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Olhos de mel 🌻X
adultos crescidos
4492 palavras • 25263 caracteres • ⏱ 17 min 58 s

adultos crescidos

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No próximo domingo, eu já havia decorado o caminho para a sala de visitas, e quando cheguei lá, fiquei ansiosa por meu Príncipe ainda não estar lá, ele quase nunca se atrasava, ele era o tipo de cara que preferia morrer ao se atrasar.


Tentando já não pensar o pior, eu comecei a bater na mesa com minhas mãos, tentando me acalmar, e tendo resultados bem fracos. 


E quando ele chegou na sala, decidi esperar um pouco, até que não consegui mais e me levantei, dando a ele um abraço forte, eu estava abraçando ele tão forte que pensei que iria quebrar ele em dois.


E em algum momento, no meio do abraço, algumas lágrimas de desespero foram derramadas, mas eu não ligava, eu só queria sentir com meus braços e minhas mãos o quão real meu Príncipe era, pois, mesmo que eu tivesse melhorado, aquele pesadelo me afetou de muitas formas.


Meu príncipe reagiu com bastante paciência, com ele apenas me abraçando de volta e fazendo carinho em minha cabeça, e quando me acalmei, me sentei na cadeira, e comecei a falar com ele.


Dandara: me desculpa por te abraçar assim do nada


Antonio: ta tudo bem, eu gostei.


E novamente, mesmo em frases simples, aquele garoto conseguia arrancar a risada mais sincera que eu tive a muito tempo “hahahaha”. 


Existia algo na voz dele que fazia eu abaixar totalmente a guarda, antes eu pensei que era porque, bom, ele era um Mago e ele estava usando algum feitiço de seduçao em mim, mas quando me dei a permição de conhece-lo um pouco melhor, entendi na hora que não era magia, e com certesa não era ilegal.


Dandara: sei que essa é uma forma ruim de começar uma conversa, mas, eu tive um sonho horrível


Antonio: hummm, e o sonho era sobre o que?


Dandara: nesse sonho, eu nunca te conheci, e todas as coisas que eu li sobre minha maldição, aconteciam com mais intensidade a cada dia que passava nesse sonho. Eu fiquei cada vez mais vazia, até que chegou um ponto onde eu não tinha sentimentos sequer para respirar ou ficar em pé, e eu morri no caminho pro altar, e ninguém sequer deu o trabalho de virar a cabeça pra olhar, nem meu noivo, nem meus pais, pra eles, eu não passava de um objeto que podia ser jogado fora quando quebrasse.


E apesar de eu estar bem afetada ainda elo pesadelo, a cara de nojo que meu Príncipe fez naquela hora me arrancou boas risadas, de novo.


Antônio: que horror, (sorri) mas no fim, foi apenas um pesadelo, e mesmo assim, ele acabou se mostrando uma coisa boa


Dandara: serio? o que?


Antonio: pode me chamar de sonhador, mas talvez, algo bem no fundo de seu ser ainda acredite que, no fim de tudo, seus pais se importavam com você, de alguma forma, e esse pesadelo, veio pra te mostrar que, não, eles não se importavam com você, e nada naquela vida antiga valeria a pena de lembrar ou de ter esperanças, entende?


Dandara: hehe, acho difícil de acreditar, eles me machucaram muito, não teria como eu…ainda…acreditar…que me amam…


Eu tentei continuar falando, mas a minha língua se engasgou em sentimentos de novo, mas não foi só minha garganta, eu senti algo frio escorrendo do meu rosto, e quando eu o toquei, vi que eram lágrimas. 


Tentei limpar as lágrimas, mas isso só fez elas caírem mais, tentei desesperadamente às limpar, mas logo notei que não venceria aquela luta, então só olhei pra baixo e deixei as lágrimas caírem, e caírem, e cairem. 


