Alguns segundos depois de mim, meu irmãozinho acordou também, até eles terem certeza que eu estava bem, nada de me deixar muito tempo sozinha.
O irmãozão tinha os olhos da mamãe e o cabelo do papai, ele parecia bem feliz em me ver e eu dei meu sorriso mais sincero em muito tempo, eu via o quão surpreso o João estava, mas então ele se levantou de felicidade, como se tivesse acabado de tomar café.
Dandara: bom dia maninho
João: oi maninha, quer fazer o que?
Dandara: eu quero comer um balde inteiro de tangerinas, tá afim?
Meu irmãozinho parecia surpreso de eu falar de forma tão casual o que eu queria mas de um jeito bom também, então ele disse que sim com a cabeça e me levou onde poderíamos conseguir um baldão de tangerinas.
Normalmente, eu não comeria tantas tangerinas de uma vez, mas eu tinha acabado de sair de uma grande jornada de, segundo os magos “deixar de ser um perigo pra mim mesma e prós outros” eu precisava comemorar.
brincando, levantei uma tangerina acima da minha cabeça, e o João fez o mesmo.
Dandara: um brinde a mim voltando pra casa
João: um brinde a isso.
Aaaaaaaah, que sabor incrível, o gosto de tangerinas com certeza era melhor do que quando eu estava naquele lixo de família, mas ele também era bem melhor do que quando eu estava na casa de reabilitação, e ele estava bem melhor do que antes de eu entrar na casa de reabilitação, foi fascinante.
Dandara: impressionante, essa mesma fruta parece mudar de gosto sempre que eu a provo
João: talvez não seja a tangerina que mudou, mas você
Dandara: com certeza.
Agente degustou as tangerinas até que nossos pais chegaram…e quando eles se sentaram aqui…eu não sabia o que falar, mas queria falar alguma coisa.
Dandara: aí, vocês viram aquela série da tia cuca
Pai: você viu aquilo também? em qual temporada você tá?
Dandara: na sétima
Pai: cara, eu amei aquela parte em que a princesa dá um beijo na cuca, falando que ela era grata por ter conhecido ela, e que ela tava feliz por ter conhecido seu noivo por ela
Dandara: eu sou mais chegada nas partes em que a bruxa fica fantaziando sobre machucar as crianças, mas quando elas estão em perigo, ou tristes, ela faz o completo oposto em toda ocasião. O amor que ela tem pros pivetes é muito lindo
Mãe: sei lá, acho que os episódios que mostra que a bruxa tem inveja da princesa por ter uma família que a ama enquanto ela nunca teve nada disso são muito bons também
Dandara: o episódio em que a família da bruxa volta pra ajudar ela…e ela trai a própria família pra salvar a família da princesa, eu chorei de forma sincera naquele momento
João: e você lembra do que ela falou quando ela jogou uma bola de fogo na própria mãe pra salvar o filho da princesa?
Todos: “tire as mãos do meu sobrinho”
Dandara: foi uma cena tão linda, bem feita e editada que eu quis enquadrar, tirar uma foto e colocar na parede da casa
Pai: tarde demais, já fiz isso.
Apontando pra um ponto específico da cozinha, meu pai me mostrou um quadro descrevendo a exata cena da mãe da bruxa queimando ao fundo enquanto ela tenta manter o seu recém aclamado “sobrinho” seguro nos braços. Gostei muito daquele quadro, mas vê-lo ali me fez questionar algumas coisas.
Dandara: aaaaaahn, aquele quadro sempre esteve ali?
Pai: sim, você que nunca notou
João: mas você notou agora, e é isso que importa
Dandara: é…tem razão…
Tentei não pensar nisso, mas meus olhos foram levados até aquele quadro, pra mim, aquela parede sempre foi algo vazio e sem nada importante, mas agora eu via uma grande gama de coisas, além do quadro, havia vários quadros com coisas da série.
Olhando no corredor, eu via alguns apanhadores de sonhos caseiros, e lá fora, eu via vários campos floridos que além do verde, tinha o amarelo, rosa, roxo e violeta das flores, junto dos insetinhos plantas irregulares e diferentes, junto de varias e varias outras coisas.
Dandara: hehe, o que será que eu consigo perceber melhor agora?
Estava realmente curiosa, mas eu podia fazer isso depois, dividindo o balde de tangerinas com minha família, me dei a chance de aproveitar tudo.
Mãe: tenta não tomar muitas tangerinas de uma vez, você vai passar mal
Dandara: mas mamãe, eu acabei de voltar de uma casa de reabilitação, eu quero comemorar de alguma forma
Mãe: tuuuudo bem, mas já vou avisando, eu não vou te levar pro hospital
Dandara: anotado.
E pelo resto do dia, fiquei no banheiro depois de passar mal por comer tantas tangerinas, mas apesar da dor que sentia, não me arrependi, doeu, era horrível, mas agora eu via algo, uma recompensa, antes ou depois da grande dor. E quando eu aguentava a dor, a recompensa parecia até melhor.
E depois de muitos, muitos, mas muitos dias de pensamento, cheguei a uma boa conclusão, depois fui até o escritório do meu pai.
Pai: oi querida, o que foi?
Dandara: pai…eu quero ser uma criadora de vassouras
Pai: você, tem certeza?
Toquei meu peito, e senti no fundo de meu coração, até que eu senti com algo mais firme, minha alma, e minha criança interior, falando, “faça”
Dandara: com cada fibra do meu coração.

