Foi interessante passar por aquilo, mas eu acho que quando completei 4 meses lá dentro, eu descobri algo novo sobre mim, apesar de eu gostar bastante de dançar, não era algo que eu dava tanta importância, pelo menos não no nível de ser uma das minhas paixões pelo menos.
No melhor dos cenários, dançar era apenas um passatempo meu, mas o que eu gostava de verdade, o que eu podia dizer ser a minha “paixão” eram as músicas.
em algum momento nesse quarto mes, eu comecei a ver as letras de cada música histórica que eu tinha a chance de ouvir, a serenata que contou a vida inteira do Grande Alaric.
O dueto entre as mães que queriam proteger os amaldiçoados e as mães que queriam os matar.
A cansado evangélica quase em forma quase divina de um irmãozinho desesperado por não saber como ajudar sua irmãzinha singular(outras pesquisas me fizeram descobrir que ela tinha a Singularidade do Gigante feliz).
E alguns sonetos mais alegres sobre príncipes e princesas começando, progredindo e terminando suas jornadas solo.
Foi algo incrível, me dando até o pensamento que eu precisaria fazer minha própria música logo pra não ficar muito pra trás desses bardos, que apenas agora, eu via o quanto os admirava.
E enquanto aproveitava essas canções, eu também lia um livro peculiar que me fez entender algo interessante, mas não sobre os príncipes, mas sim sobre os camponeses.
Era engraçado ver os livros pelo ponto de vista do protagonista, pois eles contavam vários detalhes como o protagonista masculino queria fazer coisas com a garota, ele queria dizer que a amava, a abraçar, a beijar, mas ele não fazia nada disso, pois tinha medo de “entender errado”.
Nossa, muitas garotas usavam os sentimentos e o amor do menino de brincadeira, vários livros faziam o protagonista ser uma piada, por que a garota descreveu que gostava de alguém, fazendo pensar que era ele, quando na verdade era outra pessoa.
Nossa, ler esse tipo de scena fez eu ficar com nojo instantâneo, como garotas assim conseguem dormir? Que tipo de garota consegue fazer isso e não ter nenhum peso na consciência? Eu não conseguia nem pensar nisso, de tão amedrontada que fazia eu me sentir.
E ainda tinha o clássico de que “eu gosto dele, então vou fazer buling com ele até ele me notar” wisnfuskdnkssnjfo, esses livros eram tão infantis, irreais e fetishisados que eu parava eles no meio do caminho, não conseguindo os terminar.
Mas quando eu parava no meio do caminho, eu tava sendo determinada, pois tinham alguns que eram tão ruins e pesados que eu mal conseguia chegar no meio do caminho.
Mais espessificamente, eu sempre parava no ponto da história que eu não conseguia pensar em mais nada além de “se isso fosse na vida real, esse protagonista ia se matar agora” porque, nenhuma pessoa iria aguentar o que esses protagonistas sofreram até certo ponto.
E sempre que eu me convencia disso, eu também eu pulava pro final, só pra descobrir que eles se casaram…e olha quem diria, eles se casavam mesmo.
Acho que, depois do que eu passei, eu talvez não conseguisse mais ver alguém sendo maltratado como algo fofinho, mesmo sendo só fantasia…ver aquele tipo de cena, não passava pela minha cabeça, não importa o quanto eu tentasse ler.
Nossa, quando eu vi aquilo tive vontade de queimar os livros, mas aí eu iria perder muitos pontos de bom comportamento então ignorei, apenas foquei no que eu descobri sobre a mente masculina.
Enquanto eu descobri que apesar de sofrer muito nas mãos dos garotos crescidos que eu já conheci, eu descobri que existiam muitas “garotas crescidas” também, que criavam um extrago absurdo em muitas pessoas que diziam “amar”, mas se aquilo era amor, eu nem queria saber o que era o ódio deles.
Mas a pior parte, é que elas eram em uma quantidade bem maior, e quase sempre eram exaltadas por se comportarem como crianças. “Isso ai amiga, se vingou daquele namorado escroto”, “isso mesmo garota, você não é a mãe dele pra fazer coisas pra ele”, “isso, implica com eles tenho certeza que ele vai entender que você gosta dele” e “não o aceita tão fácil assim não, se faz de difícil, faz ele te desejar ainda mais”.
Fiquei com vontade de xingar, mas tentei fazer um xingamento sem palavrões, pra ver se ele ia realmente ficar melhor sem palavrões simples, que significavam coisas simples e que no fim, eram simples demais pra tudo que eu estava sentindo.