Vendo aquilo, o meu príncipe não tentou as limpar, ele apenas me olhou, como se esperasse uma confirmação, então eu falei o mais sincero “me abraça” do mundo, e ele me deu um abraço bem forte, a força do abraço dele me fez me sentir segura, segura o bastante pras lágrimas pararem, e sussurrando mais pra si mesmo do que pra mim, ele falou.


Antonio: eu sei como é, ainda ter esperanças que, no fim de tudo, seu Pai ira mudar de alguma forma…e eu tambem sei o quanto doi ainda acreditar niisso, eu sou um idiota que ainda acredita, mas voce é uma garota inteligente, muito mais inteligente que eu, então por favor…(respira fundo) não cometa o mesmo erro que eu.


Não consegui responder ele, e nem corresponder o abraço, apenas absorvi aquele abraço com tudo que conseguia, absorvendo o calor, a força o amor, eu queria absorver e sentir tudo daquele abraço, sentindo que ele me fortalecia de alguma forma, eu também sentia que estava dando algo pro Antônio nesse abraço, mesmo não sabendo o que era.


Eu senti lágrimas do meu Príncipe caindo em mim, e por mais estranho que fosse, aquilo me deixou muito feliz.


Quando o abraço acabou, nós nos sentamos de novo, e pelo rosto que ele estava fazendo, meu príncipe queria me dizer alguma coisa.


António: sei que eu disse que, queria deixar mais algum tempo antes de te contaminar com as coisas que eu gosto, mas eu to empolgado demais com o que eu descobri pra não contar isso pra alguém


Dandara: sem problema Antonio, antes de tudo, você é meu amigo (sussurra)o primeiro amigo de verdade que eu tive(para de sussurrar) qualquer coisa que você goste, eu vou gostar


Antonio: ahn, tem certeza Dara?


Dandara: vai por mim melzinho, eu já descobri como dizer “não” e “eu não gosto” quando eu não gosto de algo, pode ficar tranquilo


Antonio: ta bom, então, lá vai. (tosse). O que eu descobri é que…todo mundo é especial, ao mesmo tempo que todo mundo é igual. Mas deixa eu explicar, 


Antonio: eu, você, cada singular aqui, como o próprio nome sugere, somos Singulares, cada um de nós precisa ser tratado de forma diferente, ou então, podemos nos tornar um grande perigo pra nós mesmos e para os outros, então somos especiais, mas ao mesmo tempo, nós somos e desejamos ser iguais, pois afinal, cada Singular quer algo que muitos pensam que só um Asingular conseguiria


Dandara: Asingular:


Antônio: é assim que chamam as pessoas “normais”, sem Singularidade…(tosse) enfim, eu quero ser um mago, e você…você quer ser algo também, mas por causa de nossas Singularidades, muitos idiotas pensam que agente não consegue, e muitas pessoas pensariam que isso é um paradoxo, mas não é.


Antônio: é o mesmo com os gigantes e as fadas, eles não são como nós, mas nós tratamos, ou pelo menos tentamos os tratar de forma igual. Ao mesmo tempo, nós tentamos respeitar as diferenças deles para nos Sapiens pois, fadas, gigantes e elfos não são como nós e se não respeitarmos as diferenças deles pra nós, poderemos causar um desastre. 


Eu tava entendendo tudo que ele tava dizendo, de uma forma bem melhor ate do que eu mesmo esperava.


Antônio: então ao mesmo tempo, nós queremos ser iguais, mas queremos nossas individualidades respeitadas


Dandara: isso é meio confuso pra mim, como um cavaleiro por exemplo pode ser um cavaleiro, enquanto tem suas limitações respeitadas?


Antônio: ora, um cavaleiro caolho por exemplo, ou melhor, um cavaleiro que não consegue segurar direito uma espada, é criada uma espada especial, ou, ele é colocado em lugares que suas limitações não serão tão ruins assim


Dandara: e se a pessoa não quiser respeitar as próprias limitações? E se ela querer algo que as limitações dela não permitem


Antônio: então ele encontra outro jeito, uma outra forma de fazer essa profissão tão querida, algo que…faria ele realizar seu sonho, não na maneira tradicional, e com certeza não na maneira que ele esperava, mas ele ainda estaria lá, junto do grande sonho dele, seria difícil, problemático e ele iria se machucar muito no processo, mas se ele está disposto a pagar esse preço até o final, então não iria importar


Dandara: que nem você?


