Não me lembro se eu já fui até ali alguma vez mas naquele ponto, nem deveria importar, eu apenas olhei ao redor, e vi que agente estava em um pequeno bosque, com umas cadeiras e uma mesa, com um jarro de chá entre nós.
Nós ficamos sem falar por um tempo, estava com vergonha de falar qualquer coisa pra ela, mas mesmo assim, arrisquei.
Dandara: mãe, você gosta de alguma música?
Mãe: bom…eu sou uma grande fan dos bardos bárbaros, principalmente o RL Bárbaros.
Fiquei sem falar nada alguns segundos, não entrava na minha cabeça que uma mulher tão gentil e tranquila como ela podia gostar de algo como aquilo. Depois de piscar algumas vezes, falei pra ter certeza que eu não entendi errado.
Dandara: tá falando daquela música que é tão alta que faz o chão tremer, e que é tão pesada sonoricanente que os fãs precisam de uma sala especial pra escutarem sem incomodar os vizinhos?
Mãe: essa mesmo, tá afim de ouvir?
Bom, eu não tinha nenhum problema de encontrar algumas músicas novas, então, de forma ingênua, segui minha mãe para a sala especial dela, uma que ficava no porão e que possuía feitiços de som por todo lado, não eram tão fortes quanto os da casa de reabilitação, mas eram bem fortes.
Mãe: se prepare, é difícil nas primeiras vezes
Dandara: relaxa mãe, não é meu primeiro rodeio.
E quando ela ativou o som, senti que meu corpo cobrasse com todo aquele som, meu coração ia junto com a batida, e meu corpo se mexeu de forma bruta, jogando minha cabeça de um lado pro outro, e pulando tanto que até mesmo joguei vários feitiços de fogo no ar.
Minha mãe gritou junto comigo, agente gritou, se agitou e balançou as cabeças juntas. Eu não fazia ideia que eu podia gritar daquele feito, eu não tinha usado uma única magia na voz, mas eu não sentia que minha voz naquele momento era humana.
Era a primeira vez que eu senti minha violência sendo ouvida tão alta, mas ela não escapou como foi várias vezes, ali, naquela sala isolada, e onde ninguém podia nos ouvir gritar e nos ver querer destruir tudo e todos no caminho, eu podia deixar minha raiva sair sem machucar ninguém, foi simplesmente fantástico.
Isso sem falar das letras das músicas que eram incríveis, algumas eram sonetos de ódio contra os caçadores de amaldiçoados, outros eram poemas musicais descrevendo a dor interna que muitos amaldiçoados passavam, outros eram músicas de vilões que tentaram destruir tudo e falharam, mas nessa música, eles estavam em seu auge de maldade.
Sem falar das músicas mais agressivas, os simples poemas de ódio puro dos cuidadores, era interessante que o ódio das mães, pais e irmãos que abandonaram tudo pra cuidarem de seus amados era mais forte que o dos próprios amaldiçoados, era fantástico e espetacular.
Por alguns segundos, questionei quanta raiva a mãe de meu príncipe deveria ter, mas decidi que esse era o tipo de coisa que teria que perguntar diretamente pra ela, e não ficar indagando.
Quando as músicas acabaram, eu e minha mãe estávamos deitadas uma ao lado da outra, cobertas de suor e ofegantes demais até pra levantar, mas tínhamos força o bastante para rirmos de forma fraca e tímida.
Dandara: isso foi fantástico
Mãe: quer fazer de novo outro dia?
Dandara: o se quero.
Pensei que meu irmãozinho iria querer passar um tempo de irmãos comigo também, mas no fim agente não fez muita coisa, a grande aventura que ele queria passar comigo era nós dois ficarmos embaixo de um cobertor, com as luzes apagadas, cortinas fechadas e vendo um filme de super cavaleiros no grande espelho da casa.
Agente fez uma maratona de filmes, eu sinto que nunca comi tanta porcaria quanto naquele dia, e eu não me arrependo disso nem quando passei mal algumas horas depois do nosso lanche especial.
Quando fomos pra cama, eu ainda estava meio estranha, mas estava forte o bastante pra dizer.
Dandara: noooooooossa, eu sinto como se os doces da maratona de filmes estivessem numa guerra na minha barriga…e ninguém está ganhando
João: uau, que piada horrível
Dandara: isso não é uma piada…quer ouvir uma piada? Sabe o que o tomate foi fazer no banco?
João: não
Dandara: pra tirar extrato.
Era a primeira vez que eu ouvia a risada de meu novo irmão mais novo, pelo menos a ouvir de verdade, era espalhafatosa e alta, mas me deixava bem confortável de certa forma, depois ele respondeu.
João: e sabe o que é pior que comer uma maçã e achar uma larva?
Dandara: não
João: comer uma maçã, e achar metade de uma larva
Dandara: eca irmãozinho que nojo…
Falei aquilo, mas ri bastante da brincadeira dele. E até ficarmos com sono, trocamos piadas até apagarmos de vez. Não sabia por que, mas me sentia muito melhor ultimamente.

