Pensei que as coisas ficariam mais calmas depois do dia incrível que eu tive, mas foi muito pelo contrário, no dia seguinte, fui chamada de novo pra sala de visitas, mas dessa vez, eu não fazia ideia de quem era.
Dandara: ahn, me falaram quem queria falar comigo?
Mago: sobre isso, ele queria se manter anônimo, Lady.
Anônimo? Nossa, tinham pessoas querendo tanto assim falar comigo? Espero não decepcionar ele, ou ela.
E novamente cheguei na sala de visitas, eu andei pra mesinha que sempre usava quando ia falar com meu príncipe.
E quando encontro minha mesa, vi que tinha alguém sentado nela, me esperando.
Era um homem loiro, baixinho, com a cabeça raspada e com três linhas em uma das laterais dela.
Junto de robes brancos curtos, que pareciam robes de monge, só que pra artes marciais.
Ah, eu reconheci ele de bem longe, era um dos amigos do meu Príncipe.
Se eu não tivesse enganada, o nome dele, em espessificos, era…Davi.
E quando qu me sentei lado com uma intenção clara, ele não veio ali como um amigo, mas sim um conselheiro.
Davi: olá Dandara,
Dandara: oi Davi
Davi: e aí, já tá indo pra sala normal?
Dandara: não, ainda nem sai do meu quarto direito
Davi: bom, é normal, no seu…estado atual, acho que você não faria muita coisa na sala
Dandara: sem querer ser rude, mas o que deseja Sir Davi?
Davi: bom…eu queria te conhecer melhor, primeiro de tudo, você é a namorada do meu melhor amigo, e eu tô bem curioso pra conhecer alguém com uma Maldição do Vazio tão intensa como a sua
Dandara: o que garante que o Antônio não vai se cansar de mim se eu ficar muito tempo aqui?
Davi: o simples fato de que você pensa isso, mostra que você tá num péssimo estado, você realmente não percebe, o meu amigo é doido de amor por você
Dandara: se ele é doido por mim então ele esconde muito bem isso
Davi: HAHAHAHAHA, garota, o Cachinhos ficou mais da metade da vida dele “fingindo” que não era um Singular, ele “fingiu” tão bem que ele mesmo acreditou nessa mentira, se tem algo que ele é bom é esconder coisas dos outros…
E no meio da fala, o Davi fez um rosto estranho, como se ele tivesse tendo um flashback bem desagradável de alguma coisa que não sabia dizer o que era.
Davi: …além de que…ele tem um histórico de assustar as pessoas quando se empolga demais, então é nítido porque ele tenta ir tão devagar com você
Dandara: ok, pode parar com isso?
Davi: parar com o que?
Dandara: parar de me contar coisas dele pelas minhas costas, não gosto disso
Davi: ah, mas o Antônio não liga
Dandara: mas eu ligo. Vamos falar de outra coisa? Como a sua maldição.
Hum, interessante, não sabia de onde veio isso, parecia quase que meu coração mandou minha língua dizer algo, mas esqueceu de dizer ao meu cérebro sobre isso.
Porque, “eu não gosto de fofocas” era algo novo sobre mim, eu não sabia disso.
Mas antes de eu conseguir pensar de forma profunda nisso, o Davi continuou falando, e eu tive que deixar esse pensamento pra depois.
Davi: por que não falamos da sua primeira manifestaçao? Quando foi que você acha que você ficou, sabe, “diferente” da sua “você” criança?
Aquela era até…uma pergunta bem interessante, mas quando começei a pensar sobre isso, eu me lembrei das vezes em que eu sorri prós meus pais, e eles gritavam comigo, das vezes em que eu tinha um brinquedo, e meus irmãos o quebravam, ou quando eu ficava doente, e ninguém parecia ligar se a doença me matasse ou não.
E quando me lembrei daquilo, o medo voltou com tudo no meu coraçao aumentando e se espalhando por cada esxrancao do meu ser, quase fazendo meu corpo e minha magia entrar num estado de sobrevivencia e me enfiando turbilhão absurdo de escuridão.
Mas antes da escuridão me engolir, de novo, o som se um pandeiro foi ouvido por mim, um pandeiro que me levou de volta à terra.
O ritmo da música acalmou meu coraçao, de formas que eu não conseguia compreender a ponto onde eu pude apenas pensar coisas como: “isso não fazia sentido”, “como um pandeiro conseguia ter um ritmo tão bom?” e “de onde ele tirou aquela pandeiro?”
Porque era isso mesmo, de alguma forma, o Davi estava segurando um pandeiro na mão, que não só me acalmou, mas acalmou todos os Singulares em volta de nós.
E enquanto eu via ele guardando o pandeiro dentro dos robes, eu perguntei.
Dandara: você tava com isso quando entrou?
