Hmmmm, que beleza, depois do encontro inesquecível que eu tive ontem, achei que as coisas iam ficar mais calmas dentro da casa de reabilitação, mas eu tava errada, eu tava muito, mas muito errada mesmo.
Não sabia como as coisas chegaram naquele ponto, mais logo depois que eu tomei minha poção especial logo de manhã, e me permiti ficar deitada na minha cama mais um tempinho, alo, estranho aconteceu.
Eu fiquei com meus olhos fechados ali por um bom tempo, e quando eu os abri, eu dei de cara com a Leide me olhando com muita raiva.
Ah não, hoje era o dia da Leide Frenética, eu só esperasse que ela não descontasse o fato de que eu tinha passado pouco tempo com ela ultimamente agora, porque, nesse estado, com certeza não ia ser a melhor opção.
Dandara: oi Lei…
Mas eu não tive tempo de terminar a frase, pois ela me deu um tapa na cara com uma luva, apesar de meu cérebro ter apagado quase tudo que e me lembrava da minha antiga vida nobre(pra me proteger, eu queria acreditar), o tapa de luva na cara era algo que eu nunca esqueceria, principalmente pelo quão divertido aquilo era
Leide: eu e você, lá fora, agora!
E depois que eu ovui isso, minha raiva e minha felicidades isturaram em mim de uma forma bem peculiar, eu podia sentir que a felicidade esava liderando, mas a raiva parecia bem mais abundante que a alegria, mesmo sem ser ela que estava liderando tudo.
E enquanto eu tentava desesperadamente entender o que eu tava sentindo, eu me convenci de que, eu não tinha muita escolha naquela situação, e que enquanto a Leide estava no episódio de mania dela, era meu dever, como colega de quarto ajudá-la.
Sim, era por isso que eu queria a ajudar, não porque eu queria testar um novo golpe que eu desenvolvi enquanto eu tava na biblioteca nesses últimos meses, nananananão.
Eu me surpreendi um pouquinho pelo quão rápido os Magos montaram tudo pra nossa briga, como se eles tivessem percebido que uma batalha ia rolar muito antes de mim, ou talvez fosse só o lado mais profissional deles se mostrando através desse ato.
As brigas não eram proibidas ali, elas só tinham que ser monitoradas e muito bem planejadas, coisas que os médicos fizeram sem problema algum.
E quando eu saí do quarto, nós duas fomos pro pátio, e recebemos algumas roupas mais, “apropriadas” pra lutar, digamos assim.
E então, uma vez no pátio, e com apenas alguns magos, e vários outros paciente assistindo nossa luta (de brinde com alguns deles até fazendo apostas sobre quem iria ganhar) nos preparamos pra briga.
Apesar das brigas não serem proibidas, era proibido o uso de varinhas pra usar varinhas, mas a Leide não parecia ligar pa iss, na verdade, ela parecia ate aliviada, como se aquilo deixasse que ela se soltasse mais na briga.
Já eu, tava aliviada porque eu não queria tocar na minha varinha, eu me lembrava de muitos traumas meus apenas olhando pra ela, então era claro que eu não conseguia pega-la pega-la, as vezes quando eu a olhava, eu até mesmo via que ainda tinha meu sangue manchado na varinha.
Eu nem queria cogitar usar a minha varinha, e eu ia me livrar dela do jeito certo assim que saísse dali.
Antes da batalha iniciar, olhei bem para Leide e fiquei surpresa com o que vi, sim, ela estava irada, irada de uma forma possível apenas pela Singularidade da dupla face que ela carregava.
Mais precisamente ainda, ela tava irada de uma forma que nem os remédios conseguiam acalmar.
E mesmo assim, em meio a toda aquela fúria, eu via um sorriso de satisfação, como se ela tivesse feliz que tivesse algum ali doido o bastante pra aceitar brigar com ela.
Hmhmhm, eu me sentia bem especial quando vi aquele olhar, mas me fazer aguentar a raiva dela porque apenas eu conseguia a entender e a aguentar era cruel. E eu ia rebater essa crueldade não me segurando nem um pouco nessa nova magia que eu descobri.