Dandara: nossa, esse foi o maior desperdício de papel e tinta que já li.
Uuuuuh, boa, essa foi boa.
???: se quer um romance de qualidade, deveria experimentar esse.
Tri tri me virar pra ver quem tinha falado aquilo, mas antes de eu ver quem era, eu vi uma pilha de livros ser posta na minha frente.
Uuuuuh, e os títulos e capas em si já eram bem interessantes “meu pequeno girassol”, “o mar infinito”, “pulso cortado” e “barco sem velas”.
Muitos diziam “não julgue um livro pela capa” mas por toda a qualidade e porcaria que li ultimamente, fiquei boa em dizer se um livro era bom ou não apenas olhando, e numa lida breve, vi que eram bons mesmo.
Dandara: nossa, obrigada, desculpa mas, nunca vi a Lady por aqui, você é nova?
???: ah não, eu sou uma antiga paciente, agora só venho aqui para ajudar e motivar os outros.
Tirei um tempo pra olhar a moça na minha frente, bom, pelo menos olhar o que ela permitia, pois ela era uma Singular da Invisibilidade ou seja, uma cega desde o nascimento. Eu via a empregada dela próximo dali.
Senti que conhecia a moça de algum lugar, algo naquela maquiagem que me permitia ve-la um pouco, os óculos escuros e chapéu de moça refinada era muito familiar pra mim.
Mas eu não consegui me lembrar de nada de cara assim, não conseguindo me lembrar de onde eu acontecia, eu so levantei minha mão, pra cumprimentava.
Porque, no fim, títulos ou importância politica não faziam diferença ali, dentro da casa de reabilitaçao, todos eram iguais, então eu podia cumprimentar essa moça se eu quisesse.
Não importa quão alto da política ela tava de mim, ali, nos éramos só duas damas se cumprimentando, então levantei minha mão num aperto e falei.
Dandara: eu sou a Dandara
???: Isabely.
Isabely, eu com certeza já ouvi esse nome em algum lugar, mas me distraí vendo a mão enluvada de Isabely errar minha mão 3 vezes antes de acertar na quarta e dermos um aperto de mão forte.
Dandara: (suspiro) sério, o que tá acontecendo com a literatura esses dias?
Isabely: como assim?
Dandara: eu tava com vontade de beijar meu namorado, e ele também estava, mas ele não fez, e…eu percebi que eu fui contaminada
Isabely: hmhmhm, e pelo que exatamente?
Dandara: que…ele precisa dar o primeiro passo, mas, pelo que parece, não é seguro dar o primeiro passo hoje em dia, existem tantas regras, joguinhos e até costumes que as meninas adoram. Caramba, se eu tentar fazer isso com ele, pode acabar que ele que se afaste de mim…
Eu fiz um rosto estranho, me sentindo cheia de nojo de mim mesma e raiva das coisas que eu li que me fizeram inconscientemente pensar assim.
Eu sabia que a Lady Isabely não conseguia me ver, mas ela parecia entender o que meu silêncio significava.
Isabely: e?
Dandara: eeee, sinto que eu devia dar alguma coisa pra ele
Isabely: por exemplo?
Dandara: bom, eu não sei, ele já me deu tantas coisas, uma boa família, amigos, um amor que nunca conheci…ele já fez tanto por mim e sinto que não fiz nada por ele
Isabely: bom, por que você não começa admitindo que quer beijar ele? Tenho certeza que ele vai ficar bem feliz
Dandara: não, não, não, isso não basta, eu quero dar algo pra ele, algo a mais que um beijo, algo que possa dizer pra ele “ei, você não é o único que tá tentando se esforçar nessa relação”.
E assim como várias vezes que eu fiz isso dentro da casa de recuperação, falar em voz alta o que eu pensei, me deu uma ideia bem melhor do que eu queria de verdade.
Eu tive tanta certeza da ideia que eu tive, que por alguns segundos, um brilho apareceu na minha cabeça, e quando eu olhei pra cima, vi que tinha uma lâmpada em cima de mim, que doideira.
Isabely: e você tem alguma ideia do que essa coisa pode ser?
Dandara: acabei de ter uma ideia, mas eu acho muito bobinha
Isabely: por que não põe em prática essa ideia? Tenho certeza que ele vai gostar, seja lá o que você mostre pra ele
Dandara: tá, eu vou tentar, mas me fala, sei que é algo estranho pra falar se conhecendo pela primeira vez mas, você tem namorado?
