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Olhos de mel 🌻X
Nilismo
2545 palavras • 14339 caracteres • ⏱ 10 min 11 s

Nilismo

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Alguns dias depois, sai novamente do meu quarto, e dessa vez eu caminhei junto do mago pra um lugar bem mais blindado e protegido pelo lado de dentro, do que os corredores que eu estava acostumada a andar. 


Até que cheguei numa sala, onde um Psicomago gordo, grande e com uma barba bem grande estava me esperando, ele me lembrava um ursinho de pelúcia gigante, daqueles que você aperta e ele fala frases bobas tipo “eu te amo” ou “vou ser seu amigo para sempre”. Não sei por que, mas fiquei um pouco mais confortável perto daquele moço.


Psicomago: boa tarde senhorita Dandara, sou o psicomago Gabriel, e estou aqui para ajudá-la


Dandara: aaaaaaahn, oi.


Não consegui manter uma conversa muito grande com ele, ainda não estávamos naquele ponto de confiança ainda, então eu só entrei com cuidado na sala, sentei numa poltrona que tinha na sala.


E assim que eu me coloquei num lugar confortável ele começou a falar de novo.


Gabriel: que tal me falar um pouco sobre você?


Dandara: não tem muito o que falar, até alguns meses atrás eu sequer tinha vontade própria, eu só fazia o que as pessoas falavam pra eu fazer


Gabriel: e o que aconteceu depois dessas semanas?


Dandara: eu fui…resgatada, por um Príncipe encantado, ele me ama tanto que ele quer que eu melhore, e só vou conseguir fazer isso aqui


Gabriel: e por que ele é seu Príncipe encantado?


Dandara: além dele ter me salvado…eu sinto uma estranha conexão com ele, como se nós formos duas metades de uma moeda, ou dois pedaços de um quebra cabeça, eu me sinto inteira quando estou com ele, eu me sinto feliz…sabe, essa é a palavra chave, eu SINTO, quando estou com ele…você já deve ter visto na minha ficha, mas antes de conhecer ele, eu não sentia nada, por causa da maldição do vazio dentro de mim…melhor, por causa da Singularidade do Vazio dentro de mim


Gabriel: cada Singularidade é única, então pode me descrever exatamente como você se sentia, ou como você ainda se sente?


Quando ele me perguntou isso, eu respirei bem fundo, eu não sabia direito o que ia sair da minha boca, só sabia que ia ser coisa boa.


Dandara: o mundo é totalmente cinza pra mim, tudo que eu como, não importa o quão bem temperado é, sempre parece ter gosto de arroz sem sal e até a dor, melhorou recentemente, mas ainda não é muito sabor. 


Depois que eu falei aquilo, eu senti minha garganta inchada, de repente, eu fiquei com tanta coisa pra dizer, que eu não conseguia mais abrir a boca…Eu tinha pesquisado, isso se chamava “engasgar de tantos sentimentos”, e eu sentia que eu ia sentir isso muitas vezes ainda na minha vida.


Dandara: não era apenas sentimentos, era como se todos os meus sentidos estivessem passando por algo pior que se desligar, eles estavam se tornando indiferentes a tudo ao seu redor, até ficarem tão improváveis, que até nos momentos mais absurdos de minha vida, eu não conseguia mais fazer sentimentos, como a minha raiva ou felicidade saírem…


Mais um engasgamento emocional, eu já passei muitas vezes por isso, mas duas vezes seguidas era algo impressionante até mesmo pra mim.


Dandara: naquela época, e acho que até agora, eu não era boa nem má, eu era apenas o meu trabalho de forma absoluta, mas às vezes, sinto que dei sorte, porque fui salva antes do pior acontecer


Gabriel: interessante, e como o seu príncipe te salvou? Ele te pegou em um cavalo branco e vocês fugiram em uma grande batalha contra seus pais horríveis?