Então, tudo ficou em silencio por alguns segundos, o mago instrutor abaixou a bandeira e deixou a luta começar, e como eu pensei, a Leide era uma maga como eu, a diferença era que ela era uma maga de curto alcance, bruta.
Tanto que, com um grande rugido, ela ativou um feitiço que cobriu o corpo inteiro dela de pedras e criou um campo gravitacional que atraiu meu corpo até ela.
A gravidade me arrancou do chão em segundos e me levou direto para um soco do punh cheio de pedras dela, mas em meio ao voo, alinhei meu corpo e deslizei meus pés no soco poderoso dela de forma tão teatral, que todos entenderam que era uma dança, mais especificamente, eu pareci uma cobra, deslizando no punho dela até conseguir a dar um tapa bem na cara dela.
Tentei continuar o movimento deslizando pras costas dela, mas antes de terminar o movimento, ela me repeliu jogando milhares de pedras presas nas costas dela na minha cara.
Eu saltei na hora pro chão ao ver aquele golpe, desviando por muito pouco de um ataque direto, e mantendo o movimento, eu coloquei minhas mãos no chão, e me movendo como se estivesse dançando Breakdance, eu girei meus pés a ponto de chutar a Leide 3 vezes.
E quando terminei esse movimento, usei todo o controle que tinha das minhas mãos pra desviar dos socos, e pedras caindo em cima de mim que a Leide insistia em continuar jogando na minha cara.
E então, um joguinho entre as milhares de pedras e meus movimentos irregulares foram feitos, onde eu ganhava algumas partidas, e a Leide Frenética ganhava outras.
A Leide ficou bem confusa enquanto tentava me atacar, pois tentar lutar contra alguém que nao tinha uma forma específica de lutar, nunca era algo muito fácil de se fazer.
Até que, no meio dos meus movimentos doidos, ela encontrou um padrão e correu a um ponto onde eu iria jogar meu corpo, e eu realmente o joguei pra lá, mas antes dela conseguir me bater, eu chutei a mão dela na hora, em um ângulo que todos ali presentes, sabiam que era incomum.
E com o meu chute, que vinha de baixo pra cima e usando a lateral do meu pé, eu a joguei pra trás, claro que aquele ângulo de perna fez quase quebrar um osso, mas eu resisti bem e continuei chutando.
A técnica não estava perfeita, mas pra ter um momento de desestresse completo com a Leide, era mais que o suficiente.
Além, é claro, de que eu fortaleci meus ossos com magia a ponto deles fazerem o som de metal quando batiam nas mãos de Leide.
E mesmo com nós duas doloridas, a Leide continuou socando, e socando, até que a magia dela acabou, enquanto eu ainda tinha a minha, e num chute básico, mas que ainda carregava bastante poder, eu a joguei com tudo pra trás.
A Leide caiu de bunda no chão, mas não desistiu, então com calma, me aproximei, preparada pra mais, e eu tava certa em desconfiar, porque ela fingiu desmaiar e estar sem magia.
Em segundos, ela se levantou com tudo e me obrigou a colidir meu cotovelo como punho dela, pois no angulo que eu tava, eu nao ia conseguir jogar minhas pernas pro angulo certo, e doeu, muito, mas doeu bem menos que receber o chute sem atacar, então tentei amenizar a dor, e no fim meus cotovelos ficaram doloridos antes dela se cansar, mas pelo menos eu consegui recuar e pensar num novo plano.
Dei alguns saltinhos pra trás, tentando me recuperar, mas então, eu vi que a Leide não conseguia mais mexer os braços, e já estava caindo novamente no chão.
Eu fiquei com medo de me aproximar, pensando que era mis uma armadilha, mas pelo jeito, não era, deu pra ver muito bem a diferença do ato e da dor real.
E eu tive só mais certeza disso quando ela tentou ficar de pé, mas as pernas dela estavam tão cansadas que ela foi obrigada a ficar de joelhos, tava bem claro pra mim que ela queria continuar, mas o corpo dela não parecia aguentar mais uma rodada.
O que era triste, pois aquela altura, até eu queria lutar um pouquinho mais.
Leide: AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH, DANDARAAAAAAAAA.