Isabeli: na verdade, eu tenho um noivo, que meus pais arranjaram
Dandara: sério? E você tá, tipo, de boa com isso?
Isabely: tô sim, meus pais pelo menos tiveram a decencia de perguntar se eu queria aquilo, e quando conheci meu noivo, sabia que ele seria o cara perfeito pra mim
Dandara: ele não ligou pra sua Singularidade?
Isabely: na verdade, ele não fingiu que não notou, mas ele nem ligou e só tentou me conhecer, ele entendeu que, apesar da maldição ser parte de mim, não era a eu inteira
Dandara: hehe, e quem é a você inteira?
Isabely: ah, senhorita Dandara, se descrevesse tudo iríamos ficar dias aqui
Dandara: me dá o básico pelo menos
Isabely: digamos que…eu sou uma garota que foi bem cuidada e bem planejada, e apesar de não enxergar eu posso dizer com todas as palavras que meus pais nunca, nunca, NUNCA, desistiram de mim
Dandara: sortuda
Isabely: sou mesmo né? Também faço parte de um legado imenso, épico e duradouro que eu sempre me orgulhei de fazer parte, então me dediquei muito pra ser um elo forte, algo que iria não apenas manter todo esse legado, mas sim algo que o levaria A NOVAS ALTURAS.
Ela falou isso apontando pro céu, toda empolgada, de uma forma que não pensei que alguém cega podia ficar, já tava acostumada com o meu Príncipe se empolgando assim, mas era interessante ver outras pessoas perdendo a compostura, principalmente princesas, e ainda mais aquela que parecia diferente das outras.
Bom, pelo menos eu fiquei feliz que a empregada dela, apesar da cara debochada que tava fazendo, não parecia que iria repreender sua mestra.
Dandara: hehe, nossa, seus pais devem ser incríveis
Isabely: você não faz ideia.
Eu conseguia fazer um pouco de ideia pela forma como ela se vestia, a princesa, apesar da idade, usava um vestido sem espartilho e com uma liberdade bem grande, era mais cheia que a maioria das princesas que eu já conheci, e tinha uma radiância em sua voz e seu jeito de falar que nem a invisibilidade conseguia ocultar.
Dandara: você não se sente incomodada que…você não pode escolher o que você quer?
Isabely: muito pelo contrário, fui contada desde nova que eu tinha o direito de ter tudo isso, mas eles sempre me deram escolha, falaram que eu podia trocar de lugar com meu irmãozinho, e eu te garanto, ele nunca trocou de lugar comigo.
Então, algo imprecionante aconteceu, pela primeira vez, em meses, eu ri, um “hahaha” forte, que eu apenas conseguia dar com meu Príncipe, e essa Singular desconhecida conseguiu arrancar de mim.
Eu pensei um pouco sobre isso, e fiquei maravilhada que isso aconteceu, eu acreditava que era uma combinação do que eu passei nos últimos 4 meses, misturados com o fato de ser com essa Singular em espessifico que eu estava conversando.
Pois mesmo não me lembrando de cara quem ela era, eu já conseguia sentir que aquela Singular tava bem longe de ser normal.
Ela era alegre e relaxada de uma forma que eu nunca vi em alguém, além de ter uma “energia” vibrante, a ponto que eu já a considerava minha melhor amiga, mesmo que agente tivesse acabado de se conhecer.
Isabely: ok, agora é sua vez, me fala um pouco sobre você
Dandara: bom…pode ser estranho isso, porque, eu ainda tô tentando descobrir o que eu sou
Isabely: não sabe quem você é?
Dandara: só digamos que meus pais queriam que eu fosse algo que eu não podia biologicamente ser, por assim dizer
Isabely: hummmm, eu entendo, entendo mais do que você pensa, mas me fala, você gosta de alguma série da espelho-televisão?
Dandara: boooom, eu tenho visto bastante uma sitcom onde uma bruxa se torna quase uma tia pras crianças da princesa que ela amaldiçoou.
