Quando o soltei e me dei a chance de respirar de novo, decidi ir com meu Príncipe até a sala pra, sei lá, pra gente fazer qualquer outra coisa.


No meio do corredor, percebi que tinham vários quadros de parentes da família Carvalho ali, e como sempre, meu Príncipe parou alguns segundos no quadro do bisavô dele, ele tinha muito amor pelo avô, e tinha certeza que o avô tinha a mesma Singularidade que ele, mas se tinha, ninguém nunca descobriu.


O meu Príncipe sempre ficava triste quando olhava aquela pintura, e eu nunca pensava muito quando ficava olhando aquela pintura por muito tempo, mas agora, com a minha mente um pouco melhor, eu apenas conseguia pensar numa coisa: “de quem eu herdei a Singularidade do vazio?” 


Pois pelo que eu descobri, algumas Singularidades são herdadas, tanto que, as chances que os meus filhos herdem a Singularidade do Vazio de mim eram muito altas.


E tudo que eu poderia fazer seria amá-los com tudo que tinha e cuidar de todos os problemas que eles tivessem do melhor jeito que conseguia.


Eu tinha passado por muitos perrengues até chegar nesse pensamento, mas eu estava mais que preparada pra cuidar de meus filhos, mesmo se eles tivessem a minha Singularidade a do meu Príncipe combinadas, eu não ia desistir deles…


Ninguém nunca mais iria passar pelo que eu passei, pelo menos não comigo por perto, sim, eu poderia cometer vários erros, mas não serão os mesmos erros “deles”. 


Eu iria ser melhor, pelo Antônio, por meus novos pais, pelas minhas futuras crianças, mas principalmente, eu ia ser melhor por mim mesma. Tanto pela minha versão do presente, quanto pela minha versão do passado.


E no meio desses devaneios que tava tendo junto do meu príncipe, nos dois acabamos chegando na sala de jantar, onde um lanche tava rolando com pães, queijo e suco, onde o Sir Pedro, o irmão mais velho do Antonio, e a Lady Marcela, a mãe do António, já estavam se esbanjando com pãezinhos.


E mesmo comigo sendo só uma convidada naquela mesa, assim que eu me sentei ali, eu me senti bem vinda, como se aquela fosse minha segunda casa, e se meu relacionamento com o meu Príncipe continuasse tão boa quanto estava agora, isso não era algo tão estranho de se falar ou imaginar.


Enquanto comiam os pães, senti com mais cuidado como eu estava entre várias pessoas que me amavam, mesmo não sendo minha família de sangue e nem a adotiva, e perceber esse simples fato fez eu ficar tão feliz que eu quase chorei de novo.


Mas pelo jeito, a minha felicidade parou no ponto perfeito pra eu nao chorar, mas ter mais do que felicidade o bastante pra me levantar da cadeira e fazer algo que minha “eu do passado” não conseguia imaginar, nem nos seus sonhos mais doidos e criativos.


Dandara: se todo o sofrimento que passei foi pra encontrar isso, então acho que valeu a pena, mas acho que nunca iria querer passar por aquilo de novo. (Pega copo de suco) Um brinde a “nunca fazer isso de novo”


Todos: SAUDE.


O tintim de vários copos de suco foi dado com com a Lady Marcela e o Sir Pedro riam enquanto eu e meu Príncipe continuamos agarrados um no outro igual chiclete.


O futuro, eu não fazia ideia o que o futuro tinha pra mim, mas com tudo que consegui, estava pronta pra aguentar de peito aberto tudo o que o mundo pudesse mandar pra cima de mim como a campeã que eu sabia que era.


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