Davi: sim, eu sou o mensageiro sonoro das batalhas, e é um posto mais importante do que parece
Dandara: humpf, não sabia que um pandeiro podia ter esse som
Davi: desculpe sobre aquilo, fui rápido demais né?
Dandara: é, você importa se, falar da sua primeira manifestação?
Davi: só se você não se importar se eu especular um pouco sobre a sua Singularidade
Dandara: por favor, especule, eu…tô com medo demais pra pensar nela
Davi: por que?
Dandara: porque parece que o medo é tudo que eu tô sentindo direito, todo o resto parece apenas…vazio ou fraco.
O Davi olhou pra mim, não com pena ou com nojo, mas contemplação, como se ele já houvesse tido sua vez aqui, bem aonde eu estava, falando as mesmas palavras pra alguém, palavras que me faziam devaneiar quem foi o “Davi” dele quando foi a vez dele, mas mantive tudo pra mim.
Davi: bom, não se preocupe, isso de só sentir medo não vai durar, vai por mim(tosse) te perguntei isso porque, apesar de cada Singularidade ser diferente e cada singular ser único, existe algo que ajuda a achar uma solução, uma solução diferente pra cada um, mas ainda uma solução.
Dandara: UMA SOLUÇÃO!? QUAL…(tosse) qual é a solução…
Davi: tentar entender a si mesmo, apesar de ninguém ter a mesma Singularidade, nem os que têm Singularidades idênticas, ainda é possível encontrar a forma de lidar com ela, e…entender como essa Singularidade é uma parte de você.
O vazio? como uma parte de mim? Só se for a parte ruim, apenas pensando em tudo que já passei por essa “coisa” me faziam revirar o estômago, eu queria tanto poder apenas pegar uma tesoura e cortar essa parte de mim fora.
Davi: infelismente, não tem uma solução simples como essa.
Peraí, que?
Dandara: você acabou de…
Davi: não, só deduzi pela sua expressão, eu sou meio que um especialista nisso
Dandara: nesse caso você já sabe que eu não tenho NADA de bom pra dizer sobre minha maldição, certo?
Davi: pensa bem Dandara, você não consegue ver nada de bom que você tirou dessa experiência com sua Singularidade? Nada? Nadinha?
Dandara: bom…eu conheci o Antônio, você…e tudo…isso.
Eu falei, apontando pro ar, mas o Davi entendeu o que eu disse, eu estava apontando pra sala de reabilitação, pra todo o mundo dos gigantes que eu visitei, e pra todas as palestras que ouvi, livros que li, e pessoas que conversei que mudaram minha cabeça.
Tecnicamente falando, eu tava apontando pra todo esse mundo novo que eu tava agora, e o Davi entendeu isso.
Dandara: essa maldição me mandou direto pra tudo isso, sem ela, talvez eu nunca tivesse descoberto que tudo isso sequer existia…mas, não sei ainda se valeu a pena toda dor que passei se isso significa apenas isso
Davi: ah, Dandara, não foi sua dor que ativou a maldição do vazio
Dandara: não foi?
Davi: não, algumas pessoas estão mais inclinadas a algumas Singularidade, eu por exemplo, fui inclinado a Singularidade do gêmeo animal. Mas olha (aponta) aquele garoto é o Gabriel Dolores, ele tá aqui por ter uma maldição que ele solta fumaça pelos ouvidos toda vez que se irritar e por causa disso ele é totalmente surdo
Dandara: nossa
Davi: ah, e(aponta de novo) aquela é a Patrícia, ela tá aqui por ter uma Singularidade que fas tudo que ela toca congelar, ela melhorou muito depois dos remédios, mas continua aqui porque tem medo de machucar as pessoas
Dandara: essa não
Davi: e aquele é o Diego, ele tá aqui porque consegue ver os sentimentos das pessoas como cores, mas quando você tá numa multidão cheio de pessoas diferentes, não é algo muito legal de se ter
Dandara: nossa tem tanta gente aqui, mas por que você tá falando tudo isso?
Davi: pra te mostrar que, a gente pode ter nossas diferenças mas uma coisa continua igual, querendo ou não, nossa Singularidade pode nos ajudar em nossas vidas de alguma forma, agente só precisava descobrir como, pensa Dan, não existe nada, nenhum único momento em que a sua maldição te ajudou?
Fiquei em silêncio por alguns segundos, tentei pensar em qualquer coisa boa que minha maldição poderia ter me ajudado, mas só consegui pensar nas cores e sabores de comida que perdi, meus sonhos cada vez mais rasos, até eu apenas ver a mim mesma apenas caminhando num lugar vazio, branco e que não tinha nenhuma profundidade, largura ou altura, apenas havia o infinito vazio que eu não conseguia ver o final.
Aqueles pensamentos fizeram uma grande quantidade de tristeza se apossar de mim, e de forma bem rude, eu olhei para o Davi e falei.
Dandara: você dá crédito demais a minha maldição senhor Davi, mas sinto que você está errado.