Antônio: hmhm, não, na verdade, acho que minha limitação mais me ajudou a ir pro lugar certo do que atrapalhou, diferente da minha cabeça(da soquinhos na lateral da cabeça), meu corpo é bem mais teimoso em desistir quando sabe que eu não gosto de alguma coisa


Dandara: nossa, que inveja.


Agente deu uma risadinha simples, mas então, um silêncio ficou no ar, carregado com uma pergunta que nenhum de nós fez, até eu falá-la com a minha boca.


Dandara: mas não estamos falando só de Singulares, não é? 


Antônio: claro que não, Singular ou não, você só pode forçar uma pessoa a ser o que ela não é até um certo ponto, depois desse ponto ela só pode passar por dois caminhos, ou ela quebra, e destrói tudo no seu caminho, tentando o máximo possível continuar inteira, feliz e verdadeira consigo mesma, como foi o meu caso. (Aponta pra si).


Antonio: ou elas são engolidas pelo próprio medo, e enterra seu eu verdadeiro dentro de si, muitas vezes chegando a perdê-los para sempre, como você (aponta pra Dandara). Deve ter outros caminhos e talvez até combinações de caminhos, mas esses são os únicos que eu pude conhecer e descrever mais a fundo.


Não fazia ideia pra onde essa conversa estava indo, mas eu estava amando mesmo assim, e pensando um pouco, falei.


Dandara: mas também não existe um único tipo de pessoa que não aceita agente. Existem pessoas ruins mesmo, que entendam o que nós somos e ignoram, pensando que se forçarem o bastante pra enterrar aquele comportamento estranho, a pessoa vai parar de ser assim. E tem os idiotas que apesar de tudo, eles não são maus, eles só não entendem o que a pessoa carrega é mais pesado que uma simples birra


Eu não fazia ideia de onde tinha vindo aquilo, sim, eu tinha feito algumas pesquisas aqui e ali, mas isso não tinha cara das coisas que eu li, pareca mais um desabafo que um fato, e pelo que parece, meu Príncipe ficou bem interessado nesse “desabafo” que eu tava fazendo.


Antônio: continua


Dandara: falar de crianças assim é inútil, porque no fim, até uma certa idade, crianças são só os reflexos dos pais, então não se dá pra culpar uma criança pela incompetência do pai. Exceto em alguns casos especiais. 


Dandara: (Tosse) Mas os adultos, bom, os adultos de hoje em dia são estranhos, se parar pra pensar…muitos não são assim, mas tem muitos adultos que são crianças crescidas, e quem podemos culpar por isso? os avós e bisavós de antigamente, pois esses antigos pais não conseguiram cuidar de suas crianças e deixaram elas terem filhos cedo…


Fiquei com um pouco de medo de falar um pouco mais, pois eu não conhecia o tema desse ponto ainda pra falar com meu principe de forma boa.


Mas vendo como o meu Príncipe parecia bem longe de me olhar de forma julgadora, eu continuei, com mais coragem na voz que eu mesma podia admitir.


Dandara: e o que isso resultou? Crianças jovens que não se entendem direito tiveram que cuidar de um ser humano totalmente dependente deles, e os ditos “responsáveis” dessa nova geração de pais, não entenderam que a criança seria infeliz daquele jeito, e os possíveis “pais” não estavam prontos pra ter um filho ainda, e eles cometeram muitos, mas muitos erros…


Ok, agora eu sabia que tava desabafando, pois as minhas próximas palavras, foram carregadas com raiva demais pra não ser um desabafo.


