12 meses, eu já ia completar um ano aqui, eu já tinha passado meu aniversário aqui dentro? A essa altura eu não sabia mais. Achava interessante como, apesar de tudo, eu tinha uma noção boa até demais do meu tempo lá dentro, a ponto de eu entender na hora que pelo menos um ano já havia se passado.
Mas além disso, eu também estava muito ciente do quanto eu mudei.
O meu Príncipe dizia que eu cresci, mas isso era apenas uma explicação superficial do que eu passei.
Eu me sentia como uma árvore, quando eu finalmente tive a chance de germinar e virar uma pequena muda, eu era fraca, indefesa e frágil.
E depois dos primeiros meses, eu me tornei um galho, forte o bastante pra não ser inofensiva, mas fraca demais pra ser quase qualquer coisa.
E nesses meses finais, eu me sentia como um carvalho forte, que não podia apenas resistir e proteger a si mesma, mas que podia proteger e cuidar de outras pessoas também.
Mesmo que eu ainda tivesse muito aonde crescer ainda, perceber isso sobre mim me deixou bem feliz.
Eram exatamente pensamentos assim que me deixavam feliz que eu tava na terapia em grupo do centro de recuperação, porque, mesmo que eu me sentisse muito melhor, ainda sentia também que tava faltando alguma coisa pra eu conseguir sair, eu só não sabia o que era.
Não lembro muito o que rolou na última vez que eu estive na roda de terapia em grupo, mas eu sentia que eu tava um pouco mais presente naquela roda do que nas outras.
E, como sempre, cada paciente contava sobre seus problemas e traumas, seus pontos altos e baixos, suas melhoras e recaídas.
Tudo com a Beatriz, a Psicomaga que controlava o ciclo da Roda de terapia, orientando todo mundo com palavras simples, enquanto os próprios pacientes chegavam às conclusões que precisavam sobre os próprios problemas.
Eu ainda não entendia exatamente o que era, mesmo depois de passar quase um ano aqui, mas a terapia em grupo possuía um efeito diferente da terapia individual que eu podia só ficar fascinada em descobrir mais sobre.
E olhando ao redor, vi que os pacientes eram os mesmos que sempre participavam comigo, e eu fiquei bem feliz que eu não parecia a única que encontrou uma espécie de iluminação pelo que eu aprendi lá dentro.
Mesmo que eu também conseguisse ver o que a Leide me falou a alguns meses atrás “cada um tem seu tempo”, porque, eu conseguia ver direitinho como tinham alguns Pacientes que estavam melhores que outros, e Pacientes que pareciam não ter evoluído muito.
Mas parei de pensar muito nisso e só sorri pra todos eles, um sorriso que eu pratiquei por muitos meses, e agora, eu pude sentir muito bem o quanto ele era real.
Eu ainda sentia um pouco do Vazio dentro de mim, esperando só uma hora para tomar o controle de novo, não sei se um dia, eu deixaria isso acontecer, mas eu podia relaxar, pensando que, pelo menos por enquanto, eu que tava no controle, e não o Vazio.
Enquanto não chegava minha vez, fiquei curiosa pra tentar perceber algo que eu também descobri no meu tempo ali.
Pelo visto, muitos Singulares tem mais de uma Singularidade, muitos pareciam ter uma variância da Singularidade do vazio e/ou a Singularidade do coração de coelho.
Mas tirando isso, era dizer qual Singularidade “dominante” alguns deles tinham, alguns tinham a aparência de animais, outros levavam choques do próprio corpo quando sentiam uma certa emoção, outros tinham partes do corpo deformadas ou estranhas.
Um que mais se destacou pra mim, enquanto eu esperava minha vez de falar era um Paciente peculiar que, apesar de ter uma carne e pele totalmente transparente, parecia ser totalmente normal, tinha tanta gente diferente ali, me deixava até estranhada que um dia eu iria sair dali e viver com muitas pessoas “comuns” de novo, que coisa.
Beatris: e você Dandara, tem algo pra compartilhar com todos?
Dandara: hehe, além de que eu acabei de perceber que sou um caso raro? Que só possui uma maldição enquanto muitos parecem ter duas ou três…bom, eu comecei a ver que, no fim, por mais que me doa admitir isso, minha Singularidade me ajudou a impedir que algo horrível acontecesse comigo
Beatriz: jura? como?
