Nesse proximo sonho que eu tive, acordei novamente no castebirinto, mas o lugar não parecia nem um pouco com o inferno dos pesadelos que eu lembrava das minhas primeiras sessões de hipnose.
Agora, o lugar com certeza se parecia mais com um castelo estilizado, sendo tão estranho e diferente que ele com certeza entregava só pela arquitetura que era um sonho.
Pois se algo como aquilo existisse na vida real, com certeza o meu Príncipe já teria comentado comigo em algum momento, hihihi.
E desde que eu deixei o monstrinho mais calmo perto de mim, eu comecei a acender as velas do castebirinto, varrer o chão, e outras coisas básicas assim.
Eram coisas simples, mas faziam o castelo parar de ser algo que saiu dos pesadelos e parecer mais algo que seria um sonho bobinho meu.
E depois que eu fiz todas essas “tarefas” do meu sonho, de novo, decidi procurar o monstrinho em um jogo de pique esconde que ele amava brincar comigo, demorei, mas acabei encontrando ele.
Ele tinha sorte que eu gostava de brincar de esconde esconde tanto quanto ele, senão ele ia ser recebido com uma bronca sempre que se escondesse de mim…
Nah, acho que só iria repreende-lo, mas dar uma bronca por querer brincar comigo, acho que eu não ia conseguir fazer isso.
Eu não era como meus…eu não era como eles, não era…EU NÃO ERA MAIS COMO ELES!
Desde que eu comecei a fazer sessões de hipnose com o Gabriel, eu aprendi uma forma de fazer os sonhos do castebirinto acontecerem de forma regular, e pela forma que o sonho se desenrolava a cada noite, eu ficava um pouco curiosa pra descobrir o que a minha mente queria me contar.
Porque, mesmo que ficasse confuso às vezes, sempre parecia que a “história” do meu sonho era continua até demais, hihihi.
Agora, eu e o pequeno monstrinho visitamos vários lugares dentro do castelo, descobrindo vários animaizinhos de pelúcia e muitas camas pra dormirmos juntos e fazermos fortes de travesseiro também.
Outros sonhos eu colocava ele escondido em um canto, e procurava o “monstro” que ele falou pra mim na primeira vez que eu tentei leva-lo para fora dos corredores.
O Monstrinho nunca falava detalhes muito grandes sobre o “monstro” que o machucou, mas pela forma como ele perdia a voz, e ficava assustado sempre que o monstro era mencionado, eu sabia que precisava parar o monstro antes que ele machucasse o monstrinho de novo.
Um ser tão assustador, medonho e forte, a ponto que o monstrinho precisou de tornar numa aberração pra se proteger, com certeza não devia ser fácil de enfrentar, mas eu estava mais que preparada pra lutar até a morte se isso significasse manter o Monstrinho seguro.
Ou, talvez só tentar ajudar o outro “monstro” também, afinal se o Monstrinho que eu tava protegendo agora era apenas uma criança usando traumas e sujeira pra se proteger, o que impedia que o monstro que o atacou e o maltratou ser igual, não é?
Eu procurei o outro monstro por um bom tempo, mas não importa quanto tempo se passasse, ou quantos meses eu gastava procurando, ele parecia sempre estar a 10 passos a frente de mim, sempre escapando de minha mão amiga, ou do meu ataque de misericórdia.
Isso porque eu ia tentar ajudar o monstro, mas se não desse, eu não ia ter problema nenhum em “libertá-lo do próprio sofrimento” como muitos heróis diziam entre si.
Eu não desisti de procurar o monstro, mas nós meus próximos sonhos, eu só me foquei em cuidar direito o monstrinho que eu já tinha salvado.
Em muitos sonhos eu dava comida na boca do monstrinho, e tentava tirar a última camada insistente de sujeira dura dele.
Aquela ultima camada de sujeira era muito forte e antiga, dando pra ver que parecia meses que o monstrinho nunca tinha se lavado.
Mas eu não desisti, eu briguei de forma insistente com aquela sujeira quase como se fosse a batalha mais intensa da minha vida.
O Gabriel já tinha me falado que sonhos eles não são vazios, e cada coisa que eu fazia neles tinha um significado no meu subconsciente.
E eu queria muito acreditar nele, mas por mais que eu, estranhamente, me sentisse feliz fazendo isso, eu não conseguia entender o que dar um banho difícil em um monstrinho deveria significar pro meu subconsciente.