Dandara: e tudo isso resultou nesse…MUNDO….HORRRIVEL…onde nenhum adulto atual parece ter ideia do que está fazendo, todo mundo parece não ter saído da infância, pois todo mundo hoje em dia so pensa em sexo, drogas e palavrão, de onde isso é coisa de adulto!? Você já viu algum adulto saudável e feliz fazendo todas essas coisas? Porque eu não vi…mas tem muito adulto e adolescente que faz isso falando que é a melhor coisa do mundo. MAS NÃO É, É HORRÍVEL, aquelas pessoas não passam de…de…


Antônio: crianças crescidas?


Fiquei um tempo sem falar, por mais estranho que parecesse, aquela era a expressão corretíssima que eu procurava, de onde ele tirou isso? 


Mas quando esse pensamento chegou, só consegui pensar o óbvio “mas é claro que ele teria um nome pra isso, ele tá nessa jornada a bem mais tempo que eu”


Dandara: é, exatamente, adultos crescidos, igual aos meus pais, apesar de ter tantas crianças, eles sequer pareciam saber o que estavam fazendo, colocando meus irmãos uns contra os outros, dando recompensas pro meu irmão mais velho só porque ele era o melhor nas notas, sendo que se eu tivesse metade do que eles davam pra ele, EU TERIA SIDO BEM MELHOR…


O Antônio não se assustou com a minha voz, mesmo assim, comecei a ficar envergonhada por ter perdido minha calma assim, então eu me sentei na cadeira, e passei a mão no meu cabelo, tentando me acalmar, e acabei deixando escapar um gemido de satisfação.


Acho que, de todas as coisas que mudaram nos últimos meses, foi meu cabelo ruivo. Antes, ele tava sempre preso em um coque na minha cabeça, tão apertado que doía demais.


Mas desde que eu saí de perto dos meus pais, eu tenho deixado ele solto, claro, ele tava bem mais sensível e longo agora, permitindo que até um carinho como esse, me fizesse sentir muito mais tranquila e calma.


Dandara: meu deus, é tão bom não ter aquele coque desgraçado machucando a minha cabeça.


Outra coisa que eu amava no meu novo estilo de cabelo, era como meu Príncipe parecia estar apaixonado pelo meu cabelo de vez em quando, e eu não o culpava, nas poucas vezes em que me olhei no espelho, mesmo que eu ainda me repreende quando olhava pro meu reflexo, o meu cabelo era uma das poucas coisas que eu não podia me repreender.


Ele era um ruivo forte, longo, cheio e esvoaçante, a ponto de que chegava até a minha cintura, e quando eu saísse dali, eu esperava fazê-lo crescer mais, mas por enquanto, só ia tentar me acalmar fazendo carinho nele, enquanto continuava essa conversa com meu Príncipe.


Dandara: enfim, eles nunca gostaram de mim, e…eu acho que era por eu ser garota


Antônio: eles já falaram isso pra você?


Dandara: sim, várias vezes


Antônio: então, por que você acha? E não tem certeza


Dandara: porque eles falavam a palavra “eu odeio” pra tantas coisas, que eu acho que perdeu o peso da fala pra mim, meus pais odiavam a casa, odiavam meus irmãos, odiavam um ao outro e a si mesmos…


Comecei a pensar um pouco em algo peculiar, meus pais, eles não descontavam a raiva deles em mim, pelo menos não só em mim…meu deus.


Dandara: hehe, acho que o que eu falei antes estava certo, agora que eu paro pra pensar nisso, meus pais eram o exemplo perfeito de “o que acontece quando você tem uma vida que não quer?” apesar dos quadros caros, os dedos cheios de jóias e ouro, e as comidas mais finas do mundo, meus pais eram tão infelizes e tão ruins, que acho que só conseguiam sentir amor pela vida de novo odiando e detestando tudo que tinha a volta deles…


Dandara: e eu escapei desse destino, e meus irmãos também…sei que devem me culpar, e não culpo eles, se não tivesse você comigo, talvez eu me culparia por me afastar dos meus pais, mas eu não ligo deles me odiarem, eles estão seguros agora, felizes bem, e com sorte, irão crescer pra virarem adultos saudáveis um dia


Antônio: se eles passaram a mesma coisa que você, eu tenho certeza disso


Dandara: a mesma coisa que eu?