Dandara: a minha antiga família, não era muito gentil comigo, acho que você já sabia disso, mas sinto que eu aguentei por tanto tempo, porque aos poucos eu perdi os sentimentos e comecei a ligar menos pro que faziam comigo
Dandara: não importa o quanto gritassem ou me maltratassem, eu, não me importava mais com o que faziam o bastante pra sentir dor pelo que eles faziam, e em um certo grau, isso me ajudou, muito
Dandara: sabe, as vezes sinto que eu devia ter ido pra um caminho mais fácil, e só fugido de vez, hoje eu sei que isso podia ter funcionado, mesmo que na época eu sentisse que, fugir seria inútil
Dandara: e eu entendo que, o Antônio me encontrar e me ajudar daquela forma foi pura sorte, se algo tivesse acontecido diferente, eu podia ter acabado muito pior do que eu estou agora
Dandara: mas como não estamos nos baseando nos “e se” por aqui, sinto que, apesar de que eu ainda precise de tempo pra recuperar minhas emoções totalmente, me sinto quase completa de novo, e muito feliz que irei usar todas as emoções que recuperei com as pessoas certas, pessoas que me amam e que se importam comigo…
Beatris: mais alguma coisa?
Dandara: eu…me sinto um pouco mal que, eu consigo dizer que tirei algo bom de minha Singularidade quando tem tantas pessoas aqui que devem ter casos mais perigosos e difíceis de achar a parte boa como eu
Beatriz: é claro que nem todas as Singularidades são convencionais como a sua, e é por isso que nós existimos, pra ajudar os Singulares a entenderem como conviver com as suas Singularidades, e principalmente, conviver consigo mesmos. Algo que, como você pode ver, demora bem mais do que aceitar apenas a Singularidade.
E, pra variar, as palavras da Beatriz me afetaram bem mais do que eu pensei que poderiam.
Antes, eu pensava que apenas o meu Príncipe conseguia criar palavras capazes de me afetar dessa forma.
Mas desde que eu cheguei aqui, eu fui provada, de novo, de novo e de novo, que muitas outras pessoas podiam me afetar.
E em um certo grau, isso me deixava feliz, porque isso significava que agora eu podia sentir coisas sem envolver meu Príncipe.
E assim como ele mesmo disse, acho que esse fato fazia meu amor gigantesco por ele ser mais verdadeiro, sendo bem mais duradouro.
E olha que a Beatriz nem tinha terminado de falar.
Beatriz: claro, muitas vezes pode e vai demorar, pra isso acontecer, mas cada um aqui encontrará seu lugar no mundo,
Beatriz: e é claro que nem todos serão grandiosos ou lendários, mas Dandara, eu te garanto, aqueles que desejam com a maior força do mundo serem grandiosos encontram essa grandeza mais cedo do que esperam
Beatriz: por isso, Dandara, não sinta pena de seus irmãos de alma só porque eles lidam com traumas ou Singularidades diferentes da sua, não melhores, nem piores, só diferentes
Beatriz: e esse é um dos vários motivos de chamarmos de Singularidade, porque mesmo que as fórmulas das poções não mudem, a forma de lidar com cada uma, muda bastante de pessoas pra pessoa, entende?
Eu me sentia uma criança ouvindo isso pela milionésima vez, por algum motivo, os Psicomaga, e até alguns Pacientes, amavam falar aquilo de “cada Singular precisa de um tratamento diferente”
Eu tinha entendido isso nas primeiras 1000 vezes que eles falaram isso, mas, acho que, depois de 1 ano inteiro ali dentro, eu entendia melhor porque eles repetiam tanto isso.
Porque agora, eu entendia que, nos primeiros meses, eu podia até ter ouvido e entendido o que eles estavam dizendo pra mim, mas a minha Singularidade na época, impediu que eu entendesse e usasse essa frase em meu dia a dia.
E agora, eu sentia que, só agora que eu tava guardando o significado daquela frase dentro de mim, ao invés de apenas escutar, não levar a frase a sério e seguir com minha vida.
Dandara: hehe, sim, entendi…
Beatris: mais alguma coisa?
Eu não sabia nem o porquê, mas de repente, eu me senti preparada pra dizer algo que eu nem mesmo sabia de onde estava vindo, de tão estranha que minha cabeça tava naquela hora.
Dandara: eu…me sinto…bem, quando comecei aqui, falei pra mim mesma que esses momentos de cor, felicidade e até sentimentos comuns eram coisas que apenas minha criança interior poderia ter, pois eu não tinha uma única lembrança boa de mim mesma antes de ser criança
Beatriz: sério? então qual é sua lembrança mais antiga sendo feliz? pois pelo jeito, você parece ter muitas novas agora
Dandara: a mais antiga ein?
Segurei minha própria mão no queixo e pensei um pouquinho enquanto olhava pra cima, a lembrança veio de forma instantânea.
