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Olhos de mel 🌻X
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Eu, tava, no, quarto, do Antônio. E, apesar de eu saber que o meu Príncipe não era alguém que entendia muito bem o senso comum muito bem, e que agente ERA íntimo a ponto dagente ficar sozinho no quarto dele e ninguém suspeitar nem um pouco do que agente tava fazendo, ainda fiquei nervosa estando no quarto dele. Ainda mais pelo quão escuro ele tava naquela hora.


Pelo jeito, ele não ficou parado enquanto eu tava melhorando na casa de recuperação, pra começar, a pequena varinha que o meu Príncipe tinha, mudou, e agora, ela era um forte e robusto bastão, que parecia uma grande combinação de raízes, misturada pra fazer um bastão-varinha.


Mas considerando as circunstâncias que eu estava agora, a mudança da varinha do meu Príncipe era a última coisa que eu me importava agora.


Isso porque, o fato de que eu tava no escuro NO QUARTO DO MEU PRÍNCIPE parecia estar me afetando bem mais do que eu mesma parecia entender, nós estavamos em cima da cama dele, ajoelhados de frente um pro outro e totalmente vestidos. 


Ele sempre me surpreendia com esses encontros que nós tínhamos, mas tinha que admitir que…com meus sentimentos normais, no melhor do possível, eu tava um pouco nervosa, finalmente notando que eu estava no quarto de um garoto, mesmo que o Antônio parecia não ligar (e se ele ligava, ele escondia isso muito bem).


Antônio: ok, vejo que você chegou em um lugar muito bom, assim que eu mesmo cheguei em um lugar ótimo, mas sinto que já está na hora de irmos pra um novo nível de autoconhecimento.


Ele falou isso enquanto enlaçou os dedos nos meus, eu quase perdi a voz com o movimento, mas consegui me manter tranquila e calma na medida do possível.


Dandara: o que quer dizer?


Antônio: quero fazer um exercício com você


Dandara: que exercício?


Antônio: eu quero que fechemos os olhos e imaginemos que o nosso “eu mais novo” esteja na nossa frente


Dandara: o quanto mais novo?


Antônio: não sei, o momento em que você sente que você mais precisava de uma conversa com alguém que te entendia, pra mim tem vários momentos, mas o maior deles é quando eu tive que me preparar pra vários testes.


Então o meu querido Príncipe fechou os olhos, e em meio a fraca luz da pequena vela no meio de nós dois, eu pude ver o rosto do meu príncipe por fundo bem devagar. 


O que era interessante, pois, mesmo o vendo com muita dificuldade, ainda não sabia por completo o que ele estava pensando até eu ver ele ficando cheio de medo, foi interessante pois eu nunca vi ele fazendo aquela cara, nunca vi ele tão assustado assim.


Fiquei pensando se eu devia falar algo pro meu Príncipe, mas pelo jeito, não era eu que precisava falar nada ainda.


Antônio: oi, hehe, sei que tá surpreso mas olha…você…não precisa se esforçar tanto, não tem nada de errado em relaxar um pouco pra sua cabeça ficar melhor…


Uma longa pausa, como se o outro Antônio tivesse o respondendo.


Antônio: não se preocupe com isso, ninguém liga tanto pra isso, você já fez o suficiente, não fique pensando com o que você não conseguiu fazer, pense no que você fez


Antonio: idaí se você não conseguiu uma nota perfeita? Você conseguiu uma nota quase perfeita, e isso é demais, e olha tudo que você já fez, você já passou por tantas aulas, aprendeu tantas artes marciais e tantos estilos, leu tantas coisas…nunca, deixe ninguém te dizer que você precisa se esforçar mais do que consegue, entenda, e nunca ignore quando você notar que não aguenta mais…


Mais uma pausa, e pela reação do Antônio, se encolhendo e se protegendo, pensei que o outro Antônio estava gritando com ele.


Antônio: ahhhh, eu…o papai não ama agente, ele está tentando usar nosso amor pra nós fazermos o que ele quer, ele nos quer contra a mamãe, ele nos quer sempre do bom e do melhor, e ele quer que nós sejamos os homens perfeitos que não gritam, não choram e não sentem nada nunca, assim como ele foi ensinado…sim…sim…sim…sim…não ligo se você não acredita em mim, mas saiba que vou continuar te falando isso de novo, de novo e de novo. Até você acreditar em mim.


Mais uma pausa, agora com o rosto do Antônio se enchendo de tristeza. 


Antônio: e não confie no que ele diz, tudo isso que você está sentindo, não é maluquice, você nunca foi maluco…(respira fundo) você não é e nunca foi maluco, você é um menino lindo, incrível, inteligente e bem tranquilo, se tivesse nascido em qualquer outro lugar, com certeza muitas crianças iriam gostar de ser suas amigas…


Outra pausa, mas ele parecia estar se animando em grande felicidade.