Mas como, valia tudo na guerra, e ela podendo se recuperar, eu não parei, mesmo com ela ajoelhada. E como um tiro de misericórdia, corri com tudo pra frente, com cabeça apontada pro lugar certo e da forma mais imprevisível possível, eu dei uma cabeçada em Leide.
Hehe, eu achei engraçado como a Leide percebeu a cabeçada segundos antes de eu bater, só dando ela tempo o bastante pra jogar um pouco a cabeça pra trás, e me dar uma cabeçada da mesma intensidade que a minha.
Ai, desde a primeira cabeçada, eu já senti meu cérebro chacoalhando a milhares, aquela Sapien ela era uma cabeça dura mesmo, mas não desistindo da vitória por nada, eu ainda troquei quase 30 cabeçadas com ela antes da garota parecer satisfeita, ou pelo menos um pouco menos brava, comparado em como ela tava de manhã.
Quando o concurso de cabeçadas acabou e eu a soltei, eu sentia que minha mente virou um mingau, eu me ajoelhei de tontura depois da confusão toda.
E enquanto eu ainda tava tentando processar a dor da minha cabeça pra não desmaiar, e ouvi a Leide rindo de mim, e mesmo com toda a dor que meu corpo tava, comecei a rir também, sentindo como as risadas me faziam sentir mais consciente que o normal, de algum jeito aquela risada me fazia sentir um pouco melhor e mais consciente também.
Cara, que risada ostosa, agente ria como se uma brincadeira tivesse acontecido, não uma batalha absurda até a morte.
Leide: você é uma ótima amiga, sabia disso?
Dandara: ah, graças a deus, você tá tranquila de novo
Leide: se você não fosse uma ingrata que me deixasse de lado em cada oportunidade eu não ficaria com tanta raiva.
Não acreditei na incredulidade daquele papo, a ponto que eu falei.
Dandara: Leide, você tá tomando suas poções?
A Leide não me olhou nos olhos, mexeu os dedos e até puxou um pouco o cabelo, mentira, qualquer coisa que ela falasse agora seria 100% mentira.
Leide: sim
Dandara: esta mentindo?
Leide: …sim
Dandara: desse jeito eu vou sair primeiro que você
Leide: agora me conta uma novidade.
Eeeeeita, essa resposta eu não esperava, nem um pouquinho mesmo, e logo depois dessa declaração absurda da Leide, foi declarado empate entre nós duas e cada uma de nós foi levada a sala de Cura do lugar.
Uma vez totalmente inteiras e remendadas, nós fomos até a área normal, pra passarmos tempo fazendo bobeiras, como de costume. E enquanto estávamos lá, eu fiquei olhando a Leide algum tempo, até eu decidir puxar ela pra um assunto particular.
Dandara: Leide, a quanto tempo você tá aqui?
Leide: já tem 4 anos, eu já falei isso pro Gabriel mas…eu não consigo pensar num lugar pra mim lá fora, minha família me ama mas, todo mundo parece tão cansado de mim e da minha Singularidade…foi difícil pra mim nos primeiros dias, mas com o tempo, eu comecei a ver esse lugar como minha casa, eu não consigo me imaginar indo embora daqui.
Dandara: Leide, não fala assim, tenho certeza que em algum lugar lá fora, tem um lugar pra você, você realmente não tem nenhum lugar que você queira visitar? ou algo que queira fazer?
A Leide então ficou sem falar por alguns segundos, ela parecia ter vergonha de falar, até que ela disse.
Leide: eu quero ser uma boxeadora profissional
Dandara: e você pode ser uma, mas primeiro você precisa tomar as poções
Leide: mas eu não quero, usar as poções, parece uma trapaça, eu…sinto que só poderei ser realmente curada quando poder ficar tranquila sem o remédio
Dandara: mas as poções são uma trapaça, assim como a carnê de animal quê outras pessoas mataram pra nós são trapaças, assim como os livros com memórias e dicas de antigos guerreiros e exploradores também são trapaça, na verdade, tudo que existe desde a sociedade Sapien, gigante, élfica e fada são trapaças…
Novamente me deixando levar, agarrei a blusinha de hospital de Leide e continuei.
Dandara: isso é trapaça…
Depois segurei o cabelo em maria chiquinha dela, bem limpa e cuidada.