Dandara: foi no momento em que senti algo pela primeira vez, quando o Antônio me chamou apenas pra falar comigo…
Dandara: e por causa de sentimentos que não conseguia entender na época, meu mundo ficava alegre só, e apenas quando eu tava perto dele…
Dandara: mas eu não sou mais aquela garota, eu sinto isso dentro de mim(bate no peito) eu sou uma mocinha que consegue pintar o próprio mundo que antes era só cinza, consegue por sabor na própria comida…e mesmo assim, tudo começou com ele…
Dandara: hehe, nem sei como agradecê-lo
Beatris: talvez ele não queira ser agradecido
Dandara: talvez, mas eu quero agradecê-lo…quando conheci o Antônio…o meu Príncipe encantado dos olhos de mel. Eu fui levada pra longe do meus pais biológicos, e por um tempo bem grande, pensei que só ele seria o bastante…
Dandara: mas se eu aprendi algo enquanto estive aqui, é que eu estava super errada, e ele sabia isso mais do que eu mesma, foi ideia dele eu vir pra cá, de eu começar a fazer mais pesquisas, e de fazer várias outras coisas que me deixaram dessa forma independente incrível que eu tenho agora
Dandara: e eu serei eternamente grata por ele por isso…as vezes, sinto que eu poderia ficar dando presentes a ele por 100 anos e ainda não poderia agradecê-lo o suficiente, isso é o quão grata eu estou pelo que ele fez
Beatriz: nossa, esse Antônio deve ser uma pessoa incrível
Dandara: você não faz ideia do quanto.
Pensei ter terminado de falar, mas naquele breve momento, falei sem pensar.
Dandara: as vezes, fico pensando no que falta pra eu ir embora, sabe? Eu me sinto bem, eu ajudo as outras pacientes…e apesar de gostar bastante do meu quarto, não sinto que fiquei tão apegada a aqui como a Leide
Dandara: aquele quarto, essas paredes, até essa roda, ela ainda me ajuda, me ajuda muito, mas eu sinto que…esse lugar ficou pequeno demais pra mim. É estranho pensar assim?
Eu esperava ver um rosto de repreensão da Beatriz, mas o que eu vi, foi um rosto de pura contemplação, como se ela estivesse vendo um passarinho voar pra fora do ninho pela primeira vez.
Beatriz: até que não, na verdade, isso é bem interessante Dandara, me diga, se tivesse que avaliar a si própria, você diria que está pronta pra sair?
Dandara: não vou mentir, existe um pequeno pedaço de mim coberto de traumas que não quero tocar tão cedo, e mesmo que eu pegue, está na cara que ele não iria ceder tão cedo…
Dandara: e por isso, sinto que não poderia sair até essa parte de mim estar tratada, ao mesmo tempo que sinto como precisarei de anos para sequer desfazer um pouco desse trauma mais pesado na minha cabeça
Dandara: eu não me lembro da maioria das coisas ruins que eu passei na minha infância, e acho que isso é meio que um mecanismo de defesa do meu cérebro pra me manter segura, e sinceramente, tem dias que penso se eu realmente quero passar por esse mecanismo de defesa do meu cérebro ou não
Beatriz: você vai ter que encarar esse trauma alguma hora, e se você vai encará-lo de forma inevitável, não acha melhor fazer isso em seus próprios termos.
Aquilo me deixou literalmente sem palavras, ah, mais uma vez aquilo aconteceu, em poucas palavras, os grandes Psicom Antes daquele lugar conseguiam me fazer destruir tudo que eu sabia sobre mim mesma e montar os caquinhos de forma bem devagar.
E o mais irônico, era que eu gostava daquilo, muito, pois sentia que ficava melhor a cada reconstrução mental que fazia em mim mesma, hihi.
Dandara: é, ótimo ponto...então…sinto que ainda não posso sair, o que você acha?
Beatriz: ok, vou te responder com outra pergunta, você sente que se sair será um perigo pra si mesma e para os outros?
A resposta me pegou de surpresa, mas não porque não podia responder, era porque eu respondi tão rápido que eu não percebi o que eu tava fazendo até eu ouvir a resposta saindo da minha boca, novamente, sem que eu mandasse ela fazer isso.
Dandara: não.
Eu ainda estava um pouco preocupada com o fato de, às vezes, meu corpo, simplesmente fazer coisas que não o mandei fazer, mas vendo o sorriso que a Beatriz deu quando falei aquilo, pelo jeito, não era ruim que meu corpo fez algo que eu não quis, pelo menos não agora.