Dandara: hehe, é hilário como no primeiro episódio, a princesa vai correndo pra bruxa, com o rosto de uma zumbi com um bebê nos braços, quase implorando pra bruxa a amaldiçoar pra ela dormir de novo…hehehe, HAHAHA
Dandara: e o marido? Ah eu amei como o marido foi construído na história, ele também ama as crianças, mas está indo tão bem quanto um pai de primeira viagem pode ir, cansado, reformulando tudo que ele entendia de sono e sendo basicamente um escravo dos recém nascidos
Dandara: e apesar de todas as pessoas que apareceram no casamento do príncipe e da princesa, a princesa ainda achou que seria mais confiável dar seus bebês pra uma BRUXA que a pós pra dormir pra sempre do que seus parentes
Isabely: é o que dizem, você só pode confiar em seu inimigo pra certas coisas, pois apenas eles que pensam em vocês o tempo todo
Dandara: o que eu amo é como a bruxa tem devaneios de como ela vai machucar e torturar os bebêsa todo o momento na série, mas tem sempre a piada de quando eles tão sempre perto de chorar ela faz o contrário total, e tenta fazer o impossível pra deixar os bebês felizes
Dandara: também amo como, apesar dela gostar muito dos bebês, ela não hesita um segundo em entregar de volta prós pais quando as crianças já saíram do limite…hihihi, HAHAHA
Isabely: aí aí, e o papai ainda duvidou da mamãe que essa serie iria bombar. Ele realmente não entende nada de espelho-televisão
Dandara: pera ai, mamãe, papai? Espera aí, você…
Empregada: sua alteza, o intervalo acabou, precisamos voltar
Isabely: ah, Bruna, você não vê que estou meio ocupada aqui?
Quando minha mente ligou os pontos novamente, comecei a entrar em pânico, não pelo status da mulher à minha frente, mas pela noção de quem eu estava monopolizando.
Meu deus do céu, quantas crianças que precisavam de uma forcinha a mais do que eu, tantas crianças que precisavam de muito mais ajuda do que eu.
Dandara: ah, não, sua alteza, tenho certeza que tem pessoas que precisam de muito mais ajuda do que eu
Isabely: em primeiro lugar, não me chame de “sua alteza” por favor, não estamos em nenhum baile formal ou coisa do tipo, e em segundo lugar, não sinta vergonha de me monopolizar, você tem o direito de falar comigo tanto como qualquer um
Dandara: mas você é a Isabeli, existem Singulares que ficam melhores só de você aparecer pra eles, eu sinto que existem muitas pessoas que são casos bem mais importantes que eu.
E quando falei aquilo, eu vi, através da maquiagem fraca da Lady Isabeli, que ela faca sorrindo, era um sorriso materno, que eu não pensava que alguém tão nova como ela, era capas de fazer.
E com um carinho na minha cabeça, ela me falou.
Isabeli: eu gosto de pensar que todas as conversas que tenho com meus irmãos é especial e importante, então, vamos terminar nossa conversa primeiro, e depois eu vou embora, ta legal? E agora, do que agente tava falando?
Levou alguns segundos pra eu me recuperar do choque que ela me deu, porque o que ela falou comigo, foi algo que me pegou de surpresa a mesmo, e quando me recuperei, não tive vergonha de falar.
Dandara: eita, nem eu sei mais, perdi o fio da meada também…ok, vamos terminar nossa conversa com algo menos esquisito, que tipo de bolo você gosta?
Isabely: laranja.
Fiquei um pouco confusa, isso não era comida de camponês? Ou era algo mágico que só os magos podiam cozinhar?
Provavelmente era a segunda opção, pela princesa conhecer esse bolo, espera, mas a princesa Isabely nunca foi alguém que gastava dinheiro com coisas chiques, então, que tipo de bolo era esse?
E naquele momento, senti uma manifestação estranha de magia em mim, como se algo tivesse brotado da minha cabeça pelo tamanho de minha dúvida. Até que a empregada exclamou.
Empregada: aaaaaaaaah, aquilo é um ponto de interrogação?
Eu abanei o topo da minha cabeça, com medo do que eu podia encontrar, e eu senti algo flutuando em cima dela nela, e sim, tinha um ponto de interrogação flutuando em cima da minha cabeça.
E mesmo sem ver, podia notar que a princesa sentiu a interrogação também.
Isabely: espera aí, não me diga…(suspiro de medo) VOCÊ NUNCA PROVOU UM BOLO DE LARANJA!?
Dandara: não, mas não é importante
Empregada: sua alteza, se acalme
Isabely: (respira fundo)tem rasão(respira fundo) tem…razão, mas Bruna, fale com alguém, qualquer um, pra conseguir um bolo de laranja pra essa moça, isso é algo ainda maior do que a alegria de uma das minhas irmãs de alma, é questão de orgulho nacional.
Isabely continuou falando com a empregada dela, enquanto a mesma se apoiava nela e era guiada até a saída.
Acho que depois da bomba que eu joguei nela, ela meio que não conseguiu mais pensar em mais nada além do fato que eu nunca provei um bolo de laranja na minha vida.