Dandara: isso é trapaça…
E depois olhei bem prá mim e prá ela, e a olhando nos olhos, nós duas chegamos à mesma conclusão: se nós não vivêssemos numa sociedade onde tudo é seguro o suficiente pra não termos que lutar pra sobrevivermos, estaríamos assim tão perto uma da outra?
Nós duas sabemos a resposta sem nem precisar falar-la em voz alta, e já tendo a resposta prá, eu apontei pra mim mesma, depois pra Leide e depois pra mim de novo enquanto falei.
Dandara: isso, também é trapaça.
Queria continuar falando, mas dei um tempo pra Leide absorver o que falei e depois continuei.
Dandara: nenhum ser inteligente joga justo, Leide, se você quer ser justa, então apague sua memória, tire toda sua roupa e tente sobreviver sozinha na floresta.
Aquela fala foi mais seca do que pensei que seria, e algo em mim sentia como aquilo era um tapa na minha propria cara, mas nenhuma dessas duas coisas me convenceu a parar de falar.
Dandara: mas se você quer admitir que você trapaceou no momento em que você nasceu segura num Centro Curandeiro ao invés de uma selva lutando pra sobreviver, tome o remédio e pare de bancar a superior que tenta fingir que é melhor do que uma poção que foi necessário anos de pesquisa para ser feita.
O rosto de Leide foi algo engraçado, conseguia ver a raiva da mania dela voltando, agora ainda mais intensa. Mas eu não senti medo, pois desde a nossa luta, eu entendi bem ate demais, que eu conseguia revidar caso alcançasse a louca perto de mim.
Leide: ta afim de outro duelo?
Dandara: (sorri)pode apostar
Mas no meio daquilo, eu acabei me lembrando o quão doloridas nós dois ainda estávamos, então eu tossi um pouco pra disfarçar, e a Leide pareceu entender o que eu quis fazer e se acalmou também.
Dandara: (tosse), mas vamos nos recuperar primeiro, ta bom?
Leide: ta bom.
Eu achei que depois do nosso papinho “coração e coração” que tivemos, a Lede iria se acalmar, mas nao, precisou que eu completasse 10 meses inteiros na casa de reabilitação pra que ela finalmente me escutasse, tudo isso junto de umas boas broncas(tanto de mim quanto dos mago), e muitas outras batalhas antes de finalmente ela entender, mas depois de repetir a mesma coisa várias vezes pra ela, a garota decidiu me ouvir pra ver o que acontecia.
Dandara: fica calma Leide, quem sabe agente até acaba saindo ao mesmo tempo
Leide: duvido, você já tá com uma cabeça bem melhor que a minha, você com certeza vai sair primeiro
Dandara: ah Leide, você me dá muito crédito
Leide: não é minha primeira vez aqui, ruiva, eu sei do que eu to falando.
Eu já tinha ouvido um monte de coisa doida, de tipo, todas as pessoas que eu já vi naquele lugar, mas aquilo que a Leide falou, realmente me pegou de surpresa
Dandara: o que?
Leide: eu já sai daqui 3 vezes, essa é a minha quarta tentativa, e to tentando a sorte pra ver se vou conseguir ficar fora dessa vez
Dandara: mas, mas, por que?
Leide: ah, ruiva, essa história é longa demais, e já tá de noite, agente pode ter essa conversa outro dia?
Ah, por mais curiosa que eu estivesse, tinha que concordar com ela sobre isso, já tava beeeeeem tarde, e mesmo com minha cabeça estando muito melhor, a sensação de cansaço ainda conseguia me derrubar de forma que nenhum outro medicamento conseguia.
E sendo vencida lentamente pelo sono, eu me deitei em minha cama, enquanto via a Leide dormindo de forma bem mais fácil que eu, mas antes de eu dormir de vez, eu apontei pra Leide,e falei com o rosto mais sério que o meu sono permitia ter e falei.
Dandara: (cansada) você não vai escapar da minha dúvida, fofinha
Leide: e não vou mesmo, só to pedindo pra gente falar isso outro dia.
Cansada, mas disposta a aceitar a proposta, só dormi, apenas imaginando as grandes doideiras que eu faria amanhã.