Dandara: muito pelo contrário, ele sempre foi um garoto diferente e estranho, mas no bom sentido sabe, ele fez algo que…acho que nunca vi alguém fazer comigo, ele me deu o benefício de escolher o que eu queria, ele me escutou, foi paciente e ainda me escutou, hehe, não faço nem ideia de como essas coisas simples viraram privilégios pra mim, mas ele foi a ponte pra eu me ligar a muitas pessoas, pessoas que realmente se importam comigo e me amam.


O psicomago então começou a anotar algo em um caderninho, e depois me perguntou.


Gabriel: nossa, você tem muito a falar dele, mas e você? O que você pensa sobre tudo isso, sobre seus pais? as coisas que você aguentou? E sobre sua nova vida?


Eu queria dizer algo pro psicomago, eu queria dizer que o Antônio era alguém incrível porque ele queria que eu melhorasse da cabeça antes de ficar com ele, mas não fiz isso, no lugar disso, eu falei em voz alta.


Dandara: me sinto injustiçada, muuuuuito injustiçada, eu passei muito tempo apenas querendo que eles me amassem, quando comecei a treinar, eles me davam carinhos na cabeça e até doces sempre que eu me esforçava, mas com o passar dos dias, todos os carinhos e doces que eles me deram se tornaram mais recompensas do que amor de verdade, e no dia que eu não consegui fazer uma das tarefas porque eu tava exausta, eles gritaram comigo (treme) eu ainda me lembro de cada palavra que eles usaram…(treme) junto de cada detalhe dos rostos deles (treme) as vezes, ainda tenho pesadelos com isso (treme).


Pensar naquelas lembranças me fez tremer muito, muito mesmo, e quase como uma resposta, minha magia começou a disparar mísseis de gelo em todas as direções, pra tentar matar esse inimigo invisível que meu corpo dizia estar la.


A magia bateu nas paredes, nos brinquedos, nos lápis de desenhar, e o Psicomago não pareceu sequer moderadamente afetado com tudo aquilo, ele apenas me olhou sem julgar, como se tudo aquilo fosse uma quarta feira normal.


E depois da minha magia se acalmar um pouco, e eu ter a confirmação que podia continuar, voltei a falar.


Dandara: e quando consegui minha família nova…não, muito antes disso, quando conheci o Antônio, eu senti uma alegria, um carinho, um amor que não senti…a séculos, eu tentei lutar contra isso, porque eu aprendi que ninguém era gentil e carinhoso com você sem nenhum motivo…sempre tem algo que a pessoa quer, por cada carinho que ele te dá.


Mais um engasgamento emocional, e com certeza não ia ser o último, nem de longe.


Dandara: por um ano inteiro eu tentei descobrir o que o meu Príncipe queria de mim, e quando eu descobri que ele não queria nada além de me ver feliz, eu achei que o Antônio era estranho, e que eu era a sensata de nós dois, porque, eu não conseguia aceitar que ele tava sendo tão gentil comigo porque gostava de mim…hehe, acontece que, eu era a estranha, por não entender isso.


Eu fiquei um bom tempo só respirando…eu sabia daquilo, eu já sabia de tudo isso…mas falar em voz alta, fez aquilo ficar muito real, muito mais real do que eu queria que fosse.


Gabriel: e você ainda é essa doida?


Dandara: hmhm, bom, tô tentando não ser, tô tentando entender os sentimentos dos outros, e tô tentando ser a Dandara, ao invés de…nada, era isso que eu era antes, nada


Gabriel: como assim “ser a Dandara?”


Dandara: quando conheci o Antônio, ele me falou algo muito interessante, “quem é você?” E é claro que eu respondi “eu sou Dandara Galdino” e ele só me respondeu com um “jura? E o que significa ser Dandara Galdino?” E…eu fiquei em Pânico, porque, eu sabia bem o que era ser “Dandara Galdino”.