Antônio: sim


Dandara: como assim?


Antônio: Dandara, pode ser difícil pra você entender, mas…eu meio que queria te ajudar no momento em que eu te conheci, mas eu não fiz isso.


Meus olhos arregalaram um pouco de surpresa, mas o que mais entrou em meu coracao naquela ora foi curiosidade mesmo.


Dandara: por que? 


Antônio: já ouviu a frase “toda criança merece um pai, mas nem todo pai merece uma criança?”


Dandara: não, mas posso adivinhar o que significa


Antônio: significa que crianças, com algumas exceções são presentes da Criadora, que precisam ser amados e cuidados de forma quase incondicional


Antonio: crianças tem algo peculiar, que na maioria das vezes, se o pai bater nelas e gritar, ou culpar com elas, elas vão entender que elas fizeram algo errado, mesmo que não tenham feito, e uma criança sempre vai acreditar mais no pai do que em qualquer um, até mais do que nela mesma.


Eu vi o Antônio apertando forte o punho, a ponto de chamas saírem dele, tinha muito mais sentimentos naquelas palavras do que ele transparecia, e eu me interessei bastante pra entendê-los.


E eu percebi algo bem sinistro, quando ele falou aquelas coisas, deu pra ver que os dentes dele ficaram triangulares, igual a um desenho animado quando um personagem fica muito irritado.


Antônio: mas nem esse amor é incondicional, demora e pode levar a vida toda pra acontecer, mas tem um momento em que essa confiança é quebrada, e não resta nada além da raiva, tristeza e a traiçao…eu sabia que esse momento iria chegar pra voce, eu só fui paciente e esperei.


Eu queria contrariar ele, falar que eu conseguiria aceitar a ajuda dele antes, mas cada palavra era tão certeira, que eu fiquei em silêncio por muito tempo, quando abri a boca, já sabia que ele estava certo, mas ainda fiz uma pergunta boba demais até pra mim.


Dandara: e o que aconteceria se você tivesse tentado me ajudar antes?


Antônio: muito provavelmente, você não iria acreditar em mim, iria me culpar e me xingar e me machucar até eu desistir, e iria ficar mais perto de seu pai, porque você precisaria afirmar várias vezes que ele estava certo e eu não pra fazer.


Antônio: se eu tivesse forçado meus ideais em você pra você me escutar, você nunca iria me escutar, e nem iria quebrar na “traição” que seu pai ia fazer com você, pois se eu tentasse te forçar a abandonar seu pai, isso só te deixaria ainda mais inclinada a fazer de tudo para que ele te notasse


Antônio: de forma ainda figurativa, eu ia te entortar, entortar e entortar, mas só ia te deixar mais resistente ao invés de te quebrar. Me diga de novo, por que você largou sua família?


Dandara: porque…eu me esforcei muito, a ponto de até meus irmãos ficaram preocupados comigo, o que por si so ja e pra mostrar o quão mal eu tava…eu fiquei sem comer, eu desmaiei no meio dos corredores da casa, e até acabei com um monstro 10 vezes mais forte que todos ali, e nem tudo isso foi o suficiente.


Pensar naquilo, me fez ter flashbacks do dia em que eu cheguei em casa, talvez aquele foi o momento mais forte da minha Singularidade do Vazio, eu estava com fome, mas não sentia dor na barriga, meus ossos estalavam em casa passo, mas eu não dava mais a mínima pra dor, meu corpo estava quase desmaiando por falta de nutrição, mas eu não sentia fraqueza. 


Tudo que eu conseguia sentir, era desejo, desejo por meu pai e minha mãe me aceitarem, então continuei andando, andando, e andando, até chegar em casa.