O Davi não parecia surpreso ou sequer ofendido com o que eu falei, ele apenas me encarou em silêncio por alguns segundos, como se estivesse garantindo que eu não ia mudar de ideia, e depois falou.
Davi: parece que eu tentei te fazer pensar isso antes da hora, eu lamento por isso…eu adoraria ficar de papo mas, parece que você já tem bastante no que pensar
Dandara: como assim?
Davi: Lady Dandara, você já ouviu falar da…”sombra”
Dandara: já pesquisei sobre ela
Davi: bom, então acho que você não precisa da minha ajuda. Lady Dandara, adeus, espero revê-la logo.
Davi falou aquilo enquanto fazia uma referência de cavaleiro perfeita, e por instinto, peguei a parte de cima da minha blusinha simples e a puxei em uma reverência simples, eu já tinha feito aquilo tantas vezes, que responder a pose de Davi daquela maneira estava encravado em meus ossos.
Mas antes dele ir embora, de forma instintiva também, eu perguntei.
Dandara: Davi, espera
Davi: sim, Lady Dandara?
Dandara: por que você chama as Maldiçoes de Singularidades?
Davi: porque Singularidade é o nome certo de se referir ao que nós tempos, Lady Dandara. A palavra “maldição” é algo que tolos e ignorantes criaram pra fazer com que nos nos sentissem os mais pelo que nós temos
Dandara: mas não é isso que devemos sentir?
Davi: não.
Esse simples “não” do Davi, me pegou de surpresa mais que qualquer outra coisa que ele me falou nessa visita dele.
Eu queria perguntar a ele mais coisas, mas antes que eu tivesse a chance, o Mago responsável por me trazer me puxou de novo, e me vendo sem escolha, só decidi guia-lo, e pensar sobre isso no meio do caminho.
De noite, eu levei um bom tempo pra dormir, não parando de pensar no que o Davi disse sobre como minha maldição poderia ter me ajudado de alguma forma.
E como a palavra “maldição” é algo que só leigos usam, tentando me convencer a falar, o que ele falou mesmo? Singularidade?
Ainda era estranho falar assim pra mim, mas sinto que, com o tempo, eu devia convencer minha mente a falar do jeito certo.
Também pensei bastante se ouve qualquer momento que a minha Mal…quer dizer, Singularidade tivesse realmente me ajudado…e por mais que me doesse admitir, houve alguns momentos em que eu agradeci por só sentir o Vazio dentro de mim.
As vezes em que eu fiquei com dor de barriga por não comer tudo que eu precisava, as vezes em que eu treinei tanto minha magia que meus dedos começaram a sangrar, ou as vezes em que meus pais gritavam comigo porque eu não fui boa o bastante.
Era estranho que, em 90% de todas as minhas lembranças que eu tinha com meus pais eles estavam sempre gritando comigo, eles nunca me bateram, nunca precisaram, eu sempre fiz exatamente o que eles me falavam, pensando que isso ia fazer eles me amarem, mas isso só fez com que meus sentimentos piorassem ainda mais.
Quando eu era mais nova, e eles gritavam comigo por não estar me esforçando o bastante, doía demais.
Mas quanto mais eu cresci, mais fácil ficou lidar com os gritos, e com as cobranças.
E olha só, todas as cores incríveis que eu pensei ter perdido pela Singularidade do Vazio pareciam ainda estar aquiz apenas esperando uma oportunidade pra se manifestarem perto de mim.
Por enquanto, era apenas o azul da tinta do meu quarto, o vermelho do meu próprio cabelo, e o branco das folhas de cadernos, que por algum motivo, comecei a ter ataques sempre que eu tocava em uma folha…
Droga, eu não queria admitir em voz alta, mas tinha que admitir que o vazio conseguiu me ajudar em muitas situaçoes.
Mesmo que eu tivesse que admitir que ele tava me atrapalhando agora, e que eu precisava o regular um pouco se quisesse fazer a minha…Singularidade ser melhor aproveitada nessa nova página da minha vida.
Colocando minhas mãos no peito, só conseguia pensar que, no final, minhas emoções foram guardadas a sete chaves, apenas pra serem gastas com aqueles que realmente mereciam…
Eu não queria admitir que uma maldição tão perigosa, e que podia ter me matado em condiçoes diferentes, foi capaz de me ajudar, mas o simples pensamento que minhas emoções não foram perdidas, mas sim guardadas dentro de mim, me fez sorrir, com um sentimento tão puro que eu nem queria tentar adivinhar que sentimento era.
Dandara: (sussurro)obrigada.
Falei baixinho pra ninguém, nem a Leide, minha colega de quarto, ouviu o que eu falei, e era melhor assim mesmo.
Soltando um suspiro bem menos sutil, fiquei só chateada que demorava tanto pras minhas emoções voltarem ao normal, mas talvez o simples fato que eu tava chateada com isso já era um grande progresso.