E depois de muitos sonhos e mais alguns banhos do monstrinho, e de umas vitórias isoladas com aquela sujeira, eu percebi uma coisinha no monstrinho.
Tanto que, quando ele ficou mais limpinho, eu peguei umas roupinhas espalhadas no castebirinto e decidi por um vestido nela, vendo como o monstrinho pois pelo jeito, o monstrinho na verdade era uma monstrinha.
Mas sinceramente, saber daquilo não mudou muito a forma que eu tratava ela, eu continuei a tratando do mesmo jeito e me divertindo com ela de todos os jeitos.
Em alguns sonhos eu voava aos céus com o monstrinho em minha vassoura, outros eu jogava joguinhos.
E em sonhos bem frequentes, eu só tentava encontrar um cãozinho nas florestas do castelo pra monstrinha pois pelo visto a monstrinha queria muito um cãozinho.
Demoramos pra achar um cãozinho e ela começou a ficar irritada e chorosa, mas no meio de nossas buscas, encontramos um violão e vendo isso como um oportunidade, eu toquei uma música desengonçada e super desafinada pra ela, mas a monstrinha gostou daquele sonho estranho mais do que tudo nesse mundo.
O que, por algum motivo que ainda não entendia, me deixou, muito feliz.
Mas o que eu mais gostava de fazer era a comida, eu ainda não era boa na cozinha, mas como tudo era um sonho, eu me arrisquei com o fogo e as facas bem mais do que faria na vida real.
Além de que, colher os vegetais, cortar a carne, e fazer as comidas me dá va uma paz de espírito enorme mais quando a monstrinha comia.
Eu não sentia fome naquele mundo dos sonhos, mas gostava de ver a Monstrinha comer.
Além de ve-la desenhar, dançar de forma desengonçada, e várias outras coisas tambem.
Eu não sabia que tipo de conexão eu tinha com aquela monstrinha ainda, porque ela ainda tava muito suja pra eu ver o que tinha naquela casca de sujeira dela, mas se tinha uma conexão entre nós, isso eu já tinha certeza.
E depois de explorarmos todos os arredores da floresta a ponto de meus pés sangrarem e eu ter que dar outro banho na monstrinha depois, agente encontrou um cãozinho, nós o chamamos de Rex…
E sinceramente, depois daquilo, eu comecei a questionar a mim mesma sobre o que daquilo era real…
Eu ainda sabia quando tava sonhando, mas, sei lá, ver ela brincando e se divertindo com o Rex, me fez sentir que isso tava ficando real demais roa ser só um sonho.
Mas não parecia que eu tava acordada, que sensação seria essa?
E quando eu pensei isso, outro pensamento inundou minha mente, um pensamento que me fez perceber o quão totalmente insensível eu fui até agora com ela.
Eu esqueci de fazer uma pergunta crucial pra monstrinha, e pra variar, eu devaneios tanto no meu próprio sonho, que quando eu olhei pra baixo, vi que eu tava dando banho na monstrinha, de novo.
O que, sinceramente ate que foi melhor, porque nessa posiçao, nenhuma de nós ia conseguir fugir, íamos ter que ouvir casa uma das outras ate o final.
Dandara: agora que eu percebi, eu nunca perguntei o seu nome né? Qual é o seu nome, fofinha?
E quando eu perguntei isso, a monstrinha coçou o próprio olho, fazendo a sujeira finalmente revelar o que tinha por baixo do olho dela.
E quando eu vi o que era, eu deixei o sabão na minha mão cair enquanto meu estômago revirava e meu corpo se paralisava ao ver o olho azul dela, um olho idêntico ao meu…nossa, eu fiquei sem ar, mesmo estando em um sonho.
Monstrinha: Dandara, eu sou Dandara Galdino.
Galdino, Galdino, ela era eu, mas não a “eu” de hoje, era…minha “eu” criança, a minha voz interior, aquela que eu tentei encontrar por tanto tempo, ali na minha frente.
Agi sem pensar de novo, bom, pelo menos senti isso, pois mesmo num sonho, meus braços pareceram se mover mais rápido que qualquer pensamento que eu podia ter, fazendo eu abraçar ela, e minha criança interior me abraçou de volta.
Então, a culpa pesou em meu peito, e toda minha tristeza começou a cair naquela banheira em lagrimas, enquanto minha criança interior fazia carinho em minhas costas, como se nossos papéis tivessem se invertido, e ela estivesse me confortando agora mesmo que por um segundo.