Não tinha nada ali que eu usava pra brincar, desde que eu acordava até a hora da noite, eu apenas treinava, estudava e me esforçava sem parar um único momento. 


O que eu me lembro daquele dia era minha mãe me dando um pedaço de bolo, talvez eu tivesse me apegando a migalhas, mas eu me lembro daquele momento, saboreando o bolo de morango, com minha mãe sentada ao meu lado, fazendo carinho em minha cabeça. Eu ja tava tão ruim de cabeça que eu sequer sabia o contexto dela ter feito isso comigo. Eu só entendia que era bom, mesmo com a Singularidade do Vazio.


Quando eu fui até a sala de reunioes do meu pai, vendo ele com o rosto bagunçado e com uma marca de batom na boca, pensei que não era hora de falar com ele, mas ele me mandou ficar.


Pai: o que foi filha?


Dandara: ah, pai, eu só, queria dizer que, eu fui a melhor da turma


Pai: é, eu soube, você não tem vergonha?


Eu lembro que senti algo naquela época que nem sabia o que era, mas agora, eu sabia que era uma mistura beeeeem complicada de raiva, decepção, traição, tristeza e dúvida. 


Dúvida podia não ser uma emoção, mas a dúvida em minha mente era tão forte que quase virou uma. 


E olha só, cada uma delas lutou e batalhou pra conquistar minha mente, e com tantas emoções fortes em minha cabeça, não conseguia reagir direito, e apenas consegui ficar paralisada, sem conseguir responder.


Dandara: como assim?


Pai: a melhor da turma? Você devia ser a melhor da escola!


Dandara: mas pai, você queria que eu fosse melhor que as pessoas do terceiro ano?


Pai: sim, e não fale comigo até completar isso, você ainda está longe de ser alguém de valor pra mim.


Aquilo não era muito diferente do que meu pai já falou muitas vezes pra mim, ao mesmo tempo, algo “partiu” dentro de mim naquele dia, e o último resquício de sentimento se desfez, enquanto eu saia da sala dele, já planejando nunca mais entrar ali, mesmo que eu não tivesse um plano de como eu faria isso. 


Eu não consegui chorar, porque eu demorei pra descobrir o que eu tava sentindo, então eu apenas cambaleei pelos corredores da casa, sentindo uma imensa raiva e tentando arrancar à força aquele traje horroroso e o coque doloroso de mim, mas não consegui, eu estava tão fraca que eu não conseguia  tirar aquelas coisas horríveis do meu corpo, então eu só consegui me ajoelhar no chão, eu não tinha voz na época, mas ainda assim eu gritei, gritei “socorro” “alguém me ajude”. 


Mas ninguém respondeu…e naquele dia, eu descobri como chorar pouco tempo depois, pois isso parecia tudo que eu conseguia fazer, eu chorei até um mordomo vir até mim falar pra eu parar, dizendo que eu não tava sendo “digna” o suficiente para o nome Galdino. 


E naquele instante, eu ouvi a voz otimista da minha cabeça pela primeira vez, estava fraca, ferida, e quase silenciada. Mas ainda estava lá, e mesmo com uma força tão fraca, ainda conseguiu dizer algo que me fez levantar do chão: “encontre o Antônio”. 


Eu ainda lembro daquele dia como se fosse ontem, percebendo mais sentimentos sempre que eu revisito essas memorias, tanto os bons quanto os ruins. 


Sempre mantendo claro em minha mente que a primeira coisa que senti quando pensei em encontrar o Antônio não foi medo, desespero ou culpa, antes de qualquer coisa, foi felicidade, eu tava feliz de reencontrar aquele Sapien, que naquele momento da minha vida, eu ainda pensava que era o doido da nossa relacao, feliz de milhares de formas diferentes apenas imaginando o que aquele Singular doido de pedra iria fazer comigo, e eu não me arrependo da minha escolha.


Eu devaneie por muito tempo, até a minha mente voltar ao presente bem devagar, com Antônio segurando minha mão enquanto via eu entrando numa jornada frenética pelas lembranças da minha cabeça, então eu vi ele pronto pra falar.