Antônio: sim, isso é algo que você tem, e faça eles acreditarem nisso, não importa quanto tempo demore…e tente convencer a mamãe, ela suspeita disso também, mas não acredita nela mesma, convença ela, se você fizer birra o bastante talvez ela te escute, não importa o que o papai diga…


Depois de um bom tempo, toda a tensão e raiva e stress dentro do Antônio parecem se dissipar naqueles curtos momentos onde ele conversou com seu “eu mais novo”.


Até que o rosto dele se abriu de felicidade, ficando leve como uma folha e brilhante como uma estrela no escuro até ele falar..


Antônio: e não se preocupe, pessoas que te amam irão te ajudar logo, apenas tente pegar mais leve, tá bom?


E depois de ouvir a resposta da sua criança interna, ele finalmente esboçou um sorriso, um sorriso tão lindo que nem acreditei quando o vi pela primeira vez. 


O Antônio demorou muito pra abrir os olhos, eu não entendia o porquê, mas ele queria aproveitar cada palavra que disse pra si próprio…


E quando ele abriu os olhos, mesmo na escuridão, os olhos dele pareciam quase estrelas, estrelas que fizeram meu coração quase sair pela boca pelo quão rápido ele ficou, TUM-TUM TUM-TUM TUM-TUM TUM-TUM.


Antônio: leva bem mais que uma conversa pra mudar totalmente anos de abuso, então só, seja paciente com sua criança interior tá bom?


Dandara: ah, sim sim, vamos lá.


Antônio: não esqueça, você vai se sentir melhor e quase invencível por um tempo, mas vai ser temporário, você vai ficar muito, mas muito boa, e depois diminuir bastante até ficar levemente melhor, isso não é incomum, você tem que falar e melhorar você constantemente pra ficar boa de verdade


Dandara: ok ok, vamos começar a sessão.


Não sai da pose que nós estávamos, apenas fechei os olhos, mas eu me sentia estranha, sentia que o Antônio tinha sumido, ele não tinha só largado minha mão, era como se os dedos dele tivessem evaporado da minha mão sem eu notar.


Me sentia flutuando no escuro sem chão ou paredes pra me agarrar, e quando estiquei minhas pernas, vi que eu estava flutuando no ar, até que eu me senti aterrissando em algo, um chão de pedras não, tijolos. 


Quando abri os olhos, vi que estava no Castebirinto de novo, com a monstrinha na minha frente, humpf, não era a primeira vez que vinha ali desde que eu descobri que aquela monstrinha era eu, mas hoje parecia diferente de alguma forma.


Monstrinha: o que foi? Tem algo errado?


Dandara: você não é o problema


Monstrinha: o que?


Dandara: sei que você já pensou muitas vezes que não era o bastante, que devia tentar mais, sacrificar mais, mais, mais, sempre mais pra eles, e menos, ou quase nada, pra você. Mas quero te dizer isso, fuja, saia de casa, vire uma mendiga, vá para um orfanato, qualquer coisa, não importa o que você faça, mas fuja dessa casa, não importa se é com outras crianças…ou com seus colegas catadores de lixo, qualquer lugar é mais acolhedor que aquele lugar infernal que um dia nós já chamamos de casa.


Foi…interessante, depois que eu falei aquilo, a minha monstrinha pareceu voltar um pouco do tempo, e de repente, não estávamos mais no castebirinto. 


Mas, tambem nao estavamos em uma única memória minha, pra ser mais preciso, parecia bem mais que eu tinha tantos momentos ruins na vida, momentos em que eu precisasse que um adulto de verdade falasse comigo e me falasse que tava tudo bem, que o cenário em que nós duas estávamos mudava a todo o momento.


Quase como se toda a minha vida, desde o momento que eu nasci, tivesse sido de simples, e puro sofrimento, e com tudo que eu passei, isso não era um exagero de se pensar.


Mas parando de tentar entender o cenário, me foquei de novo na mostrinha, e o que ela falou pra mim em seguida.


Monstrinho: mas se eu me esforçar mais, talvez o papai e a mamãe me amem


Dandara: eles odeiam até a si mesmos, “eu”, você acha que eles podem amar algo se eles nem conseguem se amar?


Monstrinho: …


Dandara: olha, tá tudo bem, tem uma coisa aí com você, ela tá te protegendo, mas ela não é boa nisso sozinha…então faça um favor pra nós duas e peça ajuda, ok? Pode prometer isso pra mim? Que na primeira oportunidade, vai pedir ajuda a alguém pra te ajudar a lidar com com os…


Não consegui dizer, não era nada físico ou mágico, era algo meu, MEU E APENAS MEU, eu não era capaz de fisicamente chamar aquele seres desprezíveis de pais, não mais.