Mesmo que, eu não conseguisse perceber ainda qual era o grande problema disso.
Isabely: e podem falar que é um pedido especial da princeza, eles logo vão entender o que significa
Empregada: sim Isa.
E novamente, eu fiquei em choque quando vi a Princesa Isabeli saindo pela porta da biblioteca.
Mas quando eu me lembrei de todos os contos que eu ouvi sobre as visitas da Lady Isabeli pra dentro das casas de reabilitação, eu logo corri para a sala de lazer, curiosa pra ver se a reação de todos ia ser tão doida e exagerada tanto eu ouvi falar que seria.
E como eu esperei, quando a princesa chegou na sala comum, todos os Singulares foram até ela, e quase como se tivesse posto uma máscara, a Lady Isabely sorriu e cumprimentou a todos, como se tivesse acalmando um estouro de bois.
Ao mesmo tempo que cava o tempo perfeito para falar com todos da mesma forma que fez comigo, de forma calma, relaxada e como se eles fossem amigos mostrando que títulos não importavam aqui mesmo.
Tentando escapar do estouro da boiada de Singulares, eu me esfueirei pelos cantos seguros e cheguei em um canto, e só fiquei olhando a Isabely falando com todos ali, consolidando ainda mais aquela atmosfera materna que eu enchergava nela, mesmo que ela fosse invisível por baixo da maquiagem.
Não sabia se ela fazia aquilo por obrigação, ou por pena de seus ditos “irmãos” mas olhando as emoções dela através da maquiagem, era claro que ela gostava bastante do que estava fazendo…gostava muito nesmo
Dandara: bizarro, em toda minha vida eu nunca vi uma mulher tão feliz quanto ela.
Não falei aquilo pra ninguém, parecia mais que eu estava falando pra mim mesma, e enquanto a princesa ainda atendia vários e vários singulares, um mago entrou na sala e me deu um prato com bolo de laranja e uma colherzinha.
O bolo de laranja era bem simplesinho, amarelo por dentro e marronzinho por fora, não tinha coberturas ou doces em cima, era apenas um bolinho que quase se parecia um pão.
Era fofo a ponto de eu precisar só de uma colher pra pega-lo, e na minha primeira colherada, eu comi não esperando muita coisa, eu já tava esperando que aquele bolo tivesse o mesmo sabor das mesmas coisas que comi até aquele ponto: com gosto o bastante pra ser alguma coisa, mas fraco demais pra ser algo descente.
Mas quando o bolo tocou minha língua, eu quase desmaiei pelo choque de sabor que eu tive, uma doçura descomunal passou pela minha língua, eu me sentia como se estivesse nadando em um mar cheio de açucar sabor laranja.
E a cada colherada, algo naquele bolo pareceu alimentar minha alma junto com minha barriga e meus olhos começaram a brilhar de emoção.
O que eu senti ali não era apenas o sabor, eu…conseguia sentir o amor colocado naquele bolo com cada colherada que eu dava.
O cozinheiros, os fazendeiros e talvez até um pouquinho de mim, se esforçaram muito pra fazer esse bolo, e o mais estranho disso era que, o bolo não era especial o gosto dele gosto doce e simples.
Um gosto que que comparado a todos os ricos doces e bolos super elaborados que comi quando era criança, deveria ser horrível.
Mas aqueles bolos chiques eu já não podia sentir o gosto direito a muito tempo, já aquele simples bolo de laranja, eu conseguia senti-lo em minha boca, bem até demais….
Um simples bolo de laranja conseguiu conquistar meu coração, eu dei outra colheradas e eu senti…aquilo.
Não sei se aquilo tinha um nome, mas era a mesma coisa que sentia com minha dansa, com a música ou com o Antonio, uma “coisa” que fazia eu pensar que, eu não era mais a “Dandara, a garota maltratada e machucada que precisava de ajuda”, e eu me tornava mais a “Dandara, a garotinha normal”.
Sim, aquele bolo simples, com gosto simples em um lugar simples, me fazia me sentir normal, uma garota sem problemas físicos, emocionais e mentais.
Sem preocupações, sem stresses. Apenas uma garota normal.
Enquanto via o bolo pela metade, apenas contemplei que, só hoje, eu era uma garotinha aproveitando um bolo, e nada mais.
Então eu vi, a Princesa Isabely me olhando, ela era cega, mas eu sentia que ela estava me olhando, e o sorriso que ela dava, me deixou feliz tambem.