Antônio: bom, se eu tivesse te ajudado antes, e te forçado a me escutar, eu não teria te salvado, eu teria te aproximado do seu pai ainda mais, você lembra o que seu pai te disse antes de te expulsar do escritório dele?


Dandara: “você está longe de ser alguém de valor pra mim”


Antônio: e isso fez você quebrar, certo?


Dandara: sim


Antônio: bom, se eu tivesse tentado te ajudar antes, você provavelmente não teria me escutado, e pensado que era culpa minha você não ser alguém de valor pro seu pai, se eu me metesse antes da hora, você teria alguém pra culpar, mas quando me afastei, você só tinha a si mesma e a seu pai pra culpar (sussurra) e digamos que você se culpou tempo o bastante pra conseguir culpar seu pai pelo menos uma vez.


Aquela frase, aquelas palavras, me impactaram tão forte como um pedregulho jogado em minha cara, me fazendo cair no chão pela imensidão de coisas que estava ouvindo. 


Cada palavra parecia fortalecer meu corpo, melhorando ele aos poucos, junto dos nutrientes e da comida em geral que eu estava comendo. Como se as conversas que eu tinha com o António, com o Gabriel e com o Davi fossem tão importantes quanto minha água.


Eu me sentia mais forte a cada conversa, eu não estava apenas me curando, estava melhorando, e muito, nenhuma força antiga conseguia se comparar com o que eu tava sentindo agora, e eu amava cada segundo daquilo.


Antônio: quer que eu te ponha na mesa?


Dandara: sim, por favor.


A minha voz saiu mais doce do que eu queria, mas gostei disso, ele me carregou como uma Princesa até a mesa, e mesmo naquela mesa arredondada, onde meus braços e pernas estavam jogados pra fora, eu me sentia mais confortável do que nunca. 


Inspirei fundo e soltei, ficando um milhão de vezes mais calma, ainda não acreditando no quão relaxante era simplesmente respirar.


Dandara: se existe mesmo uma Criadora, ela te colocou na minha vida


Antônio: gosto de pensar que você me deixou entrar, e não que eu entrei.


Sai de cima da mesa depois de alguns segundos, e abracei bem forte ele, foi um abraço bem lento e demorado, que fez um sentimento quentinho e feliz passar pelo meu corpo, um tipo de felicidade que eu nunca tinha experimentado antes.


Dandara: você é um em um milhão, sabe disso?


Antônio: e você é uma entre cem mil


Dandara: hmhmhm, mas cem mil não é menor que um milhão?


Antonio: é uma referência Dará, você vai pegar com o tempo


Dandara: tá bom, melzinho.


Falei aquilo de forma abrupta, nem percebi o que eu disse, eu vi o Antônio ficar surpresos e depois ficar vermelho que nem um tomate, hehe, gostei disso, nunca vi aquele garoto com vergonha, agora eu tinha um ponto pra mim.


Eu…queria beijar ele, eu queria muito beijar ele, não sei por que tive esse pensamento do nada, mas então eu vi os lábios grossos dele, e toquei nos meus próprios lábios, vendo o quão eles eram finos e precisavam de nutrientes ainda, cobri minha boca imaginando o que sentiria no nosso beijo? Eu tava numa excelente conversa com meu interior, até que o mago que sempre me levava pra essa sala apareceu e falou.


Mago: desculpe, o horário de visita acabou


Dandara: ah, sério? Boooom, até mais então…Antônio


Antônio: Ah? Aaaah! Sim, claro claro, hehe, até…a próxima.


Pela cara que ele tava fazendo, ele provavelmente tava pensando a mesma coisa, ummmmmmm, mas, por que ele não agiu? 


Bom, não posso falar nada também, eu não agi…mas essa falta de ação dele, mesmo depois de tudo que agente passou, me deixou bem intrigada, e comecei minha nova pesquisa.


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