Beatris: nesse caso, acho que já chegamos no ponto onde você deve ficar aqui.
Eu demorei alguns segundinhos ora entender o que ela falou, mas no segundo que eu entendi, eu perdi minha postura totalmente.
Dandara: eu tô…saindo?
Beatriz: sim, isso mesmo, mas não se preocupe, não vai ser agora, vamos informar sua família, preparar seus pertences, te dar tempo de se despedir com todo mundo aqui, ah, tem tanto a se fazer.
Eu ainda não tava entendendo o que tava rolando, mas pelos aplausos que eu tava ouvindo ao meu redor, sinto que, no fim, era uma coisa boa que tava rolando.
Beatriz: e é melhor você se preparar, pois teremos uma festa.
Uma festa? Nossa, parecia que já fez séculos desde que eu participei de uma festa pela última vez, aquilo me empolgou de formas que era até difícil de descrever em palavras.
O passar dos dias foi algo totalmente contraditório pra mim, tudo tava acontecendo tão rápido, e ao mesmo tempo, tão devagar.
Eu consegui conversar com a Leide, vendo que ela não tava sequer levemente impressionada de eu estar saindo antes dela.
Falei com o Gabriel, e acabei descobrindo que ele tinha pedido a minha retirada já tinham algumas semanas, algo muito antes de eu falar com a Beatriz hoje, e eu só fiquei ali porque a papelada pra me liberar era muito extensa.
Hum, que interessante, o que teria acontecido se eu não tivesse conversado com a Beatriz?
Bom, considerando o quanto o Gabriel era bom bolando planos, acho que eu só receberia outro jeito gentil e divertido de ser informada que eu tava livre pra sair…
Eu ia, sair…hehehehe.
Dandara: eu vou sair.
Ainda não parecia real, mesmo comigo falando em voz alta, ou comigo falando pra Leide ou pro Gabriel.
Eu fiquei tanto tempo só pensando que a casa de reabilitação era tudo que existia, que, mesmo que eu quisesse sair, ainda era estranho pra mim pensar que existia qualquer coisa além da casa de reabilitação.
Hum, isso me fazia ficar em dúvidas se eu tava pronta pra sair mesmo, mas então, eu me lembrei da Leide, mesmo não sabendo dos detalhes, a fofinha já tinha entrado e saído daqui 4 vezes, acho que, mesmo se eu voltasse, ficaria tudo bem…
Hehehe, era bem irônico isso, eu entrei aqui, porque o medo era a única emoção que eu ainda conseguia sentir, e agora, de todas as novas que eu sentia agora, ela parecia a mais fraca de todas, era uma virada bem interessante na minha psicologia que eu não conseguia parar de pensar.
E junto de todos esses pensamentos e de despedidas que eu tava dando, não apenas prós Pacientes, mas prós magos que me ajudaram a chegar daquele ponto, eu acabei ficando tão ocupada, que o tempo até a minha festa chegar passou em uma piscada de olho.
E, por mais que aquela festa tivesse sido mais animada que qualquer baile que eu lembrei de participar na minha infância, chamar aquilo de “festa” era pedir muito.
Isso porque, não tinha doces, ou enfeites. Apenas um bolinho com uma vela, que dizia, com todas as palavras PARABÉNS, escrito em um vermelho que lembrava bastante o meu cabelo.
Bom, pelo menos tinha convidados, alegria e velas. E isso já era mais do que os Bailes dos meus pais biológicos já me deram.
Eu olhei pro bolo por um bom tempo, enquanto via todos aplaudindo pra mim ao meu redor, todos, de pacientes novos a antigos, de pacientes que eu convivia até pacientes que eu não convivia.
Todos estavam igualmente felizes em ver sua irmã de alma conseguindo sair da casa de recuperação, mesmo que eu saísse primeiro que eles, eu era apenas uma prova de que, um dia, eles podiam ser os próximos.
Vendo aquele tipo de apoio em volta de mim, não me aguentei e sorri como uma cachorrinha pra todos aqueles aplausos…
Mas não parou no sorriso, porque, eu novamente senti uma dor no peito bem familiar.
O meu coração tava queimando em felicidade, uma felicidade tão extrema que eu não tava chorando de tristeza, na verdade eu tava tão emocionada naquela cena que derramava lágrimas de alegria, eu consegui, eu consegui, eu…
Ai eu vi, a Leide me olhando, ela estava triste, mas não surpresa, não conseguia ouvir direito pelas comemorações, mas eu pude ler os lábios dela bem o suficiente pra entender o que ela queria me dizer: “eu te disse, bem rápido”.