Dandara: mas quanto mais eu pensava nisso, pensei que ser Dandara Galdino significava ser uma princesa, que eu não deveria falar alto, que eu deveria levantar cedo, que eu deveria ser cautelosa, que eu deveria sempre ficar quieta, que eu deveria manter meu corpo magro, que eu deveria obedecer meu futuro marido, que eu não precisava pensar e que meus pais poderiam resolver tudo.


Dandara: e quanto mais coisas sobre mim mesma eu descobria, mais eu notei que, quase nada em mim era “meu”, eram…coisas dos outros, digamos assim, então não consegui respondê-lo


Gabriel: interessante, e você consegue respondê-lo agora?


Dandara: respondi ele a pouco tempo, falei que gosto de doces azedos, de dançar, e de cãezinhos…mas algo me diz que isso não é o suficiente pra…sabe, dizer que sou “eu”


Gabriel: e o que você está pensando que falta?


Dandara: uma moral nova, algo que eu possa dizer sobre mim mesma que é, “isso é parte de mim, muitas pessoas podem ter, mas é meu, e o meu é diferente” e ainda não tenho isso, sabe?


Gabriel: e a dança? Você não tem nenhuma dança que esteja interessada?


Dandara: eu descobri que eu gosto de dançar a algumas semanas, então, não, não tenho uma favorita, mas tenho estudado sobre pensamentos Psicológicos, e…acho que por enquanto, sou uma niilista


Gabriel: jura, e pode me descrever essa linha de pensamento?


Eu fiquei com certo medo de falar, pois eu não sabia o que falar aquilo iria me fazer parecer, ele iria pensar que eu sou estranha? Ele iria gritar comigo? Ele iria me julgar, dizer que eu não deveria pensar nisso? 


Todos esses pensamentos começaram a alimentar meu medo e mais uma vez me engasgar de emoções, mas dessa vez, eu tava metaforicamente sufocando.


Quando achei que o pior poderia acontecer, uma melodia de um pianinho simples foi ouvida por mim, parecia uma melodia digna de por uma criança birrenta pra dormir, era rítmica, simples, e se eu não estivesse tão estressada, iria me fazer dormir, mas com o meu estado mental atual aquela música só me relaxou.


Gabriel: respire fundo.


Eu obedeci, e senti algo se acumulando em meus pulmões, algo mais do que ar.


Gabriel: e solte.


E soltei, parecendo que eu soltei veneno pra fora do meu corpo.


Gabriel: respire, e solte.


Depois de repetir aquilo por algum tempo, me acalmei, então Gabriel falou.


Gabriel: não precisa se forçar a falar algo se não quiser, mas quero que saiba, que você e seus pensamentos estão seguros aqui, nada vai sair dessa sala a menos que você permita


Dandara: você não vai, me criticar pelo que eu vou falar né?


Gabriel: não, eu sou apenas um orientador, não irei te julgar por nada.


Antes de falar qualquer coisa, me dei o privilégio de respirar fundo,  beeeeem fundo, e novamente, senti toda a ansiedade sendo expulsa de meus pulmões antes de falar.


Dandara: o niilismo é o pensamento de que…nada importa, não importa o que você tente ou o que você faça, sua vida não irá mudar, ela continuará miserável e horrível, e tudo que você pensa ser importante, precioso e único pra você, não é especial, e pode ser substituído (estalar dedos) assim 


Dandara: e que, aquele acima de tudo e todos, aquele que te criou, aquele que se importou e que deseja o melhor pra você, mesmo que você não entenda isso, Deus, o todo poderoso, ele morreu, morto por ignorantes que não conseguiam entendê-lo, e toda a tentativa de sobrevivência é inútil, pois afinal, “nada importa”.


Depois de falar aquilo, eu me afundei na cadeira, pois pelo jeito, eu havia levantado pra falar tudo aquilo, e depois da bomba que joguei no Psicomago, ele escreveu coisas no caderninho dele e depois olhou pra mim.