Dandara: promete que vai pedir ajuda pra lidar com eles, e prometa pra mim que se algum colega seu querer ser legal contigo, você vai aceitar…e não vai afastar ele, você não pode afastar ninguém…


Lágrimas caiam de meu rosto mas nem ligava, pois apesar de ser um monstrinho, minha voz interior parecia bem menos teimosa que a do Antônio.


Monstrinho: tá, eu prometo.


Não sei porque, mas comecei a imaginar o que aquela “eu” teria passado se levasse meu aviso a sério. 


Será que ela iria ter uma vida melhor? Uma família melhor? Será que ela fugiria de casa? Será que ela entenderia o que era amor muito antes de mim? Será que ela sequer saberia que era uma Singular?


Quanto mais perguntas inundavam a minha cabeça, mais sentimentos pareciam escapar pra fora do meu rosto também, inveja, raiva, orgulho, alegria, amor, mais raiva, tristeza, nojo, vergonha e ainda mais raiva. 


O meu rosto começou a se deformar enquanto me despedia da minha antiga eu, talvez o Antônio tivesse esperado demais de mim na minha primeira sessão.


Ai meu deus…AI MEU DEUS…AI MEU DEUS! Nunca pensei que ia voltar a sentir isso, mas, mais uma vez, eu senti o meu peito pesando, e uma tristeza devastadora ir pro meu coração. Não era uma tristeza gentil que te agarrava e basicamente fazia você dormir de tão miserável que você se sentia.


Era um milhão de vezes pior que qualquer tristeza ou dor normal que eu podia sentir. Era como se minha tristeza estivesse batendo na minha cabeça e no meu peito, a ponto que eu tava tão triste, mas tão triste, que eu comecei a rir, de novo.





E sempre que eu ficava tão triste que eu ria, eu também ria um pouquinho de verdade, pois mesmo depois de tudo que eu passei, ainda era engraçado pra mim que uma das maiores demonstrações de tristeza que existe era o riso.


O meu querido e belo Príncipe encantado dos olhos de mel não tentou parar meu choro, ele apenas se aproximou de mim, me levou pra perto dele em um abraço, onde ele me agarrou forte o bastante pra eu sentir que uma cobra estava me apertando.


Algo na força daquele aperto, era estranhamente relaxante, a ponto que a tristeza no meu coração diminuía um pouco, pelo menos o suficiente pra eu parar de dizer.


E enquanto a minha tristeza diminui devagar, meu príncipe entoou algumas palavras de forma bem diferente pra mim. 


Ele tava falando de um jeito tão diferente que, se ele não tivesse falando portuques, eu ia ter certeza que ele tava lançando alguma espécie de feitiço de calmaria de mim. 


Isso era o quão diferente a voz dele estava de mim.


Antônio: não se preocupe Dandara…eu to aqui.


O abraço dele me dava mais calmaria que todo o resto, algo como um grande casulo de amor que eu não queria escapar. Embalado, e claro, com a batida do coração dele acalmando o meu.


Eu me acalmei devagar, com meu coração se acalmando e minha respiração voltando ao normal bem devagar. As lágrimas demoraram pra parar, e quando eu tava entendendo o que acontecia em minha volta novamente, o meu príncipe falou.


Antônio: me perdoe, às vezes os lugares mais assustadores do mundo são nossa própria mente, afinal, é lá onde estão todos os nossos medos, lembranças e segredos. Mas não se preocupe, a primeira seção e sempre a pior, eu garanto que nao da pra ficar pior do que isso


Dandara: e por pior que fosse você estava aqui pra me guiar


Antonio: bom, eu tive uns problemas quando tentei fazer isso sozinho, então eu sabia que você ia precisar de uma ajudinha na sua vez


Dandara: você fez bem mais do que me ajudar Antonio, voce foi quase um xamã pra mim aqui agora, daqui a pouco vou te chamar de “guia espiritual” d tanto que voce me ajuda com essas coisas


Antônio: “guia espiritual, Antônio”, eu gostei de como isso soa.


E enquanto ainda estávamos abraçados, vimos a vela que estava mais perto de nós se apagou, deixando só as velas em volta de nós ainda acesas, mesmo que estivessem bem fraquinhas.


Eu contemplei o rosto de Antônio entre as luzes das velas, e sem pensar direito, agente se abraçou de novo, só que comigo tendo um pouco mais de força em meu aperto.


E na nossa brincadeira de agarrões, eu acabei nos derrubando na cama dele, e agente riu, enquanto as velas se apagaram devagar, e antes dela apagarem totalmente, nós ficamos deitados na cama dele no meio do escuro.


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