Dandara: me perdoa…eu te ignorei por muito tempo
Monstrinha: ah, mas você nunca me ignorou
Dandara: como assim? Eu te ignorei sim
Monstrinha: não, você não me ignorou, você gastou muito tempo tentando me afastar afastando pra dizer que você ignorou.
E mais uma vez, eu fiquei paralisada, e sem nenhuma voz quando ela falou aquilo, entendendo bem até demais que ela queria dizer com isso.
Eu já tinha matado a charada e entendido quem era o monstro, mas pra me deixar mais certa do que eu estava pensando, a Monstrinha falou.
Monstrinha: é, o monstro que eu tinha medo, era você.
Eu devia estar enojada e furiosa comigo mesma, mas não, ao invés disso, eu fiquei curiosa, pela forma que a Monstrinha me referiu como um monstro
Dandara: “era” eu?
Monstrinha: pois é, antes, você me bateu, me empurrou pra longe, gritou comigo, e principalmente, quis me silenciar, mesmo que eu tivesse tentando te ajudar.
Monstrinha: eu tentei te mostrar que a mamãe eo papai não ligavam pra gente, que agente podia ter mais sorte em qualquer outro lugar, e quase qualquer outro pai visse nosso esforço, eles iam bater palmas pra nós e nos abraçar como se nós fossemos as coisas mais preciosas do mundo pra eles
Monstrinha: mas você não me escutou, na verdade, você começou a me caçar pelo castelo, como se eu fosse sua parte ruim que precisava ser exterminada.
Ao ouvir tudo isso, eu desabei, a Monstrinha estava sem roupas e ainda no banho, mas eu comecei a chorar muito quando ela falou tudo aquilo. Até que eu tive força o bastante pra perguntar algo bem simples pra ela.
Dandara: se eu fiz tudo isso com você, então, porque você não me odeia?
E como se tivesse tentando disfarçar, a monstrinha mexeu um pouco os ombros, desviou o olhar de mim várias vezes, até que finalmente falou.
Monstrinha: eu te odiei, por muito tempo, até que você decidiu me limpar
Dandara: hahaha, sério? Eu limpar você fez você confiar em mim?
Monstrinha: exatamente, quando voce me prendeu naquelas correndes, eu pensei de cara “ah não, ela vai me matar, e hoje que eu morro mesmo”.
Monstrinha: mas não, você tirou toda a sugeira, dor, e armas que eu coloquei pra me defender de você. E tentou o maximo possivel cuidar de mim, tentou ate mesmo caçar o “monstro” que eu falei que tinha me atacado no castelo antes.
Dandara: (risinho envergonhado) acho que, eu só queria que você confiasse em mim.
E quando eu falei aquilo, eu vi a ?onstrinha, com a mão toda molhada, tocando no meu peito, bem em cima do meu coração, e falar.
Monstrinha: e você conseguiu…demorou um pouco pra eu confiar em você, mas acho que, em algum momento nessa sua grande jornada pra cuidar de mim, eu entendi que, você não é mais aquele “monstro”, não é?
Dandara: jura? E o que você acha que eu sou agora?
Monstrinha: alguém decente, uma garota gentil, tranquila e muito simpática, mesmo com monstros de seu passado como eu. Diferente do monstro cruel que você era antes. E olha que você tá na metade do caminho.
Alguma coisa naquelas palavras, me tocou de formas que eu nem conseguia descrever direito.
Tanto que, com a mão dela ainda em cima do meu peito, eu senti uma sensação de bem estar, que não era felicidade, era o mais puro e simples sentimento de calmaria que já senti em toda a minha vida.
Um sentimento que eu me tornei melhor em diferenciar do resto, pela frequência que eu tinha sentido ele ultimamente.
Dandara: engraçado, em algum momento da minha vida, eu só queria ser como meus … se sabe, ser igual a eles, mas, agora, eu só estou aliviada que não sou nem um pouco igual a eles
Monstrinha: todos fazemos coisas que nos arrependemos, por exemplo, eu me arrependo de não ter percebido que você mudou mais cedo
Dandara: ah, mas comparado ao monstro que eu era antes de começar toda essa jornada, você tinha todos os motivos do mundo pra não ter percebido mais cedo
Monstrinha: e mesmo não é.
E eu e a Monstrinha rimos um pouco.
Aquela situação toda deveria me causar dor, fazer feridas emocionais antigas se abrirem, e eu sentir uma livio, misturaco com do gigantescos.
Já que eu estava falando de meus traumas com alguem, e ao mesmo tempo, jogando pra fora um monte de sentimentos acumlados que eu guardei, tanto bons, quanto ruins.
Mas não, nada disso aconteceu, eu, na verdade, estava até que bem tranquila, com nenhum único sentimento forte ou fraco demais dentro de mim, se manifestando pra fora.
Parecia apenas que eu estava tranquila, conversando e me divertindo com essa versão minha mais nova, o que, por mais que eu ainda tivesse tentando entender todos os detalhes daquele sonho, ainda era algo muito bom e legal.
E depois de dar um banho bem demorado na Monstrinha, eu a sequei e a coloquei em um vestidinho preto, que parecia combinar mais com o nosso cabelo ruivo do que o branco.
E olhando um pouco melhor pra Mostrinha, eu entendi de cara que ela não era parecida com a minha versão criança coisa nenhuma.
Tinha o principal motivo, que era que o cabelo dela tava solto, ao invez dele estar preso, como no que eu lembrava da minha infância.
Além de que…era algo ruim, pensar isso do próprio passado, mas ela parecia “saudável demais” pra ser uma versão infantil minha que cresceu com…os Galdinos
Dandara: você parece bem mais saudavel que eu
Monstrinha: lembre-se Dandara, nós estamos no seu sonho, eu estou assim porque a sua mente pensa que é assim que eu devo estar agora, ou seria melhor dizer, assim que sua mente pensa que “você” devia estar agora?
Dandara: na verdade, acho melhor não misturarmos muito as coisas pra gente não se confundir, vamos fazer assim, eu vou ser a Dandara, e você a “Monstrinha”. Tem algum problema de ser chamada de “Monstrinha”
Monstrinha: você já me chamou de coisa muito pior.
Nossa, achei que o clima ia ficar mega pesado quando ela falou aquilo, mas então, ela sorriu pra mim como uma brincadeirinha, e falou.
Monstrinha: (sorri) então não, não me importo nem um pouco de você me chamar assim
Dandara: ótimo, porque só assim vou poder lembrar do monstro que você era antes, mas agora…
Parei de falar no meio do caminho, e me dei a chance de olhar pra Monstrinha depois do intensivo cuidado que eu dei pra ela.
E eu não pude me controlar em dar um alívio orgulhoso, pois agora ela tava com um vestidinho preto, simples, o cabelo solto como o meu, e com uma pele bronzeada de tanto que agente saiu la fora pra brincar.
Era uma roupa basiquinha, mas que tinha uma beleza melhor do que qualquer coisa chique, cara, e coberta de detalhes que eu já tive nos meus dias com os Galdinos…
É, com os Galdinos, era assim que eu iria me referir a eles agora, e de nenhum jeito a mais.
Dandara: porque agora sim, você tá parecendo uma princesa de verdade
E depois de eu falar aquilo, eu vi a monstrinha sorrindo de uma forma bem doce, pra mim.
Monstrinha: eu me sinto uma princesa, e tudo graças a você.
E do mais completo nada, a monstrinha saltou na minha direção, e me deu um abraço bem forte.
E, mesmo já estando um pouco mais acostumada com abraços, abraçar a mim mesma daquele jeito, foi algo que me pegou de surpresa amesmo.
Mas quando o choque passou, eu só pensei o quanto aquilo era stisfatorio.
Aquilo tava tão bom, que eu senti que minha lingua iria falar por conta própria de novo, e pra variar, dessa vez eu deixei que ela falasse por conta própria.
Dandara: eu prometo de proteger, te amar, e cuidar de você, não importa quantas vezes eu quebre essa promessa, sempre farei questão de refazê-la promessa
Monstrinha: e eu sempre farei questão de te lembrar dessa promessa machucando você
Dandara: Não podia pedir menos de mim mesma.
O Gabriel, sempre foi claro pra me dizer que, às vezes a magia se manifestava nos sonhos, e às vezes, sonhos querem nos dizer algo.
Mas não coisas como sonhos proféticos, eram apenas sonhos que tentam ajudar as pessoas a entender o que elas não conseguem sozinhas.
E depois de todas as sessões de hipnose, sonhos, e principalmente o cuidado extremo que eu tive com a Monstrinha até agora, acho que eu tava começando a entender o que esse sonho significava.
Mas por enquanto, eu so achava mesmo, porque certesa, eu sentia que só ia descobrir quando tivesse bem mais velha, tanto fisicamente, quanto espiritualmente.
E principalmente, crescida mentalmente, pra conseguir descrever direitinho o que esses sonhos significam, por mais difícil que isso fosse às vezes.