Então, o Gabriel esperou que eu absorvesse todas as coisas que eu falei em voz alta, e ironicamente, levou muito tempo pra eu falar, porque, eu acreditava naquelas coisas, mas falar em voz alta, pareceu abrir ainda mais o abismo dentro do meu coração, e eu já tava começando a questionar se eu devia fechá-lo em primeiro lugar, depois do que eu falei.


Gabriel: quer falar mais alguma coisa?


Dandara: hehe, sim, mas vou deixar você falar primeiro


Gabriel: eu estudei sobre Niilismo em minha formação, mas em minha visão, senhorita Dandara, se “tudo que você faz não vai mudar nada em sua vida” então, por que você não tenta o que você realmente ama e gosta, ao invés do que as pessoas dizem que você deve fazer? Se não vai mudar nada então não se preocupe com o que os outros pensam.


Eu arregalei os olhos ao ouvir essas palavras, era bizarro, era como se ele estivesse escavando as partes mais profundas do vazio da minha alma, coletando todos os “pedaços” de mim que ele achava e me ajudando a montar tudo em uma “coisa” que nem mesmo eu sabia o que era ainda.


E o mais doido, é que eu permiti, eu deixei ele chegar de forma tão profunda em mim, e apesar do desconforto, sinto que aquilo era melhor do que meu estado inicial. Seja lá o que eu quisesse falar antes, foi abafado pelo que o Gabriel falou.


Gabriel: Deus não existe? Então nesse caso, você poderia deixar de viver por outra pessoa, por uma entidade, e começar a viver por você, parar de agradar e amar as pessoas por um estranho senso de que você será recompensada depois por algo divino, e pensar que o simples fato de ajudar o próximo é a recompensa em si, e que “ser legal, é legal”. Claro, na medida em que você não acabe sacrificando mais de você do que deveria. O que acha?


Sim, tudo fazia sentido, tudo, até a última palavra, e eu odiava o quanto aquilo arrancava todas as partes de mim que ainda sobreviveram ate aquele ponto da minha vida. 


Estava me sentindo como um jardim tendo suas ervas daninhas arrancadas, sentindo um incômodo extremo sempre que alguma erva daninha forte era tirada, sabia que elas iriam crescer de novo se não tratadas direito, mas eu amei o alívio que vinha com minhas atuais ervas daninhas sendo arrancadas.


Gabriel: eeeeee, se tudo que você tem ou vai ter, é apenas algo comum que vai ser substituído, então, por que você não começa a fazer seus objetos comuns pra todo mundo, especiais apenas pra você?


E naquele momento, uma epifania percorreu por todo meu cérebro “fazer algo especial apenas pra mim?” Era algo tão absurdo, tão errado e tão…simples, que parecia apenas…certo.


Dandara: hmhmhm, teeeeeem, algum lugar que dê pra eu dançar aqui dentro?


Gabriel: pode ser arranjado, se pedir da maneira certa


Dandara: hehe, tem alguma coisa aqui dentro que vocês não tenham?


Gabriel: GPs, isso é um limite que não passamos


Dandara: galinhas premiadas? Por que não teriam isso?


Então ele olhou pra mim, e apenas riu, o que era tão engraçado?


Gabriel: o Rei falou que esse era um limite que nós não podíamos passar, simples assim


Dandara: hum, o Rei tem alguns padrões estranhos ein? Eu posso falar mais?


Gabriel: bom, eu até deixaria, mas parece que nosso tempo acabou


Dandara: mas já?


Gabriel: você não faz ideia de quantas vezes eu escuto isso, e sim, já acabou.


Hummmm, um pouco desconcertada por já estar sendo levada pra fora do atendimento, eu respirei fundo e sai, agora, um pouco mais empolgada pra quando voltasse pra lá, mesmo que essa empolgação não durasse mais que uns 15 minutos, já era mais que o suficiente pra mim, principalmente comparado com o tempo de duração de pouco segundos que eu tinha antes com meus sentimentos.


E sentir isso na pele, só me deixava empolgada pro tipo de coisas que eu iria melhorar no futuro, mas por hoje, acho que ja tava bom